1- Araguaia: mortos que caminham
2 - A Guerrilha do Araguaia vista pela "imaginação" de Studart
3 - Operação Araguaia: a Guerilha vista por dentro
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Araguaia: mortos que caminham
Por Osvaldo Bertolino
As marcas das lutas populares estão gravadas na história do Brasil de forma indelével. E a Guerrilha do Araguaia é, sem dúvidas, uma das principais delas. Tanto que os acontecimentos recentes sobre o episódio — principalmente a determinação judicial para que os arquivos referentes ao caso fossem abertos — estão no centro dos noticiários.
Mas, como convém aos que analisam os acontecimentos históricos à luz dos interesses ideológicos dominantes, a resistência à ditadura militar organizada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) é majoritariamente apresentada como um fato passageiro em nossa história — um mero choque entre grupos extremados à esquerda e à direita, deflagrado com a opção pela luta armada feita pelos primeiros.
Essa é uma versão que precisa ser persistentemente desmascarada. Na verdade, havia ali, condensados, dois veios cujas nascentes remontam aos primórdios de nossa existência como nação. Essa tese de que a defesa enérgica das idéias progressistas é coisa de "fanáticos" é antiga em nossa história.
Foi assim com a Inconfidência Mineira, que para certos historiadores só teve repercussão devido à morte violenta de Tiradentes — ignorando a clareza de objetivos e a amplitude do movimento mineiro. Felipe dos Santos, cujo corpo arrastado por cavalos banhou de sangue as ruas de Vila Rica, é outro exemplo.
E a conspiração dos Alfaiates, na Bahia, que nos legou quatro mártires da forca, também. Foi igualmente assim com Canudos e Contestado, revoltas populares impiedosamente esmagadas. Essa lógica repressiva demonstra mais do que qualquer palavra a importância desses movimentos. Os repressores não eram imbecis, sabiam perfeitamente o que faziam — ao punir com rigor os revoltosos tinham consciência do que estava em questão.
Decisão progressista do Exército
Do mesmo modo, não correspondem aos fatos históricos certas interpretações que procuram apresentar a truculência do Estado no Sul do Estado do Pará — o local dos combates — e na base de apoio à Guerrilha do Araguaia em São Paulo e no Rio de Janeiro — onde foram assassinados Carlos Danielli, Luiz Guilhardini, Lincoln Oest e Lincoln Bicalho Roque — como meramente coisa dos militares.
Os porta-vozes dessa tese esquecem que as Forças Armadas não formam algo à parte na sociedade nem tampouco em relação ao poder político. Se nas duas décadas pós-1964 a função principal das instituições militares foi a de executar o serviço sujo determinado pelos altos interesses econômicos que estavam em jogo, no movimento abolicionista o Exército desempenhou um papel sumamente importante ao recusar-se a caçar escravos fugidos.
Aquela decisão da oficialidade do Exército foi uma verdadeira insubordinação, mas foi sobretudo uma atitude digna — essencialmente progressista. E se podemos buscar características para as Forças Armadas do Brasil, principalmente do Exército, ela é precisamente esta: militância política. Se alguns altos mandatários militares ao longo da história procuraram fazer a política das oligarquias, o mesmo não se pode dizer da massa do Exército.
Em todos os movimentos revolucionários do nosso país, das fileiras das Forças Armadas surgiram personagens que são verdadeiras legendas das lutas populares. Maurício Grabois, o principal comandante da Guerrilha do Araguaia, por exemplo, tem origem militar. Assim como Tiradentes, Pedro Ivo e Luiz Carlos Prestes — para lembrar alguns.
Distinção social marcada
A predominância dessas versões maniqueístas sobre os combates entre a Guerrilha do Araguaia e os militares, portanto, não chega à profundidade dos fatos — que deve ser buscada na nossa formação histórica. Ainda hoje o Estado brasileiro tolera práticas de coronéis violentos, ícones das tradições de um país elitizado e fendido em dois extremos. Tanto que até nos dramas produzidos pela televisão o mote é recorrente.
Já escrevi que a estrutura oligárquica brasileira pode ser comparada ao shogunato japonês, sociedade tradicionalmente hierarquizada e belicosa que resolvia qualquer desentendimento ou divergência de opiniões via katana (o sabre dos samurais).
Não há um só momento em que os líderes oligárquicos aceitem negociar sinceramente. Idéias como diálogo e contemporização não fazem parte da elite brasileira.
O episódio da escassez de escravos e da chegada dos novos colonos poderia ter sido uma grande esquina na história brasileira. O esforço dos que dirigiam o Estado em manter a ordem estabelecida, no entanto, acabou garantindo a sobrevivência da estrutura oligárquica no país: antes o dono da terra tinha escravos, agora ele tinha vassalos. E, desde então, sua condição de senhor feudal praticamente não se alterou.
Ainda hoje, jagunços são utilizados para dirimir as diferenças de opinião no campo. E coronéis seguem solidamente representados em todas as esferas da política nacional. O retrato mais nítido dessa situação é a enorme distância que separa patrão e trabalhador, proprietário e despossuído. Poucos países no mundo convivem pacificamente com uma distinção social tão marcada. A elite brasileira espera de seus subordinados uma reverência inaceitável.
Ideal político bem definido
Do ponto de vista político, essa herança feudal apresenta-se em uma dicotomia clara: de um lado há uns poucos ricos e poderosos que lutam para manter privilégios. De outro, há uma massa imensa que vira e mexe chacoalha a ordem estabelecida. Essa elite não tem um projeto honesto de desenvolver o país e prefere o latifúndio, o monopólio e o cartel.
Desgosta de uma economia mais dinâmica, marcada pela profusão de livres iniciativas, porque isso significaria alargar o clube dos proprietários. Em sua concepção, novos jogadores não iriam multiplicar a riqueza mas dividir a já existente. O Estado, tradicionalmente vinculado ao poder econômico, não funciona como elemento de equilíbrio nessa dicotomia e assim contribui para o acirramento das posturas.
A estrutura oligárquica, que pesa sobre o país como um fardo insuportável, esmaga o consumo ao inibir o crescimento das forças produtivas e limitar a divisão social do trabalho. (É preciso ver que os consumidores não são apenas, nem principalmente, os que compram bens de consumo, mas também e sobretudo os que compram matérias primas e máquinas.) Esse é o ponto.
Ele motivou o agravamento da situação política que resultou no golpe militar de 1964 e continua presente em nosso cotidiano, cada dia mais roto e abandonado. As causas da condensação dos dois veios históricos em 1964, portanto, estão aguardando solução. A luta dos guerrilheiros do Sul do Pará e dos demais democratas que deram a vida por elas continua hoje por outros meios. É, a rigor, a mesma luta de Tiradentes, Frei Caneca, Cipriano Barata e tantos outros valentes que tinham um ideal político muito bem definido.
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A Guerrilha do Araguaia vista pela "imaginação" de Studart
O principal mérito do livro A Lei da Selva – Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares sobre a Guerrilha do Araguaia, recentemente lançado pela "Geração Editorial", é a revelação de mais segredos sobre a Guerrilha.
Por Osvaldo Bertolino
Em suas 383 páginas, o autor, o jornalista Hugo Studart, apresenta dossiês, relatórios, depoimentos originais escritos por participantes dos combates e fotos — alguns até agora inéditos. Como registro histórico, no entanto, a obra tem dois pecados originais: pretende basear-se em regras acadêmicas sem cumprir seus princípios, ou seja, analisar os diferentes pontos de vista evolvidos; e, assim como outras publicações do gênero, exagera na artificialidade interpretativa. Studart não chega a dar vôos delirantes, mas a linguagem utilizada no livro tem um defeito típico dos intelectuais que se imaginam num pedestal: o academicismo exasperante e tumultuado que massacra a clareza e a simplicidade.
A pesquisa, produzida originalmente como dissertação de Mestrado para o Departamento de História da Universidade de Brasília, conforme explica o autor, focou o "imaginário" dos militares mas o livro tem muitas passagens que são puras elucubrações de Studart. Segundo ele, seu principal corpus de informação é o Dossiê Araguaia, elaborado pelos militares entre 1998 e 2001. "Fica claro, portanto, que o objetivo não é analisar o episódio sob o ponto de vista dos guerrilheiros, tampouco dos moradores da região", escreveu ele. Numa de suas primeiras elucubrações, o autor afirma que trabalhou com a hipótese de que as práticas repressivas "estavam cravadas no histórico social, ou seja, no período de extremismos, resultante da Guerra Fria internacional e da repressão política instaurada".
A falta de uma tradição progressista
Bem, hipótese é hipótese — cada um pode ter a sua. Mas o rigor científico exige outra abordagem. Se quisermos compreender a Guerrilha do Araguaia, o "histórico social" brasileiro precisa ser analisado levando em conta elementos fundamentais da formação do nosso povo. "Para se compreender a dimensão do que significa a Guerrilha do Araguaia é necessário analisá-la historicamente", disse João Amazonas em depoimento colhido em agosto de 2001, na sede nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em São Paulo. Ou seja: nosso "histórico social" revela que o passado do Brasil contado pelas forças conservadoras tem uma interpretação; se quisermos contá-lo pelo ponto de vista progressista, os fatos ganham outra conotação.
Em suas interpretações, Studart pende visivelmente para o lado conservador. Já na abertura do livro, na página 14, ele afirma que a luta armada chegou ao Brasil depois do golpe militar de 1964. É conhecida a falta de uma tradição progressista na elaboração da nossa história. A ausência de debates, de discussão ampla, durante anos e anos entre os nossos estudiosos da história, decorrência dos arbítrios principalmente da ditadura militar, é uma das principais causas da nossa debilidade ao empreender estudos progressistas sérios. E Studart compreende tão bem essas dificuldades que adverte, na página 15, que o livro não tem "a pretensão de reconstruir a 'história definitiva' da guerrilha". Talvez por isso ele parte de um ponto de vista errôneo ao apresentar o combate no Sul do Estado do Pará como um enfrentamento armado decorrente do "período de extremismos".
Valores da sociedade brasileira
Aí o autor toma a nuvem por Juno. (A expressão tem origem mitológica. Ixião, criador de cavalos, apaixona-se platonicamente por Juno — Hera —, mulher de Zeus — Júpiter. Sentindo-se traído por essa paixão oculta, Zeus faz uma nuvem na forma de sua mulher. Ixião, enganado, une-se à nuvem, e, num sonho fantástico, nasce um centauro, criatura metade homem, metade cavalo.) Studart reduz àqueles combates armados o que foi uma luta de gerações sucessivas, muitas vezes sangrentas, e atribui à exaltação de alguns comandantes — principalmente João Amazonas e Maurício Grabois — as ações resolutas dos guerrilheiros. Na página 197, falando do "Tribunal Revolucionário", ele pergunta: "Nossos bravos guerrilheiros se sentiriam encarnação do novo-homem de Lênin?"
Nas páginas 61 e 62, Studart escreve: "Cabe lembrar, preliminarmente, que os episódios protagonizados pela guerrilheira Dina, assim como todos os sujeitos da Guerrilha do Araguaia, estavam inseridos dentro do sistema de representações e valores da sociedade brasileira dos anos 1960 e 1970." Para ele, existia simplesmente uma "polarização extremista, maniqueísta, quando predominava, tanto no nível teórico quanto na prática social, o marxismo e o antimarxismo". Dessa definição, completamente fora da realidade, o autor depreende que, "paradoxalmente, os dois lados se apresentavam como defensores da liberdade e da democracia". Portanto, as "Forças Armadas", sustentáculo da ditadura militar, e a Guerrilha, que queria a "ditadura do proletariado", estavam equivocadas.
O significado da Guerrilha do Araguaia
A linha de argumentação do livro, sempre baseada em "imaginários", explica esses conceitos "históricos". Studart revela uma certa má vontade com o que considera um excesso de movimentos armados. Mas este fato é revelador da vida política do país, da participação do povo desta ou daquela forma nos destinos da nação que em 1964 foi violentamente atacada pelos militares golpistas. O autor diz combater os "mitos" da história mas defende mitos como esse da indiferença da Guerrilha em relação à liberdade e à democracia. Ele não considera que por trás do movimento guerrilheiro estava um partido histórico, portador de um projeto revolucionário. Por não perceber isso, ele revela absoluta incompreensão do real significado da Guerrilha do Araguaia.
Na página 52, ele escreve: "No caso do Brasil, uma discussão profunda sobre a Guerrilha do Araguaia pode ser igualmente dolorosa, passional, maniqueísta, tanto para os militares quanto para o PCdoB. Mas, caso o debate seja administrado sem embustes nem revanchismo, pode vir a ser uma dor positiva, tão boa quanto a dor do parto. No caso, um parto da história." Como disse João Amazonas, o PCdoB não faz proselitismo sobre o Araguaia. "Nosso Partido achou que cumpriu o seu dever, de procurar, em condições difíceis, o caminho da resistência, preparando o fim do regime de tirania implantado no Brasil", disse ele. E explicou que o PCdoB é um Partido integrado às raízes do nosso povo. A "discussão profunda" que interessa, portanto, é a que considera os frutos dessas raízes.
A "questão militar" no Brasil
Trata-se de uma discussão integrada, por exemplo, ao significado histórico de movimentos da altura da Inconfidência Mineira e da Abolição da Escravatura. Assim como a Guerrilha do Araguaia, aquelas lutas sofreram feroz repressão e legaram para a história exemplos de que o povo não desiste do futuro. A proclamação da República e a busca por liberdade e democracia para o povo durante o regime militar não eram simples sonhos. Eram idéias naturais que se espalhavam pelo mundo e se tornavam realidade em muitos países. Fugir dessa constatação faz lembrar a frase insultante de Aristide Lobo, que se espalhou no dia seguinte à proclamação da República — de que o povo assistira ao fato "bestializado". O povo nas ruas impôs a Abolição da Escravatura, a República e o fim da ditadura militar.
O livro tem ainda sérias imprecisões. Não é o caso de discorrer sobre elas por conta da quantidade exagerada. Mas algumas passagens merecem rápidas considerações. Studart desconsidera, por exemplo, que as ações repressivas não podem ser tomadas como elaborações somente dos militares. A "questão militar" no Brasil precisa ser compreendida como algo inserido na sociedade. Não se pode, portanto, dizer que haja uma separação entre Forças Armadas e povo — em suas fileiras destacam-se personalidades que são nomes legendários no coração da nossa história. Os militares que cometeram crimes no Araguaia certamente não respondem por essa história. E nem se pode dizer que eles expressam o pensamento histórico das nossas Forças Armadas.
O autor não lançou apenas luz
Outro grave defeito da obra é a insistência do autor em afirmar que a Guerrilha do Araguaia queria "implantar uma utopia socialista no Brasil", quando o que ocorreu foi um agudo conflito do histórico combate por liberdade e democracia. Há ainda outras falhas sérias, como a tentativa de inocentar pistoleiros de aluguel — fazendo coro com os militares que participaram da repressão — e a afirmação de que o "comandante (Ângelo) Arroyo desertou em meados de janeiro de 1974?. Outra falha grotesca, inexplicável, é o registro de Maurício Grabois como "oficial de artilharia da Força Expedicionária Brasileira na Itália" — período em que o comandante da Guerrilha do Araguaia estava completamente envolvido na reorganização dos comunistas no Brasil. Ele também acolhe como verdade a informação dos militares segundo a qual o diário de Grabois foi incinerado logo após a sua morte.
Há ainda revelações citadas de segunda mão, sem comprovação prática (como a informação de que Grabois lutou na Itália). Outro problema sério é o texto assinado por Luis Mir, que está nas orelhas do livro — um purgante mental. (Ele chega ao ponto de culpar João Amazonas pelas mortes dos guerrilheiros.) Studart termina dizendo que "o objetivo principal do trabalho foi tão-somente lançar um pouco de luz nesse obscuro episódio da recente história brasileira". Não se pode dizer que o objetivo não foi alcançado. O problema é que o autor não lançou apenas luz — há muita confusão em suas informações. Seja como for, só o fato de ele criar uma oportunidade de debate sobre o assunto já é uma grande coisa. Studart apresentou os ideais da Guerrilha do Araguaia, em essência, como um amontoado de propósitos mais ligados aos sonhos do que à realidade. É o caso de dizer então: vivam os sonhos!
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Operação Araguaia: a Guerilha vista por dentro
Artigo originalmente publicado no Portal Vermelho no dia 4/5/2005
Operação Araguaia — Arquivos Secretos da Guerrilha, escrito pelos jornalistas Eumano Silva e Taís Morais, é uma obra de peso. Literalmente. O livro tem 636 páginas, escritas em linguagem fluente e baseadas em farta documentação. Os autores tomaram o cuidado de quebrar aqui e ali a monotonia com tons que adornam a narrativa. Na página 511, por exemplo, Eumano e Taís relatam o diálogo entre o guerrilheiro Daniel Callado, preso na base militar da cidade de Xambioá, e o soldado Josean José Soares. "O que você faz num lugar desses?", perguntou o soldado. Daniel respondeu: "Um dia você vai saber". Com Operação Araguaia, lançado em circuito comercial com grande divulgação, aquela resposta de Daniel passa a ter significado mais abrangente.
Esta forma de descrever os acontecimentos da Guerrilha do Araguaia — muitos já bem conhecidos —, combinada com informações de uma grande quantidade de documentos inéditos, ao mesmo tempo dá um colorido à narrativa e empresta credibilidade às informações. Uma revelação que impressiona é o depoimento de Manoel Jover Telles, integrante do Comitê Central e dirigente do PCdoB no Rio de Janeiro, à repressão no dia 8 de dezembro de 1976 — uma confissão de que ele traiu seus camaradas. Segundo o livro, em tom cordial Jover Telles fez um histórico do Partido e recordou o relato de Ângelo Arroyo sobre a Guerrilha. Depois, fez duras críticas aos comunistas. Num trecho, ele se exalta: "Basta, é demais!".
Reunião na Lapa
Ao proceder assim, Jover Telles atuou como um dos principais protagonistas da última ação da ditadura militar contra a Guerrilha. Operação Araguaia revela que Pedro Pomar e Haroldo Lima, desconfiados de seu comportamento no Rio de Janeiro, conversaram com ele antes da reunião da direção do Partido para debater a ação do PCdoB no Sul do Pará, que se iniciaria no dia 14 de dezembro de 1976 no bairro da Lapa, em São Paulo. Mas foram convencidos de que o dirigente carioca não havia se mancomunado com a repressão. Um erro fatal. No dia 16 de dezembro, ocorreu o episódio que ficou marcado como a derradeira chacina da ditadura militar. A operação foi montada com muita engenhosidade e executada com brutal perversidade.
Nove integrantes do Comitê Central haviam se reunido nos dias 14 e 15. No segundo dia à noite, João Batista Franco Drummond e Wladimir Pomar — filho de Pedro Pomar — deixaram a casa da Lapa. Pouco depois, ambos foram presos e encaminhados ao DOI-Codi. Nos dias seguintes, outros dirigentes do PCdoB seriam presos nas mesmas circunstâncias. Na madrugada do dia 16, Drummond morreu nas mãos dos torturadores. Na alvorada desse mesmo dia, o local da reunião foi metralhado. Estavam na casa Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e Maria Trindade — esta última uma militante do Partido encarregada das tarefas domésticas. Pomar e Arroyo foram chacinados.
Maria Trindade foi se juntar aos demais presos no DOI-Codi: Elza Monnerat, Wladimir Pomar, Aldo Arantes e Haroldo Lima. Segundo informações levantadas pelo PCdoB na ocasião, somente Jover Telles poderia dar as indicações para a ação repressiva. No depoimento revelado por Operação Araguaia, ele deu nomes e codinomes dos dirigentes comunistas e falou da existência de um "aparelho" do Partido em São Paulo. Num determinado momento da conversa, diz o documento, o dirigente carioca usou a expressão "nosso amigo" ao se dirigir a um dos interrogadores. Jover Telles foi expulso do PCdoB no 6º Congresso, realizado em fevereiro de 1983.
A vida de Carlos Danielli
Outro mérito notável do livro é a revelação, com base em informações dos militares, de datas e circunstâncias em que muitos guerrilheiros foram presos e mortos. A obra revela ainda como a repressão destruiu os depósitos de suprimentos da Guerrilha. Na pagina 547, os autores afirmam que uma série de reportagens publicadas pelo jornal Correio Brasiliense, a partir de 27 de julho de 2003, contestou a versão oficial de que não há documentos sobre a Guerrilha. Era uma farta documentação produzida pelos organismos de informação da ditadura e guardada por um militar "interessado em preservar a história do Brasil". Os papéis chegaram ao jornal pelas mãos da pesquisadora Taís Morais, co-autora do livro e filha de um oficial do Exército.
A obra registra ainda a contribuição decisiva da direção do PCdoB que estava em São Paulo e no Rio de Janeiro. Como revelou o livro Testamento de Luta – A vida de Carlos Danielli, lançado em 2002 pela editora Anita Garibaldi, Taís e Eumano explicam com detalhes o papel essencial para a Guerrilha dos dirigentes que permaneceram nas cidades. "Os estudos para a implantação de uma guerrilha rural contaram, desde o início, com a participação de Danielli", escrevem os autores de Operação Araguaia na página 235. Na página 381, eles reproduzem o desafio de Danielli aos seus algozes: "Eu sei como chegar à guerrilha. Sei também onde estão o Maurício Grabois e o João Amazonas, mas não vou dizer. Podem continuar."
Documentos do PCdoB
Há no livro uma série de imprecisões e de pequenos defeitos que, se não compromete a obra, a debilita. O uso do tom panfletário da chamada "grande imprensa" predomina quando os fatos exigem análises aprofundadas. Os adjetivos "esquerdistas" e "subversivos" para se referir aos guerrilheiros, por exemplo, são um recurso desnecessário. Esses pecadilhos recorrentes deixam entrever um certo preconceito típico de um modelo de jornalismo que dispensa o rigor na apuração dos fatos em nome de uma falsa imparcialidade. Um exemplo claro disso aparece já na introdução quando os autores dizem que "o radicalismo das duas partes incentivou a luta fraticida que se daria".
Outro exemplo de imprecisão é a versão de que a luta no Araguaia era por uma "revolução comunista". Isso se deve ao fato de a obra usar pouco os documentos que o PCdoB produziu ao longo das últimas quatro décadas. Muitas formulações chegam a ser ingênuas. É o caso, por exemplo, dos motivos que teriam levado ao "racha" do Partido entre o final da década de 50 e início da década de 60. "Kruchev comandou uma mudança de rumo na política soviética. Abandonou a doutrina da luta armada e passou a defender a transição pacífica como estratégia para se chegar ao socialismo. A corrente de João Amazonas alinhou-se aos stalinistas, manteve a violência revolucionária (…)", escreveram.
Uma boa notícia
O peso desproporcional aos documentos dos dois lados é talvez o maior defeito do livro. A narrativa também está repleta de simplismos. Outro exemplo que chama a atenção é a insistência dos autores em lembrar que os comunicados da Guerrilha à população omitiam a participação do PCdoB na organização do movimento armado. O livro apresenta ainda falhas como a descontinuidade de ações. É o caso do restabelecimento do contato da Guerrilha com Carlos Danielli em São Paulo, depois do primeiro ataque da reação, e das circunstâncias em que João Amazonas e Elza Monnerat não puderam retornar ao palco dos combates em abril de 1972. Em outra passagem, o livro diz que muitos guerrilheiros desejavam abandonar a área mas, com exceção dos casos amplamente conhecidos, não demonstra nenhum fato para comprovar tal informação. Pelo contrário.
Em resumo, pode-se dizer que a publicação de Operação Araguaia é uma boa notícia — a obra amplifica as vozes que denunciam as atrocidades cometidas pela ditadura militar. A Guerrilha do Araguaia, somada a outras ações democráticas, foi fundamental para a derrubada do regime dos generais golpistas. As forças militares mobilizadas para o combate final foram gigantescas. A reação avaliou a dimensão do movimento guerrilheiro e chegou à conclusão de que ele era resultado de um planejamento estratégico do PCdoB. Houve, no final das contas, um choque entre duas concepções para o país — uma mobilizou um ideal democrático e outra uma gigantesca máquina de guerra fascista. A história mostrou que o ideal democrático estava com a razão. A publicação de Operação Araguaia comprova isso.








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Espaço do pensamento marxista e progressita. Editado por Osvaldo Bertolino www.grabois.org.br |
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