
Dilma Rousseff vistoria a Ferrovia Transnordestina, em Parnamirim (PE): obras de infraestrutura são prioridade no governo
Fernando Exman, no Valor
Decidida a implementar até meados do ano um sistema de monitoramento em tempo real dos principais projetos do governo, a presidente Dilma Rousseff decidiu criar um grupo de trabalho para desenvolver um programa de computador que chegou a classificar de "revolucionário".
A Casa Civil já realizou alguns testes do sistema que deverá se transformar na principal ferramenta da ministra Gleisi Hoffmann e da própria presidente Dilma Rousseff para controlar em tempo real o andamento das ações prioritárias do Executivo. O aplicativo não será apenas um banco de dados permanentemente atualizado. Deverá conter imagens transmitidas ao vivo por câmeras de vídeo instaladas nos canteiros de obra dos empreendimentos mais estratégicos.
O tema é um assunto constante nos diálogos da presidente com seus interlocutores e foi anunciado na reunião ministerial realizada no início do ano. Na semana passada, num novo sinal de que pretende imprimir a melhora da gestão pública como uma das principais marcas de sua administração, Dilma também detalhou a ideia aos líderes e dirigentes dos partidos que integram a base aliada.
O Palácio do Planalto ainda estuda se o grupo de trabalho continuará atuando informalmente ou terá sua criação oficializada por meio de um decreto ou uma portaria. A equipe, coordenada pelo secretário-executivo do Ministério da Previdência, Carlos Eduardo Gabas, é integrada também por representantes da Casa Civil, da Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e da Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social (Dataprev). O Serpro é vinculado ao Ministério da Fazenda. A Dataprev, ao Ministério da Previdência. Outro integrante do grupo de trabalho é Cláudio Gastal, secretário-executivo da Câmara de Gestão criada por Dilma e presidida pelo empresário Jorge Gerdau.
A presidente da República escolheu Gabas a dedo depois que o secretário-executivo do Ministério da Previdência lhe apresentou o sistema de monitoramento on-line desenvolvido pela pasta. Exposição semelhante já havia sido feita ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas Dilma havia deixado o governo anterior e estava em campanha eleitoral pela Presidência da República. À época, Gabas ocupava o comando do Ministério da Previdência em substituição a José Pimentel, que deixou o cargo para concorrer a uma cadeira no Senado. Mesmo assim, já havia chegado aos ouvidos da presidente que Lula considerara o aplicativo uma inovação elogiável.
Servidor de carreira do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Gabas tem pós-graduação em gestão de sistemas de seguridade social e cursou uma especialização em gestão de qualidade com foco no atendimento do serviço público. Em 2003, ele e alguns colaboradores decidiram aprimorar o sistema de gestão do atendimento do INSS com o uso de softwares livres e servidores da própria área - ou seja, sem a necessidade de investimentos que pesassem sobre o orçamento da pasta. Num desdobramento dessa iniciativa, o conceito de sala de situação que "encantou" Dilma começou a ser desenhado cerca de três anos depois.
Trata-se de um programa da intranet do Ministério da Previdência alimentado automaticamente em função do atendimento dos beneficiários ou do andamento dos processos em todas as 1.257 agências do INSS do país. O sistema demonstra a evolução dos indicadores relativos a todas as metas acordadas entre o comando do INSS e seus subordinados.
As cem gerências, cinco superintendências regionais, a cúpula do INSS e do Ministério da Previdência têm como saber exatamente se as metas estabelecidas para cada um dos procedimentos não estão sendo cumpridas e o motivo. Como resultado, por exemplo, é possível saber exatamente em qual agência do INSS há a fila que está influenciando negativamente a média nacional de tempo de espera por atendimento ou quais os números dos processos que atrapalham o desempenho de determinada superintendência regional.
O sistema tem ainda outras utilidades, como permitir o acompanhamento da agenda e do tempo de cada consulta feita pelos médicos peritos ou o andamento das obras, compras de mobiliário e equipamentos de informática para a expansão de cada agência do INSS.
Autoridades do governo acreditam que a experiência do Ministério da Previdência demonstrou ainda que esse modelo de gestão tem um efeito pedagógico: a simples possibilidade de algum chefe estar acompanhando o andamento de cada etapa do trabalho da área fez com que os servidores fossem mais zelosos e aplicados. E é exatamente isso que a presidente Dilma procura.
A ideia da presidente é que cada ministério tenha um aplicativo semelhante que se comunique com as salas de situação que serão instaladas na Casa Civil e em seu próprio gabinete. Assim, Dilma e Gleisi, a ministra que foi destacada para fiscalizar a execução dos projetos do governo, poderão acompanhar em tempo real o andamento dessas ações.
Numa primeira etapa, porém, o Palácio do Planalto definiu que alguns projetos e ministérios serão considerados prioritários. São eles o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Ministério da Saúde, o programa Brasil Sem Miséria, do Ministério do Desenvolvimento Social, e a execução dos contratos do Ministério dos Transportes.
A decisão tem justificativa. Para Dilma, em meio aos efeitos da crise financeira global, as obras de infraestrutura e os programas sociais são essenciais para garantir o crescimento do Brasil e o fortalecimento do mercado interno. Já os contratos do Ministério dos Transportes foram alvos de uma série de denúncias de irregularidades. Além disso, a presidente tem dito que seu governo terá de atender às crescentes demandas feitas pela população que sai de uma situação de pobreza por serviços públicos de maior qualidade, sobretudo nas áreas de educação, saúde e segurança pública.
O trabalho também já começou em outras pastas. Primeiros contatos foram feitos entre o grupo de trabalho e os ministérios da Justiça, Defesa e Fazenda. Nesse último caso, o objetivo do governo é aprimorar e monitorar o atendimento da Receita Federal à população.
Em outro front, a Câmara de Gestão presidida por Jorge Gerdau e integrada pelos também empresários Abílio Diniz, Antonio Maciel Neto e Henri Philippe Reichstul, e pelos ministros Gleisi Hoffmann, Guido Mantega (Fazenda), Miriam Belchior (Planejamento) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento) tenta dar início a mudanças na cultura da administração pública federal. Gerdau e sua equipe se espelham num modelo implementado pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair em seu governo no ano de 2001.
O receituário da chamada "Unidade de Entrega do Primeiro-Ministro" prevê que o chefe de governo deve definir os ministros e as equipes responsáveis pela implementação e o monitoramento diário das metas fixadas. De acordo com o modelo, além de ter os meios para fiscalizar o andamento dos projetos, o governo deve definir objetivos precisos, um planejamento com a agenda de cada ação e estratégias com riscos, desafios e a previsão dos meios necessários para alcançar os objetivos estabelecidos. Como consequência, além de acelerar a execução de programas considerados prioritários e promover a profissionalização da máquina pública, a cúpula do governo passa a ter mais poder de influência sobre as ações dos ministérios.
O primeiro chefe da Unidade de Entrega do Primeiro-Ministro de Tony Blair foi Michael Barber, que após deixar o cargo foi trabalhar na McKinsey. A consultoria é a mesma que tem prestado serviços à Câmara de Gestão criada por Dilma.
Do Blog do Planalto
Na coluna Conversa com a Presidenta, publicada hoje (21) nos jornais, a presidenta Dilma Rousseff garantiu que, após a renegociação dos contratos e a definição de um novo modelo para o monitoramento, as obras de integração do Rio São Francisco vão entrar num ritmo adequado. Na resposta ao professor universitário Francisco Xavier Lima e Souza, de Xapuri (AC), a presidenta ressaltou que o Projeto de Integração do São Francisco é uma obra fundamental para 12 milhões de pessoas de 390 cidades. Segundo ela, a situação hoje é de retomada das obras, algumas já em ritmo normal e outras sendo reiniciadas em nove dos 14 lotes que compõem os eixos Leste e Norte.
“Nós renegociamos os contratos, removemos os obstáculos dos problemas técnicos, mas agora queremos resultados e cumprimento dos prazos. Vou cobrar do ministro, que vai cobrar de todos os funcionários de seu Ministério e todos nós, juntos, vamos cobrar das empresas privadas e do Exército, que estão executando as obras. Chegou a hora de criar todas as condições para que o Nordeste tenha água suficiente para o consumo humano, para os animais e para alimentar o seu processo de desenvolvimento”, disse a presidenta.
Ela afirmou ainda que o governo federal pretende construir e equipar 6.427 novas creches e pré-escolas até 2014 com recursos incluídos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2). Na resposta à assistente social Maria Regina dos Santos Silva, de Salvador (BA), a presidenta reiterou seu compromisso com a educação das crianças de zero a cinco anos e informou que já foram assinados convênios com os municípios para a construção de 1.507 unidades.
“Estamos investindo na melhoria da educação desde os primeiros anos de vida da criança, consolidando uma base de aprendizado que será fundamental nas demais etapas do processo educacional. Esse é o caminho para formarmos cidadãos plenamente capazes de participar ativamente da construção do nosso país.”
Na coluna, ela também comentou os dados dos transplantes realizados no Brasil. Ao representante comercial João Canuto, morador de Duque de Caxias (RJ), a presidenta informou que, dos 23.397 transplantes realizados no país em 2011, 95% foram feitos pelo SUS, de forma totalmente gratuita.
“Para você ter uma ideia da evolução, em 2001 foram realizados 10.428 transplantes. O Brasil já se consolidou como referência por ter o maior sistema público de transplantes de todo o mundo”, disse Dilma Rousseff.
Segundo ela, os recursos destinados ao Sistema Nacional de Transplantes, em 2011, alcançaram R$ 1,3 bilhão, quatro vezes mais que os R$ 328 milhões aplicados em 2003.E desde o início de 2011, acrescentou a presidenta, o governo autorizou o funcionamento de 54 novos centros de transplantes e credenciou 72 novas equipes para a realização das cirurgia.
Até seus inimigos reconhecem: as frases e provérbios de Leonel Brizola (1922-2004) fazem falta à política brasileira. Ele era capaz de perder um aliado, mas uma boa frase, jamais. Que o diga Lula, seu inimigo íntimo, que, por causa do velho caudilho, jamais se livrou do apelido de "sapo barbudo". "A política é a arte de engolir sapo. Não seria fascinante fazer agora a elite brasileira engolir o Lula, este sapo barbudo?", teria dito Brizola em 1989. A elite não engoliu e Lula perdeu a eleição para a presidência para Fernando Collor.
No ano em que o ex-governador do Rio (1983-1987/ 1991-1994) completaria 90 anos, um livro, ainda sem editora, com frases criadas por ele, está sendo organizado por sua neta Juliana Brizola, deputada estadual (PDT-RS). Serão 90 frases, cada uma representando um ano.
"A ideia surgiu assim que o meu avô morreu. Começamos a lembrar das frases, das tiradas inteligentes, dos provérbios, que não eram criados por ele, mas eram como se fossem", diz Juliana. A neta lembra que passou a vida convivendo com um homem desconfiado. Um verdadeiro "animal político". "Quando ele dizia: 'Tem batata nessa chaleira' é porque já sabia que alguém estava tentando enganá-lo. Aí ele não sossegava", lembra. "Se alguém ameaçava sair do partido ou fechar aliança com algum inimigo, todos já sabiam qual seria o provérbio: 'Fulano está costeando o alambrado'."
O curioso é que Brizola, socialista de formação, usou boa parte do seu talento como frasista para cutucar a esquerda brasileira. O alvo preferido sempre foi o PT, com quem vivia às turras. Suas brigas com o partido abriram feridas jamais cicatrizadas, mas, ao mesmo tempo, serviu de inspiração para um punhado de frases, repetidas até hoje, inclusive pelos opositores: "O PT é a UDN de tamanco e macacão" ou "O PT é a esquerda que a direita sempre quis".
Do Valor
Após terem imposto severas exigências para socorrer a Grécia, países da zona do euro serão, por sua vez, cobrados pelos emergentes, esta semana, a respeitar certas condições para verem aumentados os recursos para o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Na reunião de ministros de finanças e de presidentes de bancos centrais do G-20, no fim de semana na Cidade do México, os europeus querem convencer os países não europeus a se comprometerem logo com recursos adicionais para o FMI e evitar que a instabilidade da zona do euro se propague - o que significa que boa parte do dinheiro vai para os países combalidos do velho continente.
No entanto, dos US$ 600 bilhões que o FMI diz necessitar, até agora há apenas US$ 240 bilhões de compromissos firmes, vindos dos próprios europeus como meio de driblar a regra do Banco Central Europeu (BCE) de não emprestar aos governos nacionais, e também de transferir o risco de crédito para o balanço do fundo.
Do total prometido, US$ 200 bilhões dos países da zona do euro e outros US$ 40 bilhões de alguns que estão fora da união monetária como Noruega, Suécia República Checa e Polônia. Uma exceção importante é a Grã-Bretanha, que só quer discutir o assunto no G-20 e não com seus parceiros europeus.
É significativo que nenhum país fora da Europa tenha se comprometido com o pacote para o FMI, limitando-se a mostrar disposição de participar, dependendo de como os europeus vão responder às suas exigências
No G-20, o Brasil, China, Índia e outros países vão cobrar que os europeus deixem de bater o pé sobre dois compromissos já assumidos: a ratificação da reforma de 2010 que ampliou o poder de voto dos emergentes no FMI; e a revisão da forma de cálculo para nova redistribuição de cotas e, portanto, de poder no xerife das finanças mundiais.
"Quanto maior for a percepção de que existe esforço de cumprir o acordado, maior a chance de a captação adicional de recursos para o FMI ser bem sucedida", diz Paulo Nogueira Batista Júnior, diretor executivo do Brasil e mais oito países no fundo. "Mas persistindo à resistência, haveria frustração que dificultaria o processo (de recursos adicionais para o fundo)".
A reforma de 2010 quase dobrou o poder de voto do Brasil para 2,218% e a China se tornou a terceira força do FMI, mas não tem nem data para entrar em vigor. É que a maioria dos membros da União Europeia, que vão perder fatias de poder, não aprovam a reforma em seus Parlamentos nacionais.
A maior resistência vem dos europeus, excessivamente representados no FMI. Sua parte na instituição vai declinar modestamente, de 31,9% para 30,2%, ainda alta quando sua fatia no PIB mundial é de apenas 22% considerando os dados de 2009 em termos de Paridade de Poder de Compra (PPP, em inglês).
O prazo para a ratificação é outubro, mas a Alemanha, que continua a dar lição aos gregos, resiste em cumprir o compromisso, ao lado da Áustria, Bélgica, Republica Checa, Estônia, Finlândia, Irlanda, Grécia, Hungria, Letônia, Luxemburgo, Portugal Romênia, Lituânia, Eslovênia e Eslováquia - ou seja, mais da metade da UE.
Das 24 diretorias executivas do FMI, os europeus têm oito e vão perder duas, com a reforma já aprovada. Entre detentores de petrodólares, a Arábia Saudita também perderá fatia de cota para os emergentes e igualmente empurra a ratificação do compromisso.
O segundo compromisso ao qual os europeus relutam é a revisão da fórmula do cálculo de cotas do FMI. O prazo para que isso ocorra é até janeiro de 2013, para que depois seja usado um novo realinhamento de cotas até o começo de 2014.
A ajuda aos europeus, via FMI, está ligada a esses compromissos já assumidos, até porque o dinheiro que o Brasil eventualmente emprestar agora ao fundo poderá se transformar em maior cota, e portanto, mais voz e poder no fundo em 2014.
Fontes em Bruxelas confirmam desacordo sobre o montante e o momento de aceitarem o pacote para o FMI. E sobre as condicionalidades como a sugerida pelo Brasil para que o dinheiro adicional seja a última linha de defesa. Ou seja, a ser usado somente depois de esgotados todos os outros recursos do FMI.
A reunião ministerial do G-20 no México dificilmente terá assim caráter decisivo sobre o pacote para o FMI, primeiro porque é preciso consenso sobre condicionalidades para fornecer mais recursos para o fundo. E depois porque os europeus vão discutir só em março eventual aumento de seu próprio mecanismo de socorro.
Após meses de resistência, a Alemanha aparentemente estaria pronta a aceitar que o Mecanismo Europeu de Estabilização seja ampliado de € 500 bilhões para cerca de € 750 bilhões, ainda mais agora que 25 países da UE se comprometeram com disciplinas fiscais mais duras.
Juntamente com um aumento de recursos do FMI, autoridades europeias acham que a zona do euro terá finalmente sua bazuca para conter contágios da crise. Mas os países não europeus fazem como os europeus em relação aos gregos: querem ver tudo antes formalizado, preto no branco. (AM)
Colheita da soja, nos Estados Unidos, país que lidera o ranking de pesquisas e dos cultivos com lavouras modificadasDo Valor, com agências
Os agricultores europeus provavelmente ficarão em desvantagem no competitivo e globalizado mercado de grãos da União Europeia (UE). A hostilidade dos consumidores locais aos organismos geneticamente modificados (OGMs) impede pesquisas no segmento e tornou-se obstáculo ao desenvolvimento de culturas de rendimento maior e resistentes a pragas.
A União Europeia aprovou o cultivo de apenas um grão de milho modificado - (MON810), da Monsanto, resistente a insetos. Mas a acirrada oposição levou Alemanha, Áustria, Grécia, Hungria, Luxemburgo e Bulgária a proibi-lo em seus territórios.
A moratória na França, maior exportadora de grãos da Europa, foi anulada por razões legais em 2011. Mas o governo já pediu à Comissão Europeia a suspensão do plantio antes que a nova temporada de semeadura tenha início em algumas regiões durante este mês.
Agricultores e cientistas, porém, dizem que o milho transgênico demonstrou poder melhorar a produção e reduzir custos. "As coisas andarão mais rápido em continentes com acesso a essas técnicas", disse Fabien Lagarde, diretor do Cetiom, instituto técnico francês especializado em oleaginosas. "Certamente a Europa vai perder competitividade, especialmente, no caso do milho", acrescentou.
O grupo agrícola francês AGPM forneceu os resultados do plantio do milho MON810 cultivado em mais de 22 mil hectares, em 2007, um ano antes de a França impor a moratória ao plantio. A lavoura transgênica evitou perda média de rendimento de meia tonelada de grãos por hectare, vantagem equivalente a € 100 por hectare.
O valor inclui o custo adicional de € 35 a 40 por hectare das sementes transgênicas em relação às convencionais. De acordo com a AGPM, os agricultores economizaram 8,8 mil litros de pesticidas e 30 mil litros de combustível necessários para aplicá-los.
O prejuízo para a competitividade europeia no mercado mundial será limitado pelo fato de sua principal cultura de exportação ser o trigo, cereal com escassa pesquisa genética até agora. A produção de milho europeia é cerca de metade de sua produção de trigo.
Um estudo realizado pelo lobby biotecnológico do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações Biotecnológicas (ISAAA, na sigla em inglês) constatou que a área mundial cultivada com lavouras transgênicas cresceu 8% no ano passado, para um recorde da ordem de 160 milhões de hectares. As principais culturas foram algodão (82% delas são hoje geneticamente modificadas), soja, com percentual de 75%, e milho, com 32%.
Os agricultores europeus semearam milho transgênico em 114,49 mil hectares, pouco mais de 1% da área total do grão, segundo o ISAAA. Nos Estados Unidos, este cultivo ocupa 88% de toda área plantada. No ano passado, a Espanha plantou 85% de sua área total de produção com a variedade MON810 da Monsanto.
O vice-diretor da AGPM, Cedric Poeydomenge, disse que a Europa poderia encontrar mercados para ampliar sua produção de milho no norte da África e no Oriente Médio, com o intuito de alimentar as crescentes criações de aves.
"Esses mercados são agora supridos por Argentina, Brasil, EUA, Ucrânia e, por vezes, pela França, como neste ano", disse ele. "É preciso permitir que os agricultores tenham acesso a estas culturas porque estamos em um mercado mundial. Se não formos competitivos, vamos desaparecer dele", comentou Poeydomenge.
Ao ampliar a produção de milho, a UE também poderia reduzir as atuais importações anuais de cerca de 30 milhões de toneladas de carregamentos transgênicos de milho e de farelo de soja destinados à alimentação do gado. "Nós importamos transgênicos porque, do contrário, não conseguimos sobreviver. É mais um absurdo", disse Marc Van Montagu, presidente da Federação Europeia de Biotecnologia.
Alguns dos maiores produtores mundiais de sementes, como Basf Plant Science, Syngenta e Bayer CropScience, desistiram de desenvolver variedades geneticamente modificadas para atender ao mercado europeu. Empresas de biotecnologia como a Monsanto, Limagrain e SAAT KWS reduziram as pesquisas vinculadas aos projetos de pequena escala que permitem o cultivo de transgênicos.
Agricultores franceses, os maiores produtores e exportadores de grãos na UE, receiam que a fuga de pesquisadores tenha grandes consequências a longo prazo. "Todos os pesquisadores estão, agora, no exterior. Essa é uma situação intolerável que não permite nos prepararmos para o futuro", disse Guy Vasseur, presidente das Câmaras Francesas de Agricultura.
"Alguns dizem que precisamos esperar uma segunda geração de culturas geneticamente modificadas. Mas quando você perde a primeira fase, fica com menos chances de participar das etapas seguintes", acrescentou. Mas nem todos os agricultores europeus concordam que o acesso aos transgênicos seria realmente benéfico.
"O cultivo de plantas geneticamente modificadas traz problemas de segurança alimentar e à biodiversidade, especialmente em países como a Itália, com peculiaridades de solo e dimensão das culturas. Não seria possível evitar contaminação ambiental", afirmou Carlo Franciosi, funcionário da Coldiretti, maior associação italiana de agricultores.
Alguns cientistas garantem ser difícil ver muita diferença entre o aumento das safras resultante de modificações genéticas comparadas a incrementos verificados em culturas convencionais.
Dados do Ministério da Agricultura francês mostram que a produção de milho cresceu cinco vezes entre 1950 e 2010, para cerca de 10 toneladas por hectare, apenas com base em recursos tradicionais.
Pesquisas envolvendo culturas convencionais prosseguem na Europa. "Tenho dúvidas sobre não haver salvação fora dos transgênicos", afirma Herve Guyomard, diretor científico do Instituto de Pesquisa Agronômica (INRA), na França, o maior centro de pesquisas europeu nessa área.
O programa do INRA denominado "amaizing" - um trocadilho com "maize" (milho) -, pretende motivar o aumento da produção do grão convencional, cujo rendimento permanece estável na Europa. O objetivo é evitar a disparidade da competitividade entre o bloco europeu e seus concorrentes.
"Se abandonarmos as pesquisas com melhoramento tradicional, certamente seremos incapazes de acompanhar os países que investem no desenvolvimento das sementes transgênicas para incrementar os níveis de produtividade", afirmou Herve Guyomard. (Tradução de Sergio Blum)
Quem vê a atual importância da soja para o agronegócio do país muitas vezes perde de vista o alcance e a velocidade de sua expansão no campo brasileiro e como essa "especialização nacional" na cadeia produtiva do grão foi vital para a valorização do setor como um todo nas últimas décadas.
Ainda que muitos especialistas tenham razão em apontar os riscos de uma concentração excessiva de um setor em torno de um único produto, a expansão do Brasil na soja se confunde com o reconhecimento internacional do país como "celeiro do mundo", renovado nesse início de milênio com a aceleração da demanda global por alimentos, puxada por emergentes.
Em seu último "Boletim Regional", o Banco Central apresenta estatísticas que não deixam essa influência da soja passar despercebida. E na comparação entre dados de 1995 e de 2010, é possível perceber um movimento relativamente contínuo de avanço, que deverá ter prosseguimento.
O domínio da soja, que começou a ser cultivada no Brasil no início do século passado, no Rio Grande do Sul, ganhou seus primeiros contornos na década de 70, após a expansão promovida por gaúchos e paranaenses no Centro-Oeste, em propriedades maiores, mecanizadas e mais eficientes. Mas mesmo no Norte e no Nordeste o grão ganhou bastante relevância.
Na média anual do período entre 1995 e 1997, a oleaginosa já representava 15,7% do valor bruto da produção (VBP) das principais culturas agrícolas do país, mas perdia para a cana, que "mordeu" 16,1% do VBP no intervalo, segundo dados do IBGE compilados pelo BC. Com uma evolução quase constante desde então, a soja entrou nos anos 2000 já como líder em VBP agrícola, e chegou ao triênio 2008-2010 com uma participação média de 25,8% no valor consolidado.
A cana, cultivo tradicional desde os tempos coloniais, passou a "disputar" com o milho a segunda posição, mas prevaleceu no período entre 2008 e 2010, com fatia média de 16,5%. O milho permaneceu em terceiro e café e arroz mantiveram-se na lista das "cinco mais", mas com pesos menores.
Vale notar, ainda, que das culturas que encabeçam o VBP do campo, a soja, dada sua forte expansão, foi a única que de 2005/2007 a 2008-2010 registrou, apesar de alguns percalços, crescimentos médios anuais em área colhida (5,4%), rendimento (1,7%), produção (7,2%), preço (0,2%) e valor (7,3%). Nos preços domésticos, por exemplo, os quatro outros produtos que encabeçam o rol apresentaram variações médias anuais negativas.
As projeções disponíveis indicam que há poucas mudanças nessa tendência em 2012. Estimativa mais recente do Ministério da Agricultura para o VBP das 20 principais culturas agrícolas do país aponta para R$ 214,6 bilhões no total, 2,7% mais que em 2011 (R$ 214,6 bilhões) e liderado por Sudeste (R$ 70,4 bilhões), Centro-Oeste (R$ 53,1 bilhão), Sul (R$ 51,7 bilhões), Nordeste (R$ 28,1 bilhão) e Norte (R$ 7,1 bilhões). Em 2000, foram cerca de R$ 100 bilhões.
A soja vai manter sua já tradicional liderança nesse ranking, com previsão de VBP de R$ 51,2 bilhões, mas o valor estimado é 5,2% inferior ao de 2011 e sua fatia no total deverá cair para 23,8%. Isso porque, apesar do aumento de 2,4% da área plantada nesta safra 2011/12, a colheita deverá diminuir 8,1% por conta de adversidades climáticas e seus preços poderão cair em meio às turbulências globais.
No ciclo atual, os 24,8 milhões de hectares calculada pela Conab correspondem a 48% da área plantada total de grãos estimada, enquanto as 69,2 milhões de toneladas esperadas representam 44% da colheita esperada.
Chama a atenção, ainda, o fato de a expansão da soja ser marcante em quase todas as regiões do país, exceto no Sudeste, onde a cana, "onipresente" em São Paulo, expandiu seu reinado. Mesmo no Nordeste, outro tradicional reduto canavieiro, o que mais chama a atenção é o salto da participação da soja no valor bruto da produção. A fatia passou de 4,4% no biênio 1995-1997 para 14,2% em 2008-2010. A cana viu sua participação cair de 23,8% para 16,7%.
Se no Sul e no Centro-Oeste o avanço da soja é mais visível, no Nordeste ela se dá sobretudo no Cerrado de Maranhão e Piauí, dois dos três vértices do chamado "Mapito", compreendido também por regiões de Cerrado de Tocantins.
No Norte, onde o grão avançou mas ainda perde para a mandioca, boa parte da expansão aconteceu em áreas degradadas inicialmente pela pecuária, e a fatia de 0,4% no VBP entre 1995 e 1997 engordou para 15,7% de 2008 a 2010.
Dias: "Temos várias ZPEs aprovadas no país há dez anos e nenhuma em pleno funcionamento. Alguma coisa está errada"
O Senado começa a discutir em março a alteração da legislação que trata das Zonas de Processamento de Exportação (ZPE), áreas de livre comércio com o exterior nas quais as empresas instaladas têm isenções fiscais e regime aduaneiro e cambial especial.
Entre as mudanças, a proposta reduz de 80% para 60% o percentual mínimo da produção que as empresas instaladas em ZPE precisam exportar, permite que fornecedoras de "serviço" operem nesses distritos - e não apenas de bens, como é hoje -, e flexibiliza a regra para evitar que o ato de criação da zona de processamento perca a validade, se as obras não começaram em 24 meses.
A permissão para que empresas voltadas para a produção de "serviços" se instalem nesses distritos tem o objetivo principal de incluir o setor de tecnologia da informação (TI). "A possibilidade de se instalar nas ZPEs seria um reforço apreciável para o desenvolvimento desse setor", diz a senadora Lídice da Mata (PSB-BA), autora da proposta. Pela lei atual (número 11.508, de 2007), a ZPE pode ser constituída apenas de empresas que produzam "bens".
O projeto foi elaborado em conjunto com a Associação Brasileira de Zonas de Processamento de Exportação (Abrazpe) e contempla reivindicações do setor. Para o relator, Wellington Dias (PT-PI), o Brasil decidiu adotar as ZPEs como instrumento para aumentar sua competitividade, mas ainda não tem uma legislação que torne esses distritos eficientes em relação aos adotados em outros países. "Temos várias ZPEs aprovadas no país há mais de dez anos e nenhuma em pleno funcionamento. Alguma coisa está errada", diz.
Seu parecer é favorável ao projeto, que reduz o percentual mínimo a ser exportado para 60% e permite ao Executivo diminuir ainda mais - para 50% - no caso de pessoa jurídica que atue no desenvolvimento de software ou na prestação de serviços de tecnologia da informação. Essa mudança recebeu apoio público dos ministros Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) - que preside o Conselho Nacional de Zonas de Processamento de Exportação - e Fernando Bezerra (Integração Nacional), também integrante do conselho.
A revisão proposta no projeto, de acordo com a autora, é essencial para tornar mais "ágil e competitivo" o mecanismo da ZPE - idealizado no governo José Sarney (1985-1990) e praticamente parado até o governo Lula, quando foi restabelecido. Na gestão do petista, uma nova legislação foi elaborada, projetos foram aprovados pelo governo e as ZPEs começaram a sair do papel.
Governadores estão empenhados na instalação de ZPEs em seus territórios
De olho no potencial de desenvolvimento de seus Estados, vários governadores estão empenhados na instalação de ZPEs em seus territórios, especialmente das regiões Norte e Nordeste. Mas ainda há vários entraves. Segundo Dias, aumentar o percentual da produção que pode ser comercializada no mercado interno (de 20% pra 40%) vai atrair mais empresas.
Para atender às reivindicações das empresas interessadas em se instalar nessas áreas de livre comércio, está sendo proposta a revogação do dispositivo que exige valor mínimo em investimentos totais na ZPE para que uma empresa seja autorizada a operar no regime especial. Para a autora do projeto, essa exigência da legislação atual "abre espaço para a discriminação de pequenas e médias empresas, cujo estímulo constitui um eixo central da política industrial".
Outra mudança dará direito a todas as empresas instaladas em ZPE de funcionarem por pelo menos 20 anos. Na legislação atual, há uma brecha para fixação de prazo menor. O artigo da lei que proíbe pessoa física instalada em ZPE de constituir filial ou participar de outra empresa localizada fora do distrito também é revogado pela proposta de Lídice. "Não há por que ter essa restrição, sob pena de as empresas terem que fazer uma opção e fechar uma [filial] para abrir outra na ZPE", explica Dias.
Uma mudança considerada importante para investimentos de grande porte é a permissão para que empresas com projetos aprovados para implantação em ZPE possam importar ou adquirir bens de capital no mercado interno "com os benefícios do regime", antes mesmo do alfandegamento (autorização do Fisco para que sejam instituídos os benefícios fiscais na importação e na compra de insumos dentro do país).
Por outro lado, para possibilitar que fornecedores de bens para a construção de navios e plataformas de exploração de petróleo se instalem em ZPEs, Lídice introduz um dispositivo permitindo a exportação de produtos nacionais, mesmo que eles não saiam do território brasileiro.
Ou seja, as vendas do fornecedor para os estaleiros instalados no país - de peças usadas na fabricação de plataformas e navios - terão os benefícios fiscais e cambiais das ZPEs. Pela lei atual, esses incentivos são restritos às operações nas quais o produto é enviado para o exterior.
Lídice lembra que, em outros países que adotam essas áreas de livre comércio, as regras são mais "flexíveis e simplificadas". Para ela e Dias, a crise mundial vai exigir que as empresas brasileiras tornem-se mais eficientes para concorrer num ambiente externo cada vez mais competitivo.
Pela legislação em vigor, as empresas instaladas em ZPEs operam com suspensão de impostos, liberdade cambial (podem manter no exterior as divisas obtidas nas exportações) e procedimentos administrativos simplificados, desde que destinem pelo menos 80% de sua produção ao mercado externo. Os 20% da produção vendidos no mercado interno paga integralmente os impostos cobrados sobre as importações.
Há 23 ZPEs aprovadas no país, mas nenhuma delas em funcionamento. A mais adiantada é a do Acre, que deverá ser alfandegada em breve pela Receita Federal. O Estado assumiu o projeto, disponibilizou os recursos e partiu de uma estrutura de porto seco quase concluída. Já há várias empresas com projeto de implantação na área. Quatro outras já tinham estruturas construídas, mas estão sendo readequadas. As demais estão em distintas fases do processo de implantação.
O projeto de Lídice está tramitando na Comissão de Desenvolvimento Regional (CDR). O relator está com o parecer pronto e vai apresentar no início de março. Ex-governador do Piauí, Dias quer mobilizar governadores cujos Estados possuem projetos de ZPE aprovados para virem a Brasília defender a rápida aprovação. Depois da CDR, o projeto será submetido à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e ao plenário do Senado. Se aprovado, ainda precisa ser analisado pela Câmara dos Deputados.
Empresas brasileiras especularam com derivativos cambiais, entre 2007 e 2009, período que marcou o início da crise financeira mundial, muito mais do que foi divulgado à época. O número de companhias não-financeiras envolvidas nessas operações, que, após a quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, se revelaram desastrosas, foi bem maior que o revelado. Uma boa parte das apostas teve caráter especulativo e não apenas de proteção (hedge) contra variações cambiais.
O pesquisador José Luiz Rossi Júnior, do Insper, fez um minucioso e inovador estudo sobre o tema. Em vez de simplesmente conduzir uma pesquisa por amostragem, entrevistando as empresas, ele analisou o balanço de 200 companhias. Ele tirou proveito do fato de que, desde o fim de 2008, normas baixadas pelo governo deram mais transparência à exposição cambial de firmas não-financeiras.
Essas normas foram adotadas depois que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) constatou que grandes grupos, como Sadia, Aracruz e Votorantim, sofreram pesadas perdas com derivativos cambiais, sem que seus acionistas fizessem a mais pálida ideia do risco que as companhias estavam correndo. As autoridades nunca revelaram a extensão do problema, mas o Banco Central (BC) estima que os derivativos cambiais de empresas exportadoras somaram, naquela época, US$ 38 bilhões. Os prejuízos provocados pela desvalorização do real que se seguiu à quebra do Lehman são calculados em US$ 10 bilhões.
Especulação em 2008 foi maior do que se imaginava
Intitulado "Hedge or Speculation? Evidence of the Use of Derivatives by Brazilian Firms During the Financial Crises" (Hedge ou Especulação? Evidência do Uso de Derivativos por Empresas Brasileiras Durante a Crise Financeira), o trabalho de José Luiz Rossi não cita nomes de empresas, mas analisa os possíveis incentivos que levaram companhias sólidas a ingressar no perigoso mundo dos derivativos.
O trabalho não poderia ser mais oportuno porque algumas das razões que levaram grandes exportadores a especular com taxa de câmbio em 2008 e mesmo em 2009 ainda estão aí - a apreciação do real frente ao dólar e os elevados custos de transação (diferencial de taxa de juros interna e externa) são dois exemplos. Ademais, o próprio governo parece estar preocupado porque, na semana passada, criou grupo técnico para formular medidas que incrementem o monitoramento do mercado de derivativos.
Geralmente, companhias realizam operações de derivativo para se proteger de desvalorizações repentinas da moeda local. Fazer hedge é parte do gerenciamento de risco, afinal, em países emergentes, como o Brasil, a exposição a câmbio é maior e as taxas de câmbio são mais voláteis que as de países ricos.
Ocorre que, em 2008, muitas empresas brasileiras montaram posições de derivativos não para se proteger de uma possível desvalorização do real, mas para obter ganhos com o movimento oposto: o da apreciação da moeda nacional em relação ao dólar. Fizeram isso porque, dada a forte acumulação de reservas cambiais pelo BC - de janeiro de 2004 a dezembro de 2009, elas saltaram de US$ 53,2 bilhões para US$ 239 bilhões -, havia a garantia tácita de que flutuações acentuadas do câmbio não seriam permitidas.
A aposta era a de que a taxa, que em julho de 2008 chegou a R$ 1,56 por dólar - hoje, está em torno de R$ 1,72 -, continuaria apreciando. É curioso observar que as empresas tomaram risco quando o mundo desenvolvido já estava em crise desde meados de 2007. No fundo, de forma olímpica, jamais acreditaram que a crise atingiria o Brasil. Naquele ano, segundo o estudo de Rossi Jr., 67 empresas brasileiras usaram algum tipo de derivativo. Em 2008, esse número aumentou para 98 e, no ano seguinte, caiu para 68.
O trabalho mostra que, das 98 companhias que recorreram a derivativos em 2008, 38 especularam no mercado de câmbio. Das 38, 16 tomaram posições inesperadas, mesmo levando em conta as necessidades de hedge face à exposição cambial, e 22 claramente elevaram o volume de derivativos sem que tivesse ocorrido um aumento proporcional da exposição em moeda estrangeira. Em 2009, 16 foram classificadas como especuladoras, sendo 11 na primeira categoria e cinco na segunda. Nos dois anos, 60 empresas fizeram operações normais, não-especulativas, de hedge.
A exposição de uma empresa a câmbio é baseada na diferença entre sua receita total em moeda estrangeira e a soma de suas despesas e dívida também em moeda estrangeira. A posição líquida em derivativos pode ser calculada pela diferença entre as posições curtas e longas em dólar.
Para definir se uma companhia especula ou não com derivativos, Rossi Jr. compara a exposição cambial com a posição derivativa líquida. Diz-se que uma empresa especula com derivativos quando, num mesmo ano, tem uma posição líquida no mercado de derivativos oposta àquela que precisava ter para fazer o hedge da exposição cambial. Neste caso estão os exportadores líquidos que mantêm posições longas em dólar e os importadores líquidos que possuem posições curtas.
Um segundo grupo de empresas que especulam com derivativos são aquelas que montam posições em linha com sua exposição cambial durante um ano, mas aumentam a exposição em derivativos, de forma significativa, em relação ao ano anterior sem que a exposição cambial tenha se elevado no mesmo período. Pesquisadores definem que, para todos os casos, deve ser considerada especulativa uma mudança superior a 30% do montante ideal líquido total das posições em derivativos.
"Por que as companhias acreditam que podem obter ganhos especulando com derivativos ainda é uma questão em aberto. Mesmo as empresas mais internacionalizadas não têm expertise suficiente no mercado para atingir resultados significativos. Essa generalização é ainda mais verdadeira no mercado de câmbio. Mesmo a literatura que tenta prever seus movimentos indica que nenhum modelo é bom o bastante, em todos os períodos, para prever a taxa de câmbio", observa Rossi Jr.
A isenção do imposto de renda sobre a Participação nos Lucros e Resultados (PLR) vai ganhar força nas mobilizações sindicais deste ano, já que grandes empresas têm pago PLR cada vez mais robustas e a tributação reduz boa parte do valor recebido pelo trabalhador. Em 2011, um funcionário de chão de fábrica da Renault no Paraná recebeu R$ 12 mil em PLR. O montante pago em imposto de renda foi de cerca de R$ 2,5 mil e correspondeu a 117% do salário médio dos 3.800 funcionários daquela planta. No início de fevereiro, o deputado federal Paulinho da Força (PDT-SP) protocolou no Senado uma emenda constitucional sobre a desoneração do imposto de renda referente à PLR, negociada anualmente nos acordos coletivos.
Um estudo realizado pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região (SPbancários) em parceira com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostrou que a PLR representou 14,5% da remuneração total anual de um caixa bancário, incluindo nessa conta os benefícios com transporte, alimentação e o próprio salário fixo, 13º salário e férias. Em 1995, quando a divisão dos lucros com os funcionários foi regulamentada, a sua participação na remuneração total do empregado em um ano era de 5,4%. "Não é justo que o acionista retire seus dividendos sem pagar o imposto de renda e o trabalhador, que recebe menos, pague", diz Juvandia Moreira, presidente do SPbancários.
Mais de 200 mil assinaturas apoiando a isenção de imposto de renda na PLR foram recolhidas e entregues a representantes do governo, entre eles o ministro Gilberto Carvalho, e ao presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS). Além dos bancários, trabalhadores dos setores químico, petroleiro e metalúrgico encabeçam o movimento. Segundo cálculos das entidades, a proposta de desoneração dessas bases injetaria R$ 1,6 bilhão na economia.
Os metalúrgicos do ABC paulista têm força na negociação da PLR. Entre as cinco grandes montadoras instaladas na região, apenas a Toyota pagou menos de R$ 10 mil em PLR no ano passado. Os funcionários da empresa japonesa receberam R$ 7.350 como divisão dos lucros de 2011. Ford (R$ 11,5 mil), Volkswagen (R$ 11,8 mil), Scania (R$ 12 mil) e Mercedes (R$ 12,8 mil) puxaram a média da região para cima. Os 36 mil metalúrgicos do ABC receberam, em média, R$ 11,8 mil em PLR no ano passado. Desse total, R$ 2,5 mil foram retidos diretamente na fonte, como imposto de renda, o que representa 48,7% do salário médio da categoria no ABC. Em São José dos Campos, a General Motors pagou R$ 11.778 em PLR no ano passado. O valor retido como imposto de renda representa 64,8% do salário médio dos mais de 8 mil funcionários daquela fábrica.
Para Ana Cláudia Utumi, sócia responsável pela área tributária do escritório TozziniFreire Advogados, a cobrança do imposto de renda sobre a PLR não é uma injustiça. "Os dividendos dos acionistas são isentos de imposto porque a empresa já paga imposto de renda e contribuição social de 34% sobre o lucro. O lucro que vai para o acionista é líquido. A PLR é dedutível para a empresa, que retira esse valor do lucro para fins de tributação. Ele não é tributado pelo imposto de renda pessoa jurídica." Ela ressalta que o empregado já recebe um incentivo tributário, que é a isenção do INSS sobre a PLR.
Pedro César da Silva, da ASPR Auditoria e Consultoria, concorda. Ele lembra que, para fechar as contas do ponto de vista da arrecadação, alguém precisa pagar o IR: a pessoa física ou a jurídica. A empresa que hoje paga o PLR tem a vantagem de não contabilizar esse benefício no valor sobre o qual calcula o Imposto de Renda e a contribuição previdenciária.
"Se não houvesse essas vantagens para as empresas, provavelmente não haveria grande adesão dos empregadores para esses programas e os valores pagos poderiam não ser tão relevantes como são hoje", diz. "E se a empresa passar a pagar esse imposto, automaticamente haverá menos lucro a ser distribuído aos trabalhadores. E mesmo que mantenha o programa de PLR, a empresa certamente irá dividir esse custo tributário com o empregado, o que também contribuirá para reduzir os valores pagos atualmente", pondera Silva.
Os bancários em São Paulo chegaram a propor uma tabela alternativa de tributação do imposto de renda sobre a PLR, mas, para Ana Cláudia, tal diferenciação iria ferir o princípio da isonomia. "Um trabalhador que não recebe PLR pode querer que a sua renda seja tributada da mesma maneira que a PLR do outro trabalhador. O dinheiro que um recebe vale o mesmo que é pago para o outro", diz.
A divisão do lucro com os trabalhadores nas grandes empresas vem aumentando significativamente. À exceção de 2009, quando a crise internacional interferiu diretamente na PLR paga, os valores não param de crescer entre 14 empresas e dois sindicatos consultados pelo Valor. No ABC paulista, a PLR paga aos trabalhadores da Mercedes cresceu 113% desde 2006, quando foi de R$ 5.992. Entre 2009 e o ano passado, a PLR dos trabalhadores da Renault, no Paraná, cresceu 152% (de R$ 4.750 para R$ 12 mil) e da Eletropaulo, 40% (de R$ 4 mil para R$ 5.600).
A regra para a PLR entre os bancos apresenta inúmeras variáveis. A uma parcela fixa para todos os funcionários são somadas uma porcentagem do salário mensal de cada trabalhador, uma fatia que se faz valer no caso de o total distribuído em PLR pela instituição financeira não alcançar 5% do seu lucro líquido e outros 2% do lucro líquido divididos entre todos os funcionários.
A PLR serve para incentivar o trabalhador a aumentar a sua produtividade. Os movimentos sindicais correm atrás de que a remuneração variável, através da PLR, por exemplo, não ganhe espaço da remuneração fixa. Com isso, o objetivo é evitar que a empresa repasse os riscos - e possíveis prejuízos - para os trabalhadores.
"A desoneração da PLR será um assunto recorrente em 2012. Os líderes de partidos da base aliada já me disseram que a isenção do imposto de renda é viável. Depois do carnaval, vamos atrás dos partidos de centro, para ter a maioria no Congresso", afirma Paulinho da Força. Ele espera que a votação da emenda ocorra na segunda quinzena de março. "Se o governo não entender que a PLR deve ser um ganho apenas do trabalhador, a ideia é fazer muita pressão, inclusive nas negociações."
Rogério Lessa, no Monitor Mercantil
Enquanto paga 10,5% ao ano na sua taxa básica de juros (Selic), o Brasil consegue colocar títulos no exterior com vencimento em dez anos com juros de 4,1%, bem abaixo dos títulos da Itália ou Portugal. A diferença abissal tem provocado dúvidas e suscitado debates.
A alegação para manter a Selic como a maior do mundo é o suposto controle da inflação, mas, na pratica, funciona como atração de capitais externos para cobrir o déficit em transações correntes do balanço de pagamentos do país.
Isso ocorreu porque o país abriu radicalmente a conta financeira, proporcionando ganhos a investidores não residentes, isentos de imposto de renda. E, devido ao elevado passivo externo de curto prazo, eles ganham alto poder de pressão sobre quem o nível dos juros no Brasil.
Colônia Brasil
O economista Marcio Oliveira, da Rede Desenvolvimentistas, observa que a taxa básica de juros não está sendo usada da maneira tradicional no mundo. Ou seja, como referência para empréstimos interbancários, mas também como indexador de parte dos títulos emitidos pelo Tesouro.
"Basta parar de emitir títulos indexados que a anomalia se dissipa. O movimento de longo prazo é caminhar para emissões apenas de títulos prefixados (e com taxas mais baixas e prazos mais longos que os atuais), em vez dos indexados a dólar, Selic e IPCA."
A comparação internacional, segundo Oliveira, pode ser feita pelo menos de três formas: entre as taxas básicas de juros definidas pelos bancos centrais, que servem de parâmetro para empréstimos interbancários em cada pais (e portanto instrumento de política monetária); entre as taxas e prazos médios dos títulos emitidos pelos tesouros de cada país (com impacto na política fiscal); e entre as tarifas médias cobradas pela banca privada em cada país (impacto na política creditícia).
"Nas três comparações, a "colônia Brasil" tem vencido com folga em termos de generosidade aos que emprestam dinheiro. E estes não são apenas banqueiros e financistas, mas também fundos de pensão, pessoas físicas etc.", critica.
Para o economista, não se pode admitir a perpetuação desse mecanismo com taxas exorbitantes como as praticadas no Brasil: "A droga do crédito vicia, por isso precisa ser administrada com prudência", compara.
No entanto, o professor de macroeconomia na UniversiRisco e incerteza
Por sua vez, Rodrigo Medeiros, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) argumenta que a indexação de títulos públicos já emitidos pressiona a Selic para cima em todas as reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom/BC).
"O esperado é que as taxas de títulos de prazos maiores sejam maiores do que as de curto prazo, até por conta dos fatores risco e incerteza. Claro que pressões inflacionárias contaminam o lançamento e a rolagem de títulos públicos. O problema é quando, na condução da política monetária, em condições de normalidade, se contamina a gestão da dívida pública e se desviam recursos correntes das áreas sociais previstas no orçamento anual", analisa, lembrando que os contingenciamentos no Orçamento, como o último, de R$ 55 bilhões, decidido na última semana, vêm ocorrendo desde o início do Plano Real.
Bolsa Banqueiro
Já Conceição, sublinha que o BC sempre pode definir a taxa de juro de títulos definidos em reais, sejam eles os de curto prazo, usados para fins de combate á inflação, sejam de prazo mais longo: "Basta que compre e venda os títulos ao preço definido. Os ditames do mercado no que se refere ao juro pago sobre dívida pública são possíveis apenas porque o BC tende a não interferir na ponta longa da curva de juros. Deveríamos deixar de lado a preocupação com a gestão da divida publica em si e focar nos efeitos econômicos de dados níveis de gasto (que incluem pagamentos de juros) e estratégias de gestão monetária", defende.
"Também não tenho nenhuma simpatia pelas "bolsas-banqueiro" inventadas pelo BC. Mas insisto que o governo deve deixar de administrar suas finanças a partir de uma visão meramente contábil, que só faria sentido em regime de padrão ouro", frisa.
Para ele, a prioridade seria defender que o governo "deixe de olhar para a dívida pública como um fim em si mesma e passe a preocupar-se com os efeitos econômicos deste nível de dívida, dos juros pagos sobre ela (que fazem parte do volume de pagamentos para a sociedade e têm efeito distributivo perverso). E, principalmente, que não sacrifique gastos importantes simplesmente porque a divida está maior que o que o "mercado" gostaria de ver. Enquanto o real for a obrigação nominal de uma entidade pública (nosso BC), nosso governo poderá manter qualquer nível de dívida e pagar o juro que quiser sobre ela", salienta.
Geopolítica da desregulamentação
Medeiros, no entanto, observa que há uma "geopolítica das finanças desreguladas", que não pode ser desconsiderada: "A relação dívida/PIB japonesa é de mais de 200% e sua taxa básica de juro é atualmente de 0,1% ao ano e seus títulos de dez anos pagam cupom de 1% ao ano. Mas os japoneses devem em moeda nacional, iene. O problema é que estão presos a uma armadilha da liquidez."
Conceição, no entanto, frisa que o caso japonês confirma seu argumento: que dívidas elevadas não produzem, necessariamente, juros altos e que a administração da demanda agregada deve ser realizada principalmente através de política fiscal: "A divida é enorme no Japão e ninguém lá está preocupado com calote e exigindo juros mais altos para comprar o título", compara.
Oliveira, por sua vez, concorda que não se deve tratar o endividamento público pelo mero aspecto contábil: "Mas, qual o lastro das dívidas monumentais e das bolhas financeiras?", indaga.
E acrescenta que a crença de que quem emprestou receberá de volta algo mais, fruto não de aumentos de produtividade na economia real, mas de mera especulação, faz com que, de tempos em tempos, as pessoas fiquem com medo e corram para converter parte dessas "abstrações contábeis" em algo real, tangível (imóveis rurais e urbanos, empresas etc), "antes que seus papéis virem pó".
Conceição concorda: "Esse debate recorre à questão da natureza monetária do capitalismo, no âmbito do marxismo e do reconhecimento da natureza creditícia da moeda. Na verdade, no capitalismo não é o produto real que oferece lastro para a moeda, mas a moeda que proporciona valor ao produto real."
O professor da Universidade do Missouri
Para o especialista, "enquanto o real for a obrigação nominal de uma entidade publica (nosso Banco Central), nosso governo poderá manter qualquer nível de divida e pagar o juro que quiser sobre ela", defende.
A agência de classificação de risco Fitch Ratings cortou nesta quarta-feira a nota atribuída à dívida de longo prazo da Grécia em moeda local e estrangeira em dois degraus, de "CCC" para "C". O rating de curto prazo em moeda estrangeira foi reafirmado em "C".
"O rebaixamento segue o comunicado de ontem do Eurogroup sobre um segundo programa de financiamento para a Grécia incluindo o envolvimento do setor privado e o subsequente anúncio das autoridades gregas sobre os termos da proposta de troca de bônus", apontou a Fitch em comunicado.
"A Fitch considera que a proposta para reduzir o endividamento público da Grécia via troca de dívida com os credores privados irá, se concluída, constituir um default no rating e levar a nota do país a ser rebaixada para ´default restritivo'."
Assim que o processo de troca de dívida for concluído com a emissão de novos títulos, o rating soberano da Grécia será retirado dessa categoria e "reavaliado em um nível consistente com a avaliação da agência sobre seu perfil de crédito e estrutura pós-default", acrescentou a Fitch.
A agência também reafirmou o teto soberano da zona do euro em "AAA", o que se aplica a todos os países do bloco.
Com agências

Maria Inês Nassif, na Carta Maior
Embora a história recente aponte que sim, não existe nenhuma normalidade no fato de o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), optar por fechar uma aliança com o ex-prefeito, ex-governador e ex-candidato a presidente da República tucano José Serra. Ao contrário, essa decisão, do ponto de vista político, é um ponto fora da curva.
Em primeiro lugar, porque simplesmente contraria a tática de sobrevivência do recém-criado Partido Social Democrata (PSD). Inicialmente imaginado por Kassab como um “plano B” para Serra, que havia deixado muitas sequelas no PSDB no período eleitoral do ano passado e praticamente inviabilizado um acordo futuro com o DEM, o novo partido acabou instrumentalizado pelos integrantes do ex-PFL que tentavam um caminho menos humilhante de adesão ao governo petista.
O diagnóstico da grande maioria dos demistas que afluíram ao PSD é que eles não teriam condições de sobrevivência no governo; o entendimento de boa parte deles é o de que Serra, não apenas pela derrota eleitoral sofrida para a candidata do PT, Dilma Rousseff, mas principalmente por sua capacidade desagregadora, havia comprometido seriamente as chances de uma oposição já enfraquecida por três derrotas sucessivas na disputa presidencial.
Não foram os aderentes ao PSD que tiveram de se adaptar às razões de Kassab, mas o prefeito que foi obrigado a se adequar ao perfil que o partido assumia. O PSD acabou se tornando “o partido de Kassab” porque, no momento, ele é o seu mais visível integrante, na qualidade de prefeito da maior capital do país. Em janeiro, perde o mandato. E tem grandes chances de perder a eleição deste ano se apoiar a candidatura de José Serra à prefeitura. Até lá, outros pessedistas podem ter ganhado lugar ao sol com as alianças que fizeram, Brasil afora, com os partidos da base governista de Dilma.
São Paulo volta a ser um problema para os ex-integrantes do PFL, que só conseguiram um lugar ao sol no Estado no curto período de duas alianças vitoriosas com José Serra para a prefeitura da capital. Kassab passa a mesma importância que tinha no PFL antes de ser vice de Serra nas eleições de 2004 para o PSD nacional, ou seja, muito pouca.
Nas eleições de 2004, Kassab foi vice de Serra; assumiu a prefeitura quando o tucano deixou o cargo para candidatar-se ao governo do Estado, em 2008. Em 2010, Kassab apenas conseguiu a vitória porque teve o apoio de Serra, que então era não apenas hegemônico no seu partido, mas tinha a máquina estadual nas mãos e enorme simpatia da classe média conservadora paulistana. Serra abandonou o candidato de seu partido, Geraldo Alckmin, às moscas, e subiu no palanque de Kassab. Era o projeto de ter novamente o PFL em seu palanque nas eleições presidenciais do ano passado. Alckmin, contrariando a tradição do PSDB na capital, sequer chegou ao segundo turno. Quem polarizou com o PT foi Kassab, a cria de Serra. Mas Alckmin manteve a sua força no interior do Estado, o que fez dele o governador quando Serra deixou o Palácio dos Bandeirantes para se candidatar à Presidência.
Ter Serra no palanque para a prefeitura, em 2008, valeria a lealdade de Kassab, mas muita água rolou por baixo da ponte. A sua lealdade passou a ser um alto risco político. Se Serra perder (o que é altamente provável) a eleição para a capital, Kassab se enterra junto com ele, se indispõe com o PT local (que a contragosto baixou seu antikassabismo enquanto o PSD era uma possibilidade de quebrar a hegemonia tucana no Estado) e perde a liderança nacional do novo partido, que se joga nos braços dos aliados a Dilma Rousseff no resto do país. Qualquer acordo que fizer com Serra em relação às eleições de 2014 irá pelo ralo em caso de derrota. Dificilmente Alckmin considerará pagar essa conta – por absoluta desobrigação de ser leal a Serra ou a Kassab, e também por uma vocação bastante aproximada à de Serra ao rancor. Dois tucanos bicudos não se bicam.
(*) Colunista política, editora da Carta Maior em São Paulo.

Gilson Caroni Filho, na Carta Maior
Ao negar as acusações da presidente Cristina Kirchner de que esteja militarizando o Atlântico Sul e rejeitar qualquer solução negociada sobre a soberania das ilhas Malvinas, o governo do premiê David Cameron comprou uma briga complicadíssima, impossível de ser vencida: com seu próprio passado que combinou, com perfeição, a intransigência, o garrote e a libra
A diplomacia britânica ainda conserva desconcertantes sutilezas herdadas do seu passado imperial. Sofismas e negação de evidências são a marca registrada quando se trata de ocultar velhos métodos. No transcurso de dois séculos, os ingleses usaram e abusaram da ingerência política, econômica, diplomática e militar. Possivelmente, mesmo depois do declínio, ainda conservem o modus operandi.
Para alcançar seus objetivos, os sucessivos governos de Sua Majestade recorreram a invasões, guerras, à desestabilização interna e ao acirramento de conflitos regionais para assegurar sua supremacia em regiões colonizadas. Também, em diferentes épocas, contaram com diversos aliados: presidentes, ministros, chanceleres, generais, banqueiros e mercenários de toda ordem.
Voltemos à guerra de 1982. Quatro anos antes, em 1978, Chile e Argentina estiveram a ponto de entrar em guerra pelo litígio do Canal de Beagle. Ao serem desatadas as hostilidades pelas Malvinas, o governo de Santiago recusou a aliar-se aos seus vizinhos como fez o resto da América Latina, opôs-se à convocação do Tiar (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca) e absteve-se em todas as votações que condenaram a agressão britânica e o apoio norte-americano. A posição chilena favorecia o Reino Unido e, contudo, os ingleses colocaram o parceiro em evidência, expondo-o a consequências desagradáveis.
Foi a própria mídia estatal inglesa a encarregada de revelar o papel determinante do Chile para a inteligência britânica que teria instalado naquele país um sistema de espionagem eletrônica das bases argentinas em Ushuaia, Rio Grande e Rio Gallego.
Não, não houve qualquer trapalhada diplomática. Essas declarações de "gratidão" não obedeceram aos bons modos britânicos, mas sim à sua prática constante de dividir para reinar, fomentando a ressurreição de antigos eixos geopolíticos, pelos quais cada país se considera inimigo de seu vizinho, em proveito do inimigo de todos eles que costuma ser também o abastecedor de armas. Um cenário felizmente superado na região.
Quando negam as intenções militares, os ingleses parecem ter esquecido que, em 1985, a Argentina protestou energicamente perante a OEA contra uma base aérea no arquipélago. O então ministro das Relações Exteriores, Dante Caputto, garantiu que a conversão das Malvinas numa poderosa base militar constituía "uma grave ameaça à segurança de nossa nação, à paz e à tranquilidade do nosso continente e, por conseguinte, à paz e à tranquilidade no mundo".
O comunicado da Secretaria de Exterior britânica, afirmando que cabe aos Kelpers (como são chamados os habitantes das ilhas) decidirem seu próprio destino (“Eles escolheram a cidadania britânica, têm liberdade para determinar seu futuro e não haverá negociações com a Argentina a não ser que eles assim desejem”), prima pelo sofisma e pela jactância imperial.
Como recorda o historiador Dino Freitas "no século XVII, Oliver Cromwell esmagou a rebelião irlandesa usando tropas escocesas, e colonizou o norte da Irlanda com essas forças, que se ambientaram à região do Ulster, dando origem às raízes do atual conflito anglo-irlandês. Os chamados protestantes irlandeses, de irlandeses não tem quase nada. Com o estabelecimento de uma população de colonos britânicos no Atlântico Sul, os ingleses aplicam a mesma estratégia. Introduzem uma população fanática e cegamente leal para defender seus interesses, já que nunca desejarão ser argentinos".
È previsível saber os futuros desejos dos Kelpers. Cameron, como um pugilista desonesto, procura meter o dedo no olho inchado de seu rival. Se no século retrasado, isso serviu para dominar os mares e o comércio - explorar os recursos naturais e amarrar os povos periféricos na roda dos juros compostos de seus créditos que nunca terminavam de se pagar - hoje os ingleses buscam, além do petróleo, conservar os remanescentes daquele esplendor, alimentando sua moderna indústria bélica e agregando valor a vários setores de sua combalida economia. À América Latina não cabe outra posição que não seja de irrestrito apoio às reivindicações do governo de Cristina Kirchner
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

Mauro Santayana, na Carta Maior
Reconheça-se que a decisão do STF, na aprovação da Lei da Ficha Limpa, tal como ela foi concebida, foi tomada sob a pressão da cidadania. Essa pressão, ao contrário do que pensam os juristas puros, leitores apressados de Kelsen e outros, é sempre legítima - se moderada pela prudência. Quando houver o abuso nas decisões colegiadas de segunda instância, cabe aos tribunais superiores zelar pela proteção dos cidadãos contra as eventuais intrigas e chicanas.
A política é a mais necessária e a mais difícil das atividades humanas. Ela se exerce em todos os atos da vida, porque se trata de contratos cotidianos, de negociações mais difíceis e menos difíceis, sem as quais não seria possível a vida em comum. Esses convênios se dilatam no tempo e em suas dimensões e conseqüências, na construção dos estados e na administração do bem comum. Ao longo da História, houve sempre o conflito entre a astúcia na luta pelo poder e a necessidade de que ele seja exercido por homens honrados. O grande problema é que, na imensa maioria dos casos, os homens honrados se sentem inibidos em reivindicar o poder político. Essa inibição abre espaço aos demagogos e aos aventureiros.
Daí a explicação de Disraeli para a solidez da Inglaterra, em seu tempo. Ali, dizia o Lord de Beaconsfield, aos homens de bem não faltava a audácia, um atributo normal dos canalhas. Não teem faltado, mesmo entre nós, homens de bem ousados, na defesa da República, e, graças a eles, a nação vem sendo construída. Afinal, toda edificação de uma nacionalidade pode ser definida como uma revolução permanente. E como Danton definia as revoluções, para elas il faut d’audace, et encore d’audace, et toujours d’audace.
O ponto de gravidade dos debates foi o do direito de defesa. No ordenamento jurídico brasileiro é possível a um réu provido de dinheiro e, dessa forma, de numerosos e competentes advogados, postergar a sua punição ad-aeternum. Como sabemos, há, tramitando pelos tribunais, processos iniciados quando muitos dos atuais ministros do STF ainda não haviam nascido. Os autores e réus morrem, mas os processos parecem destinados ao juízo final. Quando os réus são pobres, a justiça tampouco é célere. Os advogados de defesa, de um modo geral – há sempre exceções – sejam contratados, ou de ofício, cumprem as formalidades e deixam o processo caminhar normalmente. Amontoam-se, nos cárceres, presos esquecidos, sem julgamento, e até mesmo de pena cumprida, esperando pelo alvará que os liberte. É preciso encontrar um limite para as apelações e embargos que vão impedindo que a justiça se faça, na absolvição e na punição, conforme o caso.
É certo que temos, no Brasil, mais advogados do que necessitamos. Sendo assim, é quase natural que se multipliquem os pleitos, e que se dilatem as decisões. Os códigos, com seus prazos e delongas, são redigidos por advogados. Explica-se, dessa forma, o volume espantoso de processos que sobem da primeira instância até o STF, com causas que deveriam encerrar-se na comarca em que se iniciaram.
O direito foi protegido, ao só serem considerados inelegíveis aqueles que tiverem sido condenados por uma decisão plural, seja no Tribunal do Júri, seja nos tribunais de segunda instância - e, como é do bom senso, os que renunciaram aos mandatos a fim de esquivar-se de um processo político movido pelos seus pares.
Não estaremos, é certo, protegidos totalmente contra a corrupção e outros abusos da prática política. Há sempre meios de burlar as normas da lei. Mas já é um bom começo. Teremos, os cidadãos, que nos preparar para substituir alguns dos homens públicos em quem votávamos, fosse por desconhecer seus desvios, fosse por perdoá-los, em nome de nossos próprios sentimentos. Estamos, a partir de 1985, com avanços e recuos, nos livrando das oligarquias, e o processo deve continuar. A decisão do STF é talvez o passo mais importante nesse caminho.
Assim faremos, com o tempo, a pátria que merecemos.
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

Noam Chosmky - Al Jazeera, na Carta Maior
Aniversários significativos são comemorados solenemente – o do ataque japonês à base da Marinha norteamericana de Pearl Harbor, por exemplo. Outros são ignorados, e podemos sempre aprender importantes lições que eles nos dão de como é possível seguir mentindo adiante. Na verdade, agora.
No momento, estamos errando em não comemorar o 50° aniversário da decisão do presidente John F Kennedy de promover a mais assassina e destrutiva agressão do período pós-Segunda Guerra: a invasão do Vietnã do Sul, e depois de toda a Indochina, deixando milhões de mortos e quatro países devastados, com perdas ainda crescentes causadas pela exposição do país aos carcinogênicos mais letais de que se tem conhecimento, que comprometeram a cobertura vegetal e a produção de alimentos.
O primeiro alvo foi o Vietnã do Sul. A agressão depois se espalhou para o Norte, e então para a sociedade remota do nordeste do Laos, até finalmente chegar ao rural Camboja, que foi bombardeado de tal maneira que chegou ao nível impressionante de ser alvo de todas as operações aéreas aliadas da região do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo as duas bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki. Aí, as ordens de Henri Kissinger estavam sendo obedecidas – “qualquer coisa que voe ou se mova”; uma rara convocação para o genocídio na história.
Pouco disso tudo é lembrado. A maior parte desses massacres é escassamente conhecida para além dos estreitos círculos de ativistas.
Quando a invasão teve início, há cinquenta anos, a preocupação era tão pouca que havia poucos esforços de justificação; dificilmente iam além do impassível apelo do presidente de que “estamos nos opondo, ao redor do mundo, a uma conspiração monolítica e brutal que opera principalmente em meios disfarçados de expansão de sua esfera de influência” e se a conspiração consegue realizar seus objetivos no Laos e no Vietnã, “os portões estarão amplamente abertos".
Em outro lugar, ele alertou em seguida que “as sociedades leves, complacentes e autoindulgentes estavam para ser varridas para os escombros da história [e] só a força... pode sobreviver”, neste caso refletindo a respeito do fracasso da agressão e do terror estadunidenses em esmagar a independência cubana.
Quando os protestos começaram a crescer, meia dúzia de anos depois, o respeitado historiador militar e especialista em Vietnã Bernard Fall, nenhum pacifista, previu que “o Vietnã como uma entidade histórica e cultural...está ameaçada de extinção...[enquanto]...a sua área rural literalmente morre sob as explosões da maior máquina militar jamais em operação numa área deste tamanho”. Ele estava, mais uma vez, referindo-se ao Vietnã do Sul.
Quando a guerra acabou oito horrendos anos depois, a opinião dominante estava dividida entre aqueles que a descreviam como uma “causa nobre” que poderia ter sido vencida com mais dedicação e o extremo oposto, os críticos, para quem se tratou de “um erro” que se provou altamente custoso. Por volta de 1977, o Presidente Carter chamou pouca atenção quando explicou que “não havia dívida” nossa com o Vietnã porque “a destruição foi mútua”.
Há lições importantes em tudo isso para hoje, mesmo deixando de lado os fracos e derrotados que são chamados para responder por seus crimes. Uma lição é que para entender o que está acontecendo devemos buscar não apenas criticar os acontecimentos no mundo real, frequentemente dispensados pela história, mas também aquilo em que os líderes e a opinião da elite acreditam, mesmo que com tintas de fantasia. Uma outra lição é que, ao lado dos frutos da imaginação fabricados para aterrorizar e mobilizar o público (e talvez acreditados por aqueles enganados pela própria retórica), há também planejamento geoestratégico baseado em princípios que são racionais e estáveis em longos períodos, porque estão enraizados em instituições estáveis e na agenda destas. Isso também é verdade no caso do Vietnã. Eu voltarei a isso, só destacando aqui que os elementos persistentes na ação estatal são geralmente bastante opacos.
A guerra do Iraque é um caso instrutivo. Ela foi vendida para um público aterrorizado com as ameaças usuais da autodefesa contra uma formidável ameaça à sobrevivência: a “única questão” que George W. Bush e Tony Blair declararam foi se Saddam Hussein iria encerrar o seu programa de desenvolvimento de armas de destruição em massa. Quando a única questão recebeu a resposta errada, a retórica do governo mudou rapidamente para o nosso “anseio por democracia”, e a opinião pública educada seguiu devidamente o curso; o de sempre.
Mais tarde, à medida que a escalada da derrota no Iraque se tornou difícil de esconder, o governo quietamente concedeu o que estava claro para todo mundo. Em 2007-2008, a administração anunciou oficialmente que um acordo final deve assegurar a permanência de bases militares dos EUA e o direito de operações de combate, no país, e deve privilegiar os investidores estadunidenses na exploração de seu rico sistema energético – demandas que mais tarde foram relutantemente abandonadas diante da resistência iraquiana. E tudo ficou bastante escondido da maioria das pessoas.
Padronizando o declínio americano
Com essas lições em mente é útil dar uma olhada ao que é destacado na manchete dos maiores jornais de política e opinião, hoje. Peguemos a mais prestigiada das publicações do establishment, Foreign Affairs. A manchete estrondosa da capa de dezembro de 2011 estampava em negrito: “A América acabou?”.
O artigo da capa pedia “corte de gastos” nas “missões humanitárias” no exterior, que estavam consumindo a riqueza do país, para impedir o declínio americano, que é o maior tema nos discursos do ambiente de negócios, que frequentemente vem acompanhado do corolário de que o poder está mudando para o Leste, para a China e (talvez) a Índia.
Agora os principais artigos são a respeito de Israel e Palestina. O primeiro, de autoria de dois altos oficiais israelenses, é intitulado “O Problema é a Rejeição Palestina”: o conflito não pode ser resolvido porque os palestinos se recusam a reconhecer Israel como Estado Judeu – então em conformidade com a prática diplomática padrão: estados são reconhecidos, mas não seus setores privilegiados. A demanda é dificilmente outra coisa que um novo dispositivo para deter a ameaça de solução política para os assentamentos ilegais que minaria os objetivos expansionistas israelenses.
A posição oposta é defendida por um professor estadunidense tem o título “O Problema é a Ocupação”. No subtítulo se lê: “Como a Ocupação está Destruindo a Nação”. Qual nação? A de Israel é claro. Ambos os artigos aparecem com o título, em cache: “Israel sitiado”.
A edição de janeiro de 2012 lança ainda um outro chamamento para o bombardeio do Irã, agora, antes que seja tarde demais. Alertando contra “os perigos da dissuasão”, o autor sugere que “céticos com relação à ação militar falham em avaliar o verdadeiro perigo que um Irã com armas nucleares imporia aos interesses dos EUA no Oriente Médio e além. E em suas previsões sombrias imaginam que a cura pode ser pior do que a doença – quer dizer, que as consequências de um ataque estadunidense ao Irã seriam tão ruins ou piores do que se o país conseguisse levar a cabo suas ambições nucleares. Mas essa é uma suposição falsa. A verdade é que um ataque militar visando a destruir o programa nuclear iraniano, se for feito com cuidado, poderia significar para a região e para o mundo uma ameaça muito real e melhorar dramaticamente a segurança nacional dos Estados Unidos no longo prazo”.
Outros argumentam que os custos seriam altos demais e no limite alguns chegam a dizer que um ataque [ao Irã] violaria o direito internacional – como o fazem os moderados, que regularmente lançam ameaças de violência, em violação à Carta das Nações Unidas.
Vamos rever cada uma dessas preocupações dominantes
O declínio americano é real, embora a visão apocalíptica reflita a percepção bastante familiar da classe dominante de que algum controle menor ou total implica o desastre total. A despeito desses lamentos piedosos, os EUA persevera como poder dominante mundial por larga margem, e não há competidores à vista, não apenas em dimensões militares, a respeito das quais os EUA reina supremo.
A China e a Índia registraram crescimento rápido (embora altamente desigual), mas permanecem países muito pobres, com problemas internos enormes não enfrentados pelo Ocidente. A China é o maior centro industrial do mundo, mas majoritariamente como uma linha de montagem para as potências industriais avançadas, em sua periferia, e para as multinacionais ocidentais. É provável que isso mude com o tempo. A indústria em regra provê as bases para a inovação e a invenção, como vem ocorrendo às vezes, na China. Um exemplo que impressionou os especialistas ocidentais foi a tomada chinesa da liderança no mercado crescente de painéis solares, não apenas com base na mão de obra barata, mas no planejamento coordenado e, crescentemente, na inovação.
Mas os problemas que a China enfrenta são sérios. Alguns são demográficos, reportados na Science, o líder dos semanários estadunidenses de divulgação científica. O estudo mostra que a mortalidade caiu bruscamente na China durante os anos maoístas, “principalmente um resultado do desenvolvimento econômico e das melhorias nos serviços educacionais e de saúde, especialmente ao movimento de higiene pública que resultou num golpe drástico à mortalidade por doenças infecciosas”. Esse progresso acabou com o início das reformas capitalistas no país, há 30 anos, e a taxa de mortalidade desde então tem aumentado.
Além disso, o crescimento econômico chinês recente contou substancialmente com um “bônus demográfico”, uma grande população em idade economicamente ativa. “Mas a janela para o uso desse bônus pode fechar logo”, com um “impacto profundo no desenvolvimento”: “o excesso de mão de obra barata, que é um dos maiores fatores de condução do milagre econômico chinês não estará mais disponível”. A demografia é apenas um dos muitos problemas sérios pela frente. No que concerne a Índia, os problemas são ainda mais graves.
Nem todas as vozes proeminentes anteveem o declínio americano. Na mídia internacional, não há nada mais sério e respeitável que o Financial Times. O jornal recentemente dedicou uma página inteira às expectativas otimistas de que nova tecnologia para extrair combustível fóssil norteamericano pode fazer com que os EUA se torne energeticamente independente, mantendo portanto sua hegemonia por um século. Não há menção ao tipo de mundo que os EUA comandará nesse acontecimento feliz, mas não por falta de evidência.
Quase ao mesmo tempo, a Agência Internacional de Energia reportou que, com o aumento rápido das emissões de carbono dos combustíveis fósseis, o limite de uso seguro será atingido por volta de 2017, se o mundo continuar no atual curso. “A porta está fechando”, disse o economista-chefe da AIE, e em muito breve “fechará de vez”.
Pouco antes, o Departamento de Energia dos EUA informou que as imagens mais recentes das emissões de dióxido de carbono, com “a elevação para o maior índice já registrado”, chegaram num nível mais elevado do que os piores cenários antecipados pelo Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC). Isso não é surpresa para muitos cientistas, inclusive os do programa do MIT para mudança climática, que por anos alertou que os prognósticos do IPCC eram conservadores demais.
Esses críticos das previsões do IPCC receberam virtualmente atenção pública nenhuma, ao contrário dos grupos denegadores do aquecimento global, que são apoiados pelo setor corporativo, juntamente a imensas campanhas de propaganda que tem levado os americanos para fora do espectro internacional dessas ameaças. O apoio das corporações também se traduz diretamente no poder político. A denegação é parte do catecismo que deve ser entoado pelos candidatos republicanos na ridícula campanha eleitoral em curso, e no Congresso eles são poderosos o suficiente para abortar até investigações sobre o efeito do aquecimento global, deixando de lado qualquer ação séria a respeito. Numa palavra, o declínio americano pode talvez ser interditado se abandonarmos a esperança pela sobrevivência decente, prognóstico também bastante real, dado o equilíbrio de forças no mundo.
“Perdendo” a China e o Vietnã
Deixando de lado essas coisas desagradáveis, um olhar de perto para o declínio americano mostra que a China na verdade joga um grande papel nele, tanto como o jogava há 60 anos. O declínio que agora gera tanta preocupação não é um fenômeno recente. Ele remonta ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA tinha metade da riqueza do mundo e dispunha de níveis globais de segurança incomparáveis. Os estrategistas políticos estavam naturalmente bastante conscientes dessa enorme disparidade de poder e pretendiam mante-la assim.
O ponto de vista básico foi apresentado com admirável franqueza numgrande documento de 1948. O autor era um dos arquitetos da Nova Ordem Mundial da época, o representante da equipe de Planejamento Político do Departamento de Estado dos EUA, o respeitado estadista e acadêmico George Kennan, um pacifista moderado, dentre os estrategistas. Ele observou que o objetivo político central era manter a “posição de disparidade” que separava a nossa enorme riqueza da pobreza dos outros. Para alcançar esse objetivo, advertiu, “nós deveríamos para de falar de objetivos vagos e... irreais, como direitos humanos, a elevação do padrão de vida e a democratização”, e devemos “lidar com conceitos estritos de poder”, não “limitados por slogans idealistas” a respeito de “altruísmo e o benefício do mundo”.
Kennan estava se referindo especificamente à Ásia, mas as observações dele se generalizam, com exceções, aos participantes do atual sistema de dominação global dos EUA. Ficou bastante claro que os “slogans idealistas” deveriam ser apresentados sobretudo quando dirigidos aos outros, inclusive às classes intelectualizadas, das quais se esperava que os disseminassem.
O plano de Kennan ajudou a formular e a implementar a tomada de controle dos EUA do Hemisfério Oeste, do Extremo Leste e das regiões do ex-império britânico (incluindo os incomparáveis recursos energéticos do Oriente Médio), e o quanto foi possível da Eurásia, sobretudo seus centros comerciais e industriais. Esses não eram objetivos irreais, dada a distribuição do poder. Mas o declínio foi então definido de vez.
Em 1949, a China declarou independência, um evento conhecido no discurso do Ocidente como “a perda da China” – nos EUA, com algumas recriminações amarguradas e o conflito interpretativo a respeito de quem tinha sido o responsável por essa perda. A terminologia é reveladora. Só é possível perder o que em algum momento se teve. A assunção tácita era que os EUA tinham a China, por direito, juntamente à maior parte do resto do mundo, tanto como os estrategistas do pós-guerra pensavam.
A “perda da China” foi o primeiro grande passo do “declínio americano”. Foi o que teve grandes consequências políticas. Uma delas foi a decisão imediata de apoiar o esforço francês de reconquista da sua ex-colônia da Indochina, para que esta também não fosse “perdida”.
A Indochina mesma não era motivo de preocupação maior, a despeito das afirmações de suas riquezas naturais por parte do presidente Eisenhower e outros. A preocupação maior era antes com a “teoria do efeito dominó”, a qual é frequentemente ridicularizada quando os dominós não caem, mas permanece um princípio regulador da política, porque é bastante racional. Para adotar a versão Henri Kissinger dele, uma localidade que cai fora do controle pode se tornar um “vírus” que irá “contagiar”, induzindo outros a seguirem o mesmo caminho.
No caso do Vietnã, a preocupação era que esse vírus do desenvolvimento independente pudesse infectar a Indonésia, que de fato é rica em recursos. E isso pode levar o Japão – o “superdominó”, como o proeminente historiador da Ásia John Dower chamava – a “acomodar” uma Ásia independente como seu centro tecnológico e industrial num sistema que escaparia do alcance do poder dos EUA. Isso significaria, com efeito, que o EUA tinha perdido a fase Pacífico da Segunda Guerra, na qual lutou para tentar impedir que o Japão estabelecesse uma Nova Ordem na Ásia.
O modo de lidar com um problema desse é claro: destruir o vírus e “inocular” aqueles que podem ser infectados. No caso do Vietnã, a escolha racional era destruir qualquer esperança de desenvolvimento independente bem sucedido e impor ditaduras brutais nos arredores. Essas tarefas foram levadas a cabo com sucesso – embora a história tenha sua própria astúcia, e algo similar ao que foi temido desde então tenha se desenvolvido no Leste da Ásia, a maior parte para consternação de Washington.
A vitória mais importante das guerras da Indochina deu-se em 1965, quando um golpe de estado militar, com o apoio dos EUA, liderado pelo general Suharto significou crimes massivos comparados pela CIA aos de Hitler, Stalin e Mao. A “assombrosa matança massiva”, como descreveu o New York Times, foi acuradamente reportada nos meios dominantes, e com euforia desenfreada.
Foi um “brilho de luz na Ásia”, como observou o comentarista liberal James Reston, no Times. O golpe encerrou as ameaças à demoracia ao demolir o partido político de massas, dos pobres, estabelecendo uma ditadura que registrou as piores violações aos direitos humanos no mundo, e deixou as riquezas do país abertas aos investidores ocidentais. Poucos questionaram que depois de tantos horrores, inclusive a quase genocida invasão do Timor Leste, Suharto ter sido bem recebido pela administração Clinton, em 1995, como “nosso tipo de cara”.
Anos após os grandes eventos de 1965, o Conselheiro para Assuntos de Segurança Nacional de Kennedy e Johnson, McGeorge Bundy refleteria que teria sido sensato acabar com a guerra do Vietnã a tempo, com o “vírus” virtualmente destruído e, o principal, o dominó solidamente no lugar, no esteio de outras ditaduras apoiadas pelos EUA pela região.
Procedimentos similares são rotineiramente seguidos em outros lugares. Kisssinger estava se referindo especificamente à ameaça da democracia socialista no Chile. Essa ameaça acabou em outra data esquecida, que os latino-americanos chamam de “O Primeiro 11 de Setembro”, que em violência e efeitos nefastos excedeu em muito o 11 de Setembro comemorado no Ocidente. Uma ditadura viciosa foi imposta ao Chile, como uma parte da praga de repressão brutal que se espalhou pela América Latina, chegando até a América Central, nos anos Reagan.
Esse vírus tem gerado preocupações profundas aqui e ali, inclusive no Oriente Médio, onde a ameaça de um nacionalismo secular tem consternado os estrategistas britânicos e estadunidenses, induzindo-os a apoiar o fundamentalismo islâmico a opor-se a isso.
A concentração da riqueza e o declínio americano
Mesmo com essas vitórias, o declínio americano continuou. Por volta de 1970, a parte da riqueza do mundo dos EUA saltou para 25%, basicamente onde está hoje, concentração ainda colossal, mas bastante inferior àquela de fins da Segunda Guerra. Nessa época, o mundo industrial era “tripolar”: a base norte americana, dos EUA, a europeia, da Alemanha, e a do Leste da Ásia, já a região industrial mais dinâmica, naquele tempo com base no Japão, mas hoje incluindo as ex-colônias japonesas de Taiwan e o Sul da Coreia, e mais recentemente a China.
Nesse período o declínio americano entrou numa nova fase: a do declínio autoinfligido. Desde os anos 70 tem havido mudanças significativas na economia dos EUA, à medida que estrategistas, estatais e do setor privado, passaram a conduzi-la para a financeirização e à exportação de plantas industriais, levada a cabo em parte pelo declínio da taxa de lucro na indústria doméstica. Essas decisões deram início ao círculo vicioso no qual a riqueza se tornou altamente concentrada (dramaticamente nos 0,1% da população), levou à concentração de poder político, e então a uma legislação que o levou adiante, no que concerne à tributação e outras políticas fiscais, à desregulação, às mudança nas regras da administração corporativa - o que permitiu imensos ganhos para os executivos - e por aí vai.
Enquanto isso, para a maioria, os salários reais foram majoritariamente estagnados e ao povo só restou aumentar a carga de trabalho (muito além da europeia), a dívida insustentável e as repetidas bolhas, desde os anos Reagan; criando riquezas de papel que desapareceram inevitavelmente quando a bolha estourou (e os perpretadores foram resgatados pelos contribuintes). Em paralelo a isso, o sistema político foi cada vez mais fragmentado, enquanto ambos os partidos mergulharam cada vez mais nos bolsos das corporações, com a escalada do custo das eleições (os republicanos ao nível do absurdo e os democratas – agora majoritariamente os “ex-republicanos moderados” – não ficaram muito atrás).
Um estudo recente do Instituto de Política Econômica, que tem sido a maior fonte de dados respeitáveis sobre o desenvolvimento, intitula-se Failure by Design [no contexto, algo como Fracasso por Ecomenda]. A frase “by design” é acurada. Outras escolhas eram certamente possíveis. E como mostra o estudo, o “fracasso” tem um corte de classe. Não há fracasso para os “designers”. Longe disso. Antes, as políticas fracassaram para a imensa maioria, os 99% na imagem dos movimentos Occupy – e para o país, que tem declinado e irá continuar a fazê-lo, sob essas políticas.
Um fator que o explica é a transferência das plantas industriais. Como ilustra o exemplo do painel solar, mencionado acima, a industrialização tem a capacidade de promover as bases e o estímulo para a inovação, levando a estágios mais avançados de sofisticação na produção, no design e na invenção. Isso, também, está sendo terceirizado, o que não é um problema para os “mandarins do dinheiro”, que cada vez mais mandam na política, mas é um sério problema para o povo trabalhador e as classes médias, e um desastre real para os mais oprimidos, os afroamericanos, que nunca escaparam do legado da escravidão e de sua mais feia consequência, cujamagra riqueza desapareceu virtualmente depois do colapso da bolha imobiliária, em 2008, originando a mais recente crise financeira, a pior até agora.
(*) Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofia do MIT. É o maior linguista do mundo e um dos mais, senão o mais rigoroso e consequente anarquista vivo.
Tradução: Katarina Peixoto
Fonte:
http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2012/02/2012215773268827.html

Eduardo Febbro - De Paris, na Carta Maior
Paris - Guy Fawkes nunca pensou que sobreviveria a tantos séculos, e menos ainda que, mais de quatrocentos anos depois de suas andanças, a máscara que o representa se converteria em pleno século XXI no emblema daqueles que – desde os indignados até os guerreiros digitais do Anonymous, passando por toda a galáxia dos grupos antiglobalização – se opõem ferreamente à ordem de um mundo ultraliberal, depredador e indolente.
Este católico que, no dia 5 de novembro de 1605, quase conseguiu fazer voar pelos ares o Parlamento inglês com 30 quilos de pólvora, com o rei James I dentro, é o rosto oficial da revolta ocidental e, mais precisamente, o distintivo com o qual o grupo de hackers reunido sob a denominação de “Anonymous” se apresenta ao mundo. Suas ações já são parte da resistência permanente contra toda forma de violação de liberdade segundo os critérios com os quais Anonymous a entende.
Presente há vários anos na cena do hacking contestatório, Anonymous ganhou fama quando, em 2010, em plena ofensiva oficial contra o fundador do Wikileaks, Julian Assange, o grupo atacou as empresas multinacionais que tinham se somado ao boicote instrumentalizado pelo governo dos EUA contra todas as fontes de financiamento do Wikileaks: os portais de Amazon, PayPal, Visa, MasterCard e Postfinance, a filial dos serviços financeiros dos correios suíços, foram bloqueados pela operação Payback montada por Anonymous contra essas empresas que, sem ter nenhuma ordem judicial, trataram de impedir que o dinheiro chegasse a Wikileaks.
Era a primeira vez na história que se realizava uma ofensiva dessa magnitude não mais em nome do ciberanarquismo, mas sim em defesa de certa forma de liberdade.
Quem são e de onde vem esses valentes que ousaram penetrar as portas mais protegidas para ferir o coração do sistema? Frédéric Bardeau e Nicoals Danet, os autores de um destacado ensaio sobre Anonymous (“Anonymous: piratas informáticos ou altermundistas digitais?’), descrevem a influência desta galáxia sem hierarquia nem manual de instruções como “um movimento que modifica a relação de formas no interior da sociedade”.
De ação em ação, Anonymous instalou-se na paisagem política mundial e excedeu em muito a herança de seus pais culturais, a saber, toda a cultura contestatória norteamericana dos anos 70 perfeitamente representada por Stephen Wozniak, co-fundador da Apple, e Richard Stallman, o iniciador do projeto GNU.
Anonymous se plasmou em quatro operações muito ousadas. A primeira: os ataques contra a igreja da Cientologia, em 2008. A segunda: a ciberofensiva contra o escritório de advocacia Baylout, defensores dos direitos autorais da indústria do disco e do cinema nos Estados Unidos, e contra o portal da Motion Picture Association of America (MPAA), associação que o Anonymous persegue por suas “políticas excessivas” na proteção dos direitos autorais. Terceira: a intervenção a favor de Assange no que ficou conhecido como o primeiro episódio de uma autêntica guerra da rede. Coldblood, um dos porta-vozes do Anonymous, explicou então que a operação em defesa de Assange estava se convertendo em uma guerra, mas não uma guerra convencional. “É uma guerra de informação digital. Queremos que a internet siga sendo livre e aberta para todo mundo, como sempre foi”. O quarto episódio remonta ao dia 19 de janeiro, logo após o fechamento do site Megaupload e a prisão de seu criador, o multimilionário Kim Schmitz. Lançados dos quatro pontos cardeais do planeta, os ataques orquestrados por Anonymous bloquearam os portais do Ministério da Justiça dos EUA, da Casa Branca, da Warner, da Universal, do FBI, do organismo que supervisiona a internet na França, Hadopi, e a estrutura que administra os direitos de autor, a Sacem. Anonymous conseguiu inclusive penetrar no portal da presidência francesa e modificar as mensagens de boas vindas.
A quinta e última ação ocorreu há apenas alguns dias. Um grupo que se identificou como Anonymous divulgou a gravação de uma “reunião” telefônica entre o FBI e a polícia britânica, na qual se falava de ações contra os ciberativistas. Onde estão para conseguirem se meter nestas conversas tão íntimas? “Em todas as partes”, respondem Frédéric Bardeau e Nicolas Danet, os autores do ensaio sobre Anonymous. Estes dois especialistas observam que os Anonymous não são piratas propriamente, pois não roubam nada. Tampouco são “terroristas”, mas “um fenômeno muito mais vago cujo único fio condutor é a defesa da liberdade de expressão”. Bardeau e Nadet contam que, em certo momento, “a CIA tentou realizar um perfil dos simpatizantes de Anonymous: era tão indefinido que terminava apontando para a metade do planeta”.
Seu lema tornou-se realidade: “somos legião”. Neste sentido, Frédéric Bardeau destaca que os Anonymous não se enquadram em nenhum rótulo. “Não são nem anarquistas, nem sindicalistas revolucionários, nem marxistas. É um movimento pós-moderno, anônimo, planetário, descentralizado. Entre os Anonymous do Brasil, muito fortes e mobilizados contra a corrupção, e os da Áustria e Alemanha, todos antifascistas, não há unidade, mas sim denominadores comuns como a liberdade e a neutralidade da rede”. Diferentemente dos indignados ou de outros movimentos antiglobalização, Anonymous atua a partir do anonimato: não há partido político, nem fórum, nem cúpula, nem manifestação. Sua identidade física é a máscara de um militante católico britânico do século XVI e seus territórios são estes: irc.anonops.li, twitter@AnonOps, @AnonymousIRC, Facebook Anonymous, AnonOps.blogspot.com.
A origem do nome provém dos fóruns anárquicos 4chan. Neste portal norteamericano é fácil inscrever-se e cada participante recebe o pseudônimo de “Anonymous”. Estão em muitos lugares ao mesmo tempo, alguns são hackers aficionados, outros não, universitários, empregados, militantes de uma ou de muitas causas. Anonymous realiza a sua maneira o desejo não confesso de muitos cidadãos do planeta: colocar uma pedra na engrenagem da perfeição ultraliberal, abrir a cortina de sociedades ultrapoliciais que só protegem os interesses do poder. Nicolas Danet comenta que “Anonymous é um pouco como o voo dos pássaros migrantes. Formam uma massa que conhece o objetivo, mas um pássaro pode deixar o grupo a qualquer momento”. Os vídeos de Anonymous já são famosos, tanto pelo conteúdo como pela voz metálica que anuncia: “Somos legião. Não perdoaremos, não esqueceremos. Tenham medo de nós”.
Tradução: Katarina Peixoto
FREI BETTO
Da Folha de S. Paulo
O Brasil está vacinado contra o neoliberalismo, ela nos disse; Dilma teme, porém, que a crise mundial torne agências de risco mais importantes do que o povo
"A senhora, presidenta Dilma, foi corajosa ao escolher participar do Fórum Social Temático de Porto Alegre e não do Fórum Econômico de Davos", disse João Pedro Stédile, do MST, no encontro da presidente com os organizadores do fórum, na capital gaúcha, no fim de janeiro.
Pouco antes, Dilma Rousseff recebeu Leonardo Boff, sua mulher, Márcia Miranda, e a mim.
Boff manifestou ceticismo diante do texto da ONU para a Rio+20, que reunirá na capital carioca, em junho, chefes de Estado e a Cúpula dos Povos, evento da sociedade civil.
O "esboço zero", o texto da ONU, é inconsistente. Ele fala em pobreza, mas evita abordar a desigualdade social. Ele alardeia também a "economia verde". Trata-se de mera falácia para evitar atacar a principal causa da devastação ambiental: o atual modelo predatório de desenvolvimento, baseado na prevalência da riqueza privada sobre os direitos humanos e os direitos da mãe terra.
Às vésperas da viagem da presidente a Cuba -além disso, o papa irá em março ao país-, aproveitei para fazer uma breve análise da conjuntura cubana, que passa por mudanças substanciais.
No encontro da presidente com 70 líderes de movimentos sociais, enfatizou-se o repúdio às mudanças no Código Florestal, aprovadas no Senado. Reivindicaram-se o veto à anistia aos produtores rurais responsáveis por crimes ambientais, a não redução da reserva legal e a exigência de desmatamento zero. Ao responder, Dilma disse que o Código Florestal "não será o dos sonhos dos ruralistas".
Dilma frisou que representa um projeto de governo, iniciado pelo ex-presidente Lula, cujo objetivo é reduzir a desigualdade social e imprimir qualidade aos serviços públicos, em especial à saúde, à educação e à habitação.
Acrescentou que, após o fracasso de governos anteriores e tendo em vista a crise europeia, "o Brasil está vacinado contra o neoliberalismo".
Para a presidente, só foi possível tirar da pobreza 40 milhões de brasileiros nos últimos nove anos graças ao modelo de desenvolvimento sustentável que combina crescimento econômico com distribuição de renda.
Neste momento, enquanto na Europa acontece uma "perda de direitos sociais" e a adoção de ajustes fiscais, declarou Dilma, o Brasil (país para o qual Davos olhou com uma ponta de inveja) adota uma política de subsídios a direitos fundamentais, como o acesso à moradia, e combina transferência de renda com qualificação dos serviços públicos.
Dilma considerou "uma barbárie" a desocupação das 1.700 famílias de Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), e manifestou a esperança de que a Rio+20, sobretudo através da Cúpula dos Povos, apresente à crise global um novo paradigma, "um outro mundo possível".
Alertou ainda que o pós-neoliberalismo não pode coincidir com a pós-democracia. Manifestou, assim, o temor de que medidas tomadas para superar a crise financeira mundial "torne as agências de risco econômico mais importantes do que os povos que elegeram seus governantes".
CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, 67, o Frei Betto, frade dominicano, é escritor, assessor de movimentos sociais e autor de "A Arte de Semear Estrelas" (Rocco)
Delfim Netto, na Folha de S. Paulo
Há uma intrigante questão no ar. Resulta da provocação do Banco Central do Brasil aos analistas do sistema financeiro, alguns dos quais se veem arrogantemente como os portadores da verdadeira ciência econômica.
Cada um deles deve explicitar a sua opinião sobre qual é a taxa de juros neutra que deve balizar as manobras da política monetária de forma a atingir um equilíbrio "ótimo":
1º) Manter o sistema econômico funcionando sempre no seu nível "potencial", um conceito de determinação empírica duvidosa.
2º) Como consequência no mercado de trabalho, todos os que desejam e podem trabalhar com o salário real nele fixado estarão empregados, o que significa que, por construção, não existe desemprego "involuntário".
3º) Permitirá ao Banco Central, com manobras da taxa de juro nominal de curto prazo, manter a taxa de inflação em torno da meta fixada pelo poder incumbente.
Para essa construção, basta que se aceite que a demanda global da economia (o consumo e o investimento) diminui quando aumenta a taxa de juro real (o que parece razoável), e que a oferta global seja o "produto potencial".
Com essas duas condições, deve existir uma taxa de juro real que iguale a demanda total à oferta total. Esta será a taxa "neutra" que o Banco Central levará em conta no estabelecimento da sua taxa básica, a Selic. O problema é que a taxa neutra está longe de ser uma constante. Ela é tão variável quanto a de-manda global!
Trata-se da discussão que nos acompanha há pelo menos duas décadas e para a qual têm contribuído muitos dos mais bem apetrechados economistas brasileiros e estrangeiros, com grossa artilharia econométrica. Infelizmente, sempre produziram resultados mais do que discutíveis. Nas explicações econométricas, só faltou introduzir o "desmatamento da Amazônia" como fator explicativo. Todo o resto já foi tentado.
Nada se sabe de concreto sobre as respostas à consulta do Banco Central. A provocação mais parece um daqueles avisos de que "vovó subiu no telhado". Circulam, porém, entre pessoas normalmente bem informadas, que a "dispersão" das avaliações da taxa de juro real neutra diminuiu e que elas andam agora no imenso intervalo entre 4,5% e 6%!
É de se esperar que o Banco Central tenha pedido aos informantes que explicitem o processo de como chegaram à taxa neutra. Conhecer os modelos e a metodologia das estimativas é uma informação mais rica do que a sua magnitude. A pesquisa pode dar indicações de como o "mercado" supõe que funciona o sistema econômico, de como se criam as "expectativas" e de como ele reage à manipulação da política monetária.

Colombo: governador de Santa Catarina leva o PSD, formado por ex-integrantes do DEM, a coligações com o PT
Do Valor
A possibilidade de coligação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), com o PSDB, numa eventual candidatura do ex-governador José Serra à sua sucessão, não deverá levar a legenda que fundou a uma mudança na política de alianças para as eleições municipais de outubro. Apesar do receio de alas pessedistas de que a associação entre Kassab e Serra marcaria o partido com a pecha de oposicionista, o impacto da candidatura Serra nos arranjos que estão sendo feitos nas 26 capitais é praticamente nulo.
A situação é diferente da verificada quando Kassab abriu negociações com o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para in dicar o vice na chapa do ex-ministro da Educação Fernando Haddad. A iniciativa provocou uma maior inclinação de seções regionais do PSD em direção ao PT, a despeito do histórico de rivalidades locais, como publicado pelo Valor em 24 de janeiro.
Com Serra, de acordo com novo levantamento, o efeito tende a ser residual. E se expressaria mais como uma retaliação de petistas a uma suposta traição ou desfeita de Kassab a Lula. É o caso de Porto Alegre.
Na capital gaúcha, o PSD, liderado pelo deputado federal e ex-goleiro Danrlei, já conversou com as três principais forças: o PT, cujo candidato é o deputado estadual Adão Villaverde; o PCdoB, que lançará a deputada federal Manuela D’Ávila; e o PDT, do prefeito José Fortunati. A decisão ainda não foi tomada e, segundo o líder da bancada na Câmara, Tarciso Flecha Negra, o PSD espera uma definição do quadro local até o fim de março. Mas o vereador afirma que uma aliança do partido com o PSDB em São Paulo dificultaria um acordo com o PT em Porto Alegre pela reação dos próprios petistas. Mesmo assim, isso não vincularia a decisão do partido na cidade.
“Precisamos ver a luz no fim do túnel”, diz Flecha Negra, lembrando que o objetivo da sigla é reeleger os três vereadores na capital.
Parte dos integrantes do PSD em Minas considera um equívoco o apoio aos tucanos em São Paulo
Em Santa Catarina, a associação entre o PSDB e integrantes do PSD – uma enorme maioria oriunda do DEM – já é estreita. Diante desse quadro, o esforço do governador Raimundo Colombo (PSD) tem sido o de dar ao partido uma feição mais maleável e aproximá-lo dos petistas, ao estilo de Kassab, seu presidente nacional. As negociações em São Paulo ainda não interferiram em seus planos, que seguem sendo o de fazer alianças com legendas distintas, podendo apoiar o PT ou o PSDB, de acordo com a necessidade da disputa em cada município. Do lado do PT, a diretriz é a de não apoiar o PSD no Estado, mesmo que em algumas cidades uma coligação já seja considerada inevitável.
Ao Valor, Colombo disse que há chances, de fato, de uma aliança PT-PSD ocorrer, especialmente, em cidades menores. “Nós não somos preconceituosos, mas cada município tem sua relação de convivência, de identidade. Em alguns lugares, a coligação é de um jeito, em outra, é de outro. A autonomia será do diretório municipal”, disse.
Ou seja, uma entrada de Serra em cena pouco deve alterar o cenário local. Prova disso é que há conversações com o PT em municípios de pequeno a médio porte, como Ibirama, Balneário Arroio Silva, Jacinto Machado, Imbituba e Criciúma. Em Criciúma, o PSD não terá candidato próprio e poderá apoiar a chapa PT-PMDB. Já em Imbituba, há chances de PT e PSD se unirem para enfrentar o PSDB.
No entanto, nos três maiores colégios eleitorais do Estado, Joinville, Florianópolis e Blumenau, a união não deve ocorrer. De acordo com o presidente estadual do PT, José Fritsch, a sigla tende a se coligar mais com o PMDB, como em Florianópolis.
No Rio, o PSD é comandado pelo ex-deputado federal Indio da Costa, que foi vice de José Serra na campanha à Presidência da República, em 2010. Uma aliança entre Kassab e Serra, no entanto, não mudaria seu posicionamento a ponto de se juntar a siglas da oposição, como o PSDB. O PSD fluminense é governista e está fechado com o grupo do governador Sérgio Cabral (PMDB).
No Nordeste, argumento de pessedistas é o de que a aliança Serra-Kassab é mais pessoal do que política
O partido apoiará a reeleição do prefeito Eduardo Paes (PMDB), que tem acordo com o PT para indicar o vice, apesar das recentes ameaças de rompimento. Indio da Costa afirma que a aliança com o governador e consequentemente com o prefeito se deve ao bom governo que ambos estão fazendo. “Eles são reconhecidos nacionalmente e internacionalmente pelos resultados que vêm apresentando. Por isso, não há porque brigar com o que está dando certo”, diz Indio.
A fidelidade ao governador é grande. O dirigente afirma que nas cidades onde o PSD não lançar candidato próprio – as maiores apostas estão em 15 dos 92 municípios – a sigla não fará coligações com os adversários de Cabral, como PSDB, DEM ou PR.
Em Minas Gerais, o PSD faz parte da base do governador Antonio Anastasia (PSDB) e uma decisão de Kassab em apoiar Serra à Prefeitura de São Paulo colocará a legenda numa posição mais confortável na costura das alianças no Estado. É o que afirma o presidente estadual da sigla, Paulo Simão, embora parte do partido veja com muito desagrado uma coligação em São Paulo com os tucanos.
“Mesmo se o Kassab acabar decidindo pelo PT em São Paulo, nossas conversas com o PSDB não serão comprometidas aqui. Mas é claro que uma decisão do partido em São Paulo pelo PT, levará a pressões aqui nessa direção”, afirma Simão, que conta que Kassab se comprometeu a decidir a situação em São Paulo até 15 de março.
Em Belo Horizonte, PT e PSDB fazem parte do governo do prefeito Márcio Lacerda (PSB), que tentará a reeleição. O PT, porém, ameaça romper o pacto e lançar o nome do vice-prefeito Roberto Carvalho.
Simão diz que qualquer que seja a decisão de Kassab ela trará efeitos sobre o PSD em todo o Brasil. “Em especial em Minas, porque temos aqui talvez o provável candidato da oposição à Dilma [o senador Aécio Neves].”
Parte dos integrantes do PSD em Minas, no entanto, consideram um equívoco o apoio aos tucanos em São Paulo.
“As pessoas com as quais conversei estão reagindo a essa possibilidade de o PSD apoiar o Serra com muito desgosto”, diz o segundo vice-presidente do partido, o mineiro Roberto Brant.
“As principais lideranças do PSDB fizeram o possível e o impossível para impedir a fundação do PSD. Parlamentares e prefeitos que estavam com a gente tiveram de voltar para o PSDB por pressão dos governadores. Então o partido viu com naturalidade a aproximação com o PT”, avalia ele. A crítica de Brant – que foi ministro no governo Fernando Henrique Cardoso – não é a Serra, de quem é amigo e admirador. Mas ao PSDB.
O temor de Brant e seus interlocutores no PSD é que, ao fechar uma aliança com o PSDB em São Paulo, seu partido venha a se desidratar politicamente, como ocorreu com o DEM. “O DEM sofreu muito com a submissão ao PSDB, e o PSD não veio para ser o DEM repaginado. Vai nos transformar numa sucursal do PSDB”, critica.
No Paraná, o PSD também dá sustentação a um governador tucano, Beto Richa, porém há menos divergência interna. Em Curitiba, a sigla deve permanecer em seu apoio à reeleição de Luciano Ducci (PSB), aliado de Richa, contra a coligação em formação em torno do ex-deputado federal e ex-tucano Gustavo Fruet (PDT), que contaria com o PT. “Cada Estado é um caso”, afirma o deputado federal Eduardo Sciarra, presidente do diretório paranaense do PSD.
Em capitais do Nordeste, o apoio de Gilberto Kassab a José Serra também não terá influência relevante sobre a estratégia do PSD. Aliado de primeira hora do PSB, que governa quatro Estados na região, o partido de Kassab deve seguir à risca as recomendações do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), principal liderança política nordestina e que estará ao lado do PT na grande maioria dos palanques, apesar das ótimas relações que mantém com o tucanato.
O argumento predominante entre os representantes locais do PSD é de que a aliança Serra-Kassab é mais pessoal do que política. “Trata-se de uma afinidade entre duas pessoas e não entre dois partidos”, afirmou o ex-deputado federal pelo DEM André de Paula, atual presidente do PSD em Pernambuco.
O partido no Estado estará alinhado com a Frente Popular, grupo de 16 legendas comandado por Campos e que inclui o PT. “Temos uma sintonia muito grande com Eduardo (Campos) e esse será nosso caminho”, afirmou o dirigente.
O cenário é bem parecido no Ceará, onde a criação do PSD ajudou o governador Cid Gomes (PSB) a fazer o que foi chamado localmente de “lipoaspiração” no tucanato. De acordo com o presidente estadual do PSD, Almircy Pinto, a maior parte dos 40 prefeitos conquistados pela nova legenda veio do PSDB.
Funcionário do gabinete de Cid, Almircy afirmou que as alianças municipais serão fechadas em comum acordo com o governador na maioria dos casos. É pequena a possibilidade, portanto, de qualquer coligação com os tucanos cearenses. “Essa candidatura do Serra não muda nada. O Kassab sempre disse que era leal a ele. É um problema da política paulista, que é uma ilha nessa imensidão que é o Brasil”, disse o presidente estadual do PSD.
Na Bahia, fora da zona de influência direta de Eduardo Campos, o PSD também não indica qualquer mudança de direção. O vice-presidente nacional do partido, Otto Alencar, é também vice-governador da Bahia, Estado governado pelo PT e onde o PSDB respira por aparelhos. Em Sergipe, o PSD está alinhado com o governador petista Marcelo Déda.
No único Estado do Nordeste governado pelos tucanos, Alagoas, o PSD é presidido pelo deputado federal João Lyra, adversário ferrenho do governador Teotônio Vilela Filho (PSDB). Sob o comando do parlamentar, a tendência é que o PSD marche ao lado do senador Renan Calheiros (PMDB), outro inimigo do governador. O PT, pouco representativo no Estado, deve seguir com este grupo.
Na Paraíba, o ex-tucano Rômulo Gouveia, governador em exercício e presidente regional do PSD, minimiza o efeito de uma decisão em São Paulo sobre as alianças estaduais. “As realidades são diferentes já no plano estadual e ainda mais no municipal”, diz. Ele lembra que PT e PSDB fazem parte tanto da administração do governador Ricardo Coutinho quanto do prefeito de João Pessoa, Luciano Agra, ambos do PSB.
Nas demais capitais, o impacto da decisão de Kassab em São Paulo também deve esbarrar na conjuntura local. Até o presidente nacional do PSDB, deputado federal Sérgio Guerra (PE), tem poucas esperanças de que uma candidatura Serra reforce a posição dos tucanos nas disputas país a fora. “Não tem muito rebatimento. A candidatura ajuda a imagem do partido no sentido geral, mas não especificamente”.

O gaúcho Darlan Jacobs, técnico em logística, que deixou o emprego de maître e se tornou camelô em esquina de Pajuçara, bairro de Maceió: “Decidi vender biscoito na rua e ganho mais do que antes”
Murillo Camnarotto, no Valor
Com a devida pompa, o governo de Alagoas anunciou, em outubro de 2009, a instalação do Estaleiro Ilha (Eisa) no município de Coruripe, litoral sul do Estado. Orçado em R$ 1,5 bilhão, o empreendimento tem, na visão do governador Teotônio Vilela Filho (PSDB), potencial para “mudar a paisagem do Estado” com os cerca de 50 mil empregos diretos e indiretos prometidos.
Mais de dois anos depois, as obras não começaram, o que gera desconfiança e a percepção que a indústria naval é mais uma das muitas soluções “milagrosas” já apresentadas para dar jeito na economia de Alagoas, Estado com a população mais pobre do país.
O ciclo de expansão econômica experimentado pelo Nordeste nos últimos anos não foi acompanhado por Alagoas. Sem infraestrutura, mercado consumidor relevante e recursos próprios para contrapartidas, o Estado não conseguiu absorver investimentos, que acabaram destinados para Bahia, Ceará e Pernambuco. Altamente concentrada no setor sucroalcooleiro, a economia alagoana ficou em desvantagem em relação a Estados como Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe e Maranhão.
Os péssimos indicadores sociais, sobretudo a violência urbana, também ajudaram a repelir os investidores, tornando mais complicada a tarefa de tirar a economia alagoana do atoleiro em que se encontra há quase três décadas.
O cenário já foi diferente. Entre as décadas de 60 e 80, a secular indústria sucroalcooleira local se beneficiou dos muitos programas federais de incentivo e se expandiu para onde foi possível, ocupando as melhores áreas agricultáveis, praticamente monopolizando a atividade econômica do Estado.
Com o fim do Proálcool e a desregulamentação do setor, em 1990, os usineiros foram obrigados a se profissionalizar para competir com a produção do Centro-Sul. Os cortes de custos exigidos pela nova realidade inviabilizaram pequenos e médios fornecedores, incluindo as indústrias de equipamentos. Esse cenário, somado à inoperância de seguidos governos, resultou em uma população rural paupérrima e uma economia muito pouco diversificada.
Nos últimos anos, o Produto Interno Bruto (PIB) de Alagoas avançou abaixo da média do Nordeste, ainda assim puxado pelo crescimento do consumo, na esteira da expansão do crédito e do Bolsa Família, em um modelo conhecido por “renda sem produção”.

A distribuição do crédito ilustra bem a estrutura da economia alagoana. De acordo com o Banco Central, Alagoas é o segundo Estado nordestino onde mais cresce o volume de empréstimos a pessoas físicas. Entre novembro de 2008 e outubro de 2011, o salto foi de 119%, atrás apenas de Sergipe, com 120%. Por outro lado, no crédito para as empresas Alagoas tem o pior desempenho da região, com alta de 60,9%. No mesmo intervalo, a média do Nordeste foi de 105%.
A expansão do poder de compra da população aqueceu o setor terciário do Estado, que passou a ser visto com maior interesse pelas grandes redes varejistas, como o Carrefour, que desembarcou recentemente em Alagoas com a bandeira Atacadão. Maceió está em vias de receber um shopping center de alto padrão, que está sendo erguido pelo grupo Aliansce e deve empregar 4.000 pessoas. Até 2009, o Estado tinha apenas um grande shopping.
A renda sem produção, porém, é insuficiente para colocar Alagoas no ritmo nordestino de geração de empregos. De acordo com Ministério do Trabalho, a criação de vagas formais em Alagoas cresceu 3,1% ao ano, em média, entre 2007 e 2011, o pior desempenho da região, que registrou avanço médio de 6%.
Em cinco anos, o Estado gerou pouco mais de 48 mil empregos, abaixo de vizinhos com população bem inferior, como Sergipe, que criou 75 mil. O Piauí, com PIB inferior ao de Alagoas, gerou 70 mil postos de trabalho, alta de 6,6%.
A desvantagem em relação aos demais Estados pode ser explicada em boa parte pela situação fiscal, a mais dramática do Nordeste. O enfraquecimento do Proálcool, a partir de 1986, deixou os usineiros locais sem auxílio federal, criando uma demanda pesada para os governadores, historicamente íntimos – quando não membros – do setor. Acordo assinado em 1988 pelo então governador Fernando Collor de Mello isentou os usineiros de impostos, gerando gigantesca perda de receita para o Estado, que quebrou em 1996.
“Isso aconteceu justamente na época em que começava a guerra fiscal, quando os Estados nordestinos passaram a oferecer incentivos para atrair as indústrias do Sul e Sudeste, que buscavam custos menores e novos mercados em outras regiões. Como Alagoas estava quebrado, os outros Estados saíram na frente”, lembra o economista Cícero Péricles, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
Quem também procurou o Nordeste naquele tempo foi o gaúcho Darlan Jacobs. Técnico em logística, ele chegou a Maceió fugido do frio do Sul, mas não encontrou lugar ao sol. O único emprego em solo alagoano foi de garçom, sendo depois promovido a maître. Os salários “baixíssimos”, contudo, o arrastaram para a informalidade.
“Decidi vender biscoito na rua e ganho mais do que antes. Como não tem emprego, eles pegam quem aceitar ganhar menos”, contou Jacobs, que trabalha em uma esquina no bairro de Pajuçara, área nobre de Maceió.
A escassez de empregos, os salários baixos e a agricultura familiar desamparada resultaram na população mais pobre do Brasil. Números do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) referentes a 2009 mostram Alagoas em primeiro lugar nos rankings de pobreza e extrema pobreza, bem à frente do segundo colocado, o Maranhão, não menos famoso pelas mazelas sociais.
Também com base em 2009, a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios, do IBGE, revela que as famílias alagoanas têm a menor renda do Nordeste, com média mensal de R$ 1.396. São também as famílias que gastam menos com alimentação, vestuário, transporte, higiene, lazer e educação. Segundo relatório dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, da ONU, Alagoas tem, no país, o maior percentual de famílias (57,5%) que vivem com até meio salário mínimo por mês.
Ainda de acordo com a pesquisa do IBGE, o Estado é campeão de analfabetismo, de jovens com defasagem educacional, de homicídios e está entre os primeiros em insegurança alimentar grave. Até pouco tempo, era também líder absoluto em mortalidade infantil, cenário que, segundo o governador do Estado, está mudando. “Saímos do último lugar para o 15º. Temos um programa eficaz, que vai desde a atenção nutricional à gestante até o apoio estrutural aos municípios”, conta Vilela.
Na avaliação do professor Péricles, a reversão desses indicadores passa obrigatoriamente pela dinamização de economia. Ele entende que o crescimento do poder de consumo, devido aos programas de transferência de renda, deveria incentivar a criação de polos industriais voltados ao atendimento dessa demanda.
“Sem uma estratégia que leve em conta essas especificidades regionais, teremos sempre as mesmas políticas centradas em anúncios de factoides e investimentos mirabolantes, que nunca se confirmam”, diz Péricles. Nos anos 70, lembra, se dizia que, na onda do Proálcool, Alagoas teria tanta força que entraria na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
Na década seguinte, era o Polo Cloroquímico que possibilitaria que a renda per capita dos alagoanos ultrapassasse rapidamente US$ 5 mil. Mais tarde, o turismo surgiu como o novo eldorado, o que também não se materializou, apesar dos avanços conquistados.
Dessa vez será diferente, garante o governador alagoano. Ele lembrou que a Braskem está investindo R$ 1,5 bilhão para dobrar a capacidade de sua unidade de PVC em Marechal Deodoro, região metropolitana de Maceió. As obras do Estaleiro Ilha, segundo Vilela, devem começar em breve. “Foram aprovados os recursos do Fundo da Marinha Mercante, mas ainda não há um parecer definitivo do Ibama. Estamos aguardando, este ano sai.”
Paulo Daniel, na CartaCapital
Em um relatório elaborado pela ONU, sobre o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s) para o avanço do setor privado, o Brasil aparece como um dos países em desenvolvimento em que o preço da ligação de celular é o mais caro. A diferença no valor pago pelos brasileiros pelo minuto em planos pré-pagos pode ser até dez vezes superior.
Entre outras análises sobre o uso de TIC’s no mundo, o estudo Economia da Informaçãocompara os preços praticados no Brasil em 2010 com China, Rússia e Índia. O preço médio pago por um minuto de ligação dos brasileiros foi de 0,11 dólares, enquanto para um chinês, russo ou indiano, o valor não ultrapassa os 0,05 dólares. Na Índia esse valor é 0,01 dólar.
Para chegar ao preço médio por minuto, o estudo combina a receita média usada pelos usuários com esses serviços e os minutos consumidos.
O estudo também revela dados sobre o mercado de trabalho nas TIC’s. A Finlândia é o país com a maior parcela de atividades econômicas domésticas relacionadas à tecnologia da informação e comunicação, com quase um décimo da força de trabalho de negócios não-agrícolas empregadas no setor.
De acordo com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), responsável pela pesquisa, essas tecnologias ainda são muito prematuras em muitas economias em desenvolvimento. A falta de dados mais abrangentes, por exemplo, é vista como uma consequência do fosso digital.
Marcos Coimbra, na CartaCapital
Salvo em condições excepcionais, as eleições nunca são dominadas por um só assunto. É o que torna inútil a procura do “tema” da eleição, a que se dedica parte da mídia toda vez que nos aproximamos de uma.
Como os eleitores não são homogêneos, vivem vidas diferentes e pensam de forma diferente. Imaginar que suas preocupações e expectativas são iguais não faz sentido.
As eleições municipais, como as que teremos neste ano, acontecem em 5,6 mil lugares distintos, cada um com problemas específicos aos olhos de seus moradores. Pouco importa aos eleitores de duas cidades vizinhas se, em ambas, a principal preocupação é a saúde pública. O que lhes interessa é o que acontece onde vivem, a feição particular que a questão assume ali.
Pensam corretamente. Se a escolha que o eleitor tem de fazer é a respeito de quem vai chefiar a administração local (ou integrar a Câmara de Vereadores), que importância teria o fato de a cidade ao lado atravessar problemas parecidos?
Questões nacionais produzem efeitos que dependem das características e peculiaridades de cada lugar. Por isso, não afetam de maneira uniforme a escolha dos ocupantes de cargos nos estados e municípios.
É na eleição de presidente da República – a única em que todos votam para o mesmo cargo – que faria sentido buscar a convergência dos sentimentos e da agenda dos eleitores do País. Mesmo nelas, porém, não se vai longe nesse esforço. Normalmente, apenas coisas triviais são comuns a pessoas tão variadas quanto os brasileiros.
Há exceções. Se algo muito significativo atingir o conjunto do eleitorado, a eleição passa a girar em torno dele. Torna-se focada, e qualquer outro tema perde relevância. Por mais que alguns candidatos tentem, não conseguem fazer com que a maioria dos eleitores se desligue daquele assunto.
A eleição de 2014 pode se tornar uma dessas.
A Copa do Mundo de futebol talvez faça com que nossas próximas eleições presidenciais sejam monotemáticas. Ela pode ser a grande – possivelmente, a única – coisa que discutiremos.
Em outubro de 2014, a Copa já terá terminado e o que menos importará para nossa discussão será o desempenho da Seleção Brasileira. Poderemos ser hexacampeões do mundo ou ter apresentado uma performance abaixo da expectativa, que a eleição pouco será afetada. Apesar do fato de o Mundial ser realizado depois de muitos anos no Brasil.
Nesse quesito, ela será igual a todas as outras, que tiveram impacto eleitoral insignificante, apesar de sempre se especular que as vitórias são benéficas para o governo e as derrotas para as oposições (sem que se explique o por que, pois é tosco o argumento de que “povo aborrecido vota na oposição” e “povo satisfeito vota no governo”).
O que importará em 2014 será outra copa, na qual estará em jogo a competência nacional para sediar o evento. Sair-se bem nela contará mais, para muita gente, que o resultado esportivo. Um vexame nos gramados será mais facilmente esquecido do que uma Copa com falhas de organização.
Faltando pouco mais de dois anos para o seu início, o panorama não é tranquilizador. São reais os riscos de que alguma coisa não dê certo, das inúmeras que podem acontecer.
Se houver problemas, os culpados não serão os governos estaduais e as prefeituras. Nem os serviços públicos de segurança e saúde. Nem a CBF e a Fifa. Nem as empresas responsáveis pelas obras nos estádios, nos aeroportos, nas telecomunicações e nos transportes. Nem a infraestrutura hoteleira e a turística.
A responsabilidade será do governo federal e da presidenta. Qualquer coisa negativa que ocorrer será debitada na sua conta.
E podemos apostar que nossa mídia fará seu máximo para que a culpa caia no colo de Dilma. Que, dois meses depois, disputará sua reeleição ou estará no palanque do candidato do PT.
Se já houve eleições “temáticas”, a de 2014 pode superar todas na centralidade de um assunto. A Copa tem, no entanto, grande chance de ser um sucesso. Isso não resolverá a eleição em favor da continuidade. Mas vai ajudar (e muito). Por via das dúvidas, bem faria o governo federal se a tratasse como prioridade absoluta.
Os comentários feitos por Sean Penn para a presidenta Kirchner foram criticados pelos suspeitos de sempre. Foto: AFP
Do The Observer
Em plena discussão que envolveu Sean Penn por causa de seus comentários sobre o colonialismo britânico “ridículo e arcaico” no caso das ilhas Falkland, as palavras colocadas na boca de Penn por Trey Parker e Matt Stone, em seu filme de animação Team America – Detonando o Mundo, inevitavelmente voltaram à tona carregadas de certa repercussão. “No ano passado eu fui ao Iraque”, Parker e Stone fizeram Penn declamar em seu ataque satírico às opiniões simplistas e egocêntricas dos atores ativistas de Hollywood. “Antes do aparecimento do Team America era um lugar feliz. Eles tinham campinas floridas, arco-íris no céu e rios de chocolate.”
Na sequência de seus comentários feitos na Argentina quando visitou a presidenta Kirchner, houve um tom meio Parker/Stone nos ataques feitos a ele enquanto os suspeitos de sempre metiam a bota.
“Vaidoso e mal informado”, bufou o diário Daily Mail. Por sua vez, o diário Daily Telegraphpreferiu citar esse colosso da televisão-realidade, Ben Fogle, um homem não habitualmente notável por sua precisão como comentarista de política externa, que disse que Penn deveria ser atirado aos crocodilos (se Fogle acredita que há crocodilos no Atlântico sul ainda é um mistério).
Os tijolos atirados contra ele em alguns setores da imprensa britânica provavelmente só vão confirmar suas suspeitas, manifestadas antes, de que grande parte da mídia, com demasiada frequência, trabalha para sufocar pontos de vista alternativos, em vez de ampliar as opiniões discordantes.
Mas Penn atraiu mais censuras por ousar declarar suas opiniões políticas mais que qualquer ator desde Jane Fonda, como nas reportagens de suas viagens ao Iraque e ao Irã para o diárioSan Francisco Chronicle, e em seus anúncios pagos criticando o governo George W. Bush.
A realidade é que comparar Penn com o manequim que o representava é profundamente injusto com um ator e diretor que, diferentemente de alguns de seus colegas em Hollywood, demonstrou um verdadeiro comprometimento com um trabalho humanitário e de defensoria que, embora não tenha agradado a todos, não pode ser simplesmente descartado com um punhado de piadas maliciosas.
Depois do terremoto no Haiti, enquanto outras celebridades iam e vinham, incluindo Ben Stiller, Angelina Jolie e Susan Sarandon, Penn permaneceu, recusando o hotel Oloffson, onde a maioria se hospedou, e vivendo no acampamento que ele montou para os desabrigados. Os que o encontraram, como este autor, o consideraram acessível, genuíno, apaixonado, articulado e comprometido.
Embora seja verdade que algumas celebridades disseram bobagens em relação a suas convicções políticas, como muitas fazem, também é verdade que à direita, em particular, existe uma crença peculiar de que os artistas, considerados uma espécie de propriedade pública, não devem ter ideais nem, certamente, convicções de natureza progressista.
A atuação e a política estão no sangue de Penn. Seu pai, Leo, filho de russos judeus que emigraram para os Estados Unidos, foi um ator e diretor que apoiou os sindicatos de Hollywood e foi colocado na lista negra depois de se recusar a cooperar com o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara dos Deputados. A influência de seu pai, um alcoólico, que ganhou a Cruz de Distinção em Voo como bombardeiro, foi enorme. “Meu pai foi o único homem que todos sabiam que não tinha inimigos. Ele era a coisa mais nobre”, ele lembrou em uma entrevista após a morte de Leo.
Embora sua infância pareça ter sido feliz, Penn descreveu sentimentos de distanciamento e de ser repelido, que o crítico John Lahr sugeriu que mais tarde influenciaram sua escolha de papéis de outsiders como Harvey Milk ou Samuel Bicke em O Assassinato de um Presidente.
Se houve uma diferença entre Penn e seu pai, como ele admitiu ingenuamente para Lahr para seu perfil na New Yorker, é que seu pai “amava as pessoas e a humanidade, [enquanto] eu sou bom em humanidade”, sugerindo uma certa misantropia.
E o interesse de Penn por política é antigo, vem da adolescência. Aos 11 anos ele colou uma frase de Thomas Jefferson na porta de seu quarto: “Nossos filhos nascem livres, e sua liberdade é um dom da natureza, e não dos que os trouxeram ao mundo”.
Mais tarde ele admitiu que ficou obcecado por Watergate, que inspirou um breve desejo de ser advogado, até que as más notas e o interesse crescente por filmes Super 8 que ele fazia com seu irmão Chris e amigos, incluindo Charlie Sheen, predominaram.
Na época, Penn tinha sido inspirado por uma nova onda de atores, principalmente Robert De Niro, a considerar a atuação, abandonando a faculdade para estudar interpretação e conquistar seu primeiro papel principal como um surfista em Picardias Estudantis [Fast Times at Ridgemont High], em que usou muito suas experiências como surfista em Malibu.
Os papéis que se seguiram marcariam um talento singular, tão disciplinado e trabalhador na tela quanto caótico na vida real, principalmente em suas altercações com os paparazzi,incluindo um em Macau que ele pendurou pelos tornozelos de uma janela no nono andar. Penn também passou um mês na prisão por agredir um fã. Seus relacionamentos — incluindo casamentos com Madonna e Robin Wright Penn — também não foram muito tranquilos.
Escrevendo em 2008, o veterano crítico de cinema Roger Ebert resumiu sua atração como ator. “Sean Penn me surpreende. Pouco antes de ver Milk, revi seu trabalho em Os Últimos Passos de um Homem [Dead Man Walking]. Poucos personagens poderiam ser mais diferentes, poucos poderiam parecer mais reais. Ele cria um personagem com infinita atenção para os detalhes, e com o coração.”
Mais recentemente, porém, Penn admitiu que embora ainda viva um “caso de amor” com o cinema, prefere dirigir, e completou uma série de filmes — Acerto Final, Na Natureza Selvageme A Promessa — concebidos de maneira tão inteligente quanto seus papéis em filmes comoSobre Meninos e Lobos, pelo qual ganhou seu primeiro Oscar.
Neste momento, contudo, são suas opiniões políticas que o colocam sob os refletores novamente. E embora tenha sido fácil para alguns criticá-lo por sua amizade com figuras como o cada vez mais autocrático Hugo Chávez da Venezuela, quando Penn discute suas crenças é tão articulado quanto revoltado e curioso sobre o mundo.
Seu horror à guerra — e sua simpatia pelas vítimas, estrangeiras e americanas — parece profundo. “Eu nasci em 1960″, ele disse à CNN no outono passado, “por isso o principal programa de televisão que meus irmãos e eu víamos quando crianças era a guerra do Vietnã. Eu cresci em uma família que era contra a guerra”. Apesar disso, ele se sentiu desconfortável com um movimento contra a guerra “que chamou nossos soldados de matadores de bebês quando eles voltaram”, o que parece tê-lo desencorajado de se envolver com movimentos políticos mais organizados.
Apesar de ter sido criticado por suas visitas ao Iraque — antes e depois da invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003 –, um exame revela uma posição mais matizada do que o julgamento de uma só palavra adotado pelos críticos: “traidor”.
Seu falecido irmão Chris certa vez chamou o idealismo de Penn de uma espécie de “inocência” que ele tinha em comum com o pai. Penn descreveu grande parte de sua paixão como falta de “tolerância” pelo modo como as questões, como a ajuda a Nova Orleans depois do furacão Katrina e ao Haiti, eram complicadas além do necessário.
De fato, foi exatamente por causa do Katrina que Penn se envolveu de forma mais prática, “revoltado” contra o avanço desastrosamente lento do resgate, que o fez liderar uma missão à cidade atingida. A experiência o levou diretamente a fundar a Organização de Socorro Haitiana J/P.
Sua irritação, ele admitiu, às vezes foi tóxica em defesa de sua privacidade, em sua raiva contra o mundo e em seus relacionamentos, o que o levou a se descrever em certo momento como “prejudicado”. Mas é exatamente essa sugestão de raiva que o torna um ator tão interessante de se ver e um defensor poderoso.
Embora possa ter-se atenuado um pouco com a idade, sua paixão continua intensa. “Ouça”, ele disse no ano passado quando lhe perguntaram como gostaria de ser lembrado. “Não quero ser lembrado como raivoso, mas pretendo continuar me irritando com algumas coisas.”
Se Penn tem alguma opinião sobre as críticas recentes a ele na mídia britânica, parece provável que ela se pareça com o bilhete que mandou em 2004 a Parker e Stone depois do lançamento de Team America: “Eu não me importo de prestar serviços, na sátira e na bobagem… eu me importo, sim, quando alguém que não tem um filho, não tem um filho na guerra ou não está nem estará disposto a sofrer danos [incentiva] a irresponsabilidade que em última instância levará à evisceração, mutilação, exploração e morte de pessoas inocentes em todo o mundo”. E assinou: “Tudo de bom e um sincero foda-se”.
O Arquivo Penn
Nascimento. Sean Justin Penn, na Califórnia em 17 de agosto de 1960, filho do ator e diretor Leo Penn e da atriz Eileen Ryan. Casou-se (e divorciou-se) duas vezes — com a cantora Madonna e com a atriz Robin Wright. Ele e Wright têm dois filhos.
Melhores momentos. Como ator, ganhou dois Oscars por seus papéis em Sobre Meninos e Lobos (2003) e Milk (2008); como diretor, seu quarto filme, Na Natureza Selvagem (2007), recebeu duas indicações para o Oscar. No início deste ano foi indicado embaixador itinerante do Haiti, a primeira vez que o cargo foi concedido a um não haitiano.
Piores momentos. Foi alvo de zombaria por algumas de suas intervenções, notadamente no filme Team America; seu envolvimento em Nova Orleans depois do furacão Katrina foi criticado como um golpe de publicidade, acusação que ele nega.
Ele diz: “Sacrificar os soldados americanos ou civis inocentes em um ataque preventivo inédito a um país soberano poderá se mostrar o remédio mais temporário”.
“Nunca fui a uma festa em que não tenha bebido álcool. Eu me divirto muito, mas não fico à vontade. Minha natureza sóbria não é muito social. Isso não quer dizer que eu não tenha me apanhado sendo terrivelmente arrogante.”
Eles dizem: “Está na hora de Sean Penn devolver sua propriedade em Malibu para os mexicanos” — Tim Stanley, historiador americano.

Do Cubadebate
Hala Misrati, la presentadora de la televisión libia que saltó a la fama por su entusiasta propaganda a favor de Muamar el Gadafi y por su defensa radical de su régimen delante de las cámaras, ha sido asesinada en una cárcel de Libia. Su nombre se une al de otras muchas víctimas de la violencia cometida por las milicias que, tras la caída y muerte de Gaddafi, dominan el país ante la impotencia del gobierno.
Según informan medios locales, el asesinato de Misrati, de 31 años, tuvo lugar el 17 de febrero, día del primer aniversario del levantamiento contra Gadafi. No obstante, las autoridades no han comentado nada al respecto.
Hala Misrati apareció por última vez ante las cámaras el 30 de diciembre del año pasado. En la secuencia podía vérsela en silencio, sujetando con las manos una hoja con la fecha indicada, y con el rostro lleno de moratones. Los espectadores suponían que podrían haberle cortado la lengua. Después de aquello nadie supo nada de ella hasta que informaron sobre su asesinato.
El pasado mes de agosto, cuando los rebeldes combatían en Trípoli, Misrati dio el ‘do de pecho’ en su programa cuando, blandiendo una pistola y con la mirada desafiante clavada en la cámara espetó: “con este arma hoy moriré o mataré… No os haréis con el control del canal, ni con el de Trípoli, ni con el de Libia. Protegeré a mis compañeros y nos convertiremos en mártires”.
Cuando los rebeldes detuvieron a la periodista, su captura fue celebrada por la población como si se tratara de un familiar del dictador. Informes no confirmados difundidos por partidarios de Gadafi aseguran que la periodista fue violada repetidamente en prisión por los soldados rebeldes.
El Consejo Nacional Transitorio (CNT) nunca anunció oficialmente qué cargos había contra ella ni se inició un proceso judicial. La organización pro-derechos humanos Amnistía Internacional subraya que el nuevo gobierno es incapaz de promover la democracia y controlar a las milicias, que mantienen a más de 8000 personas en centros de detención donde se ven sometidos a torturas.
(Con información de Russia Today)
Vitali Vorotnikov
Do Cubadebate
Vitali Vorotnikov, ex presidente del Soviet Supremo de la Republica Socialista Federativa Soviética de Rusia (RSFSR) y ex embajador en Cuba (1979-1982) falleció a la edad de 86 años, informó hoy la televisión capitalina.
Autor del libro “Mi verdad”, publicado en 1995 por la editora cubana Abril, Vorotnikov fue una gran amigo de la isla, de la cual también escribió “Habana-Moscú, Años Memorables”, que vió la luz en 2001, en idioma ruso.
El fallecido dirigente soviético ocupó diferentes cargos en la jefatura del Partido Comunista de la Unión Soviética (PCUS) y llegó a ser elegido miembro del Buró Político de su Comité Central, en el que permaneció hasta 1990.
Vorotnikov dirigió el Soviet Supremo de la RSFSR y a su Consejo de Ministros, pero se negó a postularse para las elecciones de principios de la década de 1990, algo que sí aceptó Boris Eltsin, quien fuera presidente de Rusia.
En los últimos tiempos, el dirigente soviético se dedicaba a la actividad social y patriótica.
(Con información de Prensa Latina)

Do Cubadebate
El Gobierno cubano ha instado este martes al Ejecutivo de Mariano Rajoy a solucionar los graves problemas que atraviesa España, entre ellos la crisis económica y el paro, y a no entrometerse en los asuntos internos de la isla a raíz de unas declaraciones del ministro de Asuntos Exteriores y de Cooperación, José Manuel García-Margallo.
El viceministro de Relaciones Exteriores de Cuba, Dagoberto Rodríguez, afirmó que las declaraciones del ministro español sobre Cuba en una reciente entrevista al diario ‘El Mundo’ son “irrespetuosas e injerencistas sobre los Derechos Humanos y el estado de derecho en Cuba”.
El periódico “El Mundo”, en su edición dominical del 19 de febrero, publicó una entrevista al Canciller de España, José Manuel García-Margallo, quien utilizó expresiones irrespetuosas e injerencistas sobre los derechos humanos y el estado de derecho en Cuba.
Expresamos nuestro más enérgico rechazo a esas declaraciones que constituyen una nueva intromisión en los asuntos internos cubanos. No es en Cuba donde están los admiradores de Franco. Es mejor que mire a su alrededor.
El Ministro español debe recordar que Cuba ya no es una colonia, que somos desde hace más de medio siglo un país soberano e independiente que no acepta cuestionamientos de nadie, y en particular de aquellos que intentan dar lecciones, cuando en realidad tienen el tejado de vidrio. Su gobierno debe más bien ocuparse de dar solución a los graves problemas que enfrenta en su sociedad como la crisis económica, el continuo incremento del desempleo que afecta a más de cinco millones de personas, sobre todo a los jóvenes, la represión policial contra los manifestantes pacíficos, la deplorable situación en las cárceles, entre otras violaciones de los derechos humanos.
CUBA, 20 de febrero de 2012
(Tomado de Cubaminrex)
Hugo Chávez de la fábrica de tractores Veneminsk, en Barinas. Foto: EFE
Do Cubadebate
El presidente de Venezuela, Hugo Chávez, anunció este martes que será operado de una nueva lesión de dos centímetros de diámetro en el lugar donde hace menos de un año se le extrajo un tumor cancerígeno. Aseguró que está en buenas condiciones físicas para enfrentar “esta nueva batalla”.
“En un examen que me hicieron en La Habana (capital cubana) se me ha detectado una lesión en el mismo sitio donde fue extraído el tumor que se me descubrió el año pasado (…) Se trata de una lesión pequeña de dos centímetros de diámetro y eso obliga a extraerla en una intervención quirúrgica”, declaró el mandatario venezolano durante la supervisión a las operaciones de la fábrica de tractores Veneminsk.
Chávez enfatizó que “estoy en buenas condiciones físicas para enfrentar esta nueva batalla (…) Con el favor de Dios saldremos adelante de mi operación y me sacarán la lesión”.
“Tengo que discutir con mis compañeros dónde será la operación, pero que nadie se alarme, ni que nadie se alegre porque está Revolución tiene su impulso dado y nadie podrá detenerla”, expresó.
“A mitad de febrero correspondía un nuevo exámen, fui a Cuba el sábado, un viaje exclusivamente para los exámenes, me los hicieron todos, me sometieron a una tomografía con contraste, una resonancia magnética que recorren todo el cuerpo par evaluar si quedó algún residuo o hay una nueva amenaza de esa enfermedad de cuidado” explicó el presidente venezolano.
Llegué a Barinas (suroeste del país) antenoche (lunes) y decidí que mañana miércoles iba a informar al país los detalles de los exámenes del sábado pasado” pero en vista de los rumores se sintió obligado a adelantar el anuncio.
Desmiente metástasis
Chávez condenó la serie de rumores que fueron publicadas en torno a su salud con la intención de confundir al pueblo.
El mandatario desmintió rotundamente los rumores que afirman que tiene metástasis, “desmiento las informaciones que circulan en los medios de que tengo metástasis en el hígado. No hay metástasis en ningún lado” afirmó categóricamente.
“Uno que está acostumbrado a la batalla se pone de pie, la vida no se acaba” dijo y recordó las operaciones y posterior recuperación que tuvo que enfrentar pero acotó que aún así prevalecen los rumores porque “quieren que me muera”.
“Están sacando rumores sobre mi estado de salud, para tratar de crear la angustia, zozobra y tratar de desestabilizar al país por esa vía” dijo.
El presidente de Venezuela hizo el anuncio durante la supervisión a las operaciones de la fábrica de tractores Veneminsk, desde el Complejo Industrial Santa Inés ubicado en el suroccidental estado de Barinas, en alianza con el Gobierno de Bielorrusia para profundizar las relaciones binacionales en materia de desarrollo industrial.
Expresó que “no quería dar esta noticia que tiene una carga negativa en pleno carnaval, pero los rumores que echan a correr algunas gentes me hacen adelantar esta información” y pidió “perdón si a alguien le causo algún sufrimiento”.

Do Cubadebate
El miembro del Buró Político del Partido Comunista de Cuba Marino Murillo fue recibido hoy por el alto dirigente de la organización homóloga de China Li Changchun, a quien informó los resultados de la reciente Conferencia Nacional del PCC.
Murillo, quien viajó a Beijing como enviado especial del Primer Secretario del PCC, Raúl Castro, para abordar con las autoridades partidistas chinas aspectos relativos a la mencionada reunión, intercambió también sobre el excelente estado de las relaciones bilaterales con Li, miembro del Comité Permanente del Buró Político del Partido Comunista de China (PCCh).
En su encuentro en el Gran Palacio del Pueblo, ambas partes abordaron además la voluntad de los dos Partidos y Gobiernos de continuar profundizando esos vínculos.
Igualmente se refirieron a las experiencias sobre la construcción del socialismo en los respectivos países.
Como parte del programa de su visita a China, el también vicepresidente del Consejo de Ministros de Cuba se reunió con el viceprimer ministro Hui Liangyu y el titular de Agricultura, Han Changfu.
Con esas autoridades Murillo trató diversos temas relacionados con el desarrollo de los vínculos de colaboración en las esferas económica y agrícola.
También está previsto un encuentro con Wang Jiarui, jefe del Departamento Internacional del Comité Central del PCCh.
(Con información de Prensa Latina)

Do Cubadebate
Por Patria Grande
Tras convertirse en la expresión más popular de respaldo al primer mandatario nacional, la etiqueta #PalanteComandante recorre nuevamente la red social Twitter luego de que el presidente Hugo Chávez anunciara que será sometido a una operación para extraer una “lesión de dos centímetros de diámetro” detectada en el mismo lugar donde fue extraído a mediados de 2011 un tumor cancerígeno.
A pesar del posteo masivo bajo ésta etiqueta, resulta que el tema no aparece en el trendic topics del momento para nuestro país.
Los trending topics de Twitter, o TTs, son en teoría los temas más posicionados en el debate de la red social. En la práctica eso no es tan real. Recientemente con las manifestaciones de los Ocupas en varias ciudades de Estados Unidos se ha demostrado que Twitter censura temas, pero se ha logrado descubrir un dato mucho más interesante: los administradores de la red social promueven temas, en algunos casos admiten que es un promocionado por Twitter y, en otros casos, no. Trending topics no siempre son los temas de lo que más se está tuteando. Eso abre la posibilidad a que Twitter determine política e ideológicamente la conversación en el microblogging, pero también, que censure temas deliberadamente.
Como paradoja, hace meses atrás Twitter no tuvo prurito ninguno en posicionar la etiqueta #QDEPHugoChávez. No obstante ahora que miles y miles de usuarios de la red social se solidarizan con el comandante de la Revolución Bolivariana, la etiqueta sencillamente no aparece entre las más importantes del país suramericano.
Los administradores de la red social anunciaron en el mes de enero que empezarían a censurar mensajes en algunos países. ¿Será que los venezolanos somos hoy víctimas de censura por razones ideológicas?
Estudiantes muestran libros durante la concentración frente al Lluís Vives. Foto: KAI FÖRSTERLING (EFE)
Do Cubadebate
La indignación popular por las desproporcionadas cargas policiales contra los estudiantes valencianosfueron ayer más fuertes que las porras. Los antidisturbios cambiaron de actitud y vigilaron pasivamente las protestas, dirigidas contra la inusitada violencia empleada por los agentes contra los estudiantes, muchos de ellos menores.
Al mismo tiempo, la presión popular obligó a los responsables políticos a anunciar investigaciones por las cargas de la víspera, que se saldaron con 25 estudiantes detenidos, entre ellos seis menores. El ministro de Interior, Jorge Fernández Díez, que comparecerá en el Congreso para dar explicaciones, admitió por la mañana en Catalunya Ràdio que pudo cometerse “algún exceso” por parte de algún agente, aunque por la tarde rectificó y aseguró que al hablar de “excesos” se refería “de manera muy especial a los que cometen los radicales y violentos que aprovechan determinadas circunstancias para hacer cosas que no deben”.
La delegada del Gobierno en el País Valencià, Paula Sánchez de León, intentó rebajar la tensión en una comparecencia en la que cambió radicalmente el tono respecto a la jornada anterior. El mismo lunes por la tarde cuando todavía los agentes perseguían y aporreaban a estudiantes por las calles la delegada arropó al jefe superior de la Policía en Valencia, Antonio Moreno, que defendió la “proporcionalidad” de las medidas policiales. Sin embargo, ayer Sánchez de León reconoció con aire compungido que “el tema se desmadró” y anunció un “expediente administrativo” para investigar si hubo “extralimitaciones” por parte de las Fuerzas de Seguridad.
La delegada anunció, además, una ronda de encuentros con “sindicatos y asociaciones estudiantiles”. Ayer tuvo la primera reunión con la Federación Valenciana de Estudiantes. En el encuentro, la delegada prometió que no habrá más cargas policiales, según explicó tras el encuentro el representante de los alumnos, Albert Ordóñez.
Ordóñez trasladó a la delegada la principal petición de los estudiantes: su dimisión. Esta exigencia se convirtió en un clamor durante el día por parte de miles de manifestantes, asociaciones de padres y toda la oposición política. La respuesta de Sánchez de León fue: “No es momento de dimisiones”. Mañana, la delegada se reunirá con el Defensor del Menor del País Valencià, José Cholvi, que ayer anunció que investigará los incidentes.
A pesar de estos gestos destinados a enfriar el ambiente, tanto el ministro como la delegada insistieron en la versión oficial del PP sobre las cargas policiales del lunes: la de que había “radicales y violentos” en las marchas, en palabras de Fernández Díaz, que fueron quienes “crearon los problemas de orden público”. “Hubo un grupo de radicales que se aprovechó de la situación”, insistió por su parte De León. Este argumento fue repetido a lo largo de la jornada por varios dirigentes conservadores, como el ministro de Justicia, Alberto Ruiz-Gallardón, que afirmó que hubo “violencia” por parte de los manifestantes que provocó la actuación “legítima” de la Policía.
Sin embargo, la propia delegada reconoció ayer, a preguntas de los periodistas, que no le constaba que ninguno de los 25 manifestantes detenidos ya en libertad con cargos tuvieran antecedentes que permitieran calificarles de radicales: ni posesión de armas ni pertenencia a ninguna organización violenta.
Las declaraciones de los políticos conservadores obviaron, además, la realidad de los hechos del lunes: que fue la Policía la que cargó contra los estudiantes cuando estos cortaron el tráfico de una avenida, sin que mediara una provocación previa por parte de los manifestantes. Los manifestantes fueron varios centenares, y contra ellos se movilizaron 250 agentes antidisturbios, informa Pedro Águeda. Ayer llegaron a Valencia 150 efectivos más procedentes de otras ciudades, en previsión de más incidentes.
IU, por su parte, denunció las agresiones ante la Fiscalía de Menores. Fuentes de este organismo anunciaron ayer que la denuncia se derivará a un juzgado ordinario, ya que los presuntos delitos fueron cometidos por adultos. Mientras, Jueces para la Democracia consideró necesario investigar judicialmente los “excesos individuales” que pudieran haber cometido los agentes, pero también “los posibles excesos por parte de cualquier persona”, y destacó que es “evidente” que existe “una responsabilidad clara de los responsables políticos”.
Los sindicatos policiales se sumaron ayer a la petición de dimisión de Paula Sánchez de León entre duras críticas contra ella y el ministro de Interior. En un comunicado, la Confederación Española de Policía (CEP) les acusó de “introducir sospechas sobre el trabajo de la Policía”, “escurrir el bulto” y eludir su responsabilidad en los incidentes para “proteger su interés político”. El Sindicato Unificado de Policía (SUP) les reprochó que pretendieron “matar moscas a cañonazos”.
Tras las cargas del lunes, los estudiantes decidieron ayer interponer los libros a las porras de los agentes. Enarbolando libros al grito de “estas son nuestras armas”, miles de universitarios se concentraron al mediodía en la puerta de la Facultad de Historia y desde allí atravesaron la ciudad para reunirse con los escolares de Secundaria concentrados en la puerta del Instituto Lluís Vives, donde hace ocho días se iniciaron las protestas contra los recortes. Entre los títulos exhibidos estaba el Manifiesto comunista, con el que un chico intentaba aleccionar a un policía. “Yo he traído uno de tapas duras, por si tengo que defenderme de la Policía”, explicó una estudiante.
El comportamiento de la Policía frente a los estudiantes fue completamente diferente al del día anterior: los agentes se limitaron a cortar el tráfico al paso de los jóvenes, a pesar de que, igual que en las jornadas anteriores, estos no habían pedido la autorización preceptiva para manifestarse.
A última hora de la tarde los estudiantes acudieron a la sede del PP valenciano. Miles de personas llenaron las grandes avenidas cercanas al partido, que quedaron cortadas al tráfico. La ocupación de la vía fue pacífica y al cierre de esta edición no se habían registrado incidentes.
Las redes sociales extendieron ayer la primavera valenciana por varias ciudades españolas con la llamada a la movilización y la solidaridad. En Madrid, más de un millar de personas, sobre todo universitarios, cortaron varias calles en protesta por la violencia policial. Los agentes, ante la presencia de los jóvenes, no actuaron. Así, las imágenes del lunes pasado de la carga policial en Valencia contrastaron con las de ayer en Madrid: los jóvenes recorrieron, sin ser parados por la Policía, desde la Puerta del Sol hasta la sede del PP, en la calle de Génova.
“¡Yo también soy el enemigo!”, gritaron los estudiantes durante toda la manifestación, que discurrió de manera improvisada. Tan sólo ante la sede del PP, al final del recorrido, se vivieron algunos momentos de tensión.
Los jovenes caminaron durante dos horas tras una pancarta con el siguiente lema: “En solidaridad con los estudiantes valencianos, contra los recortes, nosotros también somos el enemigo”. “Qué valiente, pegar adolescentes”, fue otro de los cánticos que se corearon.
“El mensaje de la Policía en Valencia ha sido una demostración de inmunidad”, señaló Eneko Ansotegui, profesor de Secundaria. Este docente interino acudió a la Puerta del Sol con dos compañeros, como él, víctimas de los recortes educativos. “Lo que sorprende es que la Policía actuara así en Valencia sabiendo que la prensa estaba mirando”, agregó Juan Rodríguez, profesor de Historia.
“Es una barbaridad lo que ha ocurrido, querrán meter miedo a la gente para evitar protestas ante los recortes”, opinó Julia, contable, que participa en las asambleas del 15-M. El hecho de que ayer la marcha terminase sin incidentes graves fue una demostración de que la violencia empleada en Valencia fue desproporcionada. “¿Esto es normal? He estado cubriendo los disturbios en Valencia y con un tercio de la gente que hay ahora mismo aquí hubo de todo”, señaló un periodista valenciano caminando por el Paseo de la Castellana, desierta por los cortes de tráfico. A las 22.30 los antidisturbios se retiraron de la sede del PP después de que la mayoría de los jóvenes se dispersara. Al cierre de esta edición, un grupo continuaba hacia Atocha.
En Sevilla, alrededor de un millar de personas se dieron cita ante la sede del PP andaluz. “Valencia, Sevilla está contigo”, “Esto nos pasa por un Gobierno facha” o “Menos Policía y más educación” fueron de los cánticos más coreados. Al cierre de esta edición, el gentío había cortado el tranvía en una avenida aledaña, informa Ángel Munárriz.
También en Barcelona el número de manifestantes ascendió a un millar, informa Brais Benítez. “Es vergonzoso que peguen así a chavales menores de edad; no tiene nombre”, exclamaba Carmen, que se había unido a la protesta junto a sus dos hijas.
Los estudiantes se han vuelto a concentrar a las puertas del Instituto Lluís Vives de Valencia. Foto: CARLES FRANCESC
Los estudiantes, en el centro de Valencia, en una nueva protesta contra los recortes en la Educación y las intervenciones policiales. Foto: CARLES FRANCESC
Estudiantes se concentran frente a la delegación del Gobierno, en la calle Colón de Valencia. Foto: MÓNICA TORRES
"Queríamos calefacción, no que los calentaran", se puede leer en estos carteles. Foto: CARLES FRANCESC
Otro momento de la sentada frente al instituto Lluís Vives. Foto: TANIA CASTRO
Otro momento de la sentada frente al instituto Lluís Vives. Foto: TANIA CASTRO
Muchos manifestantes han acudido a la concentración blandiendo libros. Foto: CARLES FRANCESC
Una joven muestra una pancarta durante la concentración frente al instituto Lluís Vives de Valencia. Foto: JOSE JORDAN (AFP)
(Con información de Público. Fotos: El País)

Desde o Financial Times até à extrema-esquerda, toneladas de tinta têm sido gastas a escrever acerca de alguma variante da "Crise do capitalismo global". Se bem que os autores divirjam quanto às causas, consequências e curas, de acordo com as suas luzes ideológicas, há um acordo comum em que "as crises" ameaçam acabar o sistema capitalista tal como o conhecemos.
Não há dúvida de que, entre 2008 e 2009, o sistema capitalista na Europa e nos Estados Unidos sofreu um choque severo que abalou os fundamentos do seu sistema financeiro e ameaçou levar à bancarrota seus "sectores principais".
Contudo, argumentarei que as "crises do capitalismo" foram transformadas em "crises do trabalho". O capital financeiro, o principal detonador do crash e da crise, recuperou-se, a classe capitalista como um todo foi fortalecida e, acima de tudo, ela utilizou as condições políticas, sociais e ideológicas criadas em resultado das "crises" para mais uma vez consolidar sua dominação e exploração sobre o resto da sociedade.
Por outras palavras, a "crise do capital" foi convertida numa vantagem estratégica para promover os interesses mais fundamentais do capital: a expansão de lucros, a consolidação do domínio capitalista, a maior concentração da propriedade, o aprofundamento de desigualdades entre capital e trabalho e a criação de enormes reservas de trabalho para promover o aumento dos seus lucros.
Além disso, a noção de um crise global homogénea do capitalismo passa por alto as profundas diferenças em desempenho e condições entre países, classes e grupos etários.
A tese da crise global: O argumento económico e social
Os advogados da crise global argumentam que começando em 2007 e continuando até o presente, o sistema capitalista mundial entrou em colapso e a recuperação é uma miragem. Eles mencionam a estagnação e a recessão contínua na América do Norte e na Eurozona. Eles apresentam dados do PIB que variam entre o crescimento negativo e o zero. A sua argumentação é apoiada por dados que mencionam dois dígitos de desemprego em ambas as regiões. Frequentemente corrigem os dados oficiais que minimizam a percentagem desempregada através da exclusão de trabalhadores desempregados em tempo parcial e a longo prazo. O argumento da "crise" é fortalecido com a citação dos milhões de proprietários de casas que foram despejados pelos bancos, pelo aumento agudo da pobreza e da penúria que acompanha perdas de emprego, reduções de salário e a eliminação ou redução de serviços sociais. A "crise" também é associada ao aumento maciço de bancarrotas, principal de pequenos e médios negócios e bancos regionais.
A crise global: A perda de legitimidade
Críticos, especialmente na imprensa financeira, escrevem acerca de uma "crise de legitimidade do capitalismo" citando inquéritos que mostram maiorias substanciais a questionarem a justiça do sistema capitalista, as vastas e crescentes desigualdades e as regras manipuladas pelas quais bancos exploram a sua dimensão ("demasiado grande para falir") a fim de atacar o Tesouro a expensas de programas sociais.
Em suma, os advogados da tese de uma "Crise global do capitalismo" apresentam uma argumentação convincente, demonstrando os efeitos profundos e generalizados do sistema capitalista sobre a vida da grande maioria da humanidade.
O problema é que uma "crise da humanidade" (mais especificamente dos trabalhadores assalariados) não é o mesmo que uma crise do sistema capitalista. De facto, como argumentaremos adiante, a adversidade social crescente, o declínio do rendimento e do emprego tem sido um factor importante que facilitou a recuperação rápida e maciça das margens de lucro da maior parte das corporações de grande dimensão.
Além disso, a tese de uma crise "global" do capitalismo combina economias, países, classes e grupos etários díspares com desempenhos agudamente divergentes em diferentes momentos históricos.
Crise global ou desenvolvimento irregular e desigual?
É absolutamente louco argumentar a existência de uma "crise global" quando várias das maiores economias na economia mundial não sofreram uma grande baixa de actividade e outras recuperaram-se e expandiram-se rapidamente. A China e a Índia não sofreram sequer uma recessão. Mesmo durante os piores anos do declínio europeu-estado-unidense, os gigantes asiáticos cresceram a uma média de cerca de 8%. As economias da América Latina, especialmente os maiores exportadores agro-minerais (Brasil, Argentina, Chile) com mercados diversificados, especialmente na Ásia, detiveram-se brevemente (em 2009) antes de assumirem crescimento moderado a rápido (entre 3% e 7%) entre 2010 e 2012.
Ao agregar dados económicos da eurozona como um todo os advogados da crise global ignoraram as enormes disparidades de desempenho dentro da zona. Enquanto a Europa do Sul afunda-se numa depressão profunda e constante, por qualquer medida, desde 2008 até o futuro previsível, as exportações alemãs em 2011 estabeleceram um recorde de um milhão de milhões (trillion) de euros; seu excedente comercial atingiu 158 mil milhões de euros, depois de excedentes de 155 mil milhões de euros em 2010. (BBC News, Feb. 8 2012).
Enquanto o desemprego agregado da eurozona atinge os 10,4%, as diferenças internas desafiam qualquer noção de uma "crise geral". O desemprego na Holanda é 4,9%, na Áustria 4,1% e na Alemanha 5,5% com reclamações do patronato de escassez de trabalho qualificado em sectores chave para o crescimento. Por outro lado, no explorado Sul da Europa o desemprego caminha para níveis de depressão, Grécia 21%, Espanha 22,9%, Irlanda 14,5% e Portugal 13,6% (FT 1/19/12, p.7). Por outras palavras, "a crise" não afecta adversamente algumas economias, que de facto lucram com a sua dominação de mercado e fortaleza tecno-financeira em relação a economias dependentes, devedoras e atrasadas. Falar de uma "crise global" obscurece as relações fundamentais dominantes e exploradoras que facilitam a "recuperação" e o crescimento das economias de elite sobre e contra os seus competidores e estados clientes. Além disso os teóricos da crise global erradamente amalgamam economias financeiras-especulativas cavalgadas pela crise (EUA, Inglaterra) com economias produtivas exportadoras (Alemanha, China).
O segundo problema com a tese de uma "crise global" é que ela ignora profundas diferenças internas entre grupos etários. Em vários países europeus a juventude desempregada (16-25) chega a estar entre 30 e 50% (Espanha 48,7%, Grécia 47,2%, Eslováquia 35,6%, Itália 31%, Portugal 30,8% e Irlanda 29%) ao passo que na Alemanha, Áustria e Holanda o desemprego juvenil vai dos 7,8% para a Alemanha, 8,2% para a Áustria e 8,6% para a Holanda (Financial Times 2/1/12, p2). Estas diferenças fundamentam a razão porque não há um "movimento juvenil global" de "indignados" e "ocupantes". Diferenças de cinco vezes entre juventude desempregada não são propícias à solidariedade "internacional". A concentração dos números do alto desemprego juvenil explica o desenvolvimento desigual dos protestos de rua em massa centrados especialmente no Sul da Europa. Também explica porque o movimento "anti-globalização" no Norte euro-americano é em grande media um fórum sem vida que atrai explicações académicas pomposas sobre a "crise capitalista global" e a impotência dos "Fóruns sociais" que são incapazes de atrair milhões de jovens desempregados do Sul da Europa. Eles são mais atraídos para a acção directa. Teóricos globalistas ignoram o modo específico pelo qual a massa de jovens trabalhadores desempregados é explorada nos seus países dependentes cavalgados pela dívida. Eles ignoram o modo específico pelo qual são dominados e reprimidos por partidos capitalistas de centro-esquerda e de direita. O contraste é mais evidente no Inverno de 2012. Trabalhadores gregos são pressionados a aceitar um corte de 20% nos salários mínimos ao passo que trabalhadores da Alemanha estão a exigir um aumento de 6%.
Se a "crise" do capitalismo se manifesta em regiões específicas, ela igualmente afecta diferentes sectores etários/raciais das classes assalariadas. As taxas de desemprego da juventude aos trabalhadores mais velhos variam enormemente. Na Itália a proporção é 3,5/1, na Grécia 2,5/1, em Portugal 2,3/1, na Espanha 2,1/1 e na Bélgica 2,9/1. Na Alemanha é 1,5/1 (FT 2/1/12). Por outras palavras, devido aos níveis de desemprego mais altos entre os jovens eles têm maior propensão para a acção directa "contra o sistema", ao passo que trabalhadores mais velhos com níveis de emprego mais altos (e benefícios de desemprego) têm mostrado uma maior propensão para confiar na urna eleitoral e comprometer-se em greves limitadas sobre questões relacionadas com o emprego e o pagamento. A vasta concentração do desemprego entre jovens trabalhadores significa que eles constituem o "núcleo disponível" para a acção constante; mas também significa que só podem alcançar limitada unidade de acção com a classe trabalhadora mais velha que experimenta desemprego de um algarismo.
Contudo, também é verdadeiro que a grande massa da juventude desempregada proporciona uma arma formidável, nas mãos dos patrões, para ameaçar substituir trabalhadores empregados mais velhos. Hoje, os capitalistas recorrem constantemente à utilização dos desempregados para reduzir salários e benefícios e intensificar a exploração (baptizada como "aumento de produtividade") para aumentar margens de lucro. Longe de serem simplesmente um indicador da "crise capitalista", os altos níveis de desemprego têm servido juntamente com outros factores par aumentar a taxa de lucro, acumular rendimento, ampliar desigualdades de rendimento as quais aumentam o consumo de bens de luxo para a classe capitalista: as vendas de automóveis e relógios de luxo estão florescentes.
Crise de classe: A contra-tese
Contrariando os teóricos da "crise capitalista global", emergiu uma quantidade substancial de dados que refuta suas suposições. Um estudo recente informa "Lucros corporativos estado-unidenses estão mais altos em proporção do produto interno bruto do que em qualquer momento desde 1950" (FT 1/30/12). Os saldos de caixa de companhias dos EUA nunca foram maiores, graças à exploração intensificada dos trabalhadores e a um sistema de salários multi-estratificado no qual novos contratados trabalham por uma fracção do que os trabalhadores mais velhos recebiam (graças a acordos assinados por líderes sindicais capachos).
Os ideólogos da "crise do capitalismo" ignoraram os relatórios financeiros das principais corporações estado-unidenses. Segundo o relatório de 2011 da General Motors destinado aos seus accionistas, eles celebraram o maior lucro de sempre, revelando um lucro de US$7,6 mil milhões, o que ultrapassa o recorde anterior de US$6,7 mil milhões em 1997. Uma grande parte destes lucros resulta do congelamento dos seus fundos de pensão subfinanciados e da extracção de maior produtividade do menor número de trabalhadores – por outras palavras, da intensificação da exploração – e do corte pela metade dos salários horários dos novos contratados. (Earthlink News 2/16/12)
Além disso, a importância agravada da exploração imperialista é evidente pois a proporção de lucros das corporações estado-unidenses que é extraída além-mar mantém-se em ascensão a expensas do crescimento do rendimento dos empregados. Em 2011, a economia dos EUA cresceu em 1,7%, mas a mediana dos salários caiu em 2,7%. Segundo a imprensa financeira, "as margens de lucro das S&P 500 saltaram de 6% para 9% do PIB nos últimos três anos. A última vez que foi alcançada tal proporção foi há três gerações. Em linha gerais um terço, a fatia estrangeira destes lucros, mais do que duplicou desde 2000" (FT 2/13/12 P9. Se isto é uma "crise capitalista", então quem é que precisa de um boom capitalista?
Inquéritos a corporações de topo revelam que companhias estado-unidenses possuem US$1,73 milhão de milhões em cash, "os frutos do recorde de altas margens de lucro" (FT 1/30/12 p.6). Estas margens de lucro recorde resultam de despedimentos em massa os quais levaram à intensificação da exploração dos restantes trabalhadores. Taxas de juro federais desprezíveis e acesso fácil ao crédito também permitem aos capitalistas explorarem amplos diferenciais entre a contracção de empréstimos e a concessão dos mesmos e o investimento. Impostos mais baixos e cortes em programas sociais resultam numa crescente acumulação de cash das corporações. Dentro da estrutura corporativa, o rendimento vai para o topo onde executivos seniores pagam a si próprios bónus enormes. Dentre as principais corporações S&P 500 a proporção de rendimento que vai para dividendos de accionistas é a mais baixa desde 1900 (FT 1/30/12, p.6).
Uma crise capitalista real afectaria adversamente margens de lucro, ganhos brutos e a acumulação de cash. Lucros ascendentes estão a ser amontoados porque quando capitalistas se aproveitam da exploração intensa o consumo das massas estagna.
Os teóricos da crise confundem o que é claramente a degradação do trabalho, a degradação das condições de vida e de trabalho e mesmo a estagnação da economia, com uma "crise" do capital: quando a classe capitalista aumenta suas margens de lucros, arrecada milhões de milhões, ela não está em crise. O ponto-chave é que a "crise do trabalho" é um grande estímulo para a recuperação de lucros capitalistas. Não podemos generalizar de uma para a outra. Não há dúvida de que houve um momento de crise capitalista (2008-2009) mas graças à maciça transferência de riqueza, sem precedentes no estado capitalista, do tesouro público para a classe capitalista – bancos da Wall Street em primeiro lugar – o sector corporativo recuperou, ao passo que os trabalhadores e o resto da economia permaneceu em crise, foi à bancarrota e ficou sem trabalho.
Da crise à recuperação de lucros: 2008/9 a 2012
A chave para a "recuperação" de lucros corporativos tem pouco a ver com o ciclo de negócios e tudo com a tomada de poder em grande escala da Wall Street e a pilhagem do Tesouro dos EUA. Entre 2009-2012 centenas de antigos executivos da Wall Street, administradores e conselheiros de investimento apoderaram-se de todas as principais posições decisiva no Departamento do Tesouro e canalizaram milhões de milhões de dólares para os cofres das principais financeiras e corporações. Eles intervieram em corporações financeiramente perturbadas, como a General Motors, impondo grandes cortes salariais e demissões de milhares de trabalhadores.
Os homens da Wall Street no Tesouro elaboraram a doutrina do "Demasiado grande para falir" a fim de justificar a transferência maciça de riqueza. A totalidade do edifício especulativo construído em parte por um aumento de 234 vezes no volume de transacções cambiais entre 1977-2010 foi restaurado (FT 1/10/12, p.7). A nova doutrina argumentou que a primeira e principal prioridade do estado é devolver a lucratividade ao sistema financeiro a qualquer custo para a sociedade, os cidadãos, os contribuintes e os trabalhadores. O "Demasiado grande para falir" é um repúdio completo dos mais básicos princípios do sistema capitalista de "mercado livre": a ideia de que aqueles capitalistas que perdem arquem as consequências; que cada investidor ou presidente de empresa é responsável pela sua acção. Os capitalistas financeiros já não precisam justificar sua actividade em termos de qualquer contribuição para o crescimento da economia ou da "utilidade social". De acordo com os que agora dominam a Wall Street deve ser salva porque é a Wall Street, mesmo se o resto da economia e o povo afundarem (FT 1/20/12, p.11). Os salvamentos e financiamentos do estado são complementados por centenas de milhares de milhões em concessões fiscais, levando a défices fiscais sem precedentes e ao crescimento de desigualdades sociais maciças. O pagamento de um presidente de empresa (CEO) como um múltiplo do trabalhador médio passou de 24 para 1 em 1965 para 325:1 em 2010 (FT 1/9/12, p.5).
A classe dominante exibe a sua riqueza e poder com a ajuda conivente da Casa Branca e do Tesouro. Face à hostilidade popular à pilhagem do Tesouro pela Wall Street, Obama chegou ao fingimento de pedir ao Tesouro para impor um tecto aos bónus de muitos milhões de dólares que os presidentes de bancos salvos concediam-se a si próprios. Os homens da Wall Street no Tesouro recusaram-se a impor a ordem executiva, os CEOs obtiveram milhares de milhões em bónus em 2011. O presidente Obama continuou, pensando que enganava o público estado-unidense com o seu gesto falso, enquanto arrecadava milhões de fundos de campanha junto à Wall Street!
A razão porque o Tesouro foi capturado pela Wall Street é que nas décadas de 1990 e 2000 os bancos se tornaram uma força dominante nas economias ocidentais. Sua fatia do PIB subiu drasticamente (de 2% na década de 1950 para 8% em 2010" (FT 1/10/12, p.7).
Hoje é "procedimento operacional normal" para o presidente nomear homens da Wall Street para todas as posições económicas chave e é "normal" para estes mesmos responsáveis prosseguirem políticas que maximizam lucros da Wall Street e eliminam qualquer risco de fracasso, não importa quão aventurosos e corruptos sejam os seus praticantes.
A porta giratória: Da Wall Street para o Tesouro e retorno
A relação entre a Wall Street e o Tesouro tornou-se efectivamente uma "porta giratória": da Wall Street para o Departamento do Tesouro para a Wall Street. Banqueiros privados assumem compromissos no Tesouro (ou são recrutados) para assegurar que todos os recursos e políticas que a Wall Street são concedidas com o máximo esforço, com o mínimo obstáculo de cidadãos, trabalhadores ou contribuintes. Os homens da Wall Street no Tesouro dão a mais alta prioridade à sobrevivência, recuperação e expansão dos lucros da Wall Street. Eles bloqueiam quaisquer regulamentações ou restrições a bónus ou a repetições das fraudes do passado.
Os homens da Wall Street "ganham reputação" no Tesouro e então retornam ao sector privado em posições mais altas, como conselheiros sénior e sócios. Uma nomeação no Tesouro é uma escada para subir na hierarquia da Wall Street. O Tesouro é um posto de abastecimento para a Limusine da Wall Street: o ex homens da Wall Streets enchem o tanque, verificam o óleo e então salvam para o assento da frente e correm para um emprego lucrativo, deixando o posto de abastecimento (público) pagar a conta.
Aproximadamente 774 responsáveis saíram do Tesouro entre Janeiro de 2009 e Agosto de 2011 (FT 2/6/12, p. 7). Todos eles proporcionaram "serviços" lucrativos para os seus futuros patrões da Wall Street, descobrindo uma grande maneira de re-entrar nas finanças privadas numa posição lucrativa mais alta.
Uma notícia no Financial Times Fev. 6, 2012 (p. 7) adequadamente intitulada "Manhattan Transfer" proporcionava ilustrações típicas da "porta giratória" Tesouro-Wall Street.
Ron Bloom passou de banqueiro júnior no Lazard para o Tesouro, ajudando a engendrar um salvamento de um milhão de milhões de dólares da Wall Street e retornou ao Lazard como conselheiro sénior. Jake Siewert foi da Wall Street tornando-se ajudante principal do secretário do Tesouro Tim Geithner e então graduado na Goldman Sachs, tendo servido para solapar qualquer tecto nos bónus da Wall Street.
Michael Mundaca, o mais sénior responsável fiscal no regime Obama veio da Street e então passou par um posto altamente lucrativo na Ernst and Young, uma firma corporativa de contabilidade, tendo ajudado a reduzir impostos corporativos durante o seu período no "gabinete público".
Eric Solomon, um responsável fiscal sénior na infame isenção de impostos corporativos da administração Bush, fez a mesma comutação. Jeffrey Goldstein que Obama encarregou da regulação financeira e teve êxito em solapar exigências populares, retornou ao seu patrão anterior, Hellman and Friedman, com a adequada promoção pelos serviços prestados.
Stuart Levey que dirigiu as sanções da AIPAC contra políticas do Irão a partir da chamada "agência anti-terrorista" do Tesouro foi contratado como advogado geral pelo HSBC para defendê-lo de investigações de lavagem de dinheiro (FT 2/6/12, p. 7). Neste caso Levey passou da promoção dos objectivos de guerra de Israel para a defesa de um banco internacional acusados de lavar milhares de milhões do cartel mexicano. Levey, a propósito gastou tanto tempo a insistir na agenda iraniana de Israel que ignorou totalmente a lavagem de dinheiro dos carteis mexicanos da droga com operações transfronteiriças durante quase uma década.
Lew Alexander, conselheiro sénior de Geithner na concepção do salvamento de mil milhões de dólares, é agora responsável sénior no Nomura, o banco japonês. Lee Sachs passou do Tesouro para o Bank Alliance (sua própria "plataforma de concessão de empréstimos"). James Millstein foi do Lazard para o Tesouro, salvou a seguradora AIG dirigida abusivamente por Greenberg e então estabeleceu a sua própria firma privada de investimento tomando consigo um conjunto de responsáveis do Tesouro bem conectados.
A "porta giratória" Goldman Sachs-Tesouro continua ainda hoje. Além do passado e actual chefes do Tesouro, Paulson e Geithner, Mark Patterson, antigo sócio da Goldman, foi recentemente nomeado "chefe de equipe" de Geithner. Tim Bowler, antigo administrador director foi nomeado por Obama para chefe da divisão de mercados de capital.
Deveria ser perfeitamente claro que eleições, partidos e os mil milhões de dólares de campanhas eleitorais têm pouco a ver com "democracia" e mais a ver com a selecção dos presidente e dos legisladores que nomearão homens não eleitos da Wall Street para tomarem todas as decisões económicas estratégicas para 99% dos americanos. Os resultados da porta giratória Wall Street-Tesouro são claros e proporcionam-nos uma estrutura para entender porque a "crise do lucro" desvaneceu-se e a crise do trabalho aprofundou-se.
Os "alcances políticos" da porta giratória
O conluio Wall Street-Tesouro (CWST) tem desempenhado um trabalho hercúleo e audacioso para o capital financeiro e corporativo. Face à condenação universal da Wall Street pela vasta maioria do público pelas suas fraudes, bancarrotas, perdas de empregos e arrestos hipotecários, o CWST apoiou publicamente os trapaceiros com um salvamento de um milhão de milhões de dólares. Um movimento ousado face a isto, como se maiorias e eleições contassem para alguma coisa. Igualmente importante é que o CWTS lançou ao lixo toda a ideologia do "livre mercado" que justificava lucros dos capitalistas com base nos seus "riscos", pela imposição do novo dogma do "demasiado grande para falir" pelo qual o tesouro do estado garante lucros mesmo quando capitalistas enfrentam a bancarrota, desde que sejam firmas de milhares de milhões de dólares. O CWST também deitou ao lixo o principio capitalista da "responsabilidade fiscal" em favor de centenas de milhares de milhões de dólares de isenções fiscais para a classe dominante corporativo-financeira, provocando défices orçamentais recordes em tempo de paz e tendo então a audácia de culpar os programas sociais apoiados pelas maiorias populares. (Será de admirar que estes ex-responsáveis do Tesouro obtenham ofertas tão lucrativas no sector privado quando abandonam o gabinete público?)
Em terceiro lugar, o Tesouro e o Banco Central (Federal Reserve) proporcionam empréstimos a juro próximo de zero que garantem grandes lucros a instituições financeiras privadas as quais tomam emprestado a juro baixo do Fed e concedem empréstimos a juro alto (incluindo o Governo!) especialmente na compra de governos além mar e títulos corporativos. Eles recebem em qualquer lugar de quatro a dez vezes as taxas de juro que pagam. Por outras palavras, os contribuintes proporcionam um monstruoso subsídio à especulação da Wall Street. Com a condição acrescentada de que hoje estas actividades especulativas são agora assegurados pelo governo federal, sob a doutrina do "Demasiado grande para falir".
Sob a ideologia da "recuperação da competitividade" a equipe económica de Obama (desde o Tesouro até o Federal Reserve, o Departamento do Comércio e o do Trabalho) encorajaram o patronato a empenhar-se no mais agressivo despedimento acelerado (shedding) de trabalhadores da história moderna. A produtividade e a lucratividade aumentadas não é o resultado de " inovação" como proclamam Obama, Geithner e Bernache; é um produto de uma política de estado quanto ao trabalho que aprofunda a desigualdade pela manutenção de salários baixos e margens de lucro em ascensão. Menos trabalhadores a produzirem menos mercadorias. Crédito barato e salvamentos para os bancos de milhares de milhões de dólares e nenhum refinanciamento para casas e firmas de pequena e média dimensão que levam a bancarrotas, absorções (buyouts) e nomeadamente "consolidação", maior concentração de propriedade. Em resultado o mercado de massa estagna mas os lucros corporativos e dos bancos alcançam níveis recorde. Segundo peritos financeiros, sob a "nova ordem" do CWST "os banqueiros são uma classe protegida que desfruta de bónus sem relação com o desempenho, enquanto confia no contribuinte para socializar suas perdas" (FT 1/9/12, p.5).
Em contraste, o trabalho, sob a equipe económica de Obama, enfrenta a maior insegurança e a mais ameaçadora situação da história recente: "o que é inquestionavelmente novo é a ferocidade com que os negócios nos EUA sangra o trabalho agora que o pagamento dos executivos e os esquemas de incentivo estão ligados a objectivos de desempenho a curto prazo" (FT 1/9/2012, p. 5).
Consequências económicas de políticas de estado
Por causa da captura pela Wall Street das posições estratégicas no governo quanto à política económica podemos entender o paradoxo de margens de lucro recordes em meio à estagnação económica. Podemos compreender porque a crise capitalista, pelo menos a curto prazo, foi substituída por uma profunda crise do trabalho. Dentro da matriz de poder da Wall Street-Departamento do Tesouro retornaram todas as velhas e corruptas práticas de exploração que levaram ao crash de 2008-2009: bónus multi-bilionários para banqueiros de investimento que conduziram a economia ao crash; bancos "a apanharem rapidamente milhares de milhões de dólares de produtos hipotecários empacotados que recordam a dívida fatiada e jogada aos dados que alguns (sic) culpam pela crise financeira" (FT 2/8/12, p.1). A diferença hoje é que estes instrumentos especulativos são agora apoiados pelo contribuinte (Tesouro). A supremacia da estrutura financeira da economia estado-unidense anterior à crise está em vigor em próspera ... "só" a força de trabalho dos EUA afundou no maior desemprego, declínio de padrões de vida, insegurança generalizada e profundo descontentamento.
Conclusão: O processo contra o capitalismo e pelo socialismo
A crise profunda de 2008-2009 provocou um jorro de questionamentos do sistema capitalista, mesmo entre muitos dos seus mais ardentes advogados a crítica abunda (FT 1/8/12 a 1/30/12). "Reforma, regulamentação e redistribuição" eram o cardápio de colunistas financeiros. Mas a classe dominante na economia e no governo não lhe presta atenção. Os trabalhadores são controlados por líderes sindicais capachos e falta-lhe um instrumento político. Os pseudo populistas de direita abraçam uma agenda pró capitalista ainda mais virulenta, clamando pela eliminação total de programas sociais e impostos corporativos. Dentro do estado verificou-se uma grande transformação que efectivamente esmagou qualquer ligação entre capitalismo e estado previdência, entre a tomada de decisões pelo governo e o eleitorado. A democracia foi reatada por um estado corporativo, fundamentado na porta giratória entre o Tesouro e a Wall Street, a qual canaliza riqueza pública para cofres dos financeiros privados. A brecha entre o bem-estar da sociedade e as operações da arquitectura financeira é definitiva.
A actividade da Wall Street não tem utilidade social, seus praticantes enriquecem-se sem actividade que os redima. O capitalismo demonstrou conclusivamente que prospera através da degradação de dezenas de milhões de trabalhadores e rejeita as súplicas infindáveis por reforma e regulamentação. O capitalismo real existente não pode ser arreado para elevar padrões de vida ou assegurar emprego livre do medo de despedimentos em grande escala, súbitos e brutais. O capitalismo, como experimentámos ao longo da última década e no futuro previsível, está em oposição polar à igualdade social, à tomada de decisões democráticas e ao bem-estar colectivo.
Lucros capitalistas recordes são ampliados pela pilhagem do tesouro publico, negando pensões e prolongando "trabalho até que você morra", levando famílias à bancarrota com exorbitantes custos corporativos de medicina e educação.
Mais do que nunca na história recente, maiorias recordes rejeitam o domínio por e para os banqueiros e a classe dominante corporativa (FT 2/6/12, p. 6). Desigualdades entre os 1% do topo e a base dos 99% atingiram proporções recordes. Presidentes de empresas ganham 325 vezes mais do que um trabalhador médio (FT 1/9/12, p.5). Desde que o estado tornou-se um "fundamento" da economia dos predadores da Wall Street, e desde que a "reforma" e regulamentação fracassaram tristemente, é tempo de considerar uma transformação sistémica fundamental que abra caminho a uma revolução política a qual forçosamente expulsará as elites financeiras e corporativas não eleitas que dirigem o estado para os seus próprios exclusivos interesses. A totalidade do processo político, incluindo eleições, está profundamente corrompida: cada nível de gabinete tem o seu próprio preço inflacionado. A actual disputa presidencial custará US$2 a US$3 mil milhões de dólares para determinar qual dos servidores da Wall Street presidirá sobre a porta giratória.
O socialismo já não é a palavra assustadora do passado. O socialismo envolve a reorganização em grande escala da economia, a transferência de milhões de milhões dos cofres das classes predadoras de nenhuma utilidade social para o bem-estar público. Esta mudança pode financiar uma economia produtiva e inovadora baseada no trabalho e no lazer, no estudo e no desporto. O socialismo substitui o terror diário da demissão pela segurança que traz confiança, segurança e respeito ao lugar de trabalho. A democracia no lugar de trabalho está no cerne da visão de socialismo do século XXI. Começamos por nacionalizar os bancos e eliminar a Wall Street. As instituições financeiras são redesenhadas para criar emprego produtivo, servir o bem-estar social e preservar o ambiente. O socialismo começaria a transição, de uma economia capitalista dirigida por predadores e trapaceiros e um estado sob o seu comando, rumo a uma economia de propriedade pública sob controle democrático.

Será que nas próximas décadas o aquecimento global será compensado por uma actividade solar reduzida? É isso que afirma num livro recente Fritz Vahrenholt, um executivo alemão dos serviços públicos de electricidade. Numa entrevista a Spiegel, argumenta que as previsões oficiais das Nações Unidas sobre a gravidade da mudança climática são exageradas e apoiadas numa ciência débil.
O executivo bem-falante mostra-se nervoso no início da conversa. Parece estar à procura de palavras – o que não é muito vulgar para um provocador experimentado. Afinal, Fritz Vahrenholt, de 62 anos, que é doutorado em química, tem sido um rebelde toda a vida. "Provavelmente é típico da minha geração", diz.
É típico da parte duma pessoa que amadureceu durante o movimento estudantil contestatário do final da década de 60, e que lutou contra as instalações de fabrico tóxicas da indústria química nos anos 70. O seu partido, o Partido Social Democrata (PSD) alemão, de centro esquerda, escolheu-o como senador do ambiente na cidade estado de Hamburgo, onde enfrentou a fúria do lobby ambientalista construindo uma grande instalação incineradora que lhe granjeou a alcunha de "Feuerfritze" (Fire Fritz = Fritz Incendiário). Depois disso, trabalhou na indústria, primeiro para a multinacional petrolífera Shell e depois para o fabricante de turbinas eólicas RePower, que ajudou a desenvolver. Agora, como director executivo do grupo de energias renováveis RWE Innogy, está em vias de se envolver na sua próxima importante batalha. "Vou arranjar inimigos em todas as áreas", afirma.
"Não está a ocorrer nenhuma catástrofe climática"
Pretende quebrar um tabu. "Não está a ocorrer nenhuma catástrofe climática", escreve no seu livro "Die Kalte Sonne" (O Sol Frio), publicado por Hoffmann and Campe, que estará nas livrarias na próxima semana.
Antes da sua publicação deu o livro a ler apenas a um climatologista, Jochem Marotzke, director do Instituto de Meteorologia Max Planck de Hamburgo. A opinião de Marotzke é clara: Vahrenholt representa as opiniões dos cépticos climáticos: "Há muito tempo que foram refutadas uma série das hipóteses deste livro", afirma Marotzke, mas acrescenta, numa nota auto-critica, que a sua profissão deixou por explicar que as temperaturas globais não vão aumentar uniformemente. Pelo contrário, diz Marotzke, pode haver também fases de estagnação e até quedas menores nas temperaturas. "Isso expõe-nos a possíveis críticas", disse.
Embora os livros de heréticos climáticos despertem normalmente pouca atenção, pode acontecer o contrário no caso de Vahrenholt. "A sua fama", diz Marotzke, "garante que vai haver discussão sobre este assunto".
O livro é uma fonte de desconforto para o partido de Vahrenholt. Ninguém da direcção do PSD está disposto a comentar as teorias do seu ilustre membro, desde o antigo ministro do Ambiente e actual presidente do PSD, Sigmar Gabriel, até ao líder da bancada parlamentar, Frank-Walter Steinmeier, a quem foi dado um exemplar antecipado do livro.
Uma conferência de Vahrenholt programada para a Universidade de Osnabrück na Alemanha noroeste acaba de ser cancelada.
SPIEGEL – Mr. Vahrenholt, na penúltima semana, fez um anúncio surpreendente de que se demitiu da direcção da RWE Innogy. E agora aparece o seu livro "Die Kalte Sonne," em que desmente a catástrofe climática. Foi forçado a demitir-se porque as suas ideias podiam denegrir a recente imagem verde da RWE?
Vahrenholt – Não. De resto, o meu contrato expirava no final do ano. Além disso, vou continuar como membro do conselho de supervisão da empresa durante mais três anos.
SPIEGEL – Como é que os seus colegas executivos reagiram à sua previsão provocatória de que vai haver mais frio em vez de mais calor nas próximas décadas?
Vahrenholt- Isto não é um livro da RWE. Para além do director executivo, Jürgen Grossmann, não dei um exemplar antecipado a mais ninguém da empresa. Grossman, de resto, achou-o tão interessante que leu o livro todo numa só noite.

SPIEGEL – Apesar disso, a sua saída precipitada da gestão da RWE faz lembrar o escândalo que rodeou Thilo Sarrazin, que em 2010 foi forçado a demitir-se do conselho de administração do banco central da Alemanha na sequência da publicação do seu polémico livro sobre a imigração e a integração.
Vahrenholt – Não se trata de uma saída precipitada. Além disso, não preciso de Thilo Sarrazin como modelo. Também não precisei de modelo quando chamei a atenção para os riscos da indústria química no meu livro de 1978 "Seveso ist überall" (N.T. Seveso está em toda a parte – uma referência ao horrível derramamento químico de Seveso na Itália em 1976). Agora, quero que novas descobertas científicas sejam incluídas no debate sobre o clima. Nessa altura tornar-se-á mais claro que é insustentável a simples equação de que o CO2 e outros gases com efeitos de estufa produzidos pelo homem são quase exclusivamente responsáveis pela alteração climática. Não aqueceram este planeta durante quase 14 anos, apesar de continuadas emissões crescentes de CO2. A ciência climática institucionalizada tem que aparecer com uma resposta para isso.
SPIEGEL – O senhor, por profissão, é um executivo dos serviços públicos de electricidade. O que é que o levou a envolver-se na climatologia?
Vahrenholt – Na minha experiência como especialista em energia, aprendi que o Painel Intergovernamental sobre Alteração Climática (IPCC) é mais um órgão político do que científico. Enquanto relator de energias renováveis, verifiquei que a base factual para as previsões feitas pelo PIAC é muito ténue. Aconteceu que uma absurda afirmação de activistas do Greenpeace de que 80 por cento do fornecimento mundial de energia poderia em breve provir de fontes renováveis foi aceite sem discussão. Isso obrigou-me a examinar o relatório do IPCC com mais atenção.
SPIEGEL- E qual foi a sua conclusão?
Vahrenholt – A versão longa do relatório do IPCC refere-se a causas naturais para a mudança climática, como o sol e as correntes oceânicas oscilantes. Mas isso já não aparece no resumo destinado aos políticos. Foi simplesmente eliminado. Até hoje, muitas tomadas de decisão não têm tido em conta estudos recentes que têm posto em causa seriamente o predomínio do CO2. O CO2, só por si, nunca provocará um aquecimento de mais de 2 graus centígrados até ao fim do século. Só com a ajuda de supostos efeitos de amplificação, principalmente do vapor de água, os computadores chegam a um aumento drástico de temperatura. Eu digo que o aquecimento global se vai manter abaixo dos dois graus no final do século. Isto é uma mensagem eminentemente política, mas também é uma boa notícia.
SPIEGEL – O senhor faz afirmações muito concretas sobre como a actividade humana contribui para os acontecimentos climáticos e sobre o papel desempenhado pelos factores naturais. Porque é que não publica os seus prognósticos numa revista profissional?
Vahrenholt – Porque eu não estou envolvido numa investigação climática. Além disso, não tenho nenhum supercomputador lá na cave. Na sua maior parte, o meu co-autor, o geólogo Sebastian Lüning, e eu apenas resumimos o que os cientistas têm publicado em revistas profissionais – tal como faz o IPCC. O livro é também uma plataforma para os cientistas que utilizam bons argumentos quando divergem das opiniões do IPCC. Os modelos climáticos institucionais demonstraram ser inoperantes porque não conseguem explicar de modo convincente a ausência de aquecimento.
SPIEGEL – O senhor afirma que essa ausência tem a ver com o sol. Porque é que se sente assim tão seguro?
Vahrenholt – Em termos de clima, temos uma subida e descida cíclica nos últimos 7 milénios, muito antes de o homem começar a emitir CO2 para a atmosfera. Tem havido uma fase de aquecimento de mil em mil anos, incluindo nos períodos romano, medieval e actual. Todos esses períodos de aquecimento coincidem consistentemente com uma forte actividade solar. Para além dessa grande flutuação de actividade, há também um ciclo do sol natural de 210 anos e de 87 anos. Ignorar isto é um erro muito grave…
SPIEGEL - … mas os investigadores solares ainda não chegaram a acordo se esses ciclos que mencionou existiram realmente. O que é que acha que isso significa para o futuro?
Vahrenholt – Na segunda metade do século XX, o sol esteve mais activo do que tinha estado há mais de 2000 anos. Este "grande máximo solar", como lhe chamam os astrónomos, contribuiu pelo menos tanto para o aquecimento global como os gases de estufa CO2. Mas o sol tem estado mais fraco desde 2005, e assim vai continuar durante as próximas décadas. Por consequência, agora só podemos esperar um arrefecimento do sol.
SPIEGEL – É indiscutível que as flutuações da actividade solar podem influenciar o clima. A maioria dos especialistas aceita que um longo mínimo solar invulgar, demonstrado pelo pequeno número de manchas solares simultâneas, levou à "Pequena Idade de Gelo" que começou em 1645. Houve muitos invernos rigorosos nessa época, com os rios a congelarem. No entanto, os astrofísicos ainda não sabem até que ponto as flutuações solares afectam as temperaturas.
Vahrenholt – Muitos cientistas aceitam que a temperatura muda mais de um grau centígrado durante o ciclo de 1000 anos e até 0,7 graus centígrados nos ciclos mais curtos. Os climatólogos deviam dedicar maior esforço para encontrar formas de determinar mais rigorosamente os efeitos do sol sobre o clima. Para o IPCC e para os políticos por ele influenciados, o CO2 é praticamente o único factor. A importância do sol para o clima é sistematicamente desprezada e a importância do CO2 é sistematicamente sobrevalorizada. Em consequência disso, todas as previsões climáticas se baseiam em factos subjacentes errados.
SPIEGEL – Mas o senhor faz exactamente o mesmo que critica aos climatologistas: Usando um conjunto ténue de dados, faz previsões exactas. No seu livro, o senhor avalia a influência do sol sobre o clima até à casa decimal. Ninguém pode fazer isso.
Vahrenholt – Eu não afirmo saber exactamente se o sol é responsável por uma percentagem de aquecimento global de 40, 50, ou 60 por cento. Mas é um absurdo que o IPCC afirme que o sol não tem nada a ver com isso.
SPIEGEL – Concretamente, o senhor prevê um arrefecimento global de 0,2 a 0,3 graus centígrados até 2035. Porquê uma previsão tão arriscada?
Vahrenholt – Se queremos revitalizar um debate morno, temos que ter a coragem de referir um número. E deduzimos esse número a partir de estudos científicos sobre a história do clima até ao presente.
'Dezenas de investigadores solares concordam comigo'
SPIEGEL – Então a sua apreciação de que estamos enganados quanto ao aquecimento global é pura e simplesmente uma provocação?
Vahrenholt – Não. Acredito nisso muito a sério e sei que dezenas de investigadores solares concordam comigo. Tenho perfeita consciência da difamação que vou ter que aguentar no futuro próximo. O debate climático também tem alguns traços duma inquisição. Tenho curiosidade em ver qual vai ser o agente da verdade que vai iniciar um processo contra mim. Talvez seja o Instituto Potsdam para a Investigação do Impacto Climático, que é dirigido por Hans Joachim Schellnhuber, conselheiro da chanceler.
SPIEGEL – O senhor afirma que a paralisação do aquecimento global desde 2000 foi provocada em grande parte por um declínio simultâneo da actividade solar. Mas, na realidade, o sol comportou-se de modo relativamente normal até meados do século, ficando visivelmente mais sossegado apenas depois disso. Como é que isso se encaixa?
Vahrenholt – Há dois efeitos: a diminuição da actividade solar, assim como as flutuações nas correntes oceânicas, tal como a oscilação do Pacífico todos os 60 anos, que esteve numa fase de aquecimento positivo de 1977 a 2000, e após 2000 levou ao arrefecimento em consequência do seu declínio. A sua contribuição para a mudança na temperatura também foi incorrectamente atribuída ao CO2. Mas, acima de tudo, o último ciclo de manchas solares foi mais fraco do que o anterior. É por isso que o campo magnético do sol continuou a enfraquecer desde 2000. Em consequência disso, esse campo magnético não nos protege tão bem contra a radiação cósmica, o que por sua vez leva a uma formação mais intensa de nuvens e, portanto, de arrefecimento. Que mais é que é preciso que aconteça para que o IPCC pelo menos se refira a estas relações nos seus relatórios?
SPIEGEL – O que o senhor não menciona é que ainda não se provou que a radiação cósmica, que é impedida pelo sol com vários graus de eficácia, leve de facto a mais nuvens de arrefecimento na Terra. Até agora, é apenas uma hipótese.
Vahrenholt – É mais do que isso. Desde 2006 que se vem realizando a Experiência Nuvem, chefiada pelo físico Jasper Kirkby, no centro de investigação de partículas CERN perto de Genebra. Os resultados iniciais de testes efectuados numa câmara em que foi simulada a atmosfera da terra, demonstrou que as partículas cósmicas conduzem de facto à formação de partículas aerossol para as nuvens.
SPIEGEL – Mas os aerossóis demonstrados na Experiência Nuvem são demasiado pequenos. Teriam que aumentar até poderem servir como gérmenes de condensação para nuvens. Se isso acontece na natureza continua a ser uma questão em aberto. O senhor apresenta-o como um facto consumado.
Vahrenholt – Vai encontrar no livro muitas correlações entre a cobertura de nuvens e a radiação cósmica. O que eu gostava de saber era porque é que o IPCC não examina atentamente este mecanismo. A minha convicção é que uma resposta a esta questão poria em perigo todos os fundamentos das previsões do IPCC.
SPIEGEL – Apesar disso, o senhor devia ser mais cuidadoso com os prognósticos sobre a futura actividade solar. Em 2009, cientistas dos EUA previram que não ia haver manchas solares durante anos. E elas voltaram em 2010. A verdade é que estamos a presenciar uma actividade solar bastante normal neste momento.
Vahrenholt – O ciclo solar é tudo menos normal. Cientistas da NASA prevêem que este ciclo será o mais fraco dos últimos 80 anos. Não só começou com dois anos de atraso, como também é muito fraco. E, além do mais, não basta contar as manchas solares. As partículas cósmicas continuam a cair em cima de nós porque o campo magnético do sol pouca protecção nos está a dar.
SPIEGEL – É verdade que vai haver um grande mínimo solar nos próximos 500 anos. Mas ninguém sabe exactamente quando. A probabilidade de que venha a ocorrer nos próximos 40 anos é inferior a 10 por cento. Mas, no seu livro, o senhor prevê: "É óbvio que o sol vai ser responsável por períodos mais frios na primeira metade deste século". O senhor sabe mais do que todos os astrofísicos juntos?
Vahrenholt – A probabilidade de um grande mínimo solar, como o que ocorreu durante a Pequena Idade de Gelo, é de facto inferior a 10 por cento. Mas estamos no início de um declínio mais leve na actividade solar do tipo do que assistimos cada 87 anos e cada 210 anos. Tenho falado com muitos físicos solares que acham que isso vai acontecer.
SPIEGEL – Conhecemos muitos outros cientistas solares que põem isso em dúvida. Estatisticamente, tão provável é outro máximo como um mínimo. Prever o que o sol fará nas próximas décadas é quase como ler a sina.
Vahrenholt – Só conheço um cientista solar alemão que exprimiu essa dúvida. Vários grupos de investigação solar americanos e britânicos acham que se avizinham ciclos solares fracos. Eu levo isso a sério e espero apenas arrefecimento do sol até 2050.
SPIEGEL – E que fará se, afinal, as temperaturas continuarem a subir,
Vahrenholt – Darei ao SPIEGEL uma entrevista em 2020 e reconhecerei publicamente que me enganei. Mas estou convencido de que não vai ser necessário.
SPIEGEL – Está mesmo convencido de que todos os 2000 cientistas envolvidos no IPCC estão enganados ou obedecem a uma linha oficial?
Vahrenholt – As coisas não são assim tão simples. No entanto, critico o papel desempenhado pela meia dúzia de importantes autores que fizeram a edição final do relatório. Afirmam que usaram 18 mil publicações avaliadas pelos seus pares. Mas 5000 dessas publicações são aquilo a que se chama literatura cinzenta, não são fontes avaliadas por pares. Estes erros acabam por se saber, tal como a absurda afirmação de que dentro de 30 anos já não haverá glaciares nos Himalaias. Esses exageros não me surpreendem. Dos 34 membros supostamente independentes que escrevem o relatório síntese para os políticos, quase um terço está associado a organizações ambientalistas como o Greenpeace ou o WWF. É estranho, não acha?
SPIEGEL – Porque é que está a assumir o papel de rebelde climático com tanta paixão? De onde vem essa raiva toda?
Vahrenholt – Durante anos, difundi as hipóteses do IPCC e depois senti-me ludibriado. A energia renovável está próxima e é-me muito querida, e há mais de 30 anos que ando a lutar pela sua expansão. A minha preocupação é que, se os cidadãos descobrirem que as pessoas que andam a alertar para um desastre climático estão apenas a dizer metade da verdade, deixem de estar preparados para pagar custos mais altos de electricidade para a energia eólica e solar. Nessa altura, a conversão do nosso abastecimento energético não terá a aceitação necessária.
SPIEGEL – Se tirarmos do seu livro a conclusão lógica, será desnecessário reduzir as emissões de CO2.
Vahrenholt – De modo nenhum. Mesmo um aumento de temperatura de apenas um grau será uma mudança significativa. Mas o que eu digo é que a mudança climática é possível de gerir porque os efeitos de arrefecimento do sol e das correntes oceânicas nos dão o tempo suficiente para nos prepararmos. De qualquer modo, para nós alemães, será fácil ajustarmo-nos.
SPIEGEL – Então, é um erro concentrarmo-nos exclusivamente na redução do dióxido de carbono?
Vahrenholt – É. Para além do dióxido de carbono, também temos o negro de fumo, por exemplo. Cria 55 por cento do efeito de aquecimento do CO2, mas podia ser filtrado com pouco esforço dentro de alguns anos, principalmente em países emergentes e em desenvolvimento. E, ao fazer isso, conseguiríamos enormes benefícios para a saúde humana.
SPIEGEL – A expansão da energia eólica teria avançado tão rapidamente sem estas preocupações com o clima?
Vahrenholt – Foi uma força motora. Mas foram principalmente as capacidades de engenharia que elevaram a energia eólica a um nível rentável. Mais uma vez, quero continuar a realçar a energia renovável, que temos que tornar competitiva. Apenas acho que temos que avançar de modo sensato: a energia eólica e a biomassa são óptimas na Alemanha, mas nada de painéis solares, por favor! Ficam melhor em África e na Europa do Sul. É uma loucura instalar 50 por cento dos painéis solares mundiais na "Alemanha Solar" com medo do suposto desastre climático e gastar 8 mil milhões de euros por ano com isso!
SPIEGEL – Mas não estará a dar um tiro no pé quando diz que a mudança climática não é assim tão má? Como é que pretende continuar a justificar o comércio de emissões se acha que os gases de estufa são irrelevantes?
Vahrenholt – Eu só digo que o CO2 é um gás climático, e que o seu efeito é apenas metade do que o IPCC afirma. No entanto, ainda temos que reduzir as emissões de CO2 através do comércio internacional de emissões. E também há outras razões para queimar menos combustíveis fósseis. Já não temos assim tanto carvão, petróleo e gás no mundo, por isso temos que economizar mais. Também temos que nos tornar menos dependentes das importações de países totalitários.
SPIEGEL – Há inquéritos que mostram que o medo da catástrofe climática diminuiu.
Vahrenholt – Os pregadores do medo ainda dominam o debate político. Segundo o Conselho Alemão para a Mudança Climática, os países que se preocupam com o ambiente deviam impor pela força o consumo reduzido com o objectivo de proteger o clima. Isso leva-nos na direcção de uma ditadura ambientalista. E o medo propagandeado também está a produzir efeitos. Ainda há pouco tempo, num restaurante, ouvi uma mulher numa mesa ao lado a dizer aos filhos que era errado comer um bife argentino… por causa do clima. É por isso que eu pergunto: Como é que chegámos a este ponto?
SPIEGEL: Mr. Vahrenholt, obrigado por esta sua entrevista.
O jornalista francês Gilles Jacquier foi morto quando fazia uma reportagem em Homs, na quarta-feira, 11 de janeiro. Tinha ido cobrir os acontecimentos na Síria para o magazine Envoyé spécial.
Persuadido de que não havia grupos terroristas, mas uma revolução reprimida em sangue, tinha recusado a proteção dos serviços de segurança e não usava capacete nem colete anti-balas. Com outros colegas que partilhavam as suas convicções, alugaram três minibuses e encontraram "pontos fixos", quer dizer, pessoas locais capazes de ajudá-los a encontrar pontos de referência, a marcar encontros e serviços de tradutores.
Todos em conjunto tinham pedido para encontrar-se com representantes alauitas antes de se dirigirem para os bairros revoltados de Bab Amr e Bab Sbah. Chegados ao Hotel As-Safir, tinham reencontrado por acaso um capitão que lhes propôs acompanhá-los com o seu destacamento até ao bairro alauita de Najha onde eram esperados por um assistente do governo de Homs. Com a sua ajuda, os jornalistas puderam encontrar personalidades e interrogar as pessoas na rua. Às 14:45 horas, a representante do governo tinha-lhes pedido que abandonassem o local o mais depressa possível, pois o cessar-fogo acabava de facto, em cada dia, às 15 horas precisas. No entanto, os jornalistas da rádio televisão belga flamenga (VRT) tinham-se aventurado mais longe em casas particulares até ao bairro de Akrama, pelo que o grupo demorou mais tempo a sair dali. Membros da associação das vítimas do terrorismo que tinham previsto manifestar-se em frente de um carro alugado pelo Ministério da Informação para cerca de quarenta jornalistas anglo-saxões, mas que não os tinham encontrado, acharam que seria útil gritarem slogans pelo presidente Bachar em frente das câmaras de televisão que ali se encontravam. Às 15 horas, como em cada dia, a batalha de Homs recomeçou. Um projétil explodiu no terraço de um edifício, destruindo um reservatório de óleo lubrificante. Um segundo projétil caiu sobre uma escola, depois um terceiro sobre os manifestantes pró-Assad, matando dois deles. Os jornalistas subiram ao terraço para filmar os estragos. Houve uma acalmia. Gilles Jacquier, pensando que os tiros tinham acabado, desceu com o seu ajudante para ir filmar os cadáveres dos manifestantes. Chegado ao vão da porta foi morto com seis militantes pró-Assad por uma quarta explosão, que o projetou sobre a pessoa que lhe servia de guia. Essa jovem foi ferida nas pernas.
Na confusão geral, o morto e a ferida foram evacuados em carros para o hospital. Este incidente fez nove mortos no total e vinte e cinco feridos.
A batalha de Homs prosseguiu com numerosos outros incidentes durante a tarde e a noite. À primeira vista, tudo era claro: Gilles Jacquier tinha morrido por acaso. Encontravase no lugar errado no momento errado. Sobretudo, as suas convicções sobre a natureza dos acontecimentos na Síria levaram-no a acreditar que só devia recear as forças governamentais e que não corria nenhum risco fora das manifestações antiregime. Por isso tinha recusado uma escolta, não tinha usado capacete e colete antibalas, não tinha respeitado a hora fatídica do fim do cessar-fogo. Definitivamente, não tinha sabido avaliar a situação, porque foi vítima da diferença entre a propaganda dos seus colegas e a realidade que ele negava.
Nestas condições, não se compreende muito bem porquê, depois de uma primeira reação de cortesia, a França, que tinha legitimamente exigido um inquérito às circunstâncias da morte do seu cidadão nacional, insinuou subitamente que Gilles Jacquier tinha sido assassinado pelos sírios e recusou que a autópsia tivesse lugar no local em presença dos seus especialistas. Estas acusações foram publicamente explicitadas por um dos jornalistas que acompanhavam Jacquier, Jacques Duplessy.
Para a imprensa francesa os factos não foram tão evidentes como parecia: persiste uma dúvida sobre a identificação dos projéteis mortais. Segundo a maior parte dos repórteres, tratava-se de tiros de morteiros. O exército sírio confirma que esta arma é quotidianamente utilizada pelos terroristas em Homs. Mas segundo alguns testemunhos, foram roquetes atirados a partir de um lança-roquetes portátil, e a televisão privada síria Ad-Dúnia mostrou as asas do roquete. Há quem se apaixone por este assunto, não sem segundas intenções. Em França, os anti-Assad acreditam no morteiro e acusam o exército sírio de o ter atirado. Enquanto que os pró-Assad acreditam no roquete e acusam os terroristas. Em definitivo, este detalhe não prova nada: é certo que o exército sírio utiliza morteiros, mas não deste calibre e os grupos armados utilizam lança-roquetes, mas nada impede cada campo de variar o seu armamento.
De resto, se é que se tratou de tiros de morteiro, os dois primeiros permitiram ajustar o tiro do terceiro e quarto para atingir os manifestantes que eram o seu alvo. Mas se se tratava de tiros de roquete, era possível visar com muito mais precisão e matar uma pessoa em particular. A tese do assassínio tornava-se possível.
O estudo das imagens e dos vídeos mostra que os corpos das vítimas não estão ensanguentados e crivados de estilhaços, como quando da explosão de um obus que se fragmenta. Pelo contrário, eles estão intactos, correndo o sangue, segundo os casos, pelo nariz e os ouvidos, como quando da explosão de um roquete termobárico, cujo impacto comprime os órgãos provocando hemorragias internas. Da mesma forma, os pontos de impacto sobre o passeio não indicam nenhum traço de fragmentação.
Note-se que certos testemunhos falam de granadas, o que não faz de modo nenhum avançar a nossa compreensão, porque existem granadas de sopro e granadas de fragmentação. Em definitivo, só a hipóteses de arma de sopro (RPG ou granada) é compatível com os elementos médico-legais visíveis nas fotos e vídeos. Acorrendo ao local, os investigadores sírios e os observadores da Liga Árabe encontraram caudas de morteiro de 82 mm e uma cauda de roquete de fabrico israelense.
Por consequência, as autoridades francesas têm razão para estudar a possibilidade do assassínio, mesmo quando se trata para eles de aproveitar um drama para instrumentalizar e justificar a sua ambição de guerra contra a Síria. Portanto, os diplomatas franceses, se tiverem por objetivo procurar a verdade, têm também manifestamente o objetivo de assegurar-se de que os sírios não a descubram. Assim, impediram todos os francófonos de se aproximarem da fotógrafa Caroline Poiron, companheira do jornalista Gilles Jacquier, que velava o seu corpo durante toda a noite. A jovem, em estado de choque, não conseguia dominar o seu comportamento e teria muito que dizer.
Depois, proibiram a autópsia no local e repatriaram o corpo o mais depressa possível. Qual é portanto a hipótese por que a França quer verificar sozinha, mas esconder do grande público?
Aqui começa o nosso mergulho no mundo dos serviços especiais ocidentais que conduzem na Síria uma "guerra de baixa intensidade", comparável às que foram organizadas nos anos oitenta na América Central ou, mais recentemente, na Líbia, para preparar e justificar a intervenção da NATO.
Gilles Jacquier era um repórter apreciado pelos seus colegas e premiado profissionalmente (Prémio Albert Londres, Prémio dos correspondentes de guerra, etc.). Mas não era só isto…
Numa carta com o cabeçalho de France-Télévisions , datada de 1 de dezembro de 2011 , as redatoras chefes da revista Envoyé spécial – a emissão política mais vista no país – tinham solicitado um visto do ministério sírio da informação [1] . Pretendendo querer verificar a versão síria dos acontecimentos segundo a qual "os soldados do exército sírio são vítimas de emboscadas e de grupos armados que grassam pelo país" elas pediam que Jacquier pudesse seguir o quotidiano dos soldados da 4.ª divisão blindada, comandada pelo general Maher-el-Assad (irmão do presidente) e da 18.ª divisão blindada, comandada pelo general Wajih Mahmud. As autoridades sírias ficaram surpreendidas pela arrogância dos franceses: por um lado, enquadram grupos armados que atacam as tropas leais, por outro pretendem infiltrar um agente da informação militar nas suas tropas, para informar os grupos armados das suas deslocações. Não foi dado seguimento a este pedido.
Assim, Gilles Jacquier tentou uma outra via. Pediu a intermediação de uma religiosa greco-católica de linguagem franca, estimada e por vezes temida pelo poder, Madre Agnès-Mariam de la Croix, com um cargo de direção no Mosteiro Saint-Jacques de l'I