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Quem canta seus males, espanta

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felicidade

 

Por Marcos Aurélio Ruy, colaborador do O outro lado da notícia

Há o dito popular de que “quem canta seus males espanta”. Por isso no título deste artigo, o segundo de uma breve análise do tema felicidade na música popular brasileira, resolvi colocar uma vírgula na frase para ver como na nossa língua algumas vezes apenas uma vírgula pode mudar completamente o sentido de uma frase. Ainda no fim do ano passado prometi este novo artigo com o referido tema. Essa promessa foi feita na resenha do livro “A História da (in)Felicidade”, de Ricardo Schoch. A demora em cumprir essa tarefa é por estar de férias e dessa maneira quase totalmente desplugado.

Bem. Chega de lero-lero e vamos ao que realmente interessa. Como no primeiro artigo sobre a questão com o título “Quem tem medo de ser feliz?” – título baseado em jingle político de Chico Buarque para a primeira campanha de Lula à Presidência da República. Que naquele momento já colocava a esperança de um futuro melhor na busca da felicidade para todos contra o medo apregoado por uma direita cada vez mais ressentida pelas mudanças vêm ocorrendo no país nos últimos anos. Óbvio que ainda tem que mudar muito e mais aceleradamente, mas já houve mudanças substanciais.

Oswaldo Montenegro coloca o dedo na ferida quando se contrapõe às promessas religiosas de felicidade futura ou após a morte. Ele contrapõe a tese de que “quem tem medo Deus adora”, com afirma em seus versos e reafirma em seu refrão: “eu quero ser feliz agora”. Já na interpretação de Pitty a canção de Rosana Ferrão e Paul Ralphes deseja “ver o sol brilhar sem parar” e pergunta “será que é pedir demais?” Propostas complementadas pelo gênio de Gonzaguinha na música “Redescobrir” onde assombra-nos ao cantar que “Não tenha medo meu menino povo, memória!/Tudo principia a própria pessoa, beleza!/Vai como a criança que não teme o tempo, mistério/Amor se fazer é tão prazer que é como se fosse dor, Magia!”, numa evocação da luta aflita contra a opressão fascista de que muitos nossos artistas se fizeram vozes. Com a crença no futuro que virá com em “O Que o Que É”, dele próprio em que diz “que a vida devia ser melhor e será” na certeza do futuro que construímos no presente coma juventude que não foge da luta e Gonzaguinha nunca fugiu.

Outros que estiveram na linha de frente da resistência à obscuridade que só trouxe infelicidade ao país Beto Guedes e Ronaldo Bastos com a canção “O Sal da Terra” evocaram a necessidade de união e de conscientização política para chegarmos ao objetivo final da liberdade e com isso começarmos a construir o mundo novo para a felicidade ser plena. A letra da música diz “vamos precisar de doto mundo pra banir do mundo a opressão, para construir a vida nova, vamos precisar de muito amor, a felicidade mora ao lado e quem não é tolo pode ver” e complementa sua visão de felicidade ao afirmar que “para juntar melhor nossas forças é só repartir melhor o pão, recriar o paraíso agora para merecer que vem depois”. Poesia atualíssima quando assistimos famílias pobres desalojadas de suas casas à força pela polícia que lhes deveria proteger e ainda assistem suas casas destruídas para favorecer a especulação imobiliária. Assim como desabam prédios por descaso dos seus responsáveis no centro do Rio de Zé Ramalho ao afirmar que “toda pessoa merece felicidade”, em “Um Pequeno Xote”. Já Chico César canta o “amor que é ausência e razão de sofrer. Transforme-se em bem-querer então esse bem-querer cresça”, na música “Samba da Pessoa que Quer Ser Feliz”, nesse querer amar e ser amado e que todos tenham condições de viver bem. Alguém já desejou algo parecido?

“Juventude se abraça, se une pra esquecer um feliz aniversário pra mim ou pra você”, estes versos de Edgar Scandurra falam de uma cidade símbolo de união de interesses de amigos em busca da cidade ideal cantada na música de Chico Buarque “Minha Canção”, um libelo à generosidade e solidariedade em busca de um mundo feliz e igual, na qual afirma que “Faz-se a certeza minha canção, réstia de luz onde dorme o meu irmão”. Para estes autores a felicidade só pode ser conquistada com a felicidade compartilhada. Assim como Zé Geraldo na bela “Viração” canta “quanta gente abriu espaço preparando viração”, uma viração para uma nova vida, para um mundo feliz. Herbert Vianna e Bi Ribeiro, dos Paralamas do Sucesso, em “Alagados” também afirmam “e a cidade, que tem braços abertos num cartão postal com os punhos fechados da vida real lhes nega oportunidades mostra a face dura do mal”, já denunciando uma realidade desumana em que separa pessoas por classes sociais e que a felicidade plena consiste em termos o contrário disso. E Gilberto Gil complementa em “A Novidade” cantando que “a novidade era a guerra entre o feliz poeta e o esfomeado estraçalhando uma sereia bonita despedaçando o sonho”, certamente a sereia da felicidade acessível a todos.

Ary Barroso e Oduvaldo Vianna na “Canção da Felicidade” afirmam que a “senhora dona felicidade talvez resida na mesma rua no mesmo bairro desta cidade”, vendo a cidade como espaço público e livre onde podemos nos encontrar com os amigos e a felicidade. Já Moraes Moreira e Fausto Nilo cantam que “felicidade é uma cidade pequenina, é uma casinha, é uma colina, qualquer lugar que se ilumina quando a gente quer amar”. Desnecessário comentar. Enquanto Os Mutantes encantam a todos com a “Balada do Louco” ao cantar “se eu sou louco por eu ser feliz. Mas louco é quem me diz e não é feliz. Eu sou feliz”. Marisa Monte canta a canção de Argemiro Patrocínio, “Lágrimas e Tormentos” onde diz que “e hoje a minha vida é um carrossel de alegrias e como se não bastasse, estou amando de verdade, me perdoa se eu me excedo em minha euforia, mas é que agora sei o que é felicidade”. Uma visão num momento de vida democrática como jamais houve no país.

Zeca Baleiro vê em “Como Diria Odair” que “a felicidade é uma coisa tão difícil, tão difícil de conseguir”, mas pela qual temos que lutar ele deixa claro nas entrelinhas, ao mesmo tempo Lenine canta que “não é só felicidade que tem fim na realidade, a tristeza também tem” numa contraposição à bela “A Felicidade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes que dizia “tristeza não tem fim, felicidade sim”, num tempo duro na vida do país em vigor a ditadura que massacrou as cabeças pensantes do país ou ao menos tentou massacrar. A versão de Lenine mostra que não há mal que dure para sempre. E para mostrar que o homem é um ser social Paulo César Pinheiro e Baden Powell relatam um drama ao afirmar que “infelizmente eu nada fiz, não fui feliz nem infeliz. Eu fui somente um aprendiz daquilo que eu não quis”.

Na música “O Habitat da Felicidade” Lula Queiroga e Lucky Luciano cantam que “felicidade não precisa de culpa, felicidade é o alívio da dor, felicidade em higiene mental, exercício da alma”. Já Sueli Costa canta que “feliz esta alma que vive comigo, que vai onde eu sigo o meu coração”, em sua canção “Alma”. Para ambas as canções a felicidade consiste no conjunto harmonioso do corpo e alma estarem sempre bem alimentados, ou seja, com diriam os Titãs “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, na música “Comida”. Marcelo D2 explana em “A Casa” que “pra gente ser feliz eu só preciso de um teto”, parece pouco para um país com milhares de déficits habitacionais, mas não é porque quem não tem é que sabe a dureza que é viver sem um teto. Nesse mesmo contexto Os Racionais cantam que “o valor da minha vida é o valor do meu trabalho”, na canção “Até Me Emocionei” e em “Vida Loka 2” dizem que “o caminho da felicidade ainda existe, é uma trilha estreita em meio a selva triste”.

Para finalizar este artigo Milton Nascimento e Ronaldo Bastos cantam em “Cais”: “para quem quer se soltar invento o cais, invento mais que a solidão me dá, invento lua nova e clarear, invento o amor e sei a dor de me lançar” concluem “eu queria ser feliz”. Em “Jura secreta”, Sueli Costa e Abel Silva dizem que “só uma palavra me devora, aquela que meu coração não diz só o que me cega, o que me faz infeliz é o brilho do olhar que não sofri”, num entendimento da vida real e do sonho caminhando lado a lado sempre em busca da felicidade já. Por isso repito Oswaldo Montenegro: “quero ser feliz agora”. E finalizo com a música “Felicidade Urgente”, de Cláudio Zoli e Ronaldo Lobato Santos, na qual cantam: “pouca gente tem o direito de ser feliz. O tempo passa de repente, felicidade urgente para todos, para todos nós”.

Alguns vídeos:

Felicidade Urgente (Cláudio Zoli e Ronaldo Lobato Santos)

Nunca mais eu vou voltar
Essa estrada é meu destino
Vou seguir a minha vida
Vou achar o meu lugar
Louco pra viver em paz
Eu procuro paraísos
Em lugares esquecidos, em viagens ao luar
Eu vi a cor, sonhos
E sei de cor o que é
Melhor pra mim
A vida me fez desse jeito
O mundo que é tão imperfeito
Pouca gente tem direito a ser feliz
O tempo passa de repente
Felicidade urgente para todos
Para todos nós
Quero te fazer feliz
Quero ser feliz também
Com você tá tudo bem
Não vou mais olhar pra trás
No caminho do infinito
Encontrei minha razão
E me perdi no seu olhar
Eu sempre quis muito mais
Mais do que era preciso
Quis milagres absurdos
E delírios de prazer

Jura Secreta (Sueli Costa e Abel Silva)

http://www.youtube.com/watch?v=tAhY6g5cDBU

Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei

Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que eu quero me suprime
De que por não saber ainda não quis

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri

Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei

Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que eu quero me suprime
De que por não saber ainda não quis

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri

Eu Quero Ser Feliz Agora (Oswaldo Montenegro)

http://www.youtube.com/watch?v=38PTGnf85SI

Se alguém disser pra você não cantar
Deixar seu sonho ali pro um outra hora
Que a segurança exige medo
Que quem tem medo Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora
Que você volte pro rebanho.
Não acredite, grite, sem demora...

Eu quero ser feliz Agora

Se alguém vier com papo perigoso de dizer que é preciso paciência pra viver.
Que andando ali quieto
Comportado, limitado
Só coitado, você não vai se perder
Que manso imitando uma boiada, você vai boca fechada pro curral sem merecer
Que Deus só manda ajuda a quem se ferre, e quando o guarda-chuva emperra certamente vai chover.
Se joga na primeira ousadia, que tá pra nascer o dia do futuro que te adora.
E bota o microfone na lapela, olha pra vida e diz pra ela...

Eu quero ser feliz agora

Se alguém disser pra você não cantar
Deixar seu sonho ali pro um outra hora
Que a segurança exige medo
E que quem tem medo deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora, que volte pro rebanho.

Não acredite, grite, sem demora...

Eu quero ser feliz Agora

 

 

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