O futebol e o “homem brasileiro”

Osvaldo Bertolino, no Grabois.org

O nosso estilo nacional e suas representações sobre o povo, que Nelson Rodrigues chamou de “homem brasileiro”, no campo do futebol ainda são pouco estudados pelo chamado pensamento social. Eles revelariam muito do que somos como nação — à boa moda brasileira, no dizer de José Lins do Rego. O centenário do futebol brasileiro, portanto, é digno de festa nacional — belíssima história de um século, construída pelo homem brasileiro que lutou pela Independência, pela Abolição, pela República, pela Revolução de 1930.

Ninguém sintetizou melhor o futebol brasileiro do que o escritor Nelson Rodrigues em sua clássica crônica sobre a famosa partida entre Santos e Milan pelo mundial interclubes. “O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão. E o lindo, o sublime na vitoria do Santos é que atrás dela há o homem brasileiro, com o seu peito largo, lustroso, homérico”, escreveu. À alusão a teoria clássica do drama, estabelecida por Aristóteles, Nelson Rodrigues agregou que a vitória do Santos valeu pela vitoria do homem brasileiro.

O cronista aplicou a mesma lógica quando interpretou o significado do “escrete nacional” defendendo as cores brasileiras nas competições internacionais. Para ele, nessas ocasiões a pátria se apresenta em calções e chuteiras. Na sua idéia, o que está implicado é o sentido moderno da palavra nação. Ou seja: uma comunidade política que, para existir, precisa ser corporificada por signos que representem os laços de pertencimento e solidariedade.

Nelson Rodrigues entendia que o “escrete” fazia a nação se realizar plenamente. Em uma crônica de 1970, por exemplo, ele afirmou que os jogos da seleção são as únicas ocasiões “em que todos se lembram do Brasil, em que 90 milhões de brasileiros descobrem o Brasil”. E provocou: fora as esquerdas, que acham o futebol o ópio do povo, todos os outros brasileiros se juntam em torno da seleção. O “escrete”, nas competições internacionais, era o “mito” da nação brasileira, revelando por intermédio dele as qualidades do agente representado, o homem brasileiro.

Essa formulação começou a se desenvolver com a conquista da Copa do Mundo de 1958, quando, segundo Nelson Rodrigues, a seleção brasileira venceu o complexo de vira-latas. Ele não menciona, mas é preciso considerar alguns aspectos já então incorporados ao futebol brasileiro — como a criação de um estilo próprio de jogar. A influência de elementos da cultura negra, como o samba e a capoeira, era uma marca da identidade do mencionado “homem brasileiro”. Numa de suas crônicas, Nelson Rodrigues elegeu o negro Didi como símbolo da vitoria brasileira — bom de bola mas “frouxo como homem”.

Com a conquista, não era só a imagem de Didi que se transformava. Era, sobretudo, a imagem que o brasileiro fazia de si próprio. “A partir desse mundial, o brasileiro começa a ter uma nova imagem de Didi. Repito: — passa a ver Didi como um homem de bem. Pois nós sabemos que nenhum escrete levanta um campeonato do mundo sem extraordinárias qualidades morais. De nada adianta o futebol se o homem não presta. O belo, o comovente, o sensacional do triunfo de ontem está no seguinte: – foi, antes de tudo, o triunfo do homem”, escreveu. Pelé e Didi, que além de virtuoses da bola, mostraram ser também bravos, sérios e responsáveis como os europeus.

O homem do Brasil entra na história

Essa mesma definição ganhou formas mais sofisticadas quando o Brasil conquistou o bicampeonato mundial em 1962. As magistrais atuações de Garrincha fizeram Nelson Rodrigues dizer que ele jogou um futebol lúdico e dionisíaco. Em uma crônica antológica, na qual comenta o jogo final contra a Tchecoslováquia, Nelson Rodrigues se concentra nos minutos finais, quando Garrincha, depois de um espetáculo em campo, parou diante de alguns adversários.

“É de arrepiar a cena. De um lado, uns quatro ou cinco europeus, de pele rósea como nádega de anjo; de outro lado, feio e torto, o Mané. Por fim, o marcador do brasileiro, como única reação, põe as mãos nos quadris como uma briosa lavadeira. Num simples lance isolado, está todo o Garrincha, esta todo o brasileiro, esta todo o Brasil. [...] O homem do Brasil entra na historia com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem. Aqueles quatro ou cinco tchecos, parados diante de Mané, magnetizados, representavam a Europa. Diante de um valor humano insuspeitado e deslumbrante, a Europa emudecia, com os seus túmulos, as suas torres, os seus claustros, os seus rios”, escreveu.

As crônicas de Nelson Rodrigues não são teses produzidas com a objetividade do trabalho acadêmico. São parte do mundo do futebol, escritas no calor dos fatos comentados. Os leitores eram as mesmas pessoas que iam aos estádios, que acompanhavam os jogos, que conversavam sobre futebol. Mas elas interagem muito mais com a realidade do que a predominância das idéias acadêmicas de maior circulação. O antropólogo Roberto Da Matta, por exemplo, no ensaio “Futebol: ópio do povo ou drama de justiça social?” afirma que o futebol no Brasil é uma “metáfora da própria vida”, uma “dramatização” em que a sociedade representa seus dilemas.

Do mesmo modo, Anatol Rosenfeld, no artigo “O futebol no Brasil”, considera o futebol uma forma de “expressão simbólica”, ou “representação organizada”, em que a sociedade brasileira expia impulsos e tensões da vida social por meio de num processo de catarse. São formulações que descartam o modo como os sentidos associados ao futebol pelo imaginário coletivo brasileiro são produzidos. Não há dicotomia entre academia e arquibancada, mas a essência do “homem brasileiro” descrito por Nelson Rodrigues tem sido motivo de controvérsias não é de hoje.

Ostensiva presença dos ingleses no mundo

Graciliano Ramos, em texto de abril de 1921 publicado no jornal O Índio, da cidade alagoana de Palmeira dos Índios, disse que o futebol não pegaria como esporte de massa no Brasil porque havia uma diferença gigantesca entre os sertanejos e os habitantes das cidades. “As cidades regurgitam de gente de outras raças ou que pretende ser de outras raças; nós somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda e galego. Nas cidades, os viciados elegantes absorvem o ópio, a cocaína, a morfina; por aqui há pessoas que ainda fumam limba. Nas cidades assiste-se, cochilando, à representação de peças que poucos entendem, mas que todos aplaudem, ao sinal da claque; entre nós, há criaturas que nunca viram um gringo. Nas cidades há o maxixe, o tango, o fox-trote, o one-step e outras danças de nomes atrapalhados; nós ainda dançamos o samba. Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega”, disse ele.

Eça de Queiroz também via um certo tipo de brasileiro das cidades com pouco identidade nacional. “No Brasil, as cidades eram cabeças de ponte do mundo moderno. Grupos urbanos procuravam aproximar-se o máximo possível dos exemplos europeus de organização econômica, estrutura social, atitudes e modo de viver. Os brasileiros se habituaram a consumir comida estrangeira, a usar remédios patenteados para curar suas moléstias, a perfumar-se com novas essências, a encher suas casas com móveis estranhos e novidades em artigos sanitários, a iluminar as casas sem o uso do óleo, a ir e a retornar da cidade mais rapidamente, a vestir-se à moda estrangeira e a adotar novos tipos de divertimentos, tudo porque os europeus davam o exemplo”, escreveu.

Ele atribuía o fenômeno à ostensiva presença dos ingleses no mundo. “Estão em toda parte, esses ingleses! Porque, por mais desconhecida e inédita que seja a aldeoa onde se penetra, por mais perdido que se ache num obscuro canto do Universo o regato ao longo do qual se caminhe, encontra-se sempre um inglês, um vestígio de ingleses!”, escreveu. Para ele, os confins do mundo estavam recebendo o seu Times ou o seu Standart e formando a sua opinião não pelo que viam ou ouviam ao redor de si, mas pelo artigo escrito em Londres. “A alma voltada sempre para trás, para o home; abominando tudo o que não é inglês, e pensando que as outras raças só podem ser felizes possuindo as instituições, os hábitos, as maneiras que os fazem a eles felizes na sua ilha do Norte”, disse.

Elite brasileira imita os ingleses

A causa do fenômeno era o progresso trazido pelos ingleses por meio de grandes investimentos em ferrovias, em infra-estrutura urbana, em energia. No final do século XIX e começo do século XX, a economia mundial viveu grandes mudanças. A tecnologia da Revolução Industrial aumentou ainda mais a produção, o que gerou uma grande necessidade de mercado consumidor para esses produtos e uma nova corrida por matérias primas. Era natural que a expansão do capitalismo difundisse os modos ingleses — entre eles o futebol, oficializado em 1863 com a criação do association football por doze clubes. Antes, em outubro de 1848, uma associação de escolas reuniu-se no Trinity College, em Cambridge, e elaborou as famosas “quatorze regras de Cambridge”.

Em 1863, representantes dos clubes de futebol ingleses fundaram a Football Association, a partir de uma reunião realizada na taverna Freemason’s, e redigiram um código de leis para o esporte, num total de treze itens. Essas regras sofreram sucessivas alterações até chegarem aos dezessete itens que formam hoje as leis do jogo. As regras foram aprimoradas, nasceram organizações semelhantes em outros países e no início do século XX o futebol afirmou-se como esporte de massas. No final do século XIX, as federações inglesa, escocesa, irlandesa e galesa criaram o International Football Association Board (IFAB), responsável pela monitorização das leis de jogo. A FIFA passou a integrar o IFAB em 1913 e, hoje, o International Board continua a ser o guardião das leis do futebol.

Quando os ingleses desembarcaram no Brasil, trouxeram na bagagem toda essa formulação futebolística. A elite brasileira, como observou Eça de Queiroz, logo começou a imitar os ingleses e tentou erguer barreiras para manter o povo distante da bola. Mal sabia ela que o futebol já havia conquistado ampla popularidade entre os súditos de Sua Majestade Britânica. Segundo o sociólogo britânico Stephen Wagg, muitos clubes ingleses surgiram como times de fábricas — o Arsenal, por exemplo — ou de igrejas — como o Aston Villa. Tornado religião laica do povo, na bela definição de Eric Hobsbawm, onde o futebol chegava ganhava simpatia das massas.

Intensa luta de classes no futebol

No Brasil, o futebol chegou quando o país respirava os novos ares da Independência e da Abolição. Os primeiros chutes vistos por aqui foram de marinheiros britânicos, freqüentadores habituais da costa do país — de Belém do Pará ao Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Thomaz Mazzoni, pioneiro do jornalismo esportivo brasileiro, diz em seu livro História do futebol no Brasil, publicado em 1950, que os marujos realizavam seus jogos “nos capinzais desertos do litoral norte e sul do país”. Distante do mar, segundo Mazzoni, alguns obscuros e mal documentados, como uns tais mister Hugh e mister John, um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro, juntaram operários brasileiros e funcionários ingleses em gramados improvisados. As duas cidades eram, desde o início da República, centros de grande importância e referência nacional.

Começou, desse modo, uma intensa luta de classes no futebol. O Colégio São Luis, de Itu (SP), por exemplo, reunia filhos dos “barões do café” e professores em animadas partidas. Outros colégios seguiram o exemplo. Era uma moda britânica. Quando o paulista Charles William Miller voltou ao Brasil em 1894, depois de passar dez anos estudando na Inglaterra — país natal de seus pais —, trouxe na mala um livro de regras do association footbaall, duas bolas, uma bomba de ar, um par de chuteiras, uma camisa do Banister Court School e outra do Saint Marys’s Fotbaal Club — onde se destacara como atacante. Outro brasileiro que trouxe a experiência do futebol em colégios foi o carioca Oscar Cox, que conhecera o esporte durante seus estudos no Collège de La Ville, em Lausane, na Suíça.

Outros jovens que estudaram no exterior espalharam a prática pelo Brasil. Os clubes começaram a surgir. Em São Paulo, Charles Miller promoveu o primeiro jogo em 1895, reunindo funcionários da Companhia de Gás e trabalhadores da São Paulo Railway — a maioria sócios do The São Paulo Athetic Club. Já existiam cinco clubes que promoviam o futebol: o São Paulo Athletic Club, a Associação Athletica Mackenzie College, o Sport Club Germania, o Sport Club Internacional e o Club Athletico Paulistano. Foram eles que criaram, em 1901, a primeira Liga de clubes do país, que começaria, no ano seguinte, a promover o Campeonato Paulista.

A etiqueta social da belle époque

Ainda em 1901, o carioca Oscar Cox reuniu uma comitiva de futebolistas e viajou para São Paulo a fim de participar de duas partidas com um grupo paulista liderado por René Vanorden. Os dois empates — 1 a 1 e 2 a 2 —, segundo o cronista Leopoldo Sant’Ana, citado por Mazzoni, traduziram a cordialidade do encontro. “Foram verdadeiras festas ao ar livre, nas quais predominava o esporte pelo esporte, num ambiente da mais franca camaradagem”. Tudo isso sem se descuidar do “desenvolvimento físico da raça, aliado ao intercâmbio social entre a mocidade das duas grandes capitais brasileiras”. O empate do primeiro jogo foi festejado por ambos os lados em um banquete na Rotisserie Sport, quando um brinde foi levantado ao rei Eduardo VII, da Inglaterra, e ao presidente brasileiro, o paulista Campos Salles.

O encontro serviu para dinamizar o futebol nos dois Estados. No Rio de Janeiro, Oscar Cox fundou, em 1902, o Fluminense Football Club, reunindo jovens que tentavam criar na cidade um espaço para manter os novos hábitos adquiridos no exterior. No mesmo ano, nasceu o Rio Foot-ball Club, considerado o primeiro clube de futebol da capital carioca, reunindo ingleses e brasileiros sem ascendência britânica. Mas o futebol era ainda essencialmente elitista. O jornalista Mário Filho, outro pioneiro de nossa literatura futebolística, diz em seu livro O negro no futebol brasileiro que as partidas eram presenciadas por moças maquiadas, bem penteadas e elegantes em seus grandes chapéus emplumados, torcendo nas arquibancadas com lencinhos em suas mãos delicadas.

No gramado, os jogadores se apresentavam enfeitados com toucas de tricô e faixas de cetim. “O futebol prolongava aquele momento delicioso de depois da missa”, disse ele, na mais perfeita consonância com a etiqueta social da belle époque. Ao cair nas graças da juventude, era inevitável que o futebol chegasse às camadas sociais que não pertenciam aos seletos clubes e aos prestigiados colégios. Mário Filho diz que os jogadores entravam em campo, saldavam as moças nas aruibancadas mas não repetiam seu hip-hip-hurrah “diante da geral, onde se amontoavam os torcedores sem colarinho e gravata”. Mas os sem colarinho e gravata logo começaram a fundar seus próprios clubes. Em 1906, a cidade do Rio de Janeiro já contava com mais de trinta clubes. O Clube regatas Botafogo, o Clube de Regatas Flamengo e o Clube de Regatas Vasco da Gama abriram suas portas ao futebol.

Amálgama entre o sentimento nacional e a bola

Em São Paulo, segundo Mazzoni, os times de bairro nasceram quase no mesmo tempo dos clubes fundadores da Liga. “A semente da popularidade futebolística brotou logo prodigiosamente. O exemplo dos estudantes e dos moços ricos do Mackenzie, Paulistano etc. não deixou indiferentes os rapazes operários dos bairros, e daí surgirem pequenos clubes em pouco tempo. Assim, se consultarmos, por exemplo, os jornais, leremos em duas ou três linhas que ‘estão combinados para hoje alguns matches de footbaal’, no ponto final do Tramway da Cantareira, entre os clubes A. A Cruzeiro Paulista x A. A Santos Dumont e S.C. Silvio de Almeida x S. C. Guarani”, escreve ele.

Nascia também os clubes de várzea — sinônimo de futebol humilde. Mazzoni relata que por volta de 1908 as modestas equipes da Paulicéia começaram a se reunir aos domingos na vasta área da Várzea do Carmo, próximo ao centro da capital paulista. “Nos vários campos improvisados, era um suceder-se interminável de partidas”, diz ele. A prática também se expandiu para terrenos baldios da cidade e surgiram vários clubes nas periferias. O futebol explodia em todo o país e rompia as barreiras geográficas e sociais que separavam a elite e o povo. O esporte ganhou força também no Rio Grande do Sul, no interior de São Paulo, no Norte e Nordeste, em Minas Gerais. No começo da segunda década do século XX, o futebol já gozava de grande popularidade no Brasil.

Em 1915, com a fundação da Confederação Brasileira de Desportos (CBD, que mais tarde se transformaria na CBF), a organização do futebol deu um salto importante. Nasceu ali a grande amálgama entre o sentimento nacional e a bola. A realização do terceiro Campeonato Sul-Americano de Futebol no Rio de Janeiro em 1919 fez explodir a nacionalidade futebolística brasileira. Até o sisudo historiador Capistrano de Abreu se rendeu à crescente mobilização popular. Em carta dirigia à senhora Assis Brasil, ele no Rio de Janeiro e ela no Rio Grande do Sul, escrita às vésperas do jogo contra os uruguaios, ele disse: “O grande acontecimento desse aldeão é o foot-ball. O Brasil só tem pela frente o Uruguai. Vencerá? (…) Nunca assisti a uma partida, não posso fazer idéia de como é, e os termos técnicos soam-me aos ouvidos como a mais arrevesada das gírias; mas enquanto for independente de socorros federais ou municipais, contará com minhas simpatias incondicionais o jogo de foot-ball.”  

Escola brasileira de futebol

Era a decisão, realizada dia 29 de maio de 1919, uma quinta-feira, às 14 horas, no novíssimo estádio do Fluminense, nas Laranjeiras. O presidente da República, Delfim Moreira, decretou ponto facultativo nas repartições públicas da capital, enquanto os bancos e boa parte do comércio sequer abriram as portas. Ao meio dia, o bonde da Companhia Light em direção às Laranjeiras começou a circular a cada dez minutos. O estádio lotou. Os morros ao redor foram tomados pela população. A conquista do título levou os torcedores ao delírio. Era, na expressão do historiador Nicolau Sevcenko, a “descoberta de uma vocação”. Segundo ele, o jornal O Estado de S. Paulo publicou que “os jogadores brasileiros evidenciaram possuir as melhores qualidades que se podem desejar em ‘footballers’, qualidades que somente ele, e nenhum outro povo, reúnem todas”.

Na ocasião, o jornalista Americo R. Netto, editor da então recém-lançada revista Sports, anunciou o surgimento da “escola brasileira de futebol”. Segundo ele, todos os povos que jogavam futebol imitavam os ingleses, mas aos brasileiros cabia a honra e a glória de terem criado seu uso próprio, um sistema novo de jogar. O futebol já era, de fato, parte importante do movimento modernizador da nação brasileira. Mas a entrada de pobres, negros e trabalhadores em campo escandalizava os que se imaginavam donos do futebol. Tanto que começaram a criar regras para enquadrá-lo.

No começo da década de 1920, a revista Sport Ilustrado relatou um distúrbio no campo do Botafogo de forma acentuadamente preconceituosa. “Há (…) em todos os clubs uma classe que sem fazer parte dos quadros sociais, é causa, quase que exclusiva, dos distúrbios verificados nos campos de futebol: a classe dos ‘torcedores’. Essa classe constituída em sua maior parte por indivíduos de baixa condição social, sem instrução e sem educação, não podendo, portanto, discernir com critério, a quem nada fica mal pois a sua própria condição assim o permite. O problema é difícil, mas pode e deve ter solução, do contrário a polícia encarregará de resolvê-lo”, escreveu a publicação.

O submundo do futebol

O texto dizia que a “famosa torcida” se avolumava a cada dia. E com ela o número de mal educados. “Quem se der ao trabalho de fazer uma ligeira análise sobre esses pedidos de inscrição verificará facilmente que quanto menos elevada é a posição social de um bom jogador, quanto mais duvidoso pode ser o seu nível moral. Tanto maior o número de clubs que o inscreveram e com as circunstâncias de que esses clubs são tais que não escolhem elementos de ordem moral para os seus quadros, mas, apenas bons jogadores”, disse a revista. A mesma publicação aplaudiu, em 1921, a decisão do presidente da Liga de Desporto Terrestre de Natal, Rio Grande do Norte, de promover “uma limpeza geral nos teams de club de foot baal”. “É muito melhor e mais bonito apresentar-se em campo um teams de rapazes decentes, embora não saibam jogar, porém que tem educação esportiva e representação no meio social, aos que se tem apresentado mal educados”, completou.

O alvo principal das discriminações era o negro. As demarcações sociais remanescentes da escravidão aparecem com nitidez quando se percorre a história do futebol, ainda que rapidamente. O livro de Mário Filho é uma referência importante, mas a imprensa da época é uma porta que revela, em toda a sua dimensão, o submundo do futebol daquele tempo. Já em 1907, o jornal Gazeta dos Sports noticiou que o Bangu Athletico Club oficiou a Liga Matropolitana dos Sports Athleticos desligando-se da entidade. O motivo era um ofício da Liga comunicando que não seriam aceitos registros de “pessoas de cor”.

Uma polêmica envolvendo o Vasco da Gama e a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos, em 1924, também mostra a força do racismo no futebol. O clube protestou contra a eliminação de doze atletas e obteve a resposta de que a Associação alimentava “a esperança de que para o futuro, elle (o Vasco) fizesse todos os esforços para constituir equipes genuinamente portuguezas, para uma demonstração sportiva das verdadeiras qualidades dessa nobre raça secular”.

À boa moda brasileira

A revolução de 1930 começaria a mudar a face elitista do futebol, mas ela, ainda nos dias que correm, se mostra vez por outra. De toda forma, é significativa a constatação de que dois jogadores que seriam os maiores ídolos da “era Vargas”, Leônidas da Silva e Domingos da Guia, têm a marca do negro brasileiro. E que, mais tarde, dois negros, Pelé e Garrincha, lideraram o ciclo de ouro do futebol brasileiro.

A “era Vargas” abriu as portas para uma nova manifestação cultual brasileira. O reflexo disso no futebol pode ser visto nas páginas esportivas dos jornais, nos textos de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e José Lins do Rego. No prefácio do livro Copa Rio Branco: 32, de Mario Filho, José Lins do Rego escreveu: “Os rapazes que nos representaram, triunfalmente, em Montevidéu, eram no fundo um retrato da nossa democracia social, onde Paulinho, filho de uma família importante, se uniu ao negro Leônidas da Silva, ao mulato Gradim, ao branco Martim. Tudo feito à boa moda brasileira. Lendo este livro sobre futebol, eu acredito no Brasil, nas qualidades eugênicas dos nossos mestiços, na energia e na inteligência dos homens que a terra brasileira forjou, com sangues diversos, dando-lhes uma originalidade que será um dia o espanto do mundo.”

O nosso estilo nacional e suas representações sobre o povo, que Nelson Rodrigues chamou de “homem brasileiro”, no campo do futebol ainda são pouco estudados pelo chamado pensamento social. Eles revelariam muito do que somos como nação — à boa moda brasileira, no dizer de José Lins do Rego. O centenário do futebol brasileiro, portanto, é digno de festa nacional — sua popularidade não se explica por algo sobrenatural de um ou outro clube. Cada um tem o seu valor e a sua cota de participação nessa belíssima história de um século, construída pelo homem brasileiro que lutou pela Independência, pela Abolição, pela República, pela Revolução de 1930.

Entrevista coletiva de Dilma em Porto Alegre

O que é a independência do Brasil?

Calúnias, má memória e escola ruim

Mino Carta, na revista CartaCapital  

No editorial dessa semana, Mino Carta argumenta contra os que acusam CartaCapital de ser leniente com o governo Lula e defende o apoio à candidata Dilma Rousseff

Por uma série de boas razões que não vale a pena declinar agora estou a colecionar aleivosias variadas perpetradas contra CartaCapital. Calúnias, para ser preciso. Em um texto de quatro anos atrás, um colega (colega?) jornalista chegou a afirmar em papel impresso que apoiamos a candidatura de Lula à reeleição para, em troca, contar com a presença do presidente da República na cerimônia anualmente realizada para premiar as empresas mais admiradas no Brasil. Tratou-se, segundo o autor, de uma verdadeira operação comercial, na linha do do ut des, ou facio ut facias.

Há quem some periodicamente os anúncios publicados em CartaCapital para registrar quantos são do governo e quantos da iniciativa privada. Há quem sustente que o próprio presidente da República nos encomenda reportagens convenientes à sua política, por exemplo, algumas de anos atrás a respeito de Hugo Chávez. Mas que fazer? Mino Carta não tem “capacidade” de atestar sua honradez.

Outro é o tom da carta de um jovem estudante de jornalismo (não cito o nome para não constrangê-lo). Ele fica “ávido em receber CartaCapital toda semana” porque a considera “a vanguarda da imprensa brasileira”. Mesmo assim, confessa ter dúvidas a respeito da nossa posição a favor de Lula e de Dilma Rousseff. Será que exageramos? Neste mesmo espaço, inúmeras vezes, e em outros da revista, fomos severos críticos do governo e não pretendo agora voltar a este assunto.

Temos, porém, a convicção de que Lula é um divisor de águas na história do País. Em primeiro lugar, porque um ex-metalúrgico chegou ao poder em lugar dos costumeiros engravatados e a maioria dos brasileiros achou-se muito bem representada. Tal seria, de alguma forma, um mérito involuntário, embora determinante de uma identificação que garante de saída a popularidade. -Há -outros, contudo, e são do seu governo.

Dois, sobretudo, na visão de CartaCapital. Nestes últimos oito anos, a preocupação social inspirou diversas ações governistas, de maneira muito mais clara e firme do que em governos anteriores. Além disso, deu-se com Lula uma alteração profunda na política exterior, altamente benéfica a nosso ver. Colham as provas na satisfação reinante nas classes menos favorecidas e no prestígio de que gozam mundo afora o País e seu presidente.

Muito há por fazer em termos de política econômica. A industrialização clama por políticas destinadas a apressar a transformação de um país exportador de commodities e sair dos impasses criados por uma taxa de juros recordista mundial. CartaCapital acredita que Dilma Rousseff não significa somente a continuidade, mas também condições de avançar em relação aos efeitos positivos da atuação de quem a precedeu.

O que mais tenho procurado, e aqui falo na primeira pessoa, é defender a minha honra, meu único capital. O estudante acredita que eu já tenha praticado o jornalismo dos donos do poder por ter sido o primeiro diretor de redação de Veja. Permito-me um passeio pelo passado. Desde quando saí da Veja, tenho de inventar meus empregos, porque não há lugar para mim na chamada grande (grande?) imprensa. Os interesses deles não coincidem com os meus. Só um dos patrões do pretenso quarto poder me ofereceu espaço no seu jornal, Otavio Frias de Oliveira e, a despeito das diferenças entre nós, não o esquecerei até o fim da minha vida.

Ah, sim, me demiti da direção da Veja para não ser despedido, ao contrário do que afirma em seu Notícias do Planalto Mario Sergio Conti. Não me surpreendeu que depois de me entrevistar longamente, ele tenha preferido publicar a versão do patrão Civita. Passo a expor a verdade factual, e desafio até quem me difama obsessivamente a provar o contrário.

Veja sofria censura feroz, enquanto a Editora Abril pretendia um empréstimo de 50 milhões de dólares (estamos em meados dos anos 70) para consolidar no Brasil dívidas contraídas no exterior. O próprio ditador Geisel, pela boca de Armando Falcão, ministro da Justiça (Justiça?), decretou seu niet, a não ser que se livrassem do acima assinado. Quem tiver dúvidas a respeito, leia o livro Fragmentos de Memória, de Karlos Rischbieter (Travessa dos Editores, 2007), que presidia então a Caixa Econômica Federal, à qual a Editora Abril recorrera.

Tirei o meu modesto time de campo antes da expulsão. Pela elementar razão de que me recusava a negociar minha saída. Quem sabe levasse um bom dinheiro, espécie de comissão sobre o empréstimo da Caixa a ser concedido juntamente com o fim da censura. Ocorre que não queria um único, escasso centavo saído dos bolsos de Victor e Roberto Civita. Vici e Arci: assim hão de ser pronunciadas suas iniciais.

É enredo miúdo, em comparação de tantos outros de vítimas da ditadura. De todo modo, o que me surpreende é um certo desconhecimento dos fatos por parte de um estudante de jornalismo. Está bem se ignora o meu passado, que não conheça a verdadeira história da censura é desolador. Tanto mais por não ser culpa dele. As responsabilidades são óbvias. O pouco caso com a memória antes de mais nada, traço característico da sociedade nativa. E logo após a escola incompetente, talvez inútil.

Lula: vá para a rua, seu Serra!

Segurança de Yeda, preso por extorsão, espionou senador, ministro e policiais

O sargento César Rodrigues de Carvalho, lotado na Casa Militar do governo gaúcho, foi preso nesta sexta-feira acusado de extorsão e cobrança de propina de contraventores do setor de caça-níqueis e bingos. Segundo Ministério Público, sargento era segurança da governadora Yeda Crusius e utilizou carros oficiais do governo para efetuar a cobrança de propinas. Além disso, ele teve acesso ao sistema integrado de consultas da Secretaria de Segurança e espionou a vida de um senador, um ministro, políticos e delegados de polícia. O Ministério Público mantém os nomes dos políticos espionados em sigilo.

Marco Aurélio Weissheimer, na Carta Maior 

O sargento César Rodrigues de Carvalho, preso nesta sexta-feira, em Porto Alegre, acusado de extorsão a bingos e violação de dados sigilosos de políticos e autoridades, utilizou diversas vezes carros do governo estadual para cobrar propinas de ao menos um proprietário de máquinas caça-níqueis em Canoas. A revelação foi feita hoje à tarde pelo promotor de Justiça Amílcar Macedo, durante entrevista coletiva em Canoas. O sargento estava lotado na Casa Militar do Palácio Piratini e foi preso pela manhã por corrupção e extorsão a contraventor de máquinas de caça-níqueis. Segundo o promotor, o sargento estava tentando obstruir a investigação sobre ele acessando dados sigilosos dos investigadores e outras autoridades.

A investigação iniciou há cerca de três meses quando a promotoria de Canoas recebeu a informação de que um contraventor de máquinas de caça-níqueis estaria sendo extorquido por um brigadiano lotado na Casa Militar do Palácio Piratini. Segundo a promotoria apurou, o recolhimento de propinas ocorria sempre após às 22 horas e vinha ocorrendo há cerca de dois anos. O sargento, disse o promotor, utilizava veículos oficiais da Casa Militar do governo do Estado destinados a fazer a segurança da governadora Yeda Crusius. Ainda segundo Amílcar Macedo, o sargento era um agente de inteligência que foi selecionado por critérios obscuros para trabalhar no Palácio. Presente à coletiva, o ex-ouvidor da Segurança Pública do Estado, Adão Paiani, disse que a governadora e outras autoridades do governo estadual foram advertidas em 2008 a não admitir o sargento no Palácio.

Na conversa com os jornalistas, o promotor Amílcar Macedo disse que ainda não sabe bem a mando de quem o sargento agia, mas não acredita que fosse uma atitude individual isolada. Macedo manifestou surpresa com a decisão do governo estadual de exonerar o sargento da Casa Militar e transferi-lo para a Secretaria da Segurança Pública. O Diário Oficial da última terça-feira (31) publica a exoneração da Casa Militar e, ao mesmo tempo, a concessão de uma FG 10, uma alta função gratificada, que pertencia a um coronel, transferido da Secretaria da Segurança para a Assembléia. Indagado sobre o que ele fazia na Casa Militar, o promotor respondeu: “Num primeiro momento nos informaram que ele era um agente de inteligência. Pelo que descobrimos ao longo da investigação, ele estava trabalhando, de fato, na segurança da governadora e tinha carros da Casa Militar à sua disposição”.

Espionou senador, ministro e delegado de polícia

César Rodrigues de Carvalho utilizou-se de senhas do sistema de Segurança do Estado para espionar a vida de políticos, delegados de polícia e outras autoridades gaúchas. O promotor Amílcar Macedo que revelou que, em apenas um intervalo de uma semana, o brigadiano fez mais de 1.200 “pesquisas” em todos os horários imagináveis. Para isso, se utilizava de computadores dentro do Palácio Piratini e também em sua residência. Entre outros, ele espionou a vida de um senador da República, de um ex-ministro de Estado (que não são do mesmo partido, assegurou o promotor), do chefe de inteligência do V Comando Aéreo de Canoas, de delegados de polícia e, mais recentemente, dos investigadores que estavam investigando-no. Ele também realizou pesquisas sobre endereços e veículos de diretórios municipais de um partido político do Estado. Amílcar Macedo prefere não revelar nomes por enquanto.

No terreno da cobrança de propinas do setor de bingos e caça-níqueis, a promotoria tem informações de que há outros empresários do ramo que também estavam sendo extorquidos. As “pesquisas” que o sargento realizava no sistema integrado de consultas da Secretaria de Segurança eram utilizadas também, segundo a promotoria, para avisar pessoas sobre operações da Brigada Militar, sobre mandados de prisão que seriam executados. “Ele tinha acesso inclusive a processos judiciais e a investigações em curso no Ministério Público. Além disso estava acessando dados sobre diretórios de um partido político e seus veículos. Não consigo entender que tipo de perigo ou ameaça à governadora poderia justificar o acesso a esses dados”, observou Macedo.

O promotor não quis adiantar conclusões quanto à destinação do dinheiro arrecadado na cobrança de propina (somente de um contraventor foram de 5 a 6 mil mensais durante um período de aproximadamente dois anos). Segundo o testemunho desse contraventor, o sargento dizia que o dinheiro era “para ele e para seus chefes”. “Não tenho elementos de convicção para falar sobre o destino do dinheiro. O que posso dizer é que há outras pessoas vinculadas a campanhas políticas de alguns candidatos que têm relações com esse sargento”, afirmou. Além disso, acrescentou, outras pessoas também estariam cobrando propinas no setor de caça-níqueis em um esquema similar ao operado pelo sargento. O Ministério Público tem vídeos da cobrança destas propinas. As imagens estão sendo periciadas e serão divulgadas após a perícia, garantiu o promotor.

O personagem do escândalo da quebra do sigilo fiscal

Celso Marcondes, na revista CartaCapital

Todo grande escândalo político nacional tem um personagem principal. Caseiro, motorista, irmão ou ex-mulher de político, sempre tem alguém para receber os holofotes das câmeras e adquirir seus 15 dias de fama. No escândalo do momento, o da quebra dos sigilos fiscais de 5 pessoas ligadas ao PSDB ou ao candidato José Serra, o protagonista é um contador. Antônio Carlos Atella Ferreira é o nome dele. Nestes dias 1, 2 e 3 de setembro ele saiu do anonimato para as páginas dos principais jornais e a tela do Globo.

Atella foi o cidadão que se dirigiu ao posto da Receita Federal da cidade de Santo André com uma procuração em mãos para solicitar cópias das declarações de renda da empresária Verônica Serra. A servidora da Receita que o recebeu não vacilou ao lhe entregar as informações pedidas. Para ela, era um procedimento de rotina: todos os dias, cidadãos ou seus procuradores, se encaminham aos postos do órgão federal para pedir cópias dos seus dados. Embora todas as pessoas sejam instruídas para guardar cópias de suas declarações anuais, é muito comum que parte destes cidadãos as perca. Deu pau no computador onde a declaração estava gravada, a pasta com o documento foi pro lixo por engano, na mudança de casa a pessoa não encontrou mais seu IR. Probleminhas assim, já vivenciados por pelo menos dois dos meus colegas de trabalho. Enfim, o serviço prestado pela Receita parece ser necessário.

O drama acontece quando descobrimos que o contador Atella tinha em mãos um documento fajuto. Verônica Serra não havia contatado seus serviços, a sua assinatura foi falsificada e também o reconhecimento da sua firma pelo cartório da Rua Augusta. A servidora da Receita, Lúcia de Fátima Milam, não foi capaz de perceber a falsificação e eu não creio que possa ser condenada por isso. Visivelmente abalada, ela vê sua vida revirada por conta do ocorrido e se retrai.

Atella, ao contrário, se deslumbra com a possibilidade de virar celebridade. Para a Folha de S.Paulo, ontem, pediu dinheiro para que fosse fotografado. O jornal não topou. Já a Globo garante que não pagou pela matéria que foi ao ar no JN, mas nos diários de hoje, Atella pede dinheiro para revelar os nomes dos “cinco ou seis’ que lhe fizeram o pedido para retirar os dados de Verônica. Por enquanto, pelo jeito sem receber nada, só entregou um:  o office-boy Ademir Estevam Cabral, filiado ao PV, que, segundo uma colega de trabalho disse ao JN, “mal sabe escrever”. Adiantou também, ao Estado de S.Paulo, que o pedido teria vindo de “Brasília e Minas”.

Atella também se define como um office-boy, mas “de luxo”. Disse que, por dia, encaminha uns “15 ou 20” pedidos de documentos aos cartórios e que vê no episódio sua chance de sair candidato a vereador.

Afirmou também que não gosta de política, mas é eleitor de Serra e que não sabia que Verônica era filha do candidato quando encaminhou o pedido. Disse que a solicitação em nome de Verônica veio em um “lote de cerca de 18” pedidos de obtenção de cópias de obtenção de declarações de IR.

A Folha de hoje detalha sua folha corrida: tem 4 CPFs, responde a 5 processos criminais em 5 cidades diferentes e a 12 processos civis, 10 em São Paulo e 2 em Rondônia. Achou muito? Tem mais: em 1976 foi condenado a 2 meses e 10 dias de detenções por lesões corporais leves e 30 dias de reclusão por sedução de menor.

Atellla pediu à Folha a quantia de R$ 10 mil para revelar detalhes da encomenda de dados de Verônica. Afirmou: “estou tentando ganhar dinheiro com essa ignorância jornalística”. Disse mais: “Se eu disser o senhor vai ter que me pagar”. Ainda segundo a Folha de hoje, completou: “são 30 minutos (de entrevista) com direito a imagem, E com depósito antecipado”.

Quem quiser saber mais sobre o personagem central do escândalo pode acessar os sites dos principais jornais, as entrevistas e matérias estão todas lá.

Temos fatos concretos até aqui para afirmar: é suspeito que as pessoas ligadas ao PSDB e ao candidato estejam entre os cerca de 300 nomes que tiveram seus sigilos fiscais violados. Também podemos dizer que a Receita Federal está devendo explicações para os contribuintes que pagam regularmente seus impostos.  E que devem ser revistas as formas de concessão de informações nos seus postos, assim como a utilização das senhas de acesso aos dados pelos seus servidores.

Em suma, se há um escândalo, até aqui, com as informações que temos, nesta tarde de sexta-feira 3, é o escândalo da vulnerabilidade dos dados que a Receita guarda. Ele exige respostas do governo federal, ao cabo das investigações comandadas pela Polícia Federal.

É cedo, porém, para pedir a impugnação da cassação de Dilma Rousseff, como fez o PSDB. É cedo também para dizer que tudo foi armado por um suposto “grupo de inteligência do PT”, mesmo porque data de setembro de 2009 o imbróglio envolvendo a filha de Serra. Outras hipóteses para se explicar a origem da trama continuam plausíveis. Em artigo publicado ontem aqui neste espaço, enumeramos outras 5 sugeridas por jornalistas, analistas e leitores.

Enquanto não surgirem novos dados e personagens, a história permanece centrada na figura do contador. Que pediu 10 mil reais para entregar seus contratantes.

Muito pouco confiável, convenhamos. Há 3 dias os repórteres de CartaCapital tentam falar com Atella. Seus telefones estão sempre ocupados ou na caixa postal. Queremos saber se ele diz os nomes de graça.

O caso do sigilo fiscal na Globonews

Por Charles Moura, no Luis Nassif Online

Ontem, no “Entre Aspas” da Globo News, que a Waldvogel pretendeu usar prá bombar a tese que o Serra foi apresentar no Clube da Aeronáutica, a do aparelhamento do estado, a moça mais uma vez foi tosquear e saiu tosqueada. A exemplo do que aconteceu quando chamou o Everardo Maciel prá desqualificar a Receita no “escândalo” montado pela Lina Vieira.

Notem a partir do tempo (4:30) que o professor Pedro Serrano (PUC/SP) denunciou a manobra e traz à luz a estratégia em curso. O Luiz Barroso, elegantemente, concorda com o Serrano. A condução da moça, transtornada, crispa-se e busca desqualificar a palavra daquele lhe pôs a nu, sem perder a razão.

Pó pará, Serra!

A via do desespero pode custar caro a Serra. Além das ações judiciais, começam a circular informações dando conta de algumas “coincidências” entre a data em que teria ocorrido a violação do sigilo fiscal de sua filha e o período da guerra surda que travou com o ex-governador de Minas, Aécio Neves.

Marco Aurélio Weissheimer, Carta Maior

O corregedor-geral eleitoral, ministro Aldir Passarinho Junior arquivou nesta quinta-feira a representação da coligação O Brasil Pode Mais, do candidato José Serra (PSDB), que pedia a cassação do registro da candidatura de Dilma Rousseff (PT) à presidência da República. Na representação, a coligação de Serra acusa Dilma e outras seis pessoas (o candidato ao Senado por Minas Gerais, Fernando Pimentel, os jornalistas Amaury Junior e Luiz Lanzetta, o secretário da Receita Federal Otacílio Cartaxo, e o corregedor-geral da Receita Federal, Antonio Carlos Costa D’Ávila) de “usar a Receita Federal para quebrar o sigilo fiscal de pessoas ligadas ao candidato Serra, com a intenção de prejudicá-lo em benefício da campanha da candidata Dilma”.

Como se sabe, Serra não apresentou nenhuma prova para sustentar essa grave acusação. Ou, nas palavras do ministro Aldir Passarinho Junior, não apresentou “concreta demonstração” de que a candidata Dilma Rousseff teria se beneficiado dos atos. Além disso, o ministro não reconheceu a existência de “lesividade na conduta capaz de desequilibrar a disputa eleitoral”. Os fatos narrados, destacou ainda o ministro, podem “configurar falta disciplinar e infração penal comum que devem ser apuradas em sede própria, que não é a seara eleitoral”.

Mas Serra já havia atingido seu objetivo: criar um factóide que, graças aos braços midiáticos de sua campanha, ganharam as manchetes dos grandes jornais e uma edição do Jornal Nacional de quarta-feira que, pelo seu evidente caráter manipulatório, lembrou aquela feita no famoso debate entre Lula e Collor. Em queda livre nas pesquisas, sem programa, sem discurso e mudando de linha a cada semana, o candidato José Serra partiu para o vale-tudo. Queria que o episódio ganhasse manchetes para ele usar no horário eleitoral. Conseguiu isso. Esse é, no momento, o programa que o candidato tucano tem a oferecer ao Brasil.

A estratégia desesperada pode ter o efeito totalmente inverso ao esperado. Maria Inês Nassif escreveu hoje no Valor:

“É tênue a separação entre uma acusação – a de que Dilma é a responsável pela quebra de sigilo – e a infâmia, no ouvido do eleitor. Quando a onda está contra o candidato que faz a acusação, um erro é fatal. Essa sintonia não parece que está sendo conseguida. O aumento da rejeição do candidato tucano, desde o início da propaganda eleitoral, é alarmante.”

Pior ainda: além do aumento da já crescente rejeição ao candidato tucano, o episódio pode expor a montagem de uma farsa (e de um crime) com cúmplices espalhados em várias redações brasileiras. A farsa: a campanha de Dilma teria quebrado o sigilo fiscal da filha de Serra. O crime: as acusações desprovidas de prova e fundamento dirigidas contra a pessoa da candidata. O PT anunciou hoje que decidiu entrar com duas ações judiciais contra Serra e uma contra o presidente do PSDB, Sérgio Guerra.

A primeira medida é uma representação no TSE, com base no artigo 323 do código que regula as eleições. O crime previsto é imputar fato sabidamente não praticado pelo adversário para atingir objetivos nas eleições. Neste caso, segundo José Eduardo Cardozo, secretário geral do PT, Serra e o PSDB sabem que o PT e a campanha de Dilma Rousseff não tiveram qualquer participação na quebra de sigilo de pessoas ligadas aos tucanos, mas assim mesmo fazem acusações. Além desta, o partido decidiu entrar com outra ação judicial contra José Serra por calúnia, difamação e injúria. A última medida é a representação na Procuradoria Geral da República contra Sérgio Guerra, por crime contra a honra devido às repetidas declarações de Guerra, acusando o PT e Dilma de serem os responsáveis por quebras de sigilo fiscal.

A estratégia pode custar caro a Serra. Além das ações, começaram a circular informações nesta quinta-feira, dando conta das incríveis “coincidências” entre a data em que teria ocorrido a violação do sigilo da filha de Serra e a da guerra que o ex-governador de São Paulo travou com o ex-governador de Minas, Aécio Neves. Essa guerra tem uma trama novelesca, envolvendo confusões policiais em festas, acusações de agressões, chantagens e investigações especiais realizadas pelos dois lados em disputa. Pois ambas as coisas, a quebra do sigilo com uso de procuração falsa e o ápice da guerra Serra-Aécio ocorreram no mesmo mês, setembro de 2009.

Conforme foi amplamente noticiado, o jornal Estado de Minas estaria, neste período, preparando uma “investigação especial” sobre Serra. O jornalista Amaury Ribeiro Jr., que trabalhou no Estado de Minas, anunciou o lançamento de um livro sobre os bastidores do processo de privatizações. Esse trabalho atingiria Serra e aliados. Em novembro de 2009, o blog de Juca Kfouri publicou uma nota afirmando que Aécio teria agredido a namorada em uma festa. A virulência desta guerra pode ser atestada em um inacreditável artigo de Mauro Chaves (jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor, conforme ele mesmo se apresenta), publicado no jornal O Estado de São Paulo em 28 de fevereiro de 2009. O recado do artigo, que critica as aspirações políticas de Aécio Neves, está resumido no título “Pó Pará, governador?” A expressão aparece na última linha de modo inteiramente abrupto, como quem não quer nada:

O problema tucano, na sucessão presidencial, é que na política cabocla as ambições pessoais têm razões que a razão da fidelidade política desconhece. Agora, quando a isso se junta o sebastianismo – a volta do rei que nunca foi -, haja pressa em restaurar o trono de São João Del Rey… Só que Aécio devia refletir sobre o que disse seu grande conterrâneo João Guimarães Rosa: “Deus é paciência. O diabo é o contrário.” E hoje talvez ele advertisse: Pó pará, governador?

Curiosamente, o jornal O Estado de Minas, ligado a Aécio, deu pouquíssima repercussão ao caso da filha de Serra. O mesmo ocorreu com o Correio Brasiliense. Ambos os jornais pertencem ao mesmo grupo, os Diários Associados. Ao contrário da imensa maioria dos jornalões brasileiros, não julgaram o tema relevante. Coisas da nossa brava imprensa, não é mesmo?

Nada disso importa a Serra, o homem que Pode Mais. O ex-governador de São Paulo é conhecido por isso: acredita que pode qualquer coisa. Pode? O povo brasileiro dará a resposta. E, pegando carona na expressão do articulista do Estadão, ele poderá dizer:

Pó pará, Serra!

Marco Aurélio Weissheimer é editor-chefe da Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)

 

 

Coligação de Dilma pede direito de resposta contra acusação de quebra de sigilo fiscal

Do Dilma13

A coligação “Para o Brasil Seguir Mudando”, que apoia a candidatura de Dilma Rousseff à presidência da República, ajuizou uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo direito de resposta e interrupção da veiculação da propaganda eleitoral da coligação adversária que menciona a quebra de sigilo fiscal da filha do presidenciável José Serra.

A publicidade considerada irregular pela coligação de Dilma foi veiculada ontem (2) no horário noturno da propaganda eleitoral em bloco de José Serra. Sustenta na ação que durante 5’05” de propaganda “houve a intenção clara de confundir  a cabeça do eleitor com uma profusão de fatos, misturados entre si, que não guardam a mínima relação”.

Argumenta que a propaganda ao associar episódios como o “caso dos Aloprados”, “caso Francenildo” e o “Mensalão” com a recente quebra do sigilo fiscal de Verônica Serra tenta demonstrar uma ‘repetição’ de fatos, “agora atribuída à candidata Dilma Rousseff.

Segundo a coligação de Dilma “a propaganda quer fazer crer que quem pratica um ato de violação do sigilo fiscal de alguém, como fizeram ‘adversários’ do candidato José Serra, utilizando-se da máquina pública da Receita Federal, podem ser associados a arrombadores de residências que vasculham gavetas”.

A coligação de Dilma afirma na ação que, desde que foi noticiada a quebra de sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, houve uma série de acusações de Serra na imprensa contra a candidata do PT à presidência, tentando responsabilizar a campanha dela pelos fatos ocorridos.

Tal conduta, argumenta, tenta imputar à candidata e sua coligação a prática de “crime contra a democracia”, “atentado contra a democracia” e “quebra de sigilo”, além de “jogo sujo de campanha”, “espionagem”   e  “chantagem”. Defende na representação que as acusações incorrem em prática de calúnia eleitoral, injúria e difamação, condutas previstas nos artigos 324, 326 e 325 respectivamente do Código Eleitoral.

Assim, a coligação de Dilma Rousseff pede a concessão de liminar ao TSE para suspender a propaganda contestada e, no mérito, a concessão de direito de resposta no tempo de 5 minutos e 5 segundos no programa eleitoral em bloco de Serra exibido à noite; e a condenação da coligação de José Serra à perda de 10 minutos e 10 segundos (equivalente ao dobro do tempo da propaganda veiculada).

O relator da representação é o ministro Joelson Dias.

Perguntas sem respostas

Sergio Lirio, na revista CartaCapital

A respeito das violações de dados secretos, pairam diversas dúvidas. Uma delas: como ligar as criminosas quebras de sigilo à sucessão?

Na quarta-feira 1º, ante as evidências de que tanto a procuração quanto a assinatura de Verônica Serra, filha do presidenciável José Serra, eram falsas, a Receita Federal foi obrigada a reconhecer que o sigilo fiscal da empresária havia sido acessado com base em documento falso. Foi mais um capítulo de um crime que a Receita não conseguiu dimensionar com clareza, que atingiu centenas de cidadãos e que tem alimentado o mais recente capítulo da disputa eleitoral.

É realmente suspeito o fato de cinco personagens ligados a Serra terem o sigilo fiscal violado. Além de Verônica, os ex-ministros Eduardo Jorge e Luiz Carlos Mendonça de Barros, o empresário Gregório Marin Preciado, casado com uma prima do candidato, e Ricardo Sérgio de Oliveira, o homem do “limite da irresponsabilidade” da privatização do Sistema Telebrás, tiveram seus dados violados, segundo a investigação da própria Receita.

Mas, ao lidar de forma pouco transparente com o assunto, o órgão público alimenta as teses mais convenientes para quem ainda tem esperança de alterar o quadro da sucessão. A autarquia poderia se esforçar para elucidar algumas dúvidas: apenas tucanos – e só os ligados a Serra – tiveram seus sigilos quebrados ilegalmente? Há dirigentes de outros partidos? Trata-se de um crime político ou da descoberta de um balcão de venda de informações fiscais de contribuintes indefesos?

São algumas das muitas perguntas ainda em aberto. A revelação do acesso não autorizado à situação fiscal de Verônica elevou ao mais alto decibel as acusações do PSDB contra a suposta chantagem política armada pela campanha de Dilma Rousseff. Serra declarou que a adversária e o PT cometeram um “ato criminoso”. Sérgio Guerra, presidente do partido, afirmou que Dilma e o presidente Lula “atentam contra a democracia”.

Os tucanos entraram com representação no Tribunal Superior Eleitoral com o intuito de cassar o registro da ex-ministra, que lidera com ampla margem todas as pesquisas, e a mídia relembrou o fantasma do “aparelhamento do Estado” e cunhou a expressão “aloprados II”, em alusão à prisão de petistas em um hotel de São Paulo que provocou o segundo turno em 2006. Na quinta 2, o TSE arquivou a representação. O presidente da República disse confiar na Receita e Dilma chamou de levianas as acusações de que as violações são obra de sua campanha.

Até o momento, só muita imaginação e um alto grau de leviandade permitem uma ligação tão linear entre a violação de sigilo e o seu suposto uso como arma suja de campanha – e especificamente pelo comitê de Dilma Rousseff. O que não quer dizer que ela não possa vir a ser provada.

O próprio caso do acesso ao sigilo de Verônica destoa dos demais. Ele ocorreu no fim de setembro do ano passado em uma delegacia da Receita em Santo André (SP). Os outros foram violados no início de outubro em Mauá. Naquela altura, nem Dilma era candidata nem o PT havia montado uma estrutura de campanha, muito menos o intitulado “grupo de inteligência”.

Os dados da filha do presidenciável foram obtidos por um advogado que aparentemente frequenta o submundo da negociação de dados sigilosos, o contador Antonio Carlos Atella Ferreira, dono de quatro CPF e com vários processos no lombo. Em várias entrevistas na quarta 1º, Ferreira admitiu ter solicitado à delegacia da Receita de Santo André as informações de Verônica, mas negou saber que a procuração e a assinatura eram falsas. Declarou-se eleitor de Serra e afirmou não lembrar o nome de quem lhe havia solicitado o serviço (“atendia de 15 a 20 pedidos desses por dia”). “Assinou, mandou para mim, eu tiro. E a Receita tem de entregar. A Receita não é nem a culpada, coitada. Não estou defendendo, mas a funcionária pega uma solicitação e tem de cumprir o ato administrativo”, afirmou o contador à Folha de S.Paulo. É a justificativa da analista Lúcia de Fátima Gonçalves, que liberou os dados mediante a procuração: “Não sou perita criminal. Não lembro a quem entreguei. Mas verifiquei que tinha firma reconhecida”.

Diante de uma funcionária enganada por fraude, como atribuir, neste caso, a culpa à Receita ou vociferar contra o “Estado policial”? E mais: quais as evidências a permitir as ilações de que os interessados em obter os dados de Verônica integrariam (integrariam, pois em setembro, recorde-se, não havia estrutura de campanha) o comitê de Dilma?

É preciso relembrar o noticiário que precedeu a atual celeuma. Em 12 de junho, a Folha de S.Paulo afirmou que entre os papéis de um suposto dossiê montado pelo “grupo de inteligência” sob o comando do jornalista Luiz Lanzetta constavam extratos da declaração de renda de Eduardo Jorge. Nenhuma menção a Preciado, Mendonça de Barros, Ricardo Sérgio ou Verônica. O jornal, nem nenhum outro veículo, não foi capaz até o momento de responder às seguintes perguntas: quem da equipe de Dilma obteve de forma criminosa os dados dos tucanos? Quando? A candidata autorizou a baixaria ou ao menos soube da operação? Por que, em junho, falou-se apenas em Eduardo Jorge?

No início de junho desenrolava-se uma briga interna no comitê petista entre Lanzetta, indicado por Fernando Pimentel, amigo da presidenciável e ex-prefeito de Belo Horizonte, e o grupo paulista ligado ao deputado Rui Falcão. As facções disputavam o controle da milionária estrutura de comunicação da campanha.

Lanzetta tentava trazer para o comitê o jornalista Amaury Ribeiro Jr., repórter premiado e que trabalhou nas principais redações do País. Seu último emprego fora no Estado de Minas. Nesse diário, Ribeiro Jr. havia iniciado, a pedido da direção, uma apuração dos escândalos da privatização no governo Fernando Henrique Cardoso. Preciado, Ricardo Sérgio e Mendonção, além do próprio Serra e de Verônica, eram personagens na mira. O start da reportagem teria sido dado após uma solicitação do ex-governador Aécio Neves. Informado da existência de uma bisbilhotagem a seu respeito, supostamente conduzida por Marcelo Itagiba, deputado carioca e ex-policial federal ligado a Serra, Aécio teria buscado uma forma de neutralizar o “fogo amigo”. À época, o mineiro ainda alimentava o desejo de disputar a indicação do PSDB à Presidência com o colega paulista.

O jornal mineiro nunca publicou nada, mas Ribeiro Jr. afirma que, diante das informações recolhidas, decidiu escrever um livro sobre os escândalos. Ele promete lançá-lo no ano que vem. Segundo ele, a intenção é “evitar o uso político em ano eleitoral”. Mas um dos capítulos, no qual são citados explicitamente Preciado e Verônica Serra, veio a público em junho e pode ser facilmente encontrado na internet. O repórter, hoje no núcleo investigativo da Rede Record, nega ter se baseado em informações obtidas de forma ilegal. “São todos documentos públicos.”

Outra dúvida sobre o episódio: para ter o efeito eleitoral supostamente desejado, um dossiê contra Serra deveria ser amplamente divulgado e suas informações precisariam ser críveis ou, no mínimo, verossímeis. Em resumo: um meio de comunicação de influência nacional teria de aceitá-lo como verdade e uma onda de jornais, canais de tevê e rádio deveria repercuti-lo amplamente sem maiores objeções. Dia e noite. Espera aí. Não é justamente o que a mídia faz neste momento ao embarcar na teoria de que o comitê de Dilma Rousseff cometeu atos criminosos contra o adversário?

A Serra o que é de Serra: nada

Serra perdeu a voz, a vez, está mal no santinho, na paróquia, etc. Só não perdeu o grito. Dilma disse muito bem que eleição se ganha no voto, não em pesquisa. Mas há quem queira ganhar no grito, já que não tem outro recurso.

Flávio Aguiar, na Carta Maior

Na mídia européia aumentou o número de referências a que Dilma Roussef pode ganhar no primeiro turno. De Portugal à Alemanha, do Reino Unido à França, comenta-se a possibilidade.

Às vezes isso desagrada. Para comentaristas conservadores, Dilma é uma “estatista” convicta, mais do que Lula. Isso é uma dor de cabeça. O governo Lula tirou o Brasil da crise financeira rapidamente e com pouco dano porque está fazendo o contrário do que os economistas e governos conservadores – sejam social-democratas ou democrata-cristãos – estão pregando e fazendo.

Para montar o fundo de reserva para proteger o euro – e antas, ainda, para impedir que a bancarrota da Grécia arrastasse consigo os bancos alemães e franceses credores, o que faria a Europa inteira virar um Titanic e bater no iceberg de suas insolvências nacionais – tiveram de recorrer ao FMI. Mais: às receitas do FMI. A Europa virou uma gigantesca Argentina do século passado.

E passaram a foice nos direitos de trabalhadores, pensionistas, aposentados, usuários de programas sociais, etc., com danos que serão sentidos nas próximas gerações. Por exemplo: a Itália acabou com um programa chamado “professores de rua”, que colocava educadores nas ruas, no sul do país, para convencer jovens a sair da tentaçào da máfia e do narcotráfico e voltar para a escola. O dano vai ser enorme.

A Alemanha cortou a renda que o governo dava às mães solteiras. O dano também vai ser enorme.

E ainda caíram de martelo em cima dos salários, partcularmente do setor público. O dano também vai ser enorme.

Mas saudando números, economistas e comentaristas conservadores deliram porque a Alemanha “dá mostras de recuperação e puxa a economia européia para cima”. Claro, graças a exportações bilionárias para a China. O poder aquisitivo interno está evaporado. Aposta-se em que as exportações farão cair o nível de desemprego. Quosque tandem? Até quando? Aí cai-se na reza para que a China continue crescendo, e apostando também no seu mercado interno.

Mas acontece que no meio do caminho tem o Brasil, tem o Brasil no meio do caminho. Adotando uma saída do tipo da Malásia, que no século passado, quando da crise da dívida externa no Sudeste Asiático fez tudo o contrário do que o FMI queria, e saiu-se bem, ao contrário da Indonésia, da Tailândia, até da Coréia do Sul, o Brasil “investiu em investimentos”, continuou melhorando salários, subsidiou a linha branca, etc., vocês aí devem conhecer as soluções melhor do que eu, aqui de longe, apesar da internet. O que fazer com o Brasil? Essa é uma pergunta alarmante no cenário internacional para as ortodoxias econômicas.

A esperança era José Serra. Uma virada que reintegrasse o Brasil na ortodoxia mais roxa que pano de quaresma e meia de cardeal. Não está dando certo. Por quê?

Porque Serra nada tem a oferecer. Os comentários da mídia a que aludi acima são expressivos. Porque aí vem a emenda, que para o arraial serrista é pior do que o soneto. A mesma mídia que cautelosamente aponta a possibilidade da vitória de Dilma, assinala que só um fato novo poderia virar o quadro, nem que flosse para jogar tudo para o segundo turno. Mas diz – como no caso da The Economist – esse fato novo só pode ser algo como uma denúncia que vire a mesa. Ou seja, de Serra, na verdade, nada se espera. Como dizia o Barão de Itararé: ali donde nada se espera, é que não sai nada mesmo. O The Guardian chegou a dizer que o programa de TV de Dilma arrasa com o de Serra.

Serra perdeu a voz, a vez, está mal no santinho, na paróquia, etc. Só não perdeu o grito. Dilma disse muito bem que eleição se ganha no voto, não em pesquisa. Mas há quem queira ganhar no grito, já que não tem outro recurso. E com ajuda da gritalhada da mídia conservadora brasileira, claro.
Acontece que, no caso das quebras de sigilo, o tribunal eleitoral não aceitou a denúncia contra Dilma, por falta de provas. Mais cedo ou mais tarde, isso vai prevalecer sobre a gritaria, as conjeturas, as hipóteses, as contra-hipóteses, as teses abstrusas, esse mar de lama em que se tenta sufocar a eleição brasileira e o debate das propostas. Porque um lado – o de Serra – não tem propostas que possa apresentar, só as que não pode apresentar, que envolvem a demolição dos direitos conquistados e exercidos pelo povo brasileiro nos últimos anos.

Querem nos transformar numa nova Grécia.

Esconjuro. A Serra o que é de Serra: nada.

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim

 

 

Dilma, ministro e sindicalistas denunciam tentativa de golpe das oposições

A presidenciável Dilma Rousseff, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, o secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo, e centenas de sindicalistas acusaram ontem as oposições de tentarem um golpe sob a liderança do candidato tucano, José Serra, ao pedirem ao TSE a cassação do registro da candidata.

“A campanha do meu adversário e o partido dele estão desesperados porque, a cada dia que passa, perdem o apoio do povo brasileiro. Agora, acho que estão querendo ganhar no tapetão, mas isto não vai acontecer”, afirmou Dilma, durante entrevista em Porto Alegre.

A candidata qualificou como “falsas, levianas e sem sustentação jurídica” as acusações que associam sua campanha aos casos de violação de sigilo fiscal. Segundo Dilma, atribuir à sua campanha fatos ocorridos em setembro de 2009 é uma tentativa “de virar a mesa da democracia”.

“Em um processo democrático se pode até perder a eleição, mas não a dignidade. Não se pode atacar pessoas nem instituições. Ao que eu saiba, em setembro de 2009 não havia campanha e nem pré-campanha. Havia outro tipo de disputa que não tem a ver com esta campanha”, afirmou a petista em alusão à guerra travada entre os ex-governadores José Serra e Aécio Neves pela candidatura do PSDB à Presidência.

Em Foz do Iguaçu, onde acompanhava visita do presidente Lula, o ministro Alexandre Padilha afirmou:

“Essa tentativa da oposição ao presidente Lula tem um nome: golpe eleitoral”. E continuou:

“Tentam impedir que, ao longo do processo eleitoral, o presidente participe desse mesmo processo. Tentam enganar a população usando a imagem de Lula. Agora, tentam impedir a nossa candidata de concorrer. Quando tentam transformar um problema da Receita num problema eleitoral, é golpe. É golpe de quem não quer mais disputar a eleição”.

O secretário-geral do PT, deputado federal José Eduardo Cardozo (SP), também associou a ação contra Dilma ao desespero de Serra e de seus aliados.

“É uma tentativa desesperada de enfrentar a sua condição eleitoral para tentar reverter o quadro. E aquele que é derrotado tenta ganhar no tapetão”.

Em São Paulo, sindicalistas reunidos em evento pelas candidaturas de Dilma e de Aloízio Mercadante chamaram de “tentativa de golpe da oposição” o episódio de violação do sigilo de pessoas ligadas ao PSDB.

A informação é do Brasília Confidencial

 

Cuidado com o andor

Do Luis Nassif Online

Aos colegas mais açodados: cuidado com o andor nesse caso da quebra do sigilo fiscal: poderão se comprometer com os próprios leitores.

A história está mal contada. Não há certeza sobre os autores dessa façanha.

A questão-chave para elucidar o episódio é o óbvio “a quem interessa”.

Não interessa à campanha da Dilma Rousseff, vitoriosa. Não interessando, o único argumento para incriminar o PT seria a existência de “aloprados” do próprio partido, sem visão estratégica, querendo mostrar trabalho. Verossímil é; não necessariamente verdadeira. Principalmente porque o desastre de 2006 deve ter traumatizado bastante o partido. Quem iria correr o risco de uma nova aventura que comprometesse sua própria candidata e que, como em 2006, jogasse no limbo da política todos os personagens envolvidos?  Quando houve o vazamento, não havia candidatura de Dilma, mas Serra estava na frente nas pré-pesquisas. Há a possibilidade de possa ter sido armazenamento de munição para qualquer eventualidade.

lado de José Serra, o episódio interessa por dois motivos. O primeiro, como blindagem contra o livro de Amaury Jr. O segundo, como ferramenta de campanha, como foi em 2006 o episódio dos “aloprados”.

Já afirmei aqui que o livro de Amaury Jr desestabilizou Serra, pelo receio do pós-eleições. Hoje, na Folha, a informação irrelevante de que Serra alertou Lula sobre o fato de blogs “semi-oficiais” terem divulgado dados de Verônica. Para levar o episódio a Lula, Serra deveria estar, de fato, preocupado com os desdobramentos do episódio, embora o álibi para a conversa tenha sido rídiculo.

PT e Serra têm histórico de dossiês. Em seu artigo de hojo na Folha, minha colega Eliane Cantanhêde menciona o histórico petista no caso dos “aloprados”. Poderia ter ligado para sua colega, repórter (de fato e direito) Mônica Bérgamo, e indagado sobre o caso Lunus. Ou poderia ter puxado da memória e lembrado que, no caso dos “aloprados”, havia duas correntes no jogo: os próprios “aloprados” (do lado do PT) e os policiais que montaram a cena em conluio com Ali Kamel (do lado do Serra).

Os jornalões vão fugir o máximo possível dos problemas ocorridos entre Serra e Aécio no ano passado, nas preliminares das eleições. Vão ignorar que o repórter Amaury Jr montou seu livro bancado pelo Estado de Minas – ligado a Aécio. Vão deixar de lado os indícios de que se tentou montar flagrantes contra Aécio e que o episódio deixou marcas junto aos seus aliados. Vão ignorar Itagiba e Márcio Fortes.

É possível que o caso tenha sido planejado por “aloprados”; é possível que tenha sido por aecistas, querendo se prevenir contra dossiês de Serra; é possível que tenha sido pela própria inteligência de campanha de Serra, buscando um antídoto contra as conclusões do livro de Amaury.

Ao cravar seco na hipótese dos “aloprados”, colunistas entram no jogo apostando sua credibilidade pessoal. Enorme bobagem! Deixem esse jogo para o aquário, que tem mais recursos de edição e de manipulação de ênfases escondidos sob a falsa capa da neutralidade das reportagens.

Ironizado por tucano, Dunga afaga Lula e Dilma

Do Diário de S. Paulo

PSDB cita exemplo de treinador para criticar falta de experiência de petista

Usado como exemplo pela campanha de José Serra no rádio para criticar a falta de experiência da candidata do PT Dilma Rousseff, o ex-treinador da seleção brasileira Dunga respondeu bem ao seu estilo. Em entrevista exclusiva ao DIÁRIO, Dunga rebateu a comparação feita pela campanha de Serra entre ele e Dilma. “O Serra tem experiência. É um craque para governar o Brasil. A Dilma não. É que nem o Dunga. Nunca foi técnico de nenhum time, foi para a seleção e deu no que deu”, diz uma pessoa não identificada.

Veja o que diz o ex-técnico da seleção:

Comparação

É só ver os meus resultados e comparar. Quando eu fui campeão da Copa América e da Copa das Confederações, ele me elogiou. Agora crítica. Talvez ele esteja desesperado.

Defeitos

Eu acho que ele deveria assumir os seus defeitos para depois achar defeito nos outros.

Problemas

São Paulo não tem problema? Alaga mais que Veneza, ônibus são incendiados todos os dias.   Só o fato de São Paulo ter decidido na última hora o estádio da Copa já diz tudo. Por que ele está preocupado comigo?

Lula

O Lula também não tinha experiência e tem 80% de popularidade. Ele está fazendo o que os outros não fizeram em cem anos.

Dilma

Dilma é uma mulher e pode  ser a primeira mulher presidente do Brasil.

Democracia

Quando o Brasil precisou da Dilma ela não fugiu, lutou aqui pela democracia. Alguns correram.

Política

Para mim isso é natural (ser citado na propaganda). Se eles falassem o que deixaram de fazer seria melhor para o eleitor escolher.

Cláudio Humberto: Aécio Neves mandou levantar dossiê contra José Serra e filha

Enviado pelo Eugênio

De acordo com o jornalista, Aécio Neves, ainda candidato a candidato no PSDB, teria mandado produzir o dossiê por temer métodos truculentos do aliado tucano, caso fosse necessário dar um revide ao aliado. A confirmar.

Caso a informação se confirme, o mineiro ganha um nódoa indelével para as próximas eleições. E Dilma ganhará votos até dos tucanos que não aceitam esse jogo baixo na campanha.

No Estado, a pedra já havia sido cantada por gente como o presidente do Senai, Antônio Carlos Maranhão, para quem a marola não interessava a Dilma, na frente das pesquisas.

Veja a nota abaixo.

Do Jornal do Comércio

Quebra de sigilo pode ter sido obra de tucanos

A investigação sobre a violação do sigilo fiscal de Verônica Serra, filha do candidato José Serra, atribuída a “aloprados” do PT, pode revelar a surpresa de ter sido obra dos próprios tucanos.

Na época, setembro de 2009, havia uma guerra interna pela indicação do PSDB para a disputa presidencial.

Aliados de Aécio Neves atribuíam à turma de Serra a produção de dossiês contra o então governador de Minas. E vice-versa.

Comentário meu: Questionado pelo repórter Paulo Sérgio Scarpa, deste JC, nesta quinta, se a quebra de sigílo poderia ser obra de fogo amigo, o senador Sérgio Guerra disse que em hipótese alguma isto seria possível. O que ocorre é que essa garantia não pode ser dada por ninguém. Se o cara não controla um prefeito do interior de Pernambuco, vai controlar caciques tucanos.

Comício das famílias em Foz do Iguaçu

Sociedade tem que participar da consolidação das políticas públicas

Presidente Lula conversa com o ministro Fernando Haddad (Educação) durante inauguração de sete campi de universidades federais no Rio Grande do Sul. Foto: Ricardo Stuckert/PR

A arte de governar é conhecer as necessidades do povo, chamar a sociedade para participar da consolidação das políticas públicas, e não ter preconceitos e nem medo de ouvir as demandas populares, afirmou o presidente Lula nesta sexta-feira (3/9), em Santa Maria (RS), na cerimônia de inauguração simultânea de prédios em 7 campi universitários federais no Grande do Sul.

Imaginem o absurdo do absurdo: eu sou um presidente do país e não recebo reitores, não recebo prefeitos, não recebo trabalhadores, não recebo estudantes, não recebo entidades. Então, o que eu estou fazendo na Presidência da República, para quem eu estou governando? Como é que a gente poderia consertar o país se a gente não chamasse a sociedade para ajudar a consertar o país?

Lula disse que se cada governante se preocupasse em atender as necessidades básicas da população, a realidade brasileira seria bem diferente:

A grande lição de vida, o grande legado que eu vou deixar e que pode servir de lição de vida para quem vier governar depois de mim é fazer o óbvio. Se cada um de nós fizesse o óbvio quando estamos no governo, nós não erraríamos e faríamos a revolução que estamos fazendo

Segundo o presidente, o contato direto com o povo é responsável pelo fortalecimento da democracia e o desenvolvimento do País. Lula citou como exemplo a abertura do Palácio do Planalto para representantes de segmentos sociais, que passaram a ter acesso ao governo para que suas demandas fossem ouvidas. Ele lembrou que muitos consideraram que o governo estava “avacalhando” o Palácio do Planalto ao levar até lá catadores de papel, moradores de rua, representantes dos sem-teto. Mas o Palácio, frisou Lula, não é espaço apenas para reis, rainhas, presidentes e banqueiros, mas também para estabelecer uma nova relação entre o governo e a sociedade.

O que nós estamos querendo é mudar o preconceito que levou este país a tantos anos de atraso, mudar a lógica perversa de que o Brasil deveria ser governado para 35% da população – o resto era o resto. Os preconceitos vão sendo derrubados para mostrar que é possível, através da democracia, a gente conquistar mais espaço.

Ouça aqui a íntegra do discurso:

 

O evento em Santa Maria marcou a inauguração de sete campi de quatro universidades federais gaúchas: Santa Maria, Frederico Westphalen e Palmeira das Missões, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM); Dom Pedrito e Jaguarão, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa); Carreiros, da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (Furg); e o campus do Vale, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

No campus sede, em Santa Maria (UFSM), foram inaugurados o restaurante universitário, as obras de ampliação do Centro de Tecnologia – 14 salas de aula com capacidade total de 732 alunos e 5 laboratórios – e o Núcleo de Tecnologia dos Alimentos. Em funcionamento desde 1960, o campus oferece cerca de 2,9 mil vagas neste ano, em mais de 70 cursos.

No campus de Frederico Westphalen (UFSM) foram inauguradas as obras de um novo bloco com seis salas de aula e capacidade total para 384 alunos, quatro laboratórios e biblioteca, e o restaurante universitário. Já no campus de Palmeira das Missões (UFSM) foi inaugurado um novo bloco com seis salas de aula e capacidade para 384 alunos, quatro laboratórios e biblioteca.

No campus de Dom Pedrito (Unipampa), foram entregues sete novas salas de aula, dez laboratórios, uma biblioteca, além de salas administrativas e de professores. O campus oferece os cursos de Tecnologia em Agronegócios e Zootecnia e 100 vagas neste ano.

O evento marcou ainda a conclusão da construção do campus de Jaguarão (Unipampa), uma área de 5,6 mil m2, 20 salas de aula, um laboratório, um auditório para 130 pessoas, uma biblioteca e 28 salas para professores e setor administrativo. A unidade oferece os cursos de licenciatura em Letras, Pedagogia, História e Tecnologia em Gestão do Turismo, e oferece 250 vagas neste ano.

No campus Carreiros (Furg), foram entregues a primeira etapa do prédio do curso de Psicologia, o Centro de Microscopia Eletrônica, um pavilhão com 16 salas de aula e capacidade para 1.240 alunos, e o Laboratório de Estudos dos Oceanos e Clima. O campus está em atividade desde 1978 e oferece cerca de 1.770 vagas em 40 cursos. Na unidade do Vale (UFRGS) foram inauguradas as obras de ampliação do restaurante universitário e o novo prédio da Prefeitura Universitária. Em atividade desde 1970, o campus oferece 1.834 vagas em 33 cursos.

A batalha dos números

Cynara Menezes, na revista CartaCapital

O Datafolha, dirigido pelo sociólogo Mauro Paulino (foto), estimulou a demonização dos institutos concorrentes, mas agora paga o preço dos próprios equívocos. Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

Os analistas de pesquisa têm uma explicação simples para o fato de, na reta final de uma campanha eleitoral, os resultados dos institutos ficarem muito parecidos: a consolidação das intenções de voto reduz as nuances e torna mais homogêneos os grupos de eleitores. Fica mais fácil, portanto, captar as tendências.

O grande lance, o que evidencia a qualidade dos pesquisadores, é acertar quando a corrida das eleições está no seu início e o eleitorado ainda está muito disperso. Ligado ao jornal Folha de S.Paulo e chancelado pela Rede Globo, o Datafolha criou em torno de si a aura de grande reputação. Era como se seus métodos fossem superiores e suas medições, mais confiáveis. Verdadeira ou não, essa suposta superioridade técnica virou, com uma intensidade nunca antes vista em eleições, uma arma contra os rivais. A associação entre o instituto e o jornal provocou uma espécie de caça às bruxas no início do ano. Os alvos foram dois concorrentes mineiros, o Sensus, de Ricardo Guedes, e o Vox Populi, de Marcos Coimbra.

Agora, a menos de um mês da eleição, o Datafolha vê-se enredado na própria armadilha. Depois de uma correção brutal de rumo – em três semanas e meia o instituto saiu de um empate técnico de Dilma com o tucano José Serra para uma acachapante vantagem de 20 pontos porcentuais da petista – é a empresa dirigida pelo sociólogo Mauro Paulino que está na berlinda.

Há uma percepção cristalizada entre a maioria dos especialistas sérios do setor de que, no mínimo, a empresa do Grupo Folha cometeu graves falhas técnicas. Marcus Figueiredo, do igualmente conceituado Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) não mede palavras. Autor da chamada “pesquisa das pesquisas”, que compara os levantamentos das principais companhias do ramo, é categórico: “O Datafolha errou. Demorou mais de um mês para encontrar os eleitores de Dilma. Terá de explicar por quê”.

Entre os quatro grandes, o Datafolha é o único a utilizar a amostragem por “ponto de fluxo”, ou seja, escolhe determinados lugares e aborda os transeuntes. Os demais utilizam a visita em domicílio, com base no Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É aí que poderia estar a maior distorção no resultado, que ocorre apenas nos momentos em que a campanha está mais indefinida.

“O método de ‘ponto de fluxo populacional’ é aceito internacionalmente. No entanto, tem um viés que pode, num momento de maior volatilidade entre eleitores, apresentar diferenças”, diz Figueiredo. “Pode afetar esta metodologia o que chamamos de ‘fenômeno de conglomerado’: como utilizam o mesmo ponto de fluxo, os pesquisadores trocam de entrevistados, mas eles continuam iguais, em termos de perfil. O Datafolha estava no mesmo ponto de fluxo, por isso suas pesquisas se repetiam. Provavelmente, ao reorientar os pontos de fluxo, captou o que os outros já haviam captado, a subida de Dilma, que não ocorreu de uma hora para outra, como o instituto diz agora.”

A polêmica entre os institutos de pesquisa começou em fevereiro deste ano. Até então, os números apresentados entre todos eram bastante similares. Naquele mês – o Sensus primeiro, e o Vox Populi a seguir – apontaram que Dilma, atrás nas pesquisas, havia empatado com Serra. A partir daí, o distanciamento entre os dois candidatos tornou-se diretamente proporcional às divergências dos números nas pesquisas. Medição após medição, o Sensus e o Vox captaram a subida da petista. Com certo atraso, o Ibope mediu fenômeno semelhante. Só o Datafolha continuava a registrar variações tecnicamente pouco convincentes. O tucano, em alguns momentos, chegou a ampliar sua vantagem. “Serra abre 9 pontos e se isola na frente”, nas palavras do jornal em 27 de março. Coincidência: no fim daquela semana, o tucano decidiria, enfim, anunciar oficialmente sua candidatura à Presidência.

O empate no Datafolha, com Serra 1 ponto porcentual acima, viria na pesquisa publicada em 24 de julho, um mês depois de o Ibope apontar que Dilma passara à frente. Àquela altura, o Vox Populi apontava vantagem em torno de 8 pontos para a candidata de Lula: 41% a 33%.

A “virada” de Dilma sobre o tucano só iria acontecer, para o Datafolha, na pesquisa publicada em 14 de agosto, com a petista a abrir 8 pontos de vantagem. Apenas uma semana depois, Dilma chegaria aos 47%, e Serra cairia para 30%. Desde então, as pesquisas voltaram a ficar parecidas, com em torno de 20% de diferença para a candidata governista.

Engana-se quem achou que isso traria a paz entre Vox Populi e Sensus e Datafolha, em conflito desde que as diferenças nas sondagens apareceram. Os diretores dos dois primeiros sentiram-se atingidos moral e cientificamente pelas críticas, estampadas pelo jornal dono do instituto contra suas pesquisas e ecoadas pelo PSDB e DEM.

Em abril, os tucanos entraram com representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o Sensus. E obtiveram o direito de entrar na empresa e ter acesso aos questionários tabulados. Guedes, diretor da empresa, recorda que, mesmo antes de ser notificado pelo tribunal a autorizar a entrada de dois representantes do partido na sede da companhia, em Belo Horizonte, um fotógrafo da Folha de S.Paulo já estava a postos à espera dos desdobramentos. Diz ainda que os representantes foram, durante todo o tempo que passaram lá, instruídos ao telefone “por um instituto de pesquisa de São Paulo”. “Eles faziam perguntas típicas de quem é do meio, como: ‘Qual o índice de ponderação utilizado’?”

Depois de suportar meses de tentativas de desqualificação, Coimbra, diretor do Vox e colunista de CartaCapital, resolveu atacar. Em artigo no Correio Braziliense, diário para o qual também escreve, publicou um artigo franco e direto intitulado “Pesquisas polêmicas”.

No texto, Coimbra desafia o Datafolha a comprovar cientificamente a “disparada” de 17 pontos que aponta em sua penúltima pesquisa – na última, divulgada na quinta-feira 26, a ex-ministra já aparecia 20 pontos à frente. “Como explicar que Dilma tivesse crescido 18 pontos em 27 dias, saindo de uma desvantagem para Serra de 1 ponto, em 23 de julho, para 17 pontos de frente, em 20 de agosto? Que ganhasse 24 milhões de eleitores no perío-do, à taxa de quase 1 milhão ao dia?”

O cientista político apontou como “fantasiosa” a explicação dada pelos diretores do instituto de que tal “disparada” se dera em virtude da estreia de Dilma no horário gratuito de televisão. “Três dias de propaganda eleitoral nunca teriam esse impacto.” De fato, no dia seguinte à divulgação da pesquisa, a própria Folha publicaria um texto em que dizia ser maior o potencial de Dilma “entre quem não viu a propaganda” no horário eleitoral. Segundo a reportagem, 66% do eleitorado ainda não havia assistido à propaganda da petista, parcela “formada sobretudo pelos menos escolarizados e pelos mais pobres, segmentos em que a candidata se sai melhor”.

A CartaCapital Coimbra considerou “estapafúrdias” as explicações dadas pelo concorrente para a subida de 9 pontos de Serra em julho, detectada apenas pelo instituto paulista. “Eles diziam que Serra cresceu porque tinha parado de chover em São Paulo, mas aí a gente olhava os dados e via que era no Sul que ele supostamente tinha subido. Uma coisa sem pé nem cabeça”, critica Coimbra, que diz não ter razão alguma para suspeitar de manipulação dos números, mas afirma ver dificuldade do instituto em aceitar que suas pesquisas naquele momento, comparadas às demais, não faziam sentido.

“Antes de fevereiro, estava tudo mais ou menos emparelhado. O processo de crescimento da Dilma vinha acontecendo, sem perder velocidade, à medida que ia aumentando o conhecimento do nome dela e a associação com o presidente Lula”, diz o diretor do Vox Populi. “Só eles podem responder onde erraram, mas o que fica nítido é que o Data-folha começa a sair então de sua própria trajetória. A evolução natural dos dados apontava para outro resultado. Ou seja, os dados do Datafolha começaram a ficar não só diferentes dos nossos, como dos deles mesmos. E, em vez de se perguntar o que havia de errado com os dados deles, passaram a dizer que os outros é que estavam equivocados. Uma posição arrogante e tola.”

Na verdade, ainda que Coimbra não o diga, a ofensiva fez mais do que apenas sugerir equívocos nos concorrentes. O que se insinuou, a ponto de estimular ações judiciais dos tucanos, foi que as pesquisas a detectar o crescimento da petista tinham um viés com o intuito de favorecer a candidatura da situação.

Tanto o Vox Populi quanto o Sensus queixam-se da utilização do jornal pelo Datafolha, embora, na tentativa de explicar as distorções, recentemente a ombudsman da Folha tenha salientado que o instituto “é uma empresa à parte”. Quando, em abril, o Vox apontava o crescimento de Dilma, duas notas publicadas pela coluna “Painel” da Folha questionavam a metodologia utilizada pelo instituto mineiro, com procedimentos que seriam conhecidos “por distorcer resultados”. Contra o Sensus, o jornal tentou colocar em xeque a metodologia, os contratantes, e repercutiu frases de representantes do PSDB que acusa-vam o instituto de “distorcer” dados.

A suposta distorção consistia no fato de o pessoal de Guedes e Coimbra estimular os entrevistados a fazer associações políticas – Dilma e Lula, a mais notória. O que se pergunta é o seguinte: se esta será uma eleição plebiscitária e se a figura do presidente da República é tão central no processo, que tipo de levantamento teria mais potencial para “distorcer” a realidade: o que associava a ex-ministra a Lula ou o que escondia essa relação?

Nos bastidores, os diretores dos institutos trocavam acusações durante as reuniões cada vez mais tensas da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisas (Abep). No congresso da entidade, em março, outro diretor do Vox Populi, João Francisco Meira, colocou em debate a possibilidade de a eleição acabar no primeiro turno, o que desagradou a Paulino. O diretor do Datafolha enviou posteriormente e-mail ao grupo afirmando ser um “desserviço” à pesquisa no Brasil que se fizessem projeções nesse sentido.

Meira reagiu, também em e-mail. Segundo ele, o Datafolha replicava o comportamento do jornal da mesma empresa, “de ser o dono da verdade”. Em um encontro da Abep no começo de abril, os diretores das duas empresas voltaram a se enfrentar. “Acho absurdo a Folha, que possui um instituto de opinião, promover a desqualificação dos concorrentes”, disse Meira, apoiado por Guedes, que apontou “erros” na metodologia do concorrente paulista. A relação geral azedou.

Sempre houve, por parte dos demais, inclusive o Ibope, incômodo com a postura do Datafolha de se defender de questionamentos com o argumento de ser “o único” a não vender pesquisas eleitorais para partidos políticos e instituições financeiras. “Como se isso nos fizesse moralmente inferiores”, reclama Coimbra. “Eles acham que os partidos são grupos de bandidos? Eu me orgulho de fazer pesquisas para políticos, para multinacionais. Agora que nossas projeções se confirmaram, eles deviam nos pedir desculpas”, diz Guedes. Márcia Cavallari, do Ibope, reforça: “Fazemos pesquisa para todo mundo que nos contrata. Não é isso que faz de um instituto mais ou menos idôneo, e sim sua credibilidade”.

O portal iG, que, em parceria com a TV Bandeirantes, divulga os levantamentos do Vox Populi, publicou, no sábado 21, um texto onde questiona a metodologia do Datafolha e a insinuação de que os outros institutos não seriam confiáveis por fazerem pesquisas para partidos e empresas. “De duas, uma. Ou a frase não quer dizer nada e é repetida sem necessidade – ou quer dizer sim, e visa sugerir, de alguma forma, que o instituto que aceita políticos ou bancos como clientes aceitaria também modificar o resultado final da pesquisa, distorcendo a realidade encontrada pelos entrevistadores. Se for esse o caso, estaríamos diante de uma acusação gravíssima. Em vez de diferenças metodológicas aceitáveis do ponto de vista científico, haveria um fosso moral entre o Datafolha e seus concorrentes”, publicou o iG.

O diretor-executivo de jornalismo da Band, Fernando Mitre, enviou declaração a CartaCapital em que destaca o fato de as pesquisas do Vox Populi divulgadas pela emissora terem antecipado as tendências. “A Band contratou as pesquisas do Instituto Vox Populi, mas não deixou de divulgar as demais. Note-se que os resultados dados inicialmente pelo Vox começaram a aparecer, mais tarde, nas outras pesquisas. Hoje, estão praticamente igualadas, com pequenas oscilações. Quando os resultados eram muito diferentes, chegamos a fazer programas especiais exatamente sobre essas diferenças, abordando também questões metodológicas. É claro que temos dado destaque ao fato de que nossas pesquisas exclusivas anteciparam os resultados que estão aí.”

Em termos técnicos, os erros metodológicos apontados pelos outros institutos no Datafolha, para que tenha chegado a um resultado tão discrepante dos demais a certa altura da campanha, dizem respeito primeiro ao uso de pontos de fluxo populacional em detrimento do domiciliar, como salientou Figueiredo. Mas há outras questões. O Datafolha não iria na zona rural, onde sabidamente o governo é bem avaliado e Dilma liderava desde janeiro. Além disso, ao pedir o telefone aos entrevistados para a checagem, reduziria o espectro econômico da amostragem, já que apenas 45% dos domicílios brasileiros possuem aparelho fixo e 75%, celular. Isso tornaria o perfil do entrevistado um pouco mais elitizado e menos representativo da totalidade dos eleitores. Sabe-se que os mais ricos e com maior escolaridade tendem a definir seu voto mais cedo. Procurado, Paulino não atendeu ao pedido de entrevista de CartaCapital.

Um dos pontos que saltam aos olhos não de especialistas, mas do leitor da Folha, é que possivelmente o instituto, no mínimo, subestimou o potencial de transferência de votos do presidente Lula. Em setembro de 2008, o Sensus previa que 44,1% dos eleitores votariam no candidato apontado por Lula para as eleições municipais daquele ano. Já o Datafolha estimava, em dezembro do ano passado, que só 15% dos eleitores estariam dispostos a votar para presidente na candidata dele. Quando a diferença de Dilma para Serra alcançou 8 pontos pelos dados do próprio instituto, Paulino escreveu que a transferência chegara “no teto”.

“A pesquisa Datafolha divulgada hoje (14 de agosto) é um divisor de águas. Além de trazer, pela primeira vez, a liderança isolada de Dilma Rousseff na disputa presidencial, marca uma redução importante da influência do presidente Lula como cabo eleitoral de sua ex-ministra a partir daqui”, anotaram Paulino, diretor-geral, e Alessandro Janoni, diretor de pesquisas do instituto. “Daqui em diante, o conjunto a ser disputado é o dos que até cogitam votar em um candidato apoiado por Lula, mas não estão certos disso. Hoje, eles são 22% do eleitorado e votam mais em Serra (36%) do que em Dilma (31%). Para esses, o desempenho do presidente não é suficiente para convencê-los a eleger sua ex-ministra.” A previsão, como mostra o último levantamento do próprio instituto, também não se concretizou.

Não foi, porém, o Datafolha o único a subestimar o potencial de transferência de Lula. Um ano atrás, o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, chegou a dar entrevista na qual garantia que o presidente não faria o sucessor e que sua candidata teria, no máximo, 20% dos votos. Errou feio e voltou atrás. Em fevereiro, afirmava não se surpreender se Dilma ganhasse. No início do mês, dava como certa a vitória da petista no primeiro turno.

Em boa medida, essa “guerra” entre os institutos serviu para derrubar certos mitos sobre a qualidade das empresas. Na opinião isenta do professor Marcos Figueiredo, do Iuperjm, “todos os quatro grandes, pelo que temos visto em nossas análises, estão todos muito bem, são confiáveis e absolutamente equivalentes.” Quem pensa – ou pensava diferente – apenas fazia coro com a torcida organizada.

O dia seguinte

Marcos Coimbra, na revista CartaCapital

E as oposições? Como viverão o 4 de outubro? Sua provável derrota pode ser tudo, menos surpreendente. Se houve algo inesperado foi seu empenho em colocar a cabeça no cadafalso. Por Marcos Coimbra. Foto: Ag. Brasil

Como o 3 de outubro torna-se mais e mais previsível, é hora de começar a especular sobre como será o dia 4. Ele chega logo e é bom estar preparado para entendê-lo.

É fácil imaginar a alegria de Dilma Rousseff, Lula, o PT, seus aliados e o governo. Não custa sublinhar o caráter histórico da vitória que deverão comemorar.

E as oposições? Como viverão esse dia?

A primeira coisa a dizer é que sua provável derrota pode ser tudo, menos surpreendente. Se houve algo inesperado nestas eleições presidenciais foi seu empenho em colocar a cabeça no cadafalso. Nem se tivessem fixado a meta de fazer tudo errado teriam ido tão longe.

Parte da responsabilidade pelos seus erros pode ser debitada às pesquisas de opinião. Não a elas (coitadinhas), que nada são além de instrumentos. Mas à leitura superficial do que diziam.

Tudo o que estamos vivendo e que, parece, será confirmado no dia 3 se definiu entre setembro e outubro de 2009. Foi quando a vantagem de José Serra nas pesquisas levou a duas consequências.

Para o conjunto das oposições, seja no meio político, seja na imprensa e na sociedade, produziu a impressão de que Serra era invencível contra a candidata “artificial” que Lula tinha inventado. Para o próprio Serra, ela limitou drasticamente as opções. Se, do alto daqueles números, decidisse permanecer em São Paulo, seria como abdicar em definitivo de qualquer projeto presidencial. Até seus aliados na mídia deixaram claro que não aceitariam que fizesse outra coisa. Se recuasse, nunca mais o apoiariam.

Naqueles meses, quem leu alguns de nossos colunistas mais conhecidos ficou com a impressão de que o problema de Serra era Aécio Neves. Na hora que o mineiro aceitasse a “candidatura natural” e cerrasse fileiras, assumindo o lugar de vice, não haveria mais obstáculos entre Serra e o Planalto. Lula, o governo, e Dilma não seriam problema: as pesquisas (sempre elas) mostravam que a candidata de Lula “não decolava”.

A vantagem de Serra levou as oposições a outro equívoco grave. Como nenhum nome aparecia com pontuação relevante, elas se convenceram de que não precisavam de outros. Bastava Serra, com seus 45%. Mais candidatos, de outros partidos, seriam apenas um diversionismo. Elas se achavam tão fortes (em razão das pesquisas) que queriam ir logo para o confronto com Lula e Dilma.

Uma leitura estática e limitada das pesquisas conduziu as oposições àquilo que Lula tinha antecipado que fariam: viriam com Serra e apenas com Serra. O plebiscito que tinha imaginado como condição de sucesso para quem o representasse estava pronto. Seria Serra contra sua candidata.

Lula nunca fez a leitura ingênua que seus adversários fizeram das pesquisas. Para ele, era totalmente irrelevante saber de quantos pontos Dilma partia. Só o interessava o cálculo de onde ela poderia chegar. Enquanto o PSDB e alguns jornalistas versados em pesquisas faziam as contas de “quantos pontos Serra tem”, ele olhava para a frente.

Quando, em dezembro de 2009, Aécio resolveu sair da disputa pela vaga tucana, a crônica de 2010 começou a ser escrita. Mês a mês, semana a semana, dia a dia, tudo o que aconteceu de lá para cá pôde ser antecipado.

É pouco provável que o resultado da eleição fosse diferente se Dilma enfrentasse Aécio. Mas é certo que as oposições sairiam da eleição mais bem situadas para o futuro.

Confirmado o resultado esperado, será a morte política de uma geração de lideranças oposicionistas, que terá ido embora sem preparar novos quadros para as eleições de 2014 (e as seguintes).

O melhor que teriam feito era admitir que ninguém derrotaria Lula neste ano, e mirar nas próximas. Era hora de lançar rostos para o futuro: um candidato a presidente que não estivesse, irremediavelmente, preso ao passado e um vice que não fosse motivo de chacota.

Cometendo os erros que cometeram em 2010, as oposições adiaram seus projetos de retorno ao poder por tempo indeterminado. Bom para quem deseja que o PT chegue ao que os tucanos tanto almejaram (e não conseguiram por incompetência): permanecer no poder por 20 anos.

Vanazzi: Propaganda fez gaúchos se identificarem com Dilma

Eliano Jorge, na Terra Magazine

Foi no Rio Grande do Sul que a presidenciável petista Dilma Rousseff ingressou na vida pública. Mas a terra adotiva da mineira parecia hostil às suas pretensões eleitorais, no início desta campanha. Agora, pesquisas de intenções de voto lhe conferem a liderança também entre os gaúchos. Secretário-executivo do Comitê Pluripartidário que promove sua candidatura no Estado, Ary Vanazzi remói explicações para a virada.

- Montamos uma estratégia de campanha que nos deu a convicção de que íamos poder ultrapassar o Serra aqui. Além do bom governo do presidente Lula, foi: montar comitês pluripartidários em 29 regiões do Estado; nossa capacidade de introdução da candidatura dela aqui, buscando apoio de todos os partidos da base aliada nacional, um elemento bastante forte para alterar o quadro; e as várias agendas dela aqui, com setores, prefeitos, sociedade civil. Isso impulsionou o crescimento da campanha dela – conta o também representante dos prefeitos na articulação nacional pró-Dilma.

Gestor do município de São Leopoldo, na zona metropolitana de Porto Alegre, o petista Vanazzi ainda festeja o efeito do horário eleitoral gratuito. “A população se identificou ainda mais com a Dilma por ter conseguido vincular sua imagem, seu nome, sua participação e sua figura pública no Rio Grande do Sul”, acredita.

Ele anuncia para a próxima semana um documento com cerca de 3 mil nomes de prefeitos – de um universo acima de 5,6 mil – que aderiram à candidata governista, quantidade que ele estimou em novembro, seis meses antes do início oficial da campanha.

- No dia 14, em Brasília, vamos entregar para a Dilma e o Temer uma carta municipalista. Neste encontro, teremos um número mais preciso de quantos prefeitos estarão apoiando a Dilma. Hoje, eu diria que estamos próximos oficialmente deste número (de 3 mil). Nossa convicção é de que vai aumentar mais ainda porque tem um trabalho muito grande dos partidos. Muitos estão em fase adiantada de aprovação de apoio à ministra.

Sua meta é ampliar ainda mais o mapa dos municípios administrados por defensores de Dilma. “Estamos visitando os prefeitos, conversando”.

Vanazzi destaca o fato de o comitê gaúcho ser o único multipartidário, reunindo 10 legendas, além de sindicatos e movimentos sociais. “Aqui no Estado, estão na campanha da Dilma também setores e lideranças de partidos que não estão na coligação oficial, como membros do PTB, que apoiam este Comitê Pluripartidário, e do PP. Mas não institucionalmente”, afirma.

Dinheiro aos municípios

A romaria em direção à candidata governista, teoriza Vanazzi, se justifica pela vontade da manutenção da atual administração federal. “Os prefeitos reconhecem o governo Lula, o seu compromisso e a sua determinação de ajudar os municípios. Nós crescemos muito nos últimos anos nessa relação política. Só isso ajudou, e muito, a ampliação da base de apoio à Dilma”, diz.

Um motivo fundamental para isso, garante ele, é a verba encaminhada às prefeituras. “Em 2009, tivemos uma crise muito grande na questão do repasse do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) porque caiu a receita. E o governo manteve o orçamento de 2008 para o ano seguinte, para ajudar os municípios a sair dessa situação”.

Vanazzi também cita práticas que fazem os prefeitos preferirem a continuidade do seu partido no Palácio do Planalto. “O governo organizou a vida institucional brasileira. Tu entras na internet e inscreves projeto, defendes seus projeto, buscas recurso, disputas recursos. Isso cria uma credibilidade muito grande”, valoriza.

Marina no colo da direita

Do Blog do Emir

No Forum Social Mundial de Belém, em janeiro de 2009, Marina propagava que ela seria o Obama da Dilma. Já dava a impressão que as ilusões midiáticas tinham lhe subido à cabeça e que passava a estar sujeita a inúmeros riscos.

De militante ecologista seguidora de Chico Mendes, fez carreira parlamentar, até chegar a Ministra do Meio Ambiente do governo Lula, onde aparecia como contraponto de formas de desenvolvimentismo que não respeitariam o meio ambiente. Nunca apresentou alternativas, assumiu posições perdedoras, porque passou ao preservacionismo, forma conservadora da ecologia, de naturalismo regressivo. Só poderia isolar-se e perder.

Saiu e incutiram na sua cabeça que teria condições de fazer carreira sozinha, com a bandeira supostamente transversal da ecologia. Saiu supostamente com criticas de esquerda ao governo, mas não se deu conta – pela visão despolitizada da realidade que tem – da forte e incontornável polarização entre o bloco dirigido por Lula e pelo PT e o bloco de centro direita, dirigido pelos tucanos. Caiu na mesma esparrela oportunista de Heloisa Helena de querer aparecer como “terceira via”, eqüidistante entre os dois blocos, ao invés de variante no bloco de esquerda.

Foi se aproximando do bloco de direita, seguindo as trilhas do Gabeira – que tinha aderido ao neoliberalismo tucano, ao se embasbacar com as privatizações, para ele símbolo da modernidade – e foi sendo recebido de braços abertos pela mídia, conforme a Dilma crescia e o fantasma da sua vitória no primeiro turno aumentava.

As alianças da Marina foram consolidando essa trajetória na direção do centro e da direita, não apenas com empresários supostamente ecologistas – parece que o critério do bom empresário é esse e não o tratamento dos seus trabalhadores, a exploração da força de trabalho – e autores de auto-ajuda do tipo Gianetti da Fonseca, ao mesmo tempo que recebia o apoio envergonhado de ecologistas históricos.

O episódio da tentativa golpista da mídia e do Serra é definidor. Qualquer um com um mínimo de discernimento político se dá conta do caráter golpista da tentativa de impugnação da candidatura da Dilma – diante da derrota iminente no primeiro turno – com acusações de responsabilidade da direção da campanha, sem nenhum fundamento. Ficava claro o objetivo, típico do golpismo histórico – que vinha da UDN, de Carlos Lacerda, da imprensa de direita e que hoje está encarnado no bloco tucano-demista, dirigido ideológica e política pela velha mídia.

Marina, ao invés de denunciar o golpismo, se somou a ele, tentando, de maneira oportunista, tirar vantagens eleitorais, dizendo coisas como “se a Dilma (sic) faz isso agora, vai saber o que faria no governo”. Afirmações que definitivamente a fazem cair no colo da direita e cancelam qualquer traço progressista que sua candidatura poderia ter até agora. Quem estiver ainda com ela, está fazendo o jogo da direita golpista, não há mais mal entendidos possíveis.

Termina assim a carreira política da Marina, que causa danos gravíssimos à causa ecológica, de que se vale para tentar carreira oportunista. Quando não se distingue onde está a direita, se termina fazendo o jogo dela contra a esquerda.

A resposta do blog “os amigos do presidente”

Por Sanzio, no Luis Nassif Online

O blog “Os Amigos do Presidente Lula” assumiu que a acusação de Serra foi dirigida a ele. 

Serra abre fogo contra nosso blog, mas com acusações falsas

Em manchete de capa no jornal Folha de São Paulo, Serra faz acusações sobre dados de sua filha que já apareciam em blogs. Na reportagem interna , cita nominalmente nosso blog:

>”No ano passado, minha filha disse: “meus dados de imposto de renda estão circulando nesses blogs sujos do PT”, inclusive referências feitas em blogs da Dilma, dos amigos do presidente Lula, blogs semioficiais. Há inclusive cartas cumprimentando um dos blog pelo aniversário. Eram blogs semioficiais.”

Presumindo que o que está escrito na Folha corresponda à verdade do que disse o demo-tucano, da parte de nosso blog esclarecemos:

1) Podem vasculhar o blog inteiro, no presente ou no passado, que não existe e nunca existiu nenhum dado obtido de imposto de renda da filha de José Serra, e nem de qualquer fonte protegida por sigilo. Nem dela, nem de ninguém. O senador Arthur Virgílio (PSDB/AM) tentou armar escândalo com essa mesma acusação contra nós e quebrou a cara, porque as informações eram públicas. Não usamos expedientes ilegais. Aqui mata-se a cobra e mostra a cobra morta.

2) Todas as notas e informações publicadas aqui sobre a filha de José Serra foram obtidas de fontes de domínio público e abertas a consultas na internet. Estão disponíveis em outros sites na internet, em revistas nacionais ou estrangeiras, em sites institucionais de empresas, portais, consultas processuais, portais de transparência, diários oficiais, e em arquivos de consulta pública do Governo da Flórida. Nas notas, tem os links para as respectivas fontes, o que prova que são informações publicas, disponíveis na web.

3) Por época do aniversário do blog, nós tomamos a inciativa de comunicar a data à presidência da República, solicitando uma mensagem aos leitores. O presidente teve a generosidade de nos atender com uma carta parabenizando-nos, o que nos dá muito orgulho. Cabe lembrar que ele já parabenizou gente como o Faustão, e nem por isso o programa do Faustão é “semioficial”.Diversas outras pessoas, famosas ou não, parabenizaram o blog, em gesto espontâneo.

Em outro trecho da reportagem, fala sobre um encontro com o Presidente Lula, em 25 de janeiro, durante solenidade do aniversário da cidade de São Paulo:

Serra conta que, advertido pela própria filha, mostrou a Lula cópias impressas de artigos publicados em blogs de apoio ao PT e à candidatura de Dilma Rousseff.

Como os textos continham dados sobre Veronica, Serra reclamou da exposição de sua família em blogs, segundo ele, “patrocinados pelo governo”.

O tucano teria questionado Lula sobre a origem dos dados. Ainda segundo relatos a aliados, o presidente disse que não tinha nada a ver com as publicações.

Em janeiro, Serra era governador de São Paulo e liderava as pesquisas de intenção de voto para presidente. A amigos ele conta que ficou especialmente contrariado ao saber que, dois meses depois da conversa, o governo enviara cumprimentos ao blog pelo aniversário.

Continuando os esclarecimentos (presumindo que o texto do jornal narra acontecimentos verídicos):

4) Se a conversa entre Serra e o Presidente foi nestes termos, o presidente falou a mais absoluta verdade. Nós somos fãs dele, o blog é sobre política nacional e nós o apóiamos, mas o presidente nada tem a ver conosco. O mesmo acontece com relação à Dilma Rousseff.

Desde o início até hoje, somos autônomos e independentes. Já houve o processo movido pelo Ministério Público Eleitoral contra nós, procurando pêlo em ovo, e não encontraram nada.

5)  A data de aniversário do nosso blog foi em novembro de 2009, e não dois meses depois de janeiro, como diz o texto de forma errada. Sobre a carta do presidente, o esclarecimento já foi dado no tópico 3, acima.

Por fim repudiamos o gesto fascista e coronelesco de José Serra, de pedir a intervenção de um Presidente da República para calar um blog.

É o cúmulo da falta de compreensão, por parte de Serra, do que seja ativismo político, e uma visão deturpada da política, apenas enxergando como se tudo fosse um balcão de negócios profissionais e marketing político.

Se o candidato demo-tucano não sabe lidar com críticas, com questionamentos, com o contraponto de informações de um simples blog, não está a altura de ser candidato a Presidente da República.

Fernando Pimentel promete processar Serra por injúria

Fernando Taquari, no jornal Valor Econômico

O ex-prefeito de Belo Horizonte e candidato ao Senado por Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), divulgou nota hoje para anunciar que vai entrar com o terceiro processo por injúria contra o presidenciável José Serra (PSDB).

A ação foi motivada por acusações do tucano, que responsabiliza o Pimentel por elaborar dossiês contra o PSDB e o associa ao episódio sobre as quebras de sigilos fiscais de cinco pessoas próximas do partido pela Receita Federal.

“Recorro ao Judiciário para resguardar a minha honra e a minha trajetória política porque confio nas instituições do meu país”, disse Pimentel. Segundo ele, as declarações “caluniosas” de Serra mostram “desequilíbrio e desespero eleitoral”.

“São declarações irresponsáveis que propositadamente confundem o eleitor, conturbam o processo eleitoral e só se explicam pela completa falta de argumentos e viabilidade da sua candidatura e de suas propostas”, acrescentou.

Itamar e Aécio faltam a debate e viram alvo de rivais em MG

Mesmo ausentes, os três principais candidatos ao Senado por Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), Itamar Franco (PPS) e Fernando Pimentel (PT), foram alvo de ataques no debate que a Band Minas promoveu na noite desta quinta-feira.

Dos sete concorrentes, apenas quatro estiveram frente a frente: Miguel Martini (PHS), Zito Vieira (PCdoB), Marilda Ribeiro (PSOL) e Mineirinho (PSOL). Eles puderam fazer perguntas aos candidatos faltosos.

Martini questionou Itamar sobre sua ausência e, diante do silêncio, disparou: “Não quer explicar ao povo mineiro por que ele foi o pior governador da história de Minas Gerais?”. Itamar governou antes de Aécio, deixando o cargo em 2002.

Já o candidato do PCdoB afirmou que o “déficit zero” anunciado pelo governo de Aécio é falso. “Essa é uma mentira. Minas deve R$ 60 bilhões”, disse. Marilda atacou Pimentel, perguntando, se, caso eleito, o candidato “salvaria a pele de senadores envolvidos em escândalos de corrupção, como fez o PT com os aliados do PMDB José Sarney e Renan Calheiros”.

Carta

Os líderes das intenções de votos nas pesquisas em Minas enviaram uma carta à emissora justificando a ausência. Aécio e Itamar explicam que não participaram por determinação do conselho político da coligação. Já Pimentel, em terceiro lugar nas pesquisas, não se pronunciou sobre a falta.

Segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira, Aécio lidera a disputa por uma das duas cadeiras no Senado com 64% das intenções de voto, seguido por Itamar, com 44%, e Pimentel, que atinge 30%. Marilda e Martini alcançam 2% cada um, enquanto Mineirinho e Zito têm 1% cada.

Dino promete 100 escolas técnicas e cinco universidades no MA

Do iG

O candidato ao governo do Maranhão, o deputado federal Flávio Dino (PCdoB), prometeu durante sabatina realizada pelo jornal O Imparcial construir 100 escolas técnicas estaduais e implementar cinco universidades estaduais em todo o Estado.

Segundo ele, além da construção de escolas técnicas e universidade, o governo do Estado também precisa dar apoio aos municípios para melhorar a educação infantil no Estado. “A gente precisa caminhar de fato para a questão das escolas integrais”, declarou Dino sobre as 100 escolas técnicas. Uma média de 25 por ano de mandato.

Dino também assinalou que pretende criar uma agência de notícias institucional, nos moldes da TV Brasil e Agência Brasil. “Uma coisa é a comunicação de governo, outra coisa é a comunicação de Estado. Nós vamos praticar primeiro a profissionalização, vamos fazer concurso pra jornalista, porque não vai ter jornalista do Flávio Dino, ter vai jornalista do governo do Maranhão”, disse o candidato.

Pesquisa no DF confirma crescimento de Agnelo

Raquel Ulhôa, no jornal Valor Econômico

A tendência de crescimento da candidatura do ex-ministro Agnelo Queiroz (PT) a governador do Distrito Federal e de queda do ex-governador Joaquim Roriz (PSC), que já havia sido apontada pelo instituto Datafolha, foi confirmada por pesquisa de intenção de voto realizada pelo instituto CB Data para o jornal “Correio Braziliense”, publicada ontem.

Na enquete estimulada, quando a lista dos candidatos é apresentada ao entrevistado, Agnelo recebe 40% das intenções de voto e Roriz fica em segundo, com 34%. Considerada a margem de erro (três pontos para cima ou para baixo), a situação é de empate técnico. Agnelo venceria Roriz num segundo turno, por 43% votos a 35%. O candidato petista é o mais lembrado na pesquisa espontânea (31% a 25%), na qual nomes não são mostrados.

Segundo o cientista político Adriano Cerqueira, coordenador da pesquisa, o resultado não teve influência da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que no dia 31 de agosto negou o pedido de registro de candidatura de Roriz. As 1,1 mil entrevistas foram realizadas entre os dias 29 e 31. “Se o efeito dessa decisão do TSE for danoso para o Roriz, o que tudo indica, a repercussão deverá vir na próxima pesquisa”, diz.

Ex-governador do DF por quatro vezes e aliado do candidato a presidente José Serra (PSDB), Roriz teve a candidatura negada com base na Lei da Ficha Limpa, pela renúncia ao mandato de senador em 2007, para escapar de processo por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética do Senado. Cabe recurso ao Superior Tribunal Federal (STF).

A pesquisa do CB Data, um instituto de Minas Gerais que atende a jornais do grupo Diários Associados e não trabalha para candidaturas, mostra que a candidata do PT a presidente, Dilma Rousseff, tem a preferência de 42% do eleitorado do DF. Serra tem 22% das intenções de voto e Marina Silva (PV), 15%.

Para Cerqueira, o crescimento de Agnelo não resulta de uma onda favorável a Dilma. Uma das perguntas era se o eleitor quer uma candidatura de continuidade ou de oposição e a maioria ficou no segundo grupo. Na avaliação do cientista político, isso reflete o desgaste causado pelo escândalo que derubou o ex-governador José Roberto Arruda. “Percebo uma onda governista em boa parte dos Estados, na eleição presidencial e na estadual. Mas no DF a população quer continuidade para presidente e mudança para governador.”

Desde que se lançou candidato, Roriz aparecia à frente das pesquisas, com mais de 50%. Em 27 de agosto, o Datafolha mostrou Agnelo em situação de empate técnico. O petista, que tinha 33% no levantamento feito antes do início da propaganda no horário eleitoral, foi para 35%. Roriz manteve os 41% anteriores.

Mensaje de Fidel a los estudiantes universitarios de Cuba






 

Do Cubadebate

Queridos compañeros:

Les pedí reunirnos hoy temprano, antes de que nuestro Sol caliente demasiado.

Esta escalinata, a la que nunca imaginé volver, guarda imborrables recuerdos de los años en que comencé a tener conciencia de nuestra época y de nuestro deber. Se puede adquirir conocimientos y conciencia a lo largo de toda la vida, pero jamás en ninguna otra época de su existencia una persona volverá a tener la pureza y el desinterés con que, siendo joven, se enfrenta a la vida. A esa edad, descubrí mi verdadero destino.

Es por ello inevitable que, en estos instantes, me acompañe el recuerdo de tantos compañeros que conocí hace exactamente 65 años. Fue en la primera semana de septiembre cuando ingresé en esta Universidad, que era la única del país. Es mejor que no intente siquiera preguntar por cada uno de ellos, y guardar solo el recuerdo de cuando todos eran jóvenes y entusiastas y, por lo general, desinteresados y puros.

Me anima sobremanera tener presente a los que son hoy, como nosotros ayer, aunque incomparablemente más cultos, más libres y más conscientes.

Entonces, sobre esta colina universitaria caía el poder de la fuerza bruta y la brutalidad de la fuerza, la inconsciencia y la corrupción aplicada a nuestro pueblo.

Gracias al ejemplo de los que nos habían precedido, a los estudiantes fusilados por exigencia de las hordas de los llamados voluntarios españoles, nacidos muchos en esta tierra que se ponían al servicio de la tiranía española, gracias al Apóstol de nuestra independencia y a la sangre derramada por decenas de miles de patriotas en tres guerras de independencia, nos precedía realmente una historia que inspiraba nuestras luchas. No merecíamos ser colonia de un imperio mucho más poderoso todavía, que se apoderó de nuestra Patria y de una buena parte de la conciencia nacional, sembrando el fatalismo con la idea de que era imposible sacudirse de tan poderoso yugo.

Peor aún, había surgido ya una poderosa capa explotadora que, al servicio de los intereses del imperio, saqueaba a nuestro pueblo extrayendo riquezas, manteniéndolo maniatado e ignorante a través de la fuerza, y no pocas veces, utilizando a otros nacidos en el país, para actuar como torturadores y asesinos de sus hermanos.

La Revolución puso fin a esos horrores, es por ello que podemos reunirnos aquí esta mañana de septiembre.

Cuán lejos estábamos de pensar después del triunfo que, en una ocasión como esta, volveríamos a reunirnos en esfuerzos aún mayores y con objetivos superiores a los que, en un tiempo, nos parecieron las más altas metas de los pueblos, en aras de la justicia y la felicidad de los seres humanos.

No pareciera posible que un país tan pequeño como Cuba se viera obligado a cargar el peso de la lucha contra aquellos que han globalizado y sometido el mundo a un inconcebible saqueo, y le ha impuesto un sistema que hoy amenaza la propia supervivencia de la humanidad.

No hablo solo en pro de los intereses de nuestra nación. Podría decirse que tales objetivos quedaron atrás, en la medida en que la existencia y el bienestar de los pueblos dejaron de ser nuestros objetivos, en aras de intereses mundiales, sin los cuales, la vida de las naciones  es imposible. También es cierto que, en nuestras luchas por la emancipación nacional y social, nuestro país, bastión del coloniaje español en este hemisferio, fue el primero en ser ocupado y el último en sacudir ese yugo después de más de 400 años de dominación.

Nuestra lucha por la liberación nacional se mezcló con el tenaz esfuerzo de los trabajadores de nuestro país por su liberación social. No fue obra de la voluntad; lo fue del azar. El mérito del pueblo cubano es haber sabido comprender y fortalecer los indisolubles lazos entre ambos (Aplausos y exclamaciones de:  “¡Viva Fidel!”).

El tiempo que la humanidad dispone para librar esta batalla, es increíblemente limitado. A lo largo de más de tres meses de incesante batallar me esforcé modestamente por divulgar, ante un mundo inadvertido, los terribles peligros que amenazan la vida humana en nuestro planeta. Es sabido, y no me queda otra alternativa que recordar el hecho, de que no estamos viviendo la época de la caballería y el acero de las espadas acompañados por arcabuces de un disparo, que fueron precedidos durante siglos por las máquinas que demolían murallas  o trataban de hacerlo, o los carros de combate tirados por caballos, que portaban cuchillos en las ruedas; armas, en fin, siempre crueles, pero de limitado poder destructivo que los humanos usaron para guerrear entre sí, desde que inventaron las mazas, hasta la Primera y Segunda Guerra Mundial, en las que usó armas automáticas, tanques, aviones de combate y fortalezas volantes, submarinos, torpedos, acorazados y portaaviones que elevaron las pérdidas humanas a decenas de millones de muertos, y a cientos de millones las víctimas de la destrucción, las heridas, las enfermedades y el hambre, secuelas inevitables de las guerras.

Dos artefactos nucleares fueron utilizados al final de la última contienda. Nunca el hombre concibió tan terrible destrucción y exterminio. Hace más de 60 años se habla del bombardeo de Hiroshima y Nagasaki; por ahí hemos señalado que el poder destructivo de las armas acumuladas equivale a más de cuatrocientas cuarenta mil veces el poder de alguna de aquellas bombas.  Es así, es lo que dice la matemática.  No añado más porque tendría que usar palabras bastante duras respecto a las causas y a los responsables de esa tristísima realidad.

Pero eso no bastó. La pretensión de dominio económico y militar de los primeros en utilizar esos aterradores instrumentos de destrucción y muerte, condujeron  a la humanidad a la posibilidad real de perecer que hoy enfrenta. No necesito argumentarles lo que ustedes ya de sobra conocen. El problema de los pueblos hoy día, digamos, el de más de siete mil millones de seres humanos, es impedir que tal tragedia suceda. 

No me agrada decir la dolorosa verdad, que constituye una vergüenza para todo lo que se identifica como política y gobierno. Al mundo se le ocultó deliberadamente esta realidad y le ha correspondido a Cuba la dura tarea de advertir a la humanidad del peligro real que está confrontando.  En esa actividad no debemos desmayar. He utilizado argumentos que no deseo repetir ahora. Frente a los escépticos, nuestro inconfundible deber es seguir librando la batalla. Me consta que un número creciente de personas en el mundo han tomado conciencia de la realidad.

Comentando la primera parte de la entrevista, publicada el lunes 30 de agosto por la directora de La Jornada en ese prestigioso órgano de prensa mexicano, un ciudadano de Nuestra América, que la conoció por el sitio Web CubaDebate, hizo llegar su opinión con palabras tan profundas que decidí incluir, en este mensaje a los estudiantes universitarios de Cuba, lo fundamental de sus ideas:

“Hago un llamado, a todos los países que hoy se encuentran involucrados en conflictos militares. Por favor, piensen siempre en lograr una paz verdadera, que es lo que nos conviene a todos. Nuestros hijos, nuestros nietos y seres humanos del mundo, todos se lo vamos a agradecer. Necesitamos vivir en paz y seguros en un planeta que cada día es menos habitable. Es muy fácil de entender. El armamento nuclear debe desaparecer, ningún país debe poseerlo, la energía atómica debe ser usada solo para el bien. LA ÚNICA VERDADERA VICTORIA ESTÁ EN GANAR LA PAZ.

“Hoy enfrentamos dos grandes desafíos: la consolidación de la paz mundial y salvar el planeta del cambio climático. Lo primero es lograr una paz duradera sobre bases sólidas, la segunda es la de revertir el cambio climático. Hay que tomar conciencia de estos problemas que nosotros mismos los hemos creado y que somos los protagonistas de los cambios que tenemos que lograr. El panorama del siglo pasado no era igual que el de este siglo. El armamento, en estos momentos, es más sofisticado y mortífero y el planeta más débil y contaminado.

“Conferencia Mundial de Cambio Climático de Cancún. [...] la única oportunidad que nos queda. [...] Estamos llegando a un punto crítico donde no existe marcha atrás. En ese momento, por miedo, quisiéramos hacer cualquier cosa para salvar nuestras vidas, pero ya todo sería en vano y demasiado tarde. Las oportunidades en nuestras vidas pasan por delante de nosotros una sola vez y hay que saberlas aprovechar. Nuestra Madre Naturaleza es como un fumador pasivo que aunque no tiene vicio, la enfermamos indiscriminadamente.”

“Nadie tiene el derecho de usar la violencia contra ningún ser humano, país o nación. Nadie puede cortar un árbol si antes no plantó tres. [...] No podemos estar de espalda a la naturaleza. Todo lo contrario, debemos permanecer siempre abrazados a ella. Porque nosotros mismos somos naturaleza, formamos parte de ese abanico de colores, de sonidos, equilibrio y armonía. La naturaleza es perfecta.

“Kioto significó para todos los seres humanos una esperanza…”

“Si no hacemos nada. Nadie se salvará, no habrá lugar seguro sobre la tierra, ni en el aire, ni en el cosmos. La gran energía que diariamente se acumula por el efecto invernadero, ya que los rayos solares quedan atrapados y descargan más energía cada día sobre la superficie terrestre. Provocará que se produzcan desastres naturales de consecuencias impredecibles ¿Alguien en la tierra tendría un botón capaz de poder detener semejante desastre?”

“…no podemos perder tiempo en guerras anacrónicas que nos debilitan y agotan nuestras energías. Los enemigos hacen las guerras. Eliminemos todas las causas que provocan que el hombre vea al hombre como su enemigo. Ni los que se enfrentan en una guerra están conscientes de que esa sea la solución a sus problemas, reaccionan ante sus emociones y no les hacen caso a su conciencia pensando erróneamente que el camino a la paz es la guerra. Yo digo, sin ninguna posibilidad de error, que la paz con la paz se logra y: SI QUIERES LA PAZ, PREPARETE PARA CAMBIAR TU CONCIENCIA (Aplausos).”

Hasta aquí lo esencial de sus palabras, bien sencillas y al alcance de cualquier ciudadano del mundo.

El miércoles primero de septiembre, cuando elaboraba este mensaje, una información publicada por el sitio Web CubaDebate nos trajo la siguiente noticia: “Una nueva ola de filtraciones sobre un ataque contra los objetivos nucleares de Irán que Israel prepara junto con Estados Unidos esta vez puede tener un fundamento real, considera en un artículo publicado este martes George Friedman, director ejecutivo del prestigioso centro Stratfor, que cuenta con antiguos analista de la CIA entre sus colaboradores.” Es una persona bien preparada y con prestigio.

La información continúa expresando:

“Han sido numerosas las ocasiones en las que se han difundido diferentes versiones del posible ataque contra la República Islámica supuestamente filtradas desde los servicios secretos. Según expertos, se trataba de un intento de ejercer presión psicológica sobre Teherán para hacerlo buscar el consenso con Occidente.”

“…esta técnica no prosperó y es muy poco probable que se vuelva a emplear con el mismo objetivo, señala Friedman…”

“‘Es paradójico, pero la nueva tanda de rumores sobre la guerra esta vez puede ir dirigida a convencer a Irán precisamente de que no habrá guerra, mientras en realidad se está preparando ya’…”

“El analista descarta por completo que Tel Aviv se atreva a emprender una operación militar sin contar con el apoyo del Pentágono.”

“Al mismo tiempo, el experto advierte que la consecuencia más grave del posible ataque contra Irán sería que la República Islámica bloqueara el estrecho de Ormuz, entre los golfos de Omán y Pérsico, lo cual colapsaría el 45% de los suministros mundiales de petróleo haciendo que se disparase su precio y dificultando la recuperación de la economía mundial tras la recesión.”

Así concluye la información.

Para mí resulta increíble que el temor a un ataque se deba a las consecuencias que puede tener en el precio del petróleo y en la lucha contra la recesión. No albergo, por mi parte, la menor duda de que la capacidad de respuesta convencional de Irán provocaría una feroz guerra, cuyo control escaparía de las manos de las partes beligerantes y la misma se tornaría irremediablemente en un conflicto nuclear global. Es lo que vengo sosteniendo.

Un significativo despacho de la AFP afirma que, “El ex primer ministro británico Tony Blair advirtió este miércoles que la comunidad internacional podría no tener otra alternativa que la opción militar si Irán desarrolla armas nucleares, en una entrevista con la BBC con motivo de la llegada de sus memorias a las librerías.”

Y continúa:

“‘Pienso que no hay alternativa a esto si continúan desarrollando armas nucleares. Deben recibir este mensaje alto y claro’, agregó haciéndose eco de una amenaza que ya han blandido varias veces Estados Unidos e Israel.” concluyo Blair.

Claro, si están fabricando armas nucleares ellos no tienen ninguna prueba ni la pueden tener, porque lo que están es usando unos centros de investigación, haciendo investigaciones; no tienen, hasta dentro de uno o dos años, como ellos mismos han declarado, material para empezar a fabricar una bomba.  Esto, sin tomar en cuenta que los fabricantes de armas nucleares tienen 25 000 armas nucleares, sin contar las convencionales inimaginables.  No tienen pruebas para ello, se trata de un centro de investigación.  ¿Es una razón para atacarlos?  Tener una planta que produzca energía eléctrica, partiendo del uranio, es algo que no constituye un delito, y para ellos es una prueba de la fabricación de armas.  Ya lo hicieron, lo hicieron en el 1981 contra un centro de investigación iraquí, y lo hicieron en el 2007 contra un centro de investigación sirio; de ese no se habló, es una especie de misterio por qué no se habló.  Porque hay cosas terribles que ocurren de las que no se habla y nadie las publica.

Bueno, esas son las pruebas, porque se habla de atacar esos reactores y esos centros de investigación.  Por eso no hay que dejarse confundir con la palabrita de “si intentan” fabricar armas nucleares.

Un despacho noticioso de la agencia ITAR-TASS comunica que:   ”Las sanciones contra Irán no reportarán un resultado deseado, el problema iraní no debe ser resuelto por ningún método de fuerza. Así manifestó hoy el jefe de la diplomacia rusa Serguéi Lavrov en su intervención ante estudiantes del Instituto -qué casualidad- de Relaciones Internacionales MGIMO.”

Y continúa el cable:

“Partimos de que ningún problema mundial debe resolverse por métodos de fuerza, señaló. Lavrov llamó atención a la postura del presidente de EE.UU., Barack Obama, en relación con Irán, particularmente, la involucración de Irán en el proceso negociado. Saludamos una normalización de las relaciones entre EE.UU. e Irán, acotó.”

Estimo que Rusia no es solo miembro del Consejo de Seguridad con derecho a veto, sino también un poderoso país cuya opinión no puede ser ignorada.  Independientemente de que en esa Resolución del 9 de junio, todos los que tienen derecho al veto apoyaron la Resolución.  Turquía y Brasil no la apoyaron, y Líbano se abstuvo.  Ese era un momento de gran importancia, porque la Resolución quedó aprobada, la que autoriza la inspección de los mercantes iraníes y además establecieron un plazo, decían 90 días, hay algunos que dicen que el 9 se vence, otros que el 7.  Además dice que ese día tenían que informar si acataron o no.

Ahora hay que ponerse a esperar a ver qué hacen dentro de esta  situación, cómo valoran la opinión mundial, qué efecto tendrá, si inventan otro plazo o no, si declaran que no lo van a hacer, o si ratifican que lo van a hacer, podrá tardar más o menos, no puede ser mucho tiempo.

Les recomiendo que estemos atentos, que les pidamos a nuestros medios de información que nos comuniquen, para seguir de cerca la situación.

Gracias a los medios electrónicos hay personas en el mundo, un número creciente de personas, que se informan, porque no pueden impedirlo, independientemente de que las agencias noticiosas y los grandes medios de información en manos de poderosas empresas capitalistas, guarden silencio, el mundo se está enterando.  Se los digo por la cantidad de mensajes que llegan.  Yo les leí una opinión que escogí: es a las 4:52, a las 4:54, otra a las 4:55, los compañeros que recogen explican que llegan de todas partes del mundo, no solo de América Latina.  Es imposible recogerlos y comentarlos, tenemos una idea de los estados de opinión, de la credibilidad que le dan o no, y les puedo decir que dan una credibilidad grande, como ustedes se la están dando.  Se ve claro, y eso es decisivo.  Es una etapa nueva, nunca se conoció una situación parecida a esta.

Por lo tanto, yo les sugiero a ustedes, y a todos nuestros compatriotas que traten de estar atentos, y a nuestros medios de prensa que informen, porque a veces se guarda un silencio extraño en la prensa internacional y después aparecen, de repente, una serie de noticias.  Las que van a venir sucesivamente, cada día son más interesantes.

Nadie puede decir una palabra exacta de lo qué va a pasar, porque están desenvolviéndose estos acontecimientos.

¿Qué pasará el 7, el 9, el 15, el 20?  Tenemos que hacer nuestros planes, los planes de trabajo, cada uno el suyo.  Yo, por mi parte, me concentro; vengo concentrado en esto hace rato, recogiendo cuanta información es posible.

Pero en este problema todos tenemos una parte de trabajo, una parte de responsabilidad que no significa detener las cosas que estemos haciendo.

Además, otro país muy importante, es el último mencionado aquí, porque fue el último cable, fue de ayer por la tarde.

Un despacho de la agencia Reuters dice que: “La Unión Europea presiona a China para que cumpla las sanciones a Irán.”

Porque además del acuerdo famoso del 9 de junio, el número 1929, estableciendo las sanciones que mencioné, estas potencias satelitales europeas y de otras partes, impusieron sanciones adicionales para estrangular al país y, en este caso, se estaban quejando con relación a China, también con relación a Rusia sobre lo que harán, pero decía así:

“La responsable de política exterior de la Unión Europea Catherine Ashton, dijo el jueves que ha presionado a China para que se asegure que las empresas chinas no ocupen el lugar dejado por las otras compañías que han abandonado Irán a causa de las sanciones…” No dice cuáles sanciones, si las del Consejo o las de ellos, se debe estar refiriendo a todas, por supuesto.

Cualquier persona honesta puede comprender la complejidad del gravísimo problema que hoy amenaza al mundo.

Compañeros estudiantes universitarios, como en otros tiempos, al parecer lejanos y que a mí me parece fue ayer, les agradezco la presencia y el apoyo moral que ustedes le están ofreciendo a esta lucha por la paz (Aplausos). Los exhorto a no dejar de batallar en esa dirección. En esta, como en muchas luchas del pasado, es posible vencer (Aplausos).

¡Que la vida humana se preserve! ¡Que los niños y los jóvenes disfruten de ella en un mundo de justicia! ¡Que los padres y los abuelos compartan con ellos el privilegio de vivir!

La distribución justa de las riquezas materiales y espirituales, que el hombre es capaz de crear por el fabuloso desarrollo de sus fuerzas productivas, es ya la única alternativa posible.

Muchas gracias.

Septiembre 3 de 2010

(Ovación.)

Fidel pede aos jovens lutarem para evitar uma guerra nuclear

Do jornal Granma

O comandante-em-chefe Fidel Castro assegurou hoje, 2 de setembro, que é possível vencer na grande batalha por preservar o mundo duma contenda nuclear que resultaria em seu fim, e defender o direito de todos os seres humanos a viver.

A ponto de completar-se 65 anos de seu ingresso no ensino superior, o líder cubano retornou à Universidade de Havana, onde, como já ele disse outras vezes e reafirmou nesta manhã, tornou-se revolucionário e descobriu seu verdadeiro destino, e dali instou novamente a governos e povos a salvarem a paz, a vida e o futuro.

“O tempo de que dispõe a Humanidade para travar esta batalha é incrivelmente limitado”, advertiu o primeiro-secretário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, referindo-se ao perigo real e iminente de outra guerra no Oriente Médio, cujas consequências para o mundo são imprevisíveis e podem ser catastróficas.

Envergando roupa verde-oliva, aos pés do monumento à Alma Máter e perante uma entusiástica multidão que lotou a histórica escada e suas proximidades, Fidel leu sua mensagem aos estudantes universitários de Cuba, que é também um apelo a lutar contra aqueles que impuseram ao mundo um sistema que ameaça hoje a sobrevivência mesma do planeta e da espécie humana.

“Estamos aqui para convencer, dissuadir e evitar uma guerra que fará finita a esperança, para demonstrar que o amor à vida é devoção de todos”, afirmou por seu lado a presidenta da Federação Estudantil Universitária (FEU), de Cuba, Maydel Gómez Lago.

“Até o último minuto estaremos exigindo o direito à vida, não queremos morrer desta maneira absurda, queremos tornar realidade nossos sonhos”, enfatizou a jovem. E apelando ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, exigiu-lhe fazer uso da faculdade que tem de impedir que em poucos dias a guerra seja o drama de todos.

Aos universitários do mundo inteiro instou a aderirem a esta luta e expressou: “Temos o direito de lutar por nosso futuro, temos o dever de construí-lo. Ainda estamos a tempo. Lutemos pela paz, a vida não perdoará que façamos menos”.

O diretor da revista Alma Máter, voz dos universitários cubanos, Yoerky Sánchez Cuéllar, falou também, mas em versos, para exigir do inquilino da Casa Branca, não só que não puxe o gatilho, mas também a destruição de todas as armas nucleares.

“O senhor deve escutar Fidel, que não está sendo alarmista e tampouco catastrofista, mas que vê que este mundo pode sumir num segundo se a paz não for conquistada”, refletiu em décimas o jovem, também deputado à Assembleia Nacional do Poder Popular.

“Cá estamos, comandante cá está sua juventude que sente a gratidão de vê-lo tão saudável, de escutá-lo a cada instante, de ler suas Reflexões, de conhecer as razões pelas quais está preocupado e de tê-lo acompanhado nestas novas missões”, concluiu.

Saúl Landau, en su medio siglo de amistad con Cuba

Por Marta Rojas
Especial para Cubadebate

Transcurría la primavera de 1960 cuando un joven norteamericano nombrado Saúl Landau viajó a Cuba por primera vez. Su estancia se prolongó hasta la entrada del otoño. Tenía un deseo inmenso de ver lo que estaba pasando “donde la gente de mi edad dirigían ministerios y el líder tenía solamente nueve años más que yo” -son palabras del propio Saúl Landau rememoradas hoy.

Andaba en aquellos días recorriendo Santiago de Cuba, volcado en la historia aún palpitante de la entrada victoriosa del Ejército Rebelde. Era uno más entre muchos jóvenes del continente que llegaban a Cuba en los albores del triunfo de la Revolución. Pero, Saúl regresó en diciembre de 1961 y permaneció dos meses más con el pueblo cubano y volvería muchas veces en medio siglo.

(Además, en su propio país, estaría con los nuestros medio siglo después, como ocurrió hace pocos días cuando, junto a Danny Glover visitó a Gerardo y por extensión a sus otros cuatro compañeros: los Cinco Héroes cubanos encarcelados en prisiones de alta seguridad en EEUU, hace más de una década, por luchar contra el terrorismo).

Por aquellos días de 1960-1961, Saúl Landau acababa de graduarse en Historia (1957) y emprendía su Masters (1959) en la universidad de Wisconsin. “Interrumpí mi trabajo por el doctorado con las dos visitas a Cuba. Nunca regresé para escribir mi tesis académica, aunque logre escribir 14 libros.

–En las dos primeras oportunidades que tuve de visitar a Cuba no pude conocer a Fidel personalmente, según mis deseos, pero pude verlo varias veces y escuchar sus discursos en plazas, como una persona más entre tanto del público–dice.

Recuerda que  el primer interlocutor que tuvo en Cuba fue el comandante médico del Ejército Rebelde, René Vallejo, entonces al frente del INRA (Instituto Nacional de la Reforma Agraria) en la antigua provincia de Oriente y por él conocería personalmente a Fidel en 1968. En esa fecha, ya el periodista y cineasta Saúl Landau había realizado un documental para la Televisión Pública de Estados Unidos, titulado Report from Cuba.

–Parece que a Fidel le interesó el documental, y al fin tuve la oportunidad de verlo y hablar con el máximo líder de la Revolución. Le pedí permiso para filmarlo y él dijo que sí. Filme en 1968, el documental “Fidel” por la televisión publica norteamericana. Otras cosas tal vez sean más conocidas –me dice Saúl Landau pero gentilmente accede a contarnos en esta entrevista mucho más sobre su relación con Cuba, solidaridad con otras pueblos, incluido el suyo, y aspectos de su labor intelectual.

–Como amigo de Carol Brightman, organizador de la Brigada Venceremos yo lo apoyaba en la tarea, aunque directamente, no tenía nada que ver con la Brigada. En aquellos momentos el gran periodista Lee Lockwood, autor de uno de los más extraordinarios libros gráficos sobre Fidel, un fotógrafo excelente, me pidió que colaborara en la fundación de un Centro en Nueva York cuyo objetivo sería ofrecer cultura e información de la realidad de Cuba en vez de tenernos que “comer” la propaganda de los medios masivos de comunicación. Él –Lee Lockwood– y yo decidimos  a su vez  pedirle a Sandra Levinson que dirigiera ese Centro que queriamos crear y ella lo hizo. (Center for Cuban Studies).

(Para los grupos de contrarrevolucionarios cubanos de Miami y New Jersey el Centro de Estudios Cubanos recién fundado resultó un objetivo vulnerable para castigarlo y sufrió el zarpazo de una acción terrorista que destruyó gran parte del inmueble. La bomba estalló  apenas  unos minutos después de la salida de la joven profesora Sandra Levinson de aquel lugar. El Centro fue reinstalado en otro lugar).

Nada fue fácil para Saúl Landau a partir de 1960, hace 50 años:

–Mis dificultades con el bloqueo y otras medidas, han sido muchas a partir de entonces. Como para todos los cubanos y los norteamericanos que viajaron a Cuba en la década del 60. Yo diría que el bloqueo era y es “a pain in the ass” (algo molesto en una parte muy sensible del cuerpo) –cree que esa frase, muy usada en el lenguaje popular norteamericano define lo que ha significado para él el bloqueo de su país a la isla:

–Por ejemplo regresando de Cuba, en 1967, yo tuve que someterme a una revisión de todo  mi cuerpo y después a un interrogatorio del FBI cuyos intereses en aquel momento de las luchas civiles, era Stokeley Carmichael y saber de sus planes. Yo lo había visto en Cuba pero juré que no tenía respuesta para esas dos preguntas. Me detuvieron por horas y horas en el aeropuerto de Los Ángeles. Y el año pasado (2009, cuatro décadas después) también fui detenido, esa vez en el aeropuerto de Miami, por joderme nada más. Pero para los cubanos el bloqueo es obviamente mucho más que “a pain in the ass”-caben esas palabras y frases porque de él se ha dicho que habla con marcado acento de barrio norteamericano pero usa un inglés exquisito pero “a veces subrayado con insultos exactos”.

Como profesor, periodista, poeta y cineasta, algunas de las muchas vertientes intelectuales de Saúl Landau, él ha podido participar activamente en importantes conferencias internacionales en Cuba asi como en otros países pero, además, es profesor y miembro del Instituto para Estudios de Política en Washington DC.

Sobre ese esos aspectos inquirimos y él contesta:

–Mira, Marta, mi carrera académica es secundaria. Si, es cierto: soy profesor. Un profesor visitante en algunas universidades: Universidad de California, Santa Cruz, y American University, por ejemplo. Ofrecí también clases de historia y sociología, de los medios masivos de comunicación y de vez en cuando de Cine, hasta que en 1997 en la California State University, Pomona, me ofrecieron una cátedra de estudios interdisciplinarios y permanecí allí por nueve años. Fue interesante ‘pero había un problema: un porcentaje alto de mis estudiantes eran analfabetos funcionales. Era difícil pedirles a ellos que leyeran textos o escribieran ensayos. Sí, es verdad, estaban graduados de high school pero no sabían leer de una manera crítica para sacar el mensaje que contenía una novela, por ejemplo, o un ensayo académico. Imaginemos el nivel cultural de los ciudadanos de nuestro ¡imperio!

El periodista, el profesor, el politólogo y el poeta conforman una sola pieza, tratándose de Saúl Landau. En él son como afluentes  que tributan a un mismo río: este es su compromiso con las mejores causas y con los desposeídos; pero él coloca en un plano secundario a su poesía. Sin embargo el poemario My dad was not Hamlet (Mi padre no era Hamlet, en español) demuestra lo contrario.

¿Y el poeta Saúl Landau? -le pregunto y él responde:

Poeta es igual a: alguien que piensa en imágenes y las convierte en palabras para que otros penetren el mundo imaginario. Poeta: alguien que no puede disciplinar sus pensamientos (…) Poeta: un loco que piensa que los mejores cerebros de su generación han sido destruidos por la locura (Gilnsberg). Poeta: Pablo Armando Fernández, que piensa poesía y sabe los nombres de flores y árboles. ¿Acaso soy yo esas cosas?

Pero, él mismo se desmiente en la obra mencionada, que consta de más de 40 poemas, traducidos al español y publicada en Madrid en el 2000. De su voz de poeta es, por ejemplo: “Amor. Una simple brisa/ me acarició la nuca; / un tranquilo lago verde /murmuraba en la montaña / en el otoño deprimido; / una brizna de paja / cruzó la amarilla / pradera, una débil rama / se dispuso a recibir /la primera nevada.”

 Y sobre sus libros en prosa dice Saúl Landau: “no puedo negar que son muchos” y nosotros agregamos,  e importantes. Pero él  subraya:

–Me gusta mejor leer que escribirlos. Assassination on Embassy Row (con John Dinges), describe un proceso de cinco años. Mis colegas, compañeros, amigos, Orlando y Ronni merecían algo más que lágrimas. Creo que contribuimos con un material que sirve bien a los estudiantes de historia, para que conozcan mejor la naturaleza de Augusto Pinochet y su régimen; sobre su policía secreta, y los cuervos contrarrevolucionarios de origen cubano que ayudaron al asesinato de Orlando y Ronni, los protagonistas.

Saúl Landau, fue un activista en la lucha a favor de los Derechos Civiles en su país, cuyo líder, Martin Luther King, fue asesinado; también abrazó la bandera en contra de la guerra de agresión en Viet Nam y se solidarizó con el pueblo chileno -de ahí Assassination on Embassy Row–, a riesgo de su propia vida desde el momento mismo en que La Moneda fue bombardeada, el fascismo pinochetista imperó en Chile y extendió sus tentáculos, asesinando en Estados Unidos a Letelier en los propios EEUU. ¿Cómo ve hoy, el especialista en política internacional e interna, Saúl Landau, a la Revolución cubana en relación con el largo expediente de las administraciones norteamericanas, al respecto?

–La Revolución Cubana ha sobrevivido a Eisenhower, Kennedy, Jonhson, Nixon, Ford, Carter, Bush I, Clinton, Bush II y ahora Obama. Ha sobrevivido como ejemplo de desobediencia pero, claro, el precio ha sido alto. Y nosotros los norteamericanos, hemos pagado también un precio. Cuba “exportó” enemigos de la Revolución y los EEUU los importó. Hoy día ellos juegan un papel importante en la política norteamericana -como por ejemplo con el voto o la negación de votar –mejor dicho-recordemos lo ocurrido en la Florida en el año 2000. Y más importante, ahí está la gente que tiene responsabilidad en planificar masacres. Recordamos el avión de Cubana, destruido por una bomba encima de Barbados. Ellos andan por las calles de Miami y muestran cuadros de pintura en galerías de arte, mientras los antiterroristas cubanos (los 5) duermen en prisiones. Me da tristeza ver a mi país bajando y bajando a causa de gastar su riqueza en la idiotez militar. La educación, la salud, el transporte público, los puentes y caminos no reciben atención. Hay como un deseo de suicidarse, han precipitado una locura total. Más de trillón de dólares gastados en las Fuerzas Armadas para combatir ataques de baja tecnología. El Departamento de Homeland Security (otra locura) nos quita a los norteamericanos nuestras libertades bajo el nombre de libertad. Cuba sigue siendo una obsesión en Washington y en Miami, ni se diga. Hay gente, eso sí, que ve esto con claridad allá, gente joven y no tan joven también.

Otra vez con Fidel.

Si para Saúl Landau el primer encuentro con Fidel Castro en 1968 fue interesante, cuatro décadas después lo sería tanto o más. Sobre ese hecho nos dice:

–Hablé con Fidel en septiembre del 2009, junto con Harry Belafonte, Danny Glover y James Early. Además, estaban la hija de Harry (Shari) y su mujer (Pamela). Fidel me pareció bien de salud, física y mental, desde aquel momento. Se preocupó por temas muy profundos como el medio ambiente y las amenazas del cambio climático y el tema nuclear, en general. Estaba rodeado de libros y sin perder su sentido del humor. Su coraje me inspiró y la determinación que tiene de cambiar vocaciones -de Jefe de Estado al escritor sabio –así lo ví aquel día.

“La victoria estratégica”: La entrada en Santo Domingo (Capítulo 7)

El 15 de junio, la fuerza enemiga que había alcanzado dos días antes El Descanso se movió desde ese punto hasta la boca de Los Lirios y entró en contacto visual con Lalo Sardiñas, quien me informó que se trataba de 400 guardias. La cifra, indudablemente, tal vez fuera alta, pero hay que tener en cuenta la impresión que debió causar al jefe guerrillero ver desfilar a pocos cientos de metros de su posición a casi un batallón completo de las fuerzas más experimentadas, y al jefe más agresivo y sanguinario del Ejército de Batista. 

Lalo Sardiñas en la Sierra Maestra El capitán rebelde Eduardo Sardiñas, Lalo. 

A esas alturas, el grueso de las tropas de Sánchez Mosquera se había reagrupado. El día 16, el Batallón 11, ya completamente reforzado, siguió su marcha paralela al firme de la Maestra y acampó en El Verraco. Se confirmó así mi evaluación táctica: el enemigo había cambiado la dirección de su golpe en este sector. En ese momento el objetivo inmediato que debía protegerse era Santo Domingo. Le ordené a Paco Cabrera Pupo que se ubicara con su escuadra en el alto de El Cacao para cubrir esa entrada, y a Lalo que se retirara al camino entre Rancho Claro y Loma Azul, desde donde podía actuar en distintas direcciones, según las circunstancias. 

Ese mismo día, Ramiro me informó en dos mensajes por separado que el enemigo que presionaba a sus fuerzas cambió el rumbo después de llegar al alto de Quintero, en lo que parecía ser la retirada de un territorio ya conquistado, y que el grueso de las fuerzas del Batallón 11 había completado su movimiento hasta La Estrella. Se confirmó plenamente mi evaluación, aunque la certeza no la tuve hasta el día 20, al saber que la tropa que ocupó Santo Domingo era la misma que avanzaba desde Minas de Bueycito.

 Continue a leitura aqui.

Chávez decreta la creación de la Universidad Militar Bolivariana

El presidente Chávez firma decreto para la creación de la Universidad Militar Bolivariana. (Foto:Minci)    La Academia Militar de Venezuela dio paso a la Universidad Militar Bolivariana, así lo decretó el presidente de la República durante el acto conmemorativo al Bicentenario de dicha institución castrense.

Da TeleSUR

El presidente de Venezuela, Hugo Chávez, firmó este viernes, el decreto para la creación de la Universidad Militar Bolivariana (UMB), en el marco de la celebración de los 200 años de la Academia Militar de Venezuela (AVN).

“Acabo de firmar el decreto creando la Universidad Militar Bolivariana, es mucho más que un cambio de nombre”, indicó el mandatario.

Explicó que la nueva institución conformada por: Academia Militar del Ejército, Academia Militar de la Guardia Nacional, Academia Militar de la Armada y la Academia Militar de la Aviación.

“Esas cuatro Academias son la primera estructura, la visión va mucho más allá, las Escuelas de Armas serán las Escuelas de postgrado”, informó.

Señaló que además de los militares, los civiles, podrán acceder a los conocimientos que se impartirán en la nueva casa de estudios.

“Esto es abrir el horizonte, Universidad Militar Bolivariana también podrá darle cabida a profesionales civiles a hacer postgrado”, diplomados, entre otros estudios de educación superior.

Propuso la extensión de la UNB, abrir núcleos y rectorados en otros estados del país. Recordó además que la instalación de la Universidad se realiza a 200 años de la creación de la Academia Militar de Matemáticas.

El mandatario venezolano se refirió a los “cadetes de hoy y oficiales del mañana” y recordó el día de la creación de la primera Academia Militar de Matemáticas, en 1810, a pocos meses de que naciera la primera república.

Indicó que la primera escuela de la milicia surgió “en plena efervescencia revolucionaria” y actualmente la AMV es una escuela revolucionaria”.

Es una “escuela de revolucionarios patriotas, de verdaderos patriotas” aseguró al tiempo que recordó una frase de El Libertador, Simón Bolívar.

El patriotismo es “un fuego sagrado que no se puede esconder y que tanto y en cuanto se extienda o se propague en el sentido más puro en mayor medida logrará la felicidad de la patria”, apuntó.

Tras el discurso, Chávez llamó a los aspirantes a cadetes e interactuó con ellos. Asimismo, le recordó que “nacimos libertadores para el pueblo, para la patria, no para servir al imperio”.

Reiteró que la Revolución que encabeza “es pacífica, pero no es desarmada, se lo recuerdo a los burguesas y a los imperialistas”.

El mandatario insistió a los jóvenes que se encontraban con él que “el fusil que llevan es para defender al pueblo, nunca contra el pueblo”.

“Les hablo a todos los cadetes: llénense de conciencia, de espíritu de pueblo (Â…) no olviden cadetes, libertad con igualdad. Defensa de la patria plena”, destacó.

La contaminación informativa

Por Adolfo Pérez Esquivel, no Cubadebate

La vida de los pueblos está sometida a los impactos ambientales, a la contaminación auditiva y visual de la palabra y las ideas, es imponer el monocultivo de las mentes. Los avances tecnológicos se utilizan muchas veces, para el control de los medios de comunicación y así condicionar y manipular a los pueblos. Ningún medio informativo es aséptico, pero deben basarse en la ética y valores al servicio de los pueblos y no servirse de los mismos.

Una de las grandes conquistas de las luchas sociales fue la libertad de prensa, el derecho de informar y ser informado, pero los grandes monopolios económicos, ideológicos y políticos que controlan los medios de información han matado la libertad de prensa y quieren confundirla y reducirla a la libertad de empresa y no son sinónimos.

La contaminación de la palabra y la propaganda mediática han llegado a tal extremo que no permite ver con claridad donde está la veracidad informativa. La ética y búsqueda de la verdad están ausentes y prevalece la distorsión de la realidad. La CNN es el ejemplo de esa contaminación que sufren los pueblos. Su accionar en Iraq es y fue para justificar la guerra, y difundir que ese país poseía armas de destrucción masiva. Algo semejante están armando actualmente contra Irán y otros países; y por otra parte ocultan las masacres y asesinatos de niños y población en Iraq y Afganistán, donde los que dicen defender la “democracia”, se dedican al saqueo del patrimonio del pueblo iraquí, e implantan centros de torturas llevando a esa región destrucción y muerte. Se los acusa de “terrorismo islámico”, cuando los verdaderos terroristas son los torturadores y asesinos que invadieron esos países, violando los derechos humanos y derechos de los pueblos y todas las convenciones internacionales.

Los grandes monopolios informativos de Europa, EEUU y América Latina están en una fuerte campaña internacional para atacar y desprestigiar a gobiernos como el de Hugo Chávez, en Venezuela, acusándolo de tirano y de todos los males; ignorando en sus olvidos intencionados, que Chávez es de los pocos presidentes que se presenta a elecciones y el pueblo lo re-elige, por sus políticas sociales y trabajo en bien de los sectores más postergados.

Otro blanco mediático de esa campaña de desprestigio es el presidente Evo Morales, de Bolivia, quien debe soportar la campaña y acción de los medios concentrados de comunicación, contra un gobierno que ha buscado la integración y vida de los pueblos en un país pluricultural y nacional y ha tocado a los intereses económicos y políticos que siempre dominaron en Bolivia.

Las campañas mediáticas de los grandes monopolios informativos están dirigidas a la contaminación mental que debilite a los gobiernos progresistas. A través del tiempo vemos que lo mismo ocurre con Fidel Castro y el gobierno cubano; 50 años de resistencia y asombro en el mundo sobre los avances y capacidad de su pueblo, sus programas de salud, educación y lucha contra el analfabetismo y la pobreza.

Lo evidente es que Cuba es un pueblo solidario con otros pueblos más necesitados y los hechos hablan por si mismos. Desde hace mucho tiempo, antes del terremoto que asoló a Haití, Cuba envió médicos, educadores, técnicos para apoyar y trabajar solidariamente junto al pueblo haitiano, víctima de la pobreza, marginalidad, violencia social y estructural y de los desastres naturales.

Estados Unidos, como respuesta a las necesidades del pueblo haitiano, envió 20 mil soldados para controlar y someter al pueblo. Pero de esto no se habla, la intencionalidad de las campañas periodísticas es estar al servicio de los intereses económicos y políticos de los poderosos para someter a los pueblos.

Muchas acciones solidarias y hechos positivos son ocultados por los medios informativos. La presidenta Cristina Fernández Kirchner en su viaje a Europa, señaló, la crisis vivida por esos países y sugirió no aceptar la receta del FMI y del BM, advirtiéndoles las graves consecuencias sobre la vida del pueblo argentino y la crisis financiera.

La soberbia de los grandes medios de comunicación europeos se refirieron en forma despectiva y hablan de “esa señora que nos quiere enseñar que debemos hacer”. Sería bueno y saludable que presten atención a los consejos de la presidenta quien solidariamente les ha tendido la mano.

He hecho público y sostengo que la Ley de Medios Audiovisuales sancionada por el Parlamento es necesaria, ya que permite romper el control de los monopolios informativos y generar el pluralismo periodístico, y recuperar la libertad de prensa. La reacción de las corporaciones, como el Grupo Clarín, han desatado una campaña virulenta contra el gobierno acompañada por la voracidad de una oposición sin ideas, que busca únicamente golpear al gobierno y que tienen todos los medios a su disposición, como la pitonisa que anuncia toda clase de catástrofes, sin diferenciar los aportes y avances del gobierno, y señalando solamente sus errores y magnificados. Es preocupante para la vigencia democrática del país.

Con el tema Papel Prensa, empresa monopólica, se hace necesario investigar el accionar de la dictadura militar y a quienes han favorecido. La familia Graiver fue sometida a secuestros, torturas, cárcel y muerte, y le fueron apropiados sus bienes. El gobierno argentino ha iniciado una investigación para determinar responsabilidades. Maniobras similares a Papel Prensa, utilizó la dictadura militar para apropiarse de las empresas y recursos de los hermanos Iaccarino, víctimas de la violencia y la impunidad de esos años.

Al mismo tiempo, el gobierno, y lo he señalado en reiteradas oportunidades, no sabe y no quiere dialogar; es un gobierno de confrontación y agudización de los conflictos, se mueve con mucha soberbia y poco sentido político para resolver los problemas del país, a eso se suma las políticas provinciales de los señores feudales, que hacen lo que quieren y no lo que deben, y están llevando a las provincias a su desintegración, social, cultural, política y económica. Una cosa es el federalismo que comparte la integración y un proyecto de país y otra el feudalismo que lleva la desintegración nacional.

La política neoliberal que impulsa el gobierno no se ha modificado desde el menemismo que tanto daño hizo al país. Por el contrario se ha profundizado porque una cosa son los discursos progresistas y otra la realidad. El problema político y económico del gobierno y la Sociedad Rural Argentina, no son muy diferentes, simplemente la disputa está en quien se queda con la parte mayor de la torta. Basta tener presente que el gobierno no hace nada para frenar los daños ambientales y los agro-tóxicos, ni la explotación de la megaminería con su desastres y daños para la salud de las poblaciones y sus economías regionales y familiares.

Por otra parte debemos tener presente que el gobierno, en sus contradicciones, ha avanzado en diversos campos sociales. Sería importante para el país que las fuerzas progresistas, opositoras al gobierno presenten alternativas al modelo imperante, en lugar de desgañitarse con críticas que no van a ningún lado.

Los desafíos son enormes y se necesita reprensar el país, generar un nuevo contrato social que permita avanzar en la construcción democrática y la vigencia de los derechos humanos en su integridad.

La libertad de prensa permitirá mayor conciencia crítica y el fortalecimiento de valores éticos, sociales, culturales y políticos. Superará la contaminación informativa y así poder repensar el país que queremos.

Buenos Aires, 1º de septiembre del 2010

 

Hijo del Che critica la “desmedida” comercialización de la imagen de su padre

Do Cubadebate

Camilo Guevara, hijo de Ernesto “Che” Guevara, dijo hoy en Montreal que la comercialización “desmedida y desproporcionada” de la imagen del revolucionario argentino está intentando hacer que desaparezca su historia y su ideología.

Camilo Guevara, de 48 años de edad y el hijo varón de mayor edad del “Che”, viajó a Canadá para asistir a la proyección en el Festival de Películas del Mundo de Montreal del documental “‘Che’, un hombre nuevo”, del argentino Tristán Bauer.

Durante una entrevista con Efe, al ser preguntado sobre el riesgo de caer en el culto a la personalidad, Guevara afirmó que “el problema está en la desmedida, desproporcionada forma en que se ha lanzado, que es comercial fundamentalmente”.

“A mi juicio, intentan desaparecer al ‘Che’, a la historia del ‘Che’, dejan la imagen vacía y quieren separarla de la historia del ‘Che’. Eso es útil porque el ‘Che’, lo quieran o no, es un símbolo subversivo, en el mejor sentido de la palabra, un símbolo de resistencia, de lucha contra el dominio”, añadió.

Camilo Guevara se mostró especialmente crítico de la sobreexplotación de la imagen de su padre cuando se desconoce su vida.

“La gente lo tiene en la camiseta y cree que es un rockero o qué sé yo. Pero no sabe quién es realmente. En última instancia se sabe el nombre. Incluso puede decirte dos o tres elementos que supuestamente lo hacen ya un especialista en el ‘Che’”, explicó.

“Pero en realidad no tienen información, no conocen quién es realmente el hombre. Por eso todos estos documentales, esa labor de investigación seria, te descubre a este individuo. Lo que lo hace realmente atractivo es precisamente su interior y eso es lo que queremos mostrar, quién es”, insistió.

Camilo Guevara confesó que la obra de Bauer es, a su juicio, el mejor documental realizado sobre su padre y que “Diarios de motocicleta”, la película del realizador brasileño Walter Salles, la mejor obra de ficción.

Guevara dijo que Salles fue capaz de mantenerse fiel al espíritu de la historia mientras que a la vez disfrutó de libertad creativa.

“Para mí, ese es el éxito de cualquier película histórica. Eso es lo que más me interesa. Cómo tratar la historia con respeto aún cuando tienes la libertad de creación. Lo que yo vi ahí me gustó mucho, como se hace ficción respetando el espíritu de la historia”, señaló.

Guevara, que trabaja para el Centro de Estudios “Che” Guevara de La Habana, dijo que están ahora avanzando en un proyecto para hacer una serie documental sobre su padre.

“Ahora estamos interesados en hacer un documental seriado. Los documentales como el que se exhibe ahora en Montreal tienen la característica que tienen que sintetizar por fuerza”, puntualizó.

“En cambio, un documental seriado te permite abundar en cosas que este tipo de documentales no lo hace. Explorar el ‘Che’ como artista, como fotógrafo, como ajedrecista, como médico”, dijo.

Guevara también reveló que su madre siempre ha sido “muy parca” a la hora de hablar a sus hijos sobre el “Che”, y que él, que perdió a su padre cuando tenía cinco años, ha aprendido mucho a través de sus escritos, familiares y amigos.

“Mi mamá es un poco parca. A veces hay que aprovechar los momentos en que quiere hablar, entonces uno se acerca y escucha un poco las cosas que habla, que dice, cuenta y recuerda”, dijo.

También a través de su hermana mayor, Aleida, que “robó” a su madre para leer la correspondencia que había mantenido con su padre.

Finalmente, sobre su relación con los hermanos Fidel y Raúl Castro, Camilo Guevará dijo que siempre ha sido “muy cálida”.

“Siempre ha habido un lazo afectivo. A mí realmente no me gusta hablar de eso porque se puede malinterpretar. Hay un lazo afectivo importante que trasciende las personas. Y siempre ha sido muy cálido”, agregó.

“Raúl es una gente muy cariñosa, muy de familia. Por lo menos así lo tengo yo presente”, aseguró.

Sobre la salud de Fidel Castro, Camilo lo calificó como un “ave Fénix”.

“Lo ves en los lugares, yendo aquí y yendo allá, poniéndose al día y creo que hasta disfrutando un poco de la posibilidad de salir de ese encierro que tenía obligado y era necesario, pero aún así es un encierro. Y quizás ahora está disfrutando de eso, y es importante”, concluyó.

(Con información de EFE)

 

Chávez denuncia que EE.UU. financia golpe de Estado en Venezuela

Do jornal Granma

CARACAS, 2 de septiembre. — El presidente de Venezuela, Hugo Chávez, acusó este jueves a Estados Unidos de financiar a la oposición de su país para propiciar acciones desestabilizadoras que deriven en un golpe de Estado.

 La planta que inauguró Chávez favorecerá a 30 000 familias con la generación de 150 megavatios. Foto: Prensa Miraflores

“La oposición ha andado desesperada en todos estos años y sigue desesperada inventando, mintiendo, manipulando, no tiene límite de ningún tipo, y ellos estuvieron planificando (…) que a estas alturas de septiembre donde estamos, Venezuela estuviera en un caos, siempre van a estar tratando de generar un caos, para tratar de derrocar al Gobierno”, expresó el jefe de Estado durante la inauguración de la planta Termozulia IV en el estado de Zulia.

Dirigiéndose a su par estadounidense, Barack Obama, el líder de la Revolución Bolivariana le preguntó por qué no usaba los fondos que les da a sus adversarios para que desarrollen su agenda desestabilizadora, en combatir la pobreza y la miseria que cada vez crece más en su propio país.

Durante la inauguración de la planta, el presidente Chávez llamó al pueblo venezolano a respetar las disposiciones del Consejo Nacional Electoral (CNE) y los resultados de las próximas elecciones parlamentarias del 26 de septiembre. (Telesur)

Visita de Vicepresidente cubano reafirma relaciones con China

Do jornal Granma

BEIJING, 2 de septiembre.— El vicepresidente del Consejo de Estado y ministro del Interior de Cuba, Abelardo Colomé Ibarra, concluyó hoy una visita oficial a China, durante la cual se constató el buen estado de las relaciones bilaterales, incluido el reforzamiento de la cooperación.

Esos temas fueron abordados en las conversaciones que el general de cuerpo de ejército, Colomé Ibarra, sostuvo con altas autoridades del Gobierno y Partido Comunista de China (PCCh), como parte de un programa iniciado el pasado día 24 de agosto.

La delegación cubana se entrevistó con el miembro del Comité Permanente del Buró Político del PCCh, Zhou Yongkang; el ministro de Seguridad Estatal, Geng Huichang; y el Consejero de Estado y ministro de Seguridad Pública, Meng Jianzhu, entre otros importantes dirigentes.

En esos encuentros, a los que asistió el embajador Carlos Miguel Pereira Hernández, ambas delegaciones se congratularon por el desarrollo de los vínculos de amistad y cooperación entre ambos países, que el próximo día 28 celebrarán 50 años de relaciones diplomáticas, efeméride en la que se enmarca esta visita.

La parte anfitriona elogió los esfuerzos de la Isla frente a los efectos de la crisis económica internacional y desastres naturales, en tanto reiteró el apoyo a la lucha del pueblo cubano en defensa de su soberanía y abogó por el levantamiento del bloqueo impuesto por Estados Unidos. (PL)

EUA: Emigrantes, drogas e hipocrisia

Editorial do La Jornada, no ODiario.info

Há pouco responsáveis estadunidenses reconheceram a importância do dinheiro da droga na recuperação dos bancos norte-americanos, agora, é o New York Times quem põe em causa a seriedade das leis e se «a prática governamental e empresarial [norte-americanas] não configuram uma gigantesca fraude à comunidade internacional e à própria opinião pública estadunidense».

De acordo com uma análise editorial publicada ontem [30 de Agosto] no New York Times, o recente massacre de 72 emigrantes centro e sul-americanos em Tamaulipas confirma que o governo de Washington delegou nos «senhores das drogas» a execução da sua política de provisão migratória, tal como o fez anteriormente com o fornecimento de estupefacientes, com «os resultados que estão à vista».

Com inusitada crueza, o jornal nova-iorquino escreve que «os cartéis mexicanos são alimentados pelos Estados Unidos com dinheiro vivo, armas pesadas e outras», enquanto o fluxo humano para o norte «é alimentado pela nossa procura de mão-de-obra barata». Nestas circunstâncias, as organizações do narcotráfico – «capitalistas oportunistas» – entraram pelo negócio do tráfico de pessoas: «os imigrantes indocumentados são, em certo sentido, melhores que a cocaína, porque podem ser obrigados a pagar resgate e convertidos em transportadores de droga».

O referido editorial não se inscreve apenas na chamada de atenção sobre a ligação crescente entre o narcotráfico e a utilização de pessoas – ligação que ficou barbaramente evidenciada no massacre de centro e sul-americanos em Tamaulipas – mas que se junta às chamadas de atenção sobre o imobilismo de Washington no combate às drogas.

Inúmeros analistas expressaram dúvidas sobre a seriedade do compromisso do governo estadunidense nesse empenho por ele imposto a outros países, e para fundamentar a suspeita apontam, entre outros factos, a suposta incapacidade do aparelho policial, militar e tecnológico mais poderoso do mundo para detectar e interceptar a imensa maioria dos embarques de estupefacientes ilícitos que, por mar e pelo ar, atravessam a fronteira entre o México e os Estados Unidos. Isto porque as substâncias ilícitas chegam a esse país, são aí distribuídas e comercializadas sem contratempos de maior desde o Rio Bravo até ao Canadá e do Pacífico até ao Atlântico.

A inconsistência entre o discurso oficial de Washington e os seus actos para estancar o tráfico de estupefacientes no seu próprio território é simétrica da incongruência que existe entre as políticas oficiais em matéria de migração, persecutórias e repressivas quer no âmbito federal quer estadual, e a evidente necessidade da economia estadunidense se alimentar com mão-de-obra barata, o que apenas pode fazer com trabalhadores estrangeiros, maioritariamente latino-americanos, que chegam ao país sem os documentos migratórios. Em qualquer dos casos fica evidente uma hipocrisia que, segundo o New York Times chega ao ponto de utilizar os cartéis mexicanos como a válvula de escape que controla o caudal migratório. Se estes exercícios simulatórios forem certos – e todos os elementos de análise apontam para isso – torna-se inevitável perguntar se tão abissais diferenças entre a leis e a prática governamental e empresarial não configuram uma gigantesca fraude à comunidade internacional e à própria opinião pública estadunidense, maioritariamente intoxicada por uma propaganda que apresenta, por um lado, um país imaculado, próspero, sadio e regido pelo direito, e por outro, um conjunto de nações que invadem o território estadunidense com drogas ilícitas e migrantes delinquentes e perigosos.

Em qualquer caso, fica claro que o lugar dos segundos no narcotráfico não é o de protagonistas, mas o de vítimas, e que são as próprias autoridades dos Estados Unidos quem criou essa circunstância, por meio de estratégias falhadas se é que não são mal intencionadas.

A conclusão inevitável desta reflexão é que Washington não tem autoridade moral para ditar, acordar ou sugerir acções em matéria de combate à delinquência organizada e, particularmente, ao tráfico de drogas, e que, se é certo que tais fenómenos, tendo em conta o seu carácter global, devem enfrentados multilateral e concertadamente, as estratégias correspondentes devem ser formuladas em negociações equitativas e respeitadoras das soberanias. Neste ponto as autoridades mexicanas devem abandonar a submissão com que têm actuado e assumir, de uma vez por todas, que os Estados Unidos não podem ser vistos como a fonte de soluções, mas como parte do problema.

Este texto foi publicado no diário mexicano La Jornada de 31 de Agosto de 2004.

Tradução de José Paulo Gascão

Stephen Hawking descarta papel de Deus na criação do Universo

O cientista britânico Stephen Hawking afirma em seu novo livro, ainda inédito, que a física moderna descarta a participação de Deus na origem do Universo e diz que aparentemente o Big Bang foi uma consequência natural das leis da física.

Em The Great Design (“O Grande Projeto”, em tradução livre), que teve trechos publicados nesta quinta-feira pelo jornal britânico The Times, Hawking afirma que “a criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada”.

O cientista cita a descoberta de um planeta orbitando uma estrela que não o Sol, ocorrida em 1992, como algo que faz as condições planetárias terrestres – como a relação entre a massa solar e a distância para o Sol, por exemplo – parecerem provas “muito menos convincentes de que a Terra foi cuidadosamente projetada somente para agradar a nós, seres humanos”.

“Devido à existência de uma lei como a da gravidade, o Universo pode e vai criar a si mesmo do nada”, afirma o físico no livro.

“A criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada, do porquê do universo existir, do porquê de nós existimos”, diz Hawking.

The Great Design foi escrito em parceria com o físico norte-americano Leonard Mlodinow e tem lançamento previsto para o próximo dia 9.

Mudança

Os trechos indicam uma aparente mudança de opinião em relação a uma das obras mais conhecidas de Hawking.

Em seu livro Uma Breve História do Tempo, publicado em 1988, o cientista sugeria que a ideia de uma criação divina seria compatível com uma compreensão científica do Universo.

“Se nós descobrirmos uma teoria completa, será o triunfo definitivo da razão humana – pois então nós deveremos conhecer a mente de Deus”, escreveu então o cientista.

Uma Breve História do Tempo teve mais de 9 milhões de cópias vendidas em todo o mundo.

China às armas

Lee Wong, no Monitor Mercantil

Hilário relatório do Pentágono “revela” segredos de Polichinelo.

O Pentágono dos EUA “acordou” finalmente e constatou aquilo que já é segredo de Polichinelo: a China está destinando gigantescos volumes de recursos para modernizar suas Forças Armadas.

Assim, o Pentágono publicou seu “Relatório Anual sobre as Possibilidades Militares da China”, o qual foi distribuído após um atraso de vários meses. Os dados do relatório foram apresentados ao plenário do Congresso dos EUA pelo secretário da Defesa e ex-araponga da CIA, Robert Gates.

Gates informou aos congressistas que a China está investindo US$ 150 bilhões para fortalecer sua máquina de guerra, a fim de “corresponder à sua crescente força econômica”. A confidencialidade do processo “fortalece o risco de interpretações errôneas e cálculos equivocados, com eventual resultado o choque bélico com outros estados”.

A reação do governo de Beijing contra as constatações “perigológicas” dos EUA foi imediata. O Ministério da Defesa chinês, em lacônico comunicado, disse apenas que “o referido relatório não favorece a melhoria das relações sino-norte-americanas”. Ponto.

O Pentágono adverte que “Beijing continua seu irrefreável crescimento militar, tendo em vista um eventual conflito com Taiwan, apesar da aproximação política e melhoria de relações entre os dois, e avalia que a China mantém assestados cerca de 1.100 mísseis balísticos de curto alcance nos estreitos de Taiwan, número que, segundo o relatório, “permanece inalterado desde ano passado”.

Guerra eletrônica

Em seguida, o Pentágono resolve detalhar e informa que “contudo, o regime comunista de Beijing utiliza cada vez mais mísseis balísticos mais eficazes, incrementando seu alcance e sua precisão, ampliando assim sua esfera de influência e ameaçando a primazia geopolítica dos EUA no oeste do Oceano Pacífico”. Expressa, ainda, a certeza de que o “país asiático desenvolve suas possibilidades balísticas muito além de Taiwan, até a ilha de Guam, onde os EUA mantêm uma poderosa base militar”.

O relatório do Pentágono, lido pelo secretário Gates perante o plenário do Congresso norte-americano, prossegue “revelando” que “o Exército Popular da China já criou unidades especiais de guerra eletrônica, com objetivo de desenvolver vírus de ataques contra os computadores de seus adversários no mundo inteiro. A capacidade de desenvolver ataques amplia-se na estratégia bélica da China para deflagração de guerra assimétrica que explorará as fraquezas de adversários mais poderosos, como são os EUA”.

O calhamaço hilário do Pentágono prossegue com um amontoado de “revelações” típicas de arapongagem e conclui “revelando” que “os gastos militares chineses ano passado superaram o total de US$ 150 bilhões e que, em março deste ano, a China anunciou que pretendia aumentar seu orçamento militar em 7,5%, com mais US$ 75 bilhões, volume de recursos que é um décimo do orçamento de Defesa dos EUA, o qual é o mais alto do mundo”.

Lionel Jospin: “Sarkozy brinca com o fogo”

Há oito anos tento não me envolver em debates com os governantes, porque creio que não é a forma adequada para participar da discussão política. Mas sou frequentemente obrigado a responder aos ataques.

A direita, ao contrário, não parece ter as mesmas reservas. As lideranças atuais do Estado tentaram persistentemente apagar os sucessos de minha governança de 1997 até 2002. Talvez, na realidade, meu governo e eu as cobrimos de sombras?

E talvez temem que os franceses sentem, fortemente, o contraste entre nossa obra, a qual executamos com seriedade e honestidade durante cinco anos, e a ineficácia, a imoralidade e a boçalidade que enfrentam hoje?

O mais recente exemplo encontra-se em um artigo do jornal Le Monde, edição de 20 do mês passado, assinado por deputados que se apoiaram sobre concepções equivocadas do ministro da Indústria, Christian Estrozy, relativas à falta de segurança. Destaco duas das inverdades que assinalei.

A primeira encontra-se na seguinte proposta: “A falta de segurança não é algo gerado pela fantasia dos franceses, como acreditava o governo de Lionel Jospin”. Contudo, meu governo situou a luta contra a falta de segurança na linha de frente de suas prioridades.

Seguramente, não conseguimos impedir o aumento da criminalidade, a qual já havia iniciado antes. Mas seguimos uma coerente política de segurança. Proclamamos que a ordem pública é, inicialmente, responsabilidade do Estado. E ao invés de acusarmos estupida e injustamente os prefeitos, como faz o Sr. Estrozy, os integramos em nossos esforços para a segurança, por intermédio de acordos.

Tentamos levar à Justiça todo e qualquer ato criminal baseado na responsabilidade pessoal deixando, naturalmente, de lado a idéia errada da responsabilidade coletiva, a qual hoje estigmatiza bairros, comunidades ou grupos específicos de franceses.

Mas, também, não fechamos os olhos à prevenção, que buscamos combater com o desenvolvimento de políticas para as cidades. Combatemos o desemprego, restringimos as injustiças e governamos o Estado respeitando os cânones da democracia.

E tudo isso porque sabíamos que a garantia de segurança dos cidadãos depende, também, das condições de vida do povo, os valores que lhe são transferidos e os exemplos que lhe são proporcionados.

Com relação às autoridades do Estado que eram responsáveis pela segurança, nossa meta não era a eclosão de “guerra”, mas a proteção diária dos cidadãos franceses. Inauguramos assim a “polícia do quarteirão”, que hoje atende a todos.

A segunda inverdade localiza-se na proposta: “O governo fortalece os meios na batalha contra a criminalidade”. A verdade é, exatamente, o contrário. Seguramente o presidente e seus ministros não economizam declarações. A maioria votou um calhamaço de textos legais, os quais, por si só, sublinham a ineficácia.

O Poder Executivo sabe que são inconstitucionais e sabe que serão anulados! Na realidade, o governo não aumentou os meios destinados à batalha contra a criminalidade, mas os reduziu.

Em três anos, eliminou 9 mil cargos de policiais e gendarmes (enquanto, durante minha governança, além dos 20 mil responsáveis pela segurança, o número somente de policiais havia aumentado em, pelo menos, 5 mil).

A constatação de hoje é triste e afeta mais o pessoal de segurança, o qual preocupa-se com o que está ocupado. Uma tal redução de pessoal que, indiscutivelmente, recomenda-se por uma ideologia hostil para com o serviço público, é incompreensível, considerando que a segurança não poderá ser garantida quando o número dos policiais e dos gendarmes é reduzido.

O governo não aprendeu a lição pelos conflitos de 2005. Continuou indiferente para com os “bairros difíceis”. Limitou-se a uma estratégia de tensão. No mínimo tenta garantir a tranquilidade pública por intermédio de uma estável presença das forças de segurança nas regiões “sensíveis”, mas, também, favorece as “operações-vassoura” com insignificantes resultados.

A atual política para a batalha a favor da segurança está coroada de fracasso. O aumento dos ataques contra os cidadãos é a prova básica, mas não é a única. As forças da polícia expõem-se cada vez mais, enquanto crescem suas preocupações com o rombo que está se ampliando entre estas e determinadas camadas da população. Na falta então de resultados, as autoridades elevam o tom de suas retóricas adotando muitas vezes expressões extremistas.

Talvez devêssemos acreditar que a meta do governo e de seu tão duvidoso líder é menos a redução de insegurança e mais seu aproveitamento. Será que o presidente se ocultaria atrás do candidato? A esperança de uma vitória eleitoral encontraria seu último refúgio nesta exploração? Se este jogo deveria continuar, seria talvez arriscado para o candidato, mas, seguramente, seria perigoso para o país.

A informação é do Monitor Mercantil

 

Países no Nordeste da Ásia aceleram desenvolvimento cooperativo

A cooperação econômica e o investimento entre países do nordeste da Ásia estão crescendo, disse um alto funcionário de comércio da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) nesta quinta-feira em Changchun, capital da Província de Jilin, nordeste da China.

“O Nordeste da Ásia possui vantagens como a moderna tecnologia, ricos recursos naturais e enormes mercados, o que constitui uma base sólida para a prosperidade comum através da cooperação”, afirmou Koo Bon-Tai, vice-ministro do Comércio da RPDC, na 6ª Expo de Investimento e Comércio do Nordeste da Ásia.

O Nordeste da Ásia desempenha um papel importante na promoção do desenvolvimento, prosperidade e segurança regionais, apontou Xie Zhenhua, vice-ministro da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China.

Ele acrescentou que o desenvolvimento da Iniciativa de Grande Tumen (GIT, sigla em inglês) será um novo ponto de crescimento para a China e o Nordeste da Ásia.

“Todos os projetos de mineração, comunicação e infraestrutura aprovados pelo governo mongol estão relacionados com o desenvolvimento do Nordeste da Ásia”, afirmou Noroviin Altanhuyag, primeiro premiê da Mongólia.

De acordo com Chen Weigen, vice-governador da província, o evento é uma oportunidade para mostrar Changchun, Jilin e o Rio Tumen, e atrair empresas domésticas e estrangeiras para participar do desenvolvimento regional e realizar cooperação na área do Rio Tumen.

A Expo começou quinta-feira em Changchun, que recebeu 50 mil negociantes, inclusive os oriundos de 110 companhias das 500 maiores empresas do mundo.

(xinhua)

A informação é da China Rádio Internacional

 

Federação Sindical Mundial (FSM) faz apelo mundial

7 SETEMBRO 2010 – DIA INTERNACIONAL DE ACÇÃO

3 September 2010

A Federação Sindical Mundial (FSM) faz um apelo ao movimento sindical e às organizações progressistas do mundo para agirem, participarem, e unirem-se a nós no dia 7 de Setembro de 2010, Dia Internacional de Acção.

Em 2009-2010, vivemos uma época de crise mundial do sistema capitalista. Esta crise é profunda e abrange todas as áreas do sistema: A economia, a política, a sociedade, a cultura, o meio ambiente, inclusivé as relações pessoais.  O Fundo Monetário Internacional (FMI) está atacando os países com dívidas e está impondo, juntamente com os governos desses países, graves políticas antilaborais.

A esperança dos trabalhadores encontra-se nas lutas, na participação dos jovens, mulheres, imigrantes e populações nessas lutas. Na Europa, Ásia, América Latina, o povo manifesta-se nas ruas e reivindica.

Hoje em dia, todo o mundo entende que os problemas da crise afectam-nos a todos. A crise está em toda a parte. Por isso a coordenação deve ser generalizada. Coordenação, cooperação – Internacionalismo e solidariedade. Não a cada um pelos seus próprios meios. Sim a todos juntos, em todos os países, todos os trabalhadores, todos desempregados. Todos juntos para lutar com reivindicações actuais para responder às necessidades de hoje.

Reivindicamos para sair da crise:

Que os trabalhadores não paguem a crise.

Que se proíbam os despedimentos.

Que se corte nos gastos em equipamentos militares e esse dinheiro se destine aos desempregados e aos pobres.

Que se adoptem medidas imediatas para perdoar a dívida dos países do terceiro mundo.

Sistemas públicos gratuitos de saúde e educação, alimentos e água para todos.

Investimento público para favorecer a criação de emprego.

Que se satisfaçam as necessidades actuais dos trabalhadores.

Através de pequenas e grandes lutas, a classe operária internacional entenderá que o futuro da humanidade pode melhorar drasticamente através da abolição da exploração do homem pelo homem. Porque o capitalismo não pode corrigir-se!

Unamos nossas forças e vozes nas mobilizações do Dia Internacional de Acção

7 Setembro de 2010

Sindicatos e organizações sociais nos seus respectivos países, regiões e locais de trabalho juntarão suas reivindicações à convocatória da FSM

Desenvolverão actividades em todos os locais de trabalho e sectores profissionais.

A 7 de Setembro cada sindicato decidirá sobre a sua forma de luta.

TODOS OS TRABALHADORES UNIDOS A 7 DE SETEMBRO, DIA INTERNACIONAL DE ACÇÃO

Deturpações pontocom

Rosane Pavam, na revista CartaCapital  

Na internet, Pessoa torna-se Drummond e qualquer um vira Quintana. Foto: Marcelo Sayão/Ag. O Globo

Lúcia Riff é agente literária de alguns dos mais conhecidos escritores brasileiros e dos herdeiros de seus direitos autorais. De Ariano Suassuna a Lygia Fagundes Telles, da família de Mário Quintana à de Carlos Drummond de Andrade, todos têm na profissional aquela que garantirá a arrecadação dos dividendos por sua obra. Mas Lúcia também deve zelar pelo direito, que diz moral, de expandir as palavras um dia impressas por seus escritores. E ela tem tido trabalho adicional ao fazer isso nestes tempos em que o papel deixou de ser o único guardião de frases e versos. Na internet, a obra de um autor pode se transformar ao limite da caricatura. Isto será bom ou ruim?, perguntará o leitor.

Se você aprecia pouco as palavras do diretor de cinema Arnaldo Jabor, por exemplo, há quase duas décadas tornado cronista, contempla com divertimento que um batalhão de autores parodie seus textos na internet, fazendo-se passar por Jabor em punho. O copiador, nesse caso, parece ser um admirador, o que não constitui fenômeno incomum no mercado da arte. A estilista Coco Chanel considerava as cópias infindáveis de seus modelos, nos anos 40, espécies de homenagens. Mas talvez um leitor não diga o mesmo se seu autor de predileção for Mário Quintana (1906-1994). O gaúcho é um dos campeões de apropriações pela rede, talvez por seus argumentos poeticamente assimiláveis, sugerindo, por exemplo, que nossos opositores passarão, enquanto nós, passarinhos. Mas daí a deturpar o que ele diz, reinterpretando suas descobertas estritamente literárias, vai uma distância de decência.

“Outro dia, um compositor me pediu autorização para musicar alguns versos de Quintana”, conta Lúcia Rif-f. “Perguntei de quais livros tirara aquelas palavras e ele me informou que encontrara as referências na internet. Pesquisamos cada uma daquelas linhas. Nenhuma delas pertencia a Quintana. A internet não é fonte segura.” Com Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) ocorreu de o pedido equivocado nem mesmo acontecer. Uma companhia de seguros compôs e imprimiu anúncio em que a assinatura de Drummond e uma foto da estátua de bronze do autor, no Rio, emolduravam um mix de frases de Fernando Pessoa e de autor desconhecido. A família encaminhou a situação a litígio, ainda sem desfecho.

Há quem conheça o conteúdo pleiteado, mas trabalhe a partir de um conceito que não serve aos interesses ditos morais do autor. Lúcia exemplifica a situação ao citar o pedido de uso da obra de Drummond para uma campanha contra o crack. O objeto da peça publicitária era o poema No Meio do Caminho (No meio do caminho tinha uma pedra/ Tinha uma pedra no meio do caminho/ Tinha uma pedra/ No meio do caminho tinha uma pedra, diz seu início), um dos mais importantes da literatura brasileira. A palavra pedra seria associada, no anúncio, à pedra da droga, sugerindo o obstáculo a ser vencido pelo usuário com dependência química. Criatividade tem limites. “Pareceu-me inadequado ligar o poema para todo o sempre ao crack e a família concordou comigo. Quantos entre os que tomaram conhecimento do texto de Drummond ao ler o anúncio não imaginariam que a pedra por ele mencionada seria o crac-k?”, diz Lúcia. Ela sugeriu outras frases do autor para a campanha, já que a família aceitava servir à causa sem cobrar direitos.

Há situações em que as palavras se tornam para sempre deturpadas, sem que o autor possa garantir a sua integridade de reprodução. É o que Lúcia mais teme. “Sempre penso nos livros que estariam sendo produzidos no Brasil se a consulta ao autor não fosse obrigatória”, ela diz, em referência ao texto do anteprojeto da lei de direitos autorais, cuja consulta pública termina dia 31. Segundo o texto atual dessa revisão da lei de 1998, os direitos autorais podem ser suspensos em alguns casos, sem autorização prévia.

Paulo César de Araújo conhece a situação de quem teve as palavras suspensas e posteriormente deturpadas. Ele escreveu Roberto Carlos em Detalhes, a biografia que, lançada em dezembro de 2006, foi vetada de circula-ção pela Justiça, em abril de 2007, por solicitação do compositor. O livro, contudo, tem versões desautorizadas espalhadas pela internet. Segundo disse Paulo César durante uma mesa de debate na Festa Literária de Paraty, há dois anos, vários trechos de seu texto são acessados indiscriminadamente por usuários da rede, lamente Roberto Carlos ou não, com o agravante de conterem deturpações cometidas pelos copistas ilegais.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. As inúmeras restrições que os herdeiros de Cecília Meireles estabelecem para uso de sua obra não precisam ser necessariamente seguidas por todos os autores (os direitos sobre os livros da escritora cessam 70 anos após sua morte, ocorrida em 1964). Constituem minoria aqueles que pensam como a família de Cecília, acredita Lúcia Riff. “Isto porque os escritores começam a se ver contemplados pelo aumento da compra de livros no País e pelo número crescente de bibliotecas. O acesso qualificado às obras, com remuneração do autor, é assegurado até mesmo por ferramentas como a Pasta do Professor”, ela argumenta.

Criada há três anos pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, a Pasta do Professor propõe solução para as cópias ilegais nas instituições de ensino. Universidades como a Estácio de Sá, no Rio, e a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais estabeleceram há cerca de um ano acordo com algumas editoras para que trechos de capítulos destinados a estudo sejam disponibilizados a preços baixos pela Web (de 11 a 80 centavos a cópia da página). O autor é sempre pago nesse caso, o que não ocorria antes, quando só as fabricantes das duplicadoras se viam contempladas com a cópia ilegal. Este é um sinal de que autores, editores e produtores culturais brasileiros buscam adaptar-se à internet. Nos anos 400, São Jerônimo copiava os textos alheios neles introduzindo as próprias interpretações. Tido por plagiário, foi, no entanto, um grande difusor de livros. A Idade Média precisava de copistas. Não havia impressoras. Os autores não viviam de escrever. O direito autoral ainda não era uma conquista.

As discussões sobre o câmbio

Do Luis Nassif Online

Em geral, as discussões sobre o câmbio ocultam os interesses, vantagens e desvantagens por trás de cada proposta.

O câmbio (ou seja, a cotação da moeda local em relação a uma moeda estrangeira) define dois parâmetros importantes na vida de um país:

1. O poder aquisitivo da população em relação aos produtos importados. Quanto mais valorizada está a moeda nacional, maior o poder de compra do cidadão.

2. A competitividade da produção nacional. Quanto mais valorizada a moeda nacional, mais caro será o produto interno em comparação com o estrangeiro. Com isso, haverá mais dificuldades em exportar e menos em importar.

Quando o câmbio se define pelas relações de troca.

Imagine que existam dois países, o país A e o B, apenas comprando e vendendo entre si. Se o país A exportar muito mais que o B, ele receberá mais moedas do B (ou dólares). Com excesso de dólares, ocorre uma apreciação da moeda do país A. Os produtos do país A encarecem, em relação ao do país B, permitindo um reequilíbrio no comércio entre ambos.

Na teoria, esse mecanismo de equilíbrio faz o seguinte:

1. Com o país A vendendo mais, sua moeda se valoriza e melhora o poder aquisitivo de seus habitantes.

2. Por outro lado, com a moeda do país B mais desvalorizada, ele consegue vender mais e recuperar o equilíbrio comercial.

***

Quando entram fluxos financeiros, o jogo se complica. Se as taxas de juros do país A são maiores que as do país B, haverá uma migração de dólares para o A. Com mais dólares entrando, ocorrerá uma valorização da moeda do país A – sem que tenha havido aumento das exportações. Com isso, seus produtos ficam mais caros, afetando o equilíbrio do comércio exterior. Ou seja, a apreciação da moeda não decorre do fato de sua economia ser competitiva (e exportar mais), mas fruto de um movimento especulativo.

***

Os efeitos de uma política cambial são os seguintes:

Quando o real está apreciado, melhora o poder aquisitivo da população. Passa uma sensação de bem estar. Melhora a popularidade dos governantes. Em um primeiro momento, ajuda a turbinar o mercado interno, com melhoria das vendas e do emprego.

Ocorre que esse movimento não é sustentável. Com o tempo, o real apreciado abre espaço para a entrada de produtos estrangeiros. O país fica com mais e mais dificuldades para vender para fora; e passa a sofrer internamente a competição dos importados.

Ou seja, ganha-se um presente à vista; e tem que se pagar um preço mês a mês, na forma de uma redução gradativa do dinamismo da economia.

Como consequência, abre-se um rombo nas contas externas.

***

Quando se desvaloriza o real, há também indicações e contra-indicações. Em um primeiro momento, ocorre uma desvalorização nos salários, no poder aquisitivo. Afeta o dinamismo interno da economia.

Depois, há impacto sobre os preços. Em um primeiro momento, aumentam os preços dos importados. Depois, impacta a cadeia produtiva dos produtos acabados. Finalmente, deflagra um processo nos setores internos para recuperar a margem perdida para os produtos exportáveis (que são beneficiados pela desvalorização), provocando inflação.

O pós-desvalorização – 1

No primeiro tempo, juros altos para segurar a inflação. Apenas no segundo tempo o jogo começa a embalar. Com o real desvalorizado, as empresas exportadoras recuperam o dinamismo e passam a vender mais para o exterior. No mercado interno, os produtos nacionais voltam a ficar competitivos em relação aos importados. Gradativamente a economia volta a embalar e novos empregos são criados e o país cresce de maneira sustentada.

O pós-desvalorização – 2

O problema é a intensidade da desvalorização. Se for intensa, tirará muito do poder aquisitivo do trabalhador e afetará o mercado de consumo interno. Além disso, o desarranjo na estrutura de preços trará alguns meses de dores-de-cabeça até debelar a inflação. Além disso, ainda há mecanismos de indexação que segurarão o resíduo inflacionário por algum tempo. Esse receio acaba emperrando os ajustes.

O pós-desvalorização – 3

O ponto central de insegurança é o arcabouço político brasileiro. Desvalorizações cambiais afetam bastante a popularidade de presidentes. E, desde a queda de Fernando Collor, tem-se um presidencialismo bastante instável, sempre sujeito a campanhas desestabilizadoras da mídia do eixo Rio-São Paulo. O próprio FHC sofreu muito no seu período de governo. Esse quadro intimida os governantes.

O pós-desvalorização – 4

Por isso mesmo, sempre que o quadro externo torna-se insustentável, dificilmente governantes tentam uma transição tranqüila para um novo regime cambial. A crise acaba se impondo, tornando as transições muito mais traumáticas. Foi assim em janeiro de 1999 – seis meses antes sabia-se que a desvalorização seria inevitável. Ou em 2002, com a crise das eleições. E será assim após a eleição de Dilma.

Gasto público em alta puxa PIB

Redução do aperto fiscal permitiu que o país continuasse a crescer no 2º semestre

Criticado pelos que querem limitar o crescimento do Brasil, o aumento dos gastos públicos ajudou a acelerar o Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre. O consumo da administração pública aumentou 2,1% no trimestre, sobre os primeiros três meses do ano, que tinham crescido 0,8% em comparação semelhante.

Foi um sinal inverso ao do consumo das famílias que, embora tenha avançado 0,8%, desacelerou.

“A aceleração no consumo da administração pública é explicada pela época de eleições nas esferas federal e estadual”, disse Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais do IBGE.

A aceleração pré-eleitoral dos gastos públicos pode ser confirmada em períodos anteriores, também de campanha presidencial: em 1998, no primeiro trimestre, o avanço foi de 1,7% e, no segundo, de 2,5%, consolidando a inversão das taxas negativas do ano anterior.

Movimentos parecidos ocorreram em 2002 e 2006. O economista-sênior do BES Investimento, Flávio Serrano, projetava alta de 0,4%. “Em termos anualizados, esses 2,1% representam alta de 8,66%, que é muito forte”, disse.

Para ele, foi o avanço firme das despesas públicas que estimulou o PIB acima do esperado de abril a junho. O resultado da demanda, lembrou, ampliou em detalhes o ritmo forte das despesas públicas, já captado de forma parcial a cada mês pela avaliação das contas públicas pelo Tesouro Nacional.

Para o país continuar crescendo, foi fundamental a redução do superávit primário (desvio de gastos para pagar juros). Em julho, o superávit primário recuou para 2,03% do PIB no acumulado em 12 meses.

A informação é do Monitor Mercantil

 

Cresce o temor por oferta de alimentos

Javier Blas, Courtney Weaver e Simon Mundy, do Financial Times, no jornal Valor Econômico

A Rússia prorrogou ontem por 12 meses sua proibição à exportação de grãos, suscitando o temor de um retorno ao desabastecimento de alimentos e aos distúrbios de 2007-2008, que afetaram países em desenvolvimento que dependem de importações. O anúncio russo ocorre após distúrbios em Moçambique causarem sete mortes. A FAO, agência da ONU para alimentos e agricultura, convocou um encontro de emergência.

O tumulto em Maputo, onde 280 pessoas ficaram feridas, veio após decisão do governo de elevar o preço do pão em 30%. Milhares de pessoas protestaram contra o aumento, queimando pneus e saqueando depósitos de alimentos, e a polícia atirou nos manifestantes.

Apesar de autoridades e traders do setor agrícola insistirem em dizer que o trigo e demais suprimentos agrícolas estão mais abundantes que em 2007 e 2008, as autoridades temem que distúrbios como os de Moçambique se espalhem.

A escassez de estoques de alimentos de 2007 e 2008, a mais grave em 30 anos, deflagrou distúrbios em vários países e ajudou a precipitar a queda de governos.

O comunicado russo estendeu a proibição, anunciada pela primeira vez no mês passado, até o fim de dezembro de 2011. Isso levou os preços do trigo e de outros cereais ao mais alto nível em dois anos.

A FAO disse que “a preocupação quanto a uma possível repetição da crise dos alimentos de 2007-2008″ resultou num “enorme número” de consultas de países-membros. “O propósito de realizar esse encontro é engajar os países exportadores e importadores.”

A Rússia costuma ser o quarta maior exportador mundial de trigo, e a proibição da exportação já obrigou importadores no Oriente Médio e no Norte da África, os maiores compradores, a buscar provisões na Europa e nos EUA.

“Isso é extremamente grave”, disse Abdolreza Abbassian, da FAO, em Roma. “Dois anos seguidos sem exportações russas criam uma enorme perturbação.” Para Dan Manternach, especialista em grãos no Doane Agricultural Services, de St Louis, isso põe em dúvida a confiabilidade na Rússia.

Jakkie Cilliers, diretor do Institute of Security Studies da África do Sul, disse que reina apreensão quanto a uma repetição dos protestos de 2008. “Isso certamente fortaleceu o retorno dos militares à política na África”, afirmou.

Os preços do trigo subiram quase 70% desde janeiro, e analistas preveem mais altas com a decisão russa e o temor de danos climáticos à safra da Austrália.

Inflação, deflação e dívida

Paul Krugman, no jornal O Estado de S. Paulo

Alguns leitores têm feito uma pergunta muito boa: mesmo que a inflação provoque uma redução nas obrigações reais dos devedores, ela também reduz os ativos reais dos credores; assim sendo, por que dizemos que a economia seria beneficiada pela inflação?

Acho que a resposta é mais fácil de compreender se pensarmos no caso inverso: o problema da deflação da dívida. Numa situação como esta, a queda no nível dos preços aumenta o valor real de todas as dívidas – e Irving Fisher ganhou fama defendendo que isso produz um efeito contraditório na economia, possivelmente se transformando num círculo vicioso. Por quê?

A resposta é que, em média, os devedores apresentam maior probabilidade de se verem afetados por desequilíbrios no balanço patrimonial do que os credores. O mergulho nos preços verificado entre 1929-33 fez com que os agricultores dependentes de hipotecas ficassem mais pobres, ao mesmo tempo tornando mais ricas as pessoas que estavam sentadas sobre o dinheiro; mas enquanto os agricultores foram obrigados a cortar gastos para poderem honrar seus pagamentos, os que se viam sentados sobre o dinheiro tiveram meramente a opção de gastar mais – uma opção que muitos recusaram. Ou, nos termos do economês, a propensão marginal para gastar a riqueza é certamente maior entre os devedores do que entre os credores, e assim a redistribuição da riqueza real provocada pela deflação é contraditória. Inversamente, a redistribuição por meio da inflação aumenta a demanda em geral.

E tudo isso, por sua vez, explica por que uma dívida – mesmo uma dívida que devemos coletivamente a nós mesmos – pode ser um grande problema econômico.

Os irmãos bilionários que comandam a guerra contra Obama

Enviado por caia Fittipaldi

Jane Mayer, The New Yorker
http://www.newyorker.com/reporting/2010/08/30/100830fa_fact_mayer?currentPage=all

Dia 17 de maio, um público em black-tie na Metropolitan Opera House aplaudiu um bilionário alto, de ar jovial, que logo subiu ao palco. Acontecia a 17ª noite de gala anual do American Ballet Theatre, e David H. Koch, membro do conselho de curadores da entidade, recebia homenagens pela generosidade; acabava de doar 2,5 milhões de dólares para a próxima temporada da Companhia e, antes, já doara vários outros milhões. Koch recebeu o prêmio ladeado pelos dois co-presidentes da solenidade, Blaine Trump, em vestido rosa-pêssego, e Caroline Kennedy Schlossberg, em verde-esmeralda. A mãe da Kennedy, Jacqueline Kennedy Onassis, foi patronnesse do balé e, por coincidência, proprietária anterior do apartamento, na 5ª Avenida, que Koch comprou em 1995 e vendeu 11 anos depois por 32 mihões de dólares, quando o apartamento começou a parecer-lhe pequeno.

A solenidade de gala foi um marco na ascenção social de Koch, que, aos 70 anos, é um dos mais destacados filântropos da cidade. Em 2008, doou 100 milhões de dólares para modernizar o Teatro do Estado de New York, no Lincoln Center, teatro que hoje leva seu nome. Deu 20 milhões ao Museu de História Natural, e dá nome, hoje, à ala dos dinossauros. Na primavera, depois de dar-se conta do estado de decrepitude das fontes à frente do Metropolitan Museum of Art, Koch prometeu pelo menos 10 milhões para recuperá-las. É curador do museu, talvez o prêmio social mais cobiçado da cidade, e participa também da direção do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, onde, depois de ele ter doado mais de 40 milhões de dólares, uma cátedra e um centro de pesquisas criados e mantidos por ele receberam seu nome.

Um dignitário estava estranhamente ausente da solenidade: a terceira presidenta honorária do evento, Michelle Obama. Seu gabinete informou que havia um conflito de agenda, que a impediria de comparecer. Caso é que, se a Primeira Dama partilhasse o palco com Koch, ter-se-ia ali quadro muito estranho. Em Washington, Koch é mais conhecido como membro da família que tem financiado os mais violentos ataques contra o governo federal, no geral; e contra o governo Obama, no específico.

Com o irmão Charles, 74 anos, David Koch é dono, praticamente, de todas as Indústrias Koch, um conglomerado com sede em Wichita, Kansas, cuja renda anual tem sido estimada em 100 bilhões de dólares. A empresa cresceu espetacularmente depois da morte do pai de Charles e David, Fred, em 1967, quando os irmãos assumiram o controle. Os Kochs operam refinarias de petróleo no Alaska, no Texas, e em Minnesota, e controlam cerca de 4 mil milhas de oleodutos. As Koch Industries são proprietárias da Brawny, fábrica de toalhas de papel; da Dixie cups, da Georgia-Pacific, serrarias; dos carpetes Stainmaster, da Lycra e de muitas outras empresas e fábricas. A revista Forbes classificou o grupo Koch como a segunda maior empresa privada do país, depois da Cargill; e a rentabilidade consistente do grupo fez de David e Charles Koch – os quais, há anos, compraram as partes de outros dois irmãos – dois dos homens mais ricos dos EUA. Combinadas as fortunas dos dois irmãos, só ficam abaixo das de Bill Gates e Warren Buffett.

Os Kochs militam há muito tempo entre os empresários da direita norte-americana que pregam impostos absolutamente mínimos, sejam sobre pessoas físicas ou jurídicas; serviço social e assistência aos mais pobres também mínimos; e ainda mais mínima fiscalização sobre as indústrias, sobretudo no que tenha a ver com prevenção de danos ao meio ambiente.

São ideias que combinam perfeitamente com os interesses corporativos dos irmãos. Em estudo distribuído há alguns meses, o Instituto de Pesquisa Política e Econômica da University de Massachusetts em Amherst classificou as Indústrias Koch entre as dez que mais poluem nos EUA. Para o grupo Greenpeace, em relatório recente, a companhia é “campeã da negação de todos os saberes da ciência climática”. O relatório mostrou que, de 2005 a 2008, os Kochs ultrapassaram em muito a ExxonMobil na quantidade de dinheiro doado a ONGs[1] que combatem a legislação relativa a mudanças climáticas, patrocinando vasta rede de fundações, centros de pesquisa, institutos, think tanks[2] e grupos de ativismo.

De fato, os irmãos patrocinaram campanhas de oposição a tantas políticas do governo Obama – da reforma da saúde ao programa de estímulo econômico – que, nos círculos políticos, essa rede ideológica é chamada de “o Kochtopus” [trocadilho intraduzível com octopus, “polvo”].

Em declaração, as Koch Industries disseram que o relatório do Greenpeace “distorce o trabalho ambiental de nossas empresas”. E David Koch, no mais recente artigo elogioso sobre ele publicado em New York, protestou que “a imprensa radical” convertera sua família em “meninos para surrar” e exagerava sua influência na política dos EUA. Mas para Charles Lewis, fundador do Center for Public Integrity, entidade não partidária de vigilância ética, “Os Kochs estão em outro nível. Ninguém gasta tanto dinheiro quanto eles. Essa amplíssima liderança é que os mantêm a parte.

Não respeitam lei alguma, praticam todos os tipos de manipulação política e práticas para burlar os controles públicos. Vivo em Washington desde o caso Watergate, e jamais vi coisa semelhante. Os Kochs são a Standard Oil dos nossos tempos.”

Poucas semanas depois da solenidade de gala no Lincoln Center, o braço militante da Fundação Norte-americanos pela Prosperidade [ing. Americans for Prosperity Foundation] – ONG iniciada por David Koch em 2004 – promoveu reunião bem diferente. No fim de semana do 4 de Julho, houve um congresso que recebeu o nome de “O Texas, na Defesa do Sonho Americano” [ing. Texas Defending the American Dream] num salão de festas em Austin. Apesar de Koch promover livre e pessoalmente suas aventuras filantrópicas, não compareceu àquele congresso, nem se falou dele. Nessa ocasião, os presentes não assistiram a discursos sobre arte e balé. À tribuna subiram, exclusivamente, oradores empenhados em denunciar malfeitos do presidente Barack Obama. Peggy Venable, organizadora do congresso, alertou os presentes contra “a visão socialista do atual governo, sobre nosso país”.

500 pessoas participaram do congresso, que foi, em boa parte, sessão de treinamento para ativistas do Movimento “Tea Party” no Texas. Cartaz de convocação apresentava o congresso como levante popular contra o poder das corporações. “Hoje, as vozes dos americanos comuns são caladas por lobbyistas e por interesses especiais”, lia-se nos cartazes. “Mas você pode reagir”. Nem uma palavra sobre os interesses corporativos que financiavam o congresso. A Casa Branca lamentou que os reais patrocinadores do evento não tivessem aparecido. David Axelrod, principal conselheiro de Obama, comentou: “O que eles não dizem é que o que parece ser movimento de base é orquestrado por um bando de bilionários do petróleo.”

Em abril de 2009, Melissa Cohlmia, uma das porta-vozes da companhia, negou que os Kochs tenham qualquer ligação direta com o Movimento Tea Party. Para ela, Americans for Prosperity é “organização independente, e o grupo Koch de modo algum dirige suas atividades”. Mais tarde, divulgou uma declaração: “Nenhum tipo de ajuda financeira foi encaminhada pelas empresas Koch, pelas fundações Koch, nem pessoalmente por Charles Koch ou David Koch, como apoio a festas de chá[3]”. E David Koch disse ao New York: “Jamais participei de eventos de festas de chá. Nenhum representante de festa do chá jamais se aproximou de mim”.

Mas em Austin, Venable – experiente ‘marketeira política’, hoje a serviço da Fundação Americans for Prosperity, e que desde 1994 trabalha para grupos políticos financiados pelos Koch – falou menos enigmaticamente.

“Adoramos o que as Tea Parties estão fazendo, porque é desse modo que reconquistaremos os EUA para nós!” – disse ela, para o público que aplaudia, frenético. Em entrevista posterior, descreveu-se, ela mesma, como membro do movimento desde o nascimento, rindo: “Eu já militava no Tea Party antes de o movimento virar moda!” Esclareceu que a Fundação Americans for Prosperity apenas ajudara no trabalho de “educar” os ativistas do Movimento Tea Party sobre alguns aspectos políticos; para ensiná-los a dar os passos seguintes, depois das grandes manifestações de rua, de modo a que a energia política dos ativistas fosse canalizada “com mais eficácia”. E observou que a Fundação Americans for Prosperity fornecera aos ativistas do Movimento Tea Party listas de nomes selecionados de políticos a serem focados. Quanto aos Kochs, disse que “Claro que estão conosco. David é presidente da Fundação. Claro que já nos encontramos e considero excelente o trabalho que desenvolvem”.

Venable homenageou vários “líderes cidadãos” do Movimento Tea Party, no Congresso. O ramo texano da Fundação Americans for Prosperity entregou o prêmio de “Blogueiro do Ano” a uma jovem senhora, de nome Sibyl West.

Dia 14 de junho, em seu Blog, West descreveu o presidente Obama como “Cheirador-de-cocaína em-chefe” [ing. cokehead in chief]. Em discussão online, West comentou que o presidente já estaria apresentando sintomas de “possessão demoníaca, também chamada esquizofrenia etc.”.  No congresso, falaram vários palestrantes pagos, entre os quais Janine Turner, mais conhecida como atriz do seriado de TV Northern Exposure” Disse ela: “Eles querem que nossas crianças ignorem os direitos que têm. Querem que nossas crianças ignorem a existência de Deus!”

Em almoço servido no local do encontro, Venable apresentou Ted Cruz, ex-procurador geral do Texas, que disse à multidão que Obama “é o presidente mais radical que jamais ocupou o Salão Oval” e que ocultara dos eleitores sua agenda secreta – “o governo está controlando completamente nossa economia e nossa vida.” A luta contra Obama, disse Cruz, “é a luta épica de nossa geração!” Foi aplaudido de pé. E, sob aplausos, repetiu o brado de desafio de um texano, no Alamo: “Vitória, ou morte!”

A associação Americans for Prosperity sempre trabalhou ao lado do Movimento Tea Party, desde o início do movimento. Nas semanas anteriores ao primeiro Dia de Protesto contra os Impostos, em abril de 2009, a associação Americans for Prosperity já hospedava uma página de internet com “Pontos-chave do Movimento Tea Party”. O ramo do Arizona conclamava o povo a enviar saquinhos de chá para Obama; no Missouri, os Americans for Prosperity convidavam seus membros a alistar-se no “Cadastro de Contribuintes do [movimento] Tea Party” e indicavam hora e local de nove manifestações de rua. O grupo continua a pregar a insurgência.

O ramo da Carolina do Norte criou há pouco tempo uma página na internet, Tea Party Finder, anunciada como “um portal de todas as ‘Festas do Chá’ na Carolina do Norte.”

O fervor anti-Obama que está contaminando as eleições de 2010 são importante triunfo político para os irmãos Kochs. Ao garantir dinheiro para “educar”, financiar e organizar os cidadãos que se reúnem nas manifestações do Movimento Tea Party, os Koch contribuíram decisivamente para converter o que era agenda privada dos dois, em movimento de massas.
Bruce Bartlett, economista e historiador conservador, ex-funcionário do National Center for Policy Analysis, think-tank sediado em Dallas e mantido pelos irmãos Kochs, disse que “O problema desses movimentos de cidadãos contra o governo é que sempre há muitos caciques e poucos índios. Nesse movimento [Tea Party] não havia pessoas ‘reais’, eram poucos os eleitores.

Os Kochs estão trabalhando para criar, de fato, um movimento.” Com o Movimento Tea Party nas ruas, diz Bartlett, “as pessoas, de repente, viram que há muitos índios por aí – gente que, reunida, pode garantir poder ideológico efetivo aos caciques”. Os Kochs, disse ele, estão “trabalhando para modelar, controlar e dirigir uma manifestação popular limitada, de modo que passem a manifestar e divulgar a agenda pessoal privada dos dois, já convertida em ‘grande movimento popular’.”

Um consultor de campanha do Partido Republicano, que fez trabalhos de pesquisa para Charles e David Koch, disse, falando sobre o Movimento Tea Party, que “os irmãos Koch forneceram todo o dinheiro necessário para financiar o movimento, desde o início. Foi como se estivessem semeando. Depois veio a tempestade, e os sapos começaram a brotar no brejo – agora, lá estão. São os nossos candidatos!”

Os Kochs e seus operadores políticos não dão entrevistas. Em lugar deles, um importante executivo de empresa de Relações Públicas muito próximo dos Kochs oferece dois amigos: George Pataki, ex-governador de New York, e Mortimer Zuckerman, magnata do mercado imobiliário e da publicidade. Pataki, Republicano cuja campanha recebeu contribuições de David Koch, descreve-o como “um patriota profundamente preocupado com o destino dos EUA.” Para Zuckerman, o que mais chama a atenção é a “decência gentil” de David, e o amplo escopo de seus “interesses públicos”.

Para o consultor de campanha do Partido Republicano, comentando as atividades políticas da família, “Dizer que vivem abaixo do radar, é pouco. Eles são subterrâneos!” Outro ex-conselheiro dos Koch diz que “eles são espertos. Essa coisa de extrema direita, de veias explodindo, trabalha a favor deles. Eles veem esse movimento como um modo de fazer o serviço sujo, sem que eles próprios se sujem.” Rob Stein, estrategista político do Partido Democrata, que estudou as finanças do movimento conservador, disse que os Kochs estão “no epicentro do movimento anti-Obama. Teriam feito o mesmo, se lá estivesse Hillary Clinton. Fizeram o mesmo com with Bill Clinton. Estão em campo para destruir qualquer ideia progressista.”

Por estranho que pareça, essa tão ferozmente capitalista família Koch deve parte de sua fortuna a Joseph Stalin.

Fred Koch – pai dos irmãos Koch – era filho de um tipógrafo holandês que se instalou no Texas, onde comandou um jornal semanal. Fred estudou no MIT, onde se diplomou em engenharia química. Em 1927, inventou um processo mais eficiente para converter petróleo em gasolina, mas, reza o folclore familiar, foi visto como ameaça pelas gigantes do petróleo, que levaram sua indústria à ruína. Sem conseguir sucesso em sua terra, Koch encontrou na União Soviética quem se interessasse por sua invenção. Nos anos 1930s, sua empresa treinou engenheiros bolcheviques e ajudou Stalin a construir e por em funcionamento 15 modernas refinarias. Com o tempo, vários dos colegas soviéticos de Koch acabaram colhidos nos expurgos de Stálin. Koch jamais esqueceu a experiência, e lamentou aqueles contatos.

Voltou aos EUA. Sempre guardou, na sala de trabalho de sua empresa – Rock Island Oil & Refining, Wichita – fotos que provavam que aquelas refinarias soviéticas foram destruídas na II Guerra Mundial. Gus di Zerega, ex-amigo de Charles Koch, relembra que “à medida que os soviéticos foram-se tornando potência militar, Fred manifestava cada vez mais um certo sentimento de culpa por tê-los ajudado tanto. Acho que essa lembrança sempre o perturbou muito.”

Em 1958, Fred Koch tornou-se um dos membros fundadores da John Birch Society – grupo ultraconservador, conhecido, dentre outras ideias, pelo ceticismo com que encaram qualquer governo e por disseminar medos de uma invasão comunista aos EUA. Para os membros daquele grupo, o presidente Dwight D. Eisenhower seria agente do comunismo internacional.

Em manifesto que escreveu e publicou, Koch dizia que “os comunistas já estão infiltrados nos dois partidos, Democratas e Republicanos”. Escreveu elogios a Benito Mussolini, quando tornou proscritos os comunistas na Itália, tanto quanto atacou o movimento norte-americano pelos direitos civis. “Os homens de cor são parte do grande plano dos comunistas para dominar a América”, alertava. Os direitos sociais, para ele, seriam plano secreto para atrair para as grandes cidades os negros que viviam no interior, para as quais trariam “uma perigosa disputa racial”. Em discurso em 1963, no qual já se veem as primeiras linhas do que diz hoje o Movimento das Tea Parties, sobre um plano socialista secreto, Koch previa que os comunistas “infiltrar-se-ão em todos os gabinetes do governo dos EUA, até porem um comunista na Casa Branca, que nenhum de nós conhecerá.”

Koch casou-se com  Mary Robinson, filha de um médico do Missouri, e tiveram quatro filhos: Freddie, Charles e os gêmeos David e William. John Damgard, presidente da Futures Industry Association, colega de escola e amigo de David, lembra que Fred Koch era “um verdadeiro John Wayne”.

Koch pregava educação ‘dura’, levando os filhos e amigos para caçar na África e exigindo que trabalhassem no rancho da família. Os Kochs viviam numa mansão de pedra num enorme complexo à frente do Country Club de Wichita; no verão, os rapazes ouviam os amigos saltar na piscina próxima, mas não podiam juntar-se a eles. “Ao instilar em mim uma ética do trabalho desde muito cedo, meu pai fez-me um grande favor, embora nada se parecesse com favor, conforme eu via as coisas, naquele tempo”, escreveu Charles. “Quando eu tinha oito anos, meu pai cuidava para que eu praticamente não tivesse uma hora de ócio.” David Koch relembra que seu pai também fazia pregação política em família. “Falava constantemente às crianças sobre tudo que o governo faz de errado”, contou a Brian Doherty, editor da revista anti-Estado Reason, e autor de Capitalistas Radicais, história do movimento liberal contra o Estado nos EUA, editado em 2007.

“São ideias com as quais cresci. – O ponto de vista mais fundamental é a ideia de que quanto maiores são Estado e governo, pior para todos. Nada pode advir de bom, da imposição de controles governamentais e estatais sobre nossa vida e nossas fortunas.”

David estudou na Deerfield Academy, em Massachusetts; Charles foi mandado para uma escola militar. Charles, David e William formaram-se em engenharia, como o pai, no seu templo sagrado, o MIT; imediatamente depois de formados passaram a trabalhar nas empresas da família. Charles chegou à presidência, com David como seu braço direito; William teve carreira menos bem sucedida na companhia. Freddie foi para Harvard e estudou dramaturgia na Yale School of Drama. O pai sempre desaprovou essas escolhas e puniu-o financeiramente. (Por um porta-voz, Freddie desmentiu essa informação.)

Em 1967, depois da morte de Fred Koch, de ataque cardíaco, Charles trocou o nome da companhia para Koch Industries, homenagem ao pai. O testamento de Fred Koch faria dos filhos homens extremamente ricos. David Koch fez piada com sua boa sorte, em discurso, em 2003, para alunos de Deerfield, onde, depois de doar 25 milhões de dólares, foi declarado único “doador honorário” de toda a história da escola. Disse ele: “Vocês talvez se perguntem ‘como David Koch arranjou dinheiro para ser tão generoso?’.

Deixem-me contar-lhes uma história. Eu era bem pequeno. Um dia, meu pai deu-me uma maçã. Eu vendi a maçã por cinco dólares e comprei duas maçãs e vendia-as por dez. Depois, comprei quatro, e vendi-as por vinte. E assim fui indo, dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, até que meu pai morreu e deixou-me 300 milhões de dólares de herança.”
David e Charles absorveram a política conservadora do pai, mas não concordam com tudo, segundo di Zerega, que foi amigo de Charles em meados da década dos 60s, quando o conheceu entre as prateleiras de uma livraria da John Birch Society em Wichita. Charles convidou-o a visitar a mansão dos Kochs, para participar de uma discussão política informal. “Era absolutamente evidente que, para Charles, boa parte daquela conversa da Birch Society não passava de bobagens” – relembra diZerega.

DiZerega, que depois perdeu contato com Charles, separou-se daqueles grupos de direita e tornou-se professor de ciências sociais. Credita a Charles ter ampliado seus pontos de vista no campo da filosofia política, o que acabou por encaminhá-lo para a universidade; seu primeiro livro foi dedicado a três pessoas, uma das quais, Charles Koch. But diZerega crê que os irmãos Koch seguiram trajetória intelectual oposta à sua, convertendo a paranóia do pai, sobre o comunismo soviético, em absoluta desconfiança contra o governo dos EUA, e vendo o crescimento do Estado, a começar pelo New Deal, como ameaça tirânica à liberdade. Em ensaio postado em Beliefnet, diZerega escreveu: “Quando o socialismo de Estado fracassou (…) o alvo de muitos naquelas ONGs passou a ser qualquer tipo de regra ou lei. O ‘socialismo’ continuou a ser definido como ameaça.”

Membros da John Birch Society passaram a interessar-se por uma escola austríaca de economia que promovia ideias do livre-mercado. Charles e David Koch foram particularmente influenciados pelo trabalho de Friedrich von Hayek, autor de The Road to Serfdom (1944, O caminho da servidão)[4], para o qual o planejamento governamental centralizado sempre levaria inexoravelmente ao totalitarismo. (…)

Charles e David também se tornaram devotados seguidores de outro pensador liberal ainda mais radical, Robert LeFevre, que pregava a abolição do Estado, mas não aceitava o rótulo de “anarquista”; autodesignava-se “autarquista”. LeFevre gostava de dizer que “governo é uma doença mascarada de remédio.” Em 1956, criou uma instituição denominada The Freedom School, em Colorado Springs. Brian Doherty, da revista Reason, disse-me que “LeFevre foi um anarquista que conquistou o coração de Charles”, e que aquela escola foi “um mundinho de pessoas para as quais o New Deal foi erro horrível”. Segundo diZerega, Charles apoiou financeiramente a escola e deu-lhe dinheiro para que pudesse fazer cursos lá.

Durante os anos 70s, Charles e David continuaram a construir as Indústrias Koch. Em 1980, William, auxiliado por Freddie, tentou arrancar de Charles o controle da empresa, entendendo que o irmão assumira um tipo de comando autocrático. Como ato de retaliação, a diretoria, que agia sob o comando de Charles, demitiu William. (“Charles comanda tudo com mão de ferro”, disse-me Bruce Bartlett, o economista.) Correram vários processos, com William e Freddie de um lado, e Charles e David no campo oposto. Em 1983, Charles e David compraram as partes dos irmãos na empresa, por algo próximo de um bilhão de dólares. Mas o antagonismo permaneceu, e os processos continuaram ainda por mais 17 anos; todos os irmãos tinham seus próprios investigadores privados; em 1990, cruzaram-se todos, sem se cumprimentarem, nos funerais da mãe. Afinal, Freddie mudou-se para Monaco, onde não há imposto sobre a renda. Comprou propriedades históricas na França, Áustria e em vários outros locais, recheando-as com antiguidades, obras de arte, partituras originais de óperas e manuscritos de obras literárias. William criou sua própria empresa de energia, a Oxbow, e dedicou-se a competições náuticas; gastou cerca de 65 milhões de dólares para vencer a America’s Cup, em 1992.

Sob o comando de Charles, e sem qualquer oposição interna, as Koch Industries expandiram-se rapidamente. Roger Altman, presidente do banco Evercore de Investimentos, contou-me que o desempenho da companhia foi “muito além de fenomenal”. Charles permaneceu em Wichita, com a esposa e dois filhos, zeloso da privacidade da família, ao mesmo tempo em que se dedicava a apoiar ações de caridade na comunidade. David mudou-se para New York City, onde é vice-presidente executivo da companhia e presidente de seu Chemical Technology Group. Especialista em finanças que conhece bem as Koch Industries, disse-me que “Charles é a companhia. Dirige tudo.”

David, descrito pelos associados como “afável” e “meio desajeitado”, viveu boa vida de solteiro rico por vários anos. Alugou um iate no sul da França e comprou uma casa de frente para o mar em Southampton, onde ofereceu festas que a página New York Social Diary descreveu como “versão, na costa Leste, das noitadas de Hugh Hefner.” Em 1996, casou-se com Julia Flesher, assistente de moda. Vivem em um duplex de 9 mil pés quadrados no número 740 da Park Avenue, com os três filhos. Apesar de David ter hábitos mais cosmopolitas que Charles, Brian Doherty, que entrevistou os dois irmãos, não conseguiu achar um único tema sobre o qual os dois irmãos tenham algum dia discordado.

À medida que suas fortunas aumentavam, Charles e David Koch passaram a financiar movimentos políticos radicais contra o Estado/governo. O objetivo de Charles, como Doherty descreveu-o, era arrancar o governo “pela raiz”. O primeiro grande passo público dos irmãos aconteceu em 1979, quando Charles convenceu David, então com 39 anos, a concorrer nas eleições. Passaram a apoiar o Libertarian Party, e apoiaram a candidatura presidencial de Ed Clark, que competia contra Ronald Reagan, candidato da direita. Frustrados com os limites legais para doações de campanha, os irmãos arquitetaram um plano para por David em melhor lugar na lista eleitoral: como candidato a vice-presidente, ele poderia gastar o quanto quisesse, de sua fortuna pessoal, na campanha. O mote de propaganda foi “O Libertarian Party tem uma única fonte de recursos: Você.” De fato, a única fonte de recursos, ou, pelo menos, a maior, destacadamente, era David Koch, que gastou naquela campanha mais de dois milhões de dólares.

Muitas das ideias divulgadas na campanha eleitoral de 1980 antecipavam o Movimento Tea Party de hoje. Ed Clark disse ao jornal The Nation que os libertarians” se preparavam para montar “uma ‘tea party’ realmente muito grande”, porque estavam “doentes, de morrer” por causa dos impostos. O Libertarian Party pregava a extinção do FBI e da CIA, e de todas as agências federais reguladoras, como a Comissão de Seguridade e Câmbio e o Departamento de Energia; pregava também o fim da Seguridade Social, das leis de salário mínino, de todo o controle sobre compra e porte de armas e de todos os impostos sobre lucros e rendas, pessoais e de corporações e empresas; propunha ainda a legalização da prostituição, de drogas recreacionais e do suicídio. Restaria ao Estado/governo uma única função: proteger os direitos individuais dos cidadãos. William F. Buckley, Jr., conservador mais à moda tradicional, chamava o movimento de “anarco-totalitarismo”.

Nas eleições daquele novembro, os Libertarian receberam apenas 1% dos votos. Os irmãos perceberam que o seu projeto político não seduzira os eleitores. Charles Koch passou a debochar abertamente da política e dos políticos convencionais. “Política é negócio repugnante. Todos os políticos são corruptos”, disse a um jornalista, naquela época. “Estou interessado em promover ideias liberais radicais.” Segundo o livro de Doherty, os irmãos Kochs já definiam os políticos eleitos como “atores que recitam discursos decorados”. Um dos mais antigos crentes da religião liberal radical dos Kochs disse a Doherty que os irmãos, nessa mesma metáfora, queriam ser “o autor que define os personagens e escreve as falas.” Para mudar o curso da história dos EUA, tinham de “agir e influenciar as áreas que produzem as ideias políticas que circulam entre os cidadãos: a universidade e os think tanks.”

Depois das eleições de 1980, Charles e David Koch desapareceram da arena pública. Mas fizeram jorrar mais de cem milhões de dólares em dúzias de ONGs, aparentemente independentes. Registros da Receita Federal dos EUA mostram que, em 2008, as três principais fundações mantidas pela família Koch doaram dinheiro a 34 ONGs políticas e de militantes, três das quais fundadas por membros da família e várias das quais dirigidas por eles. Os Kochs e suas empresas, além disso, também doaram outros vários milhões a campanhas políticas, ONGs de militantes e grupos de lobby. Essa gigantesca onda subterrânea de dinheiro acordou suspeitas na esquerda; Lee Fang, do Blog ThinkProgress, escreveu que os Kochs “são os bilionários que estão por trás da atual onda de racismo e ódio que se alastra pelos EUA”.

Mas só os Kochs sabem precisamente quanto gastaram em ONGs de vários tipos. Registros oficiais do fisco nos EUA mostram que, entre 1998 e 2008, a Charles G. Koch Charitable Foundation gastou mais de 48 milhões de dólares. A Claude R. Lambe Charitable Foundation, controlada por Charles Koch e a esposa, com mais dois empregados da companhia e um contador, gastou mais de 28 milhões. A David H. Koch Charitable Foundation gastou mais de 120 milhões. Ao mesmo tempo, desde 1998 as Koch Industries já gastaram mais de 50 milhões em atividades de lobbying. Separadamente, o comitê de ação política da companhia (KochPAC) doou cerca de oito milhões de dólares a campanhas políticas, mais de 80% dos quais para o Partido Republicano. Até agora, em 2010, as Koch Industries lideram o grupo das contribuições de empresas de energia para candidatos e partidos – exatamente como em todas as eleições, desde 2006. Além disso, nos últimos 12 anos, os irmãos Koch e outros membros da família já gastaram, pessoalmente, mais de dois milhões de dólares em contribuições para campanhas políticas. No segundo trimestre de 2010, David Koch era o maior doador individual para a Associação dos Governadores Republicanos – um milhão de dólares doados. Mas muitos outros presentes que os Kochs distribuem absolutamente não deixam qualquer rastro; as leis que regulam impostos federais nos EUA permitem doações pessoais anônimas a ONGs, grupos e entidades grupos de ação política sem fins lucrativos.

Nas últimas décadas, membros de várias dinastias de industriais consumiram parcelas de seus milhões para promover uma agenda conservadora. Nos anos 1980, a famíla Olin, dona de um conglomerado de químicos e manufaturas, tornou-se conhecida por estar financiando uma onda de pensadores de direita nas universidades, sobretudo nas Faculdades de Direito. Nos anos 1990, Richard Mellon Scaife, descendente de Andrew Mellon, consumiu milhões em tentativas para desacreditar o presidente Bill Clinton. Ari Rabin-Havt, vice-presidente da página Media Matters, de tendência pró-Democratas, comentou que o esforço dos Kochs não é como outros que se têm visto, na quantidade de fundos pessoais e das empresas que estão sendo consumidos: “O que estão fazendo, em termos de dinheiro usado para dirigir a opinião pública nos EUA, é chocante”.

Claro que os Democratas também gastam dinheiro. O principal financiador de Democratas, George Soros, dirige uma Fundação, o Open Society Institute, que já gastou cerca de cem milhões de dólares nos EUA, em um ano. Soros também tem feito generosas contribuições privadas às campanhas de vários candidatos Democratas, inclusive para a campanha de Obama. Mas Michael Vachon, seu porta-voz, diz que tudo o que Soros faz e doa é transparente, e que “nenhuma de suas contribuições visa a atender interesses privados de seus próprios negócios.” Os Kochs têm dado milhões de dólares a ONGs, organizações sem finalidades lucrativas que criticam as regulações de preservação do meio ambiente e apoiam redução de impostos para a indústria. Gus diZerega, o ex-amigo, sugeriu que o idealismo dos Kochs dos tempos da juventude, a favor das causas do liberalismo radical dos Libertarian norte-americanos, já rendeu importantes dividendos, em termos de autofavorecimento dos interesses das empresas. Sobre Charles, diz que “pode estar confundindo ‘fazer dinheiro’ e ‘fazer a cabeça’ dos eleitores.”

Críticos sugeriram que a abordagem dos Kochs subverteu o objetivo da isenção de impostos. Por lei, fundações de caridade só devem promover atividades não partidárias que promovam o bem-estar de toda a sociedade. Relatório de 2004, divulgado pela Comissão Nacional de Filantropia Responsável [ing. National Committee for Responsive Philanthropy], grupo que fiscaliza associações que se apresentam como filantrópicas, concluía que “Essas fundações dão dinheiro a ONGs sem finalidades de lucro que pesquisam e trabalham a favor de causa que têm efeito sobre a margem de lucros das Koch Industries.”

Mas os Kochs já foram bem além do autointeresse imediato, financiando ONGs cujo objetivo declarado é dirigir o país na direção não de mais lucros para as empresas Koch, mas na direção da causa ‘antigoverno’ e ‘anti-Estado’ em que a família milita. Dentre as ONGs que os Koch mantêm está o Institute for Justice, cujo objetivo é impetrar ações contra o Estado e as leis federais; o Institute for Humane Studies, que diploma professores universitários defensores do ‘libertarianismo’ à moda Koch; e o Bill of Rights Institute, que produz e promove interpretações conservadoras da Constituição. Muitas das ONGs fundadas pelos Kochs empregam especialistas que escrevem e publicam ensaios de divulgação das ideias dos Koch, que imediatamente depois de publicadas passam a ser citados por políticos e jornalistas. David Koch já reconheceu que a família exerce pesado controle ideológico sobre tudo. “Se distribuímos essa enorme quantidade de dinheiro, temos de ter absoluta certeza de que o dinheiro seja gasto de modo que se acrescente aos nossos objetivos”, disse a Doherty. “E se um ou outro grupo erra o passo e começa a fazer coisas com as quais não concordamos, retiramos o financiamento.”

O fato de os Kochs subsidiarem um movimento fortemente pró-corporações, atende, em vários sentidos, o projeto exposto em menorando secreto, de 1971, que Lewis Powell, então advogado na Virginia, escreveu dois meses antes de ser indicado para a Suprema Corte. O movimento antiguerra havia voltado suas baterias contra empresas que estavam sendo contratados pelo Departamento de Defesa – dentre outras, a Dow Chemical – e Ralph Nader liderava uma cruzada nacional em defesa do interesse público e contra as corporações. Powell, em relatório a ser apresentado à Câmara de Comércio dos EUA, exigia que as empresas norte-americanas reagissem e respondessem. A grande ameaça que persiste contra a livre-empresa, Powell escreveu, não é o Comunismo nem é a Nova Esquerda, mas, sim “elementos respeitáveis da sociedade” – intelectuais, jornalistas e cientistas. Para derrotá-los, escreveu ele, os líderes das corporações têm de gerar campanha unificada, de longo prazo, para mudar a opinião pública.

Charles Koch parece ter abordado os dois campos, tanto os negócios quanto a política, com a firme deliberação de um engenheiro. “Para produzir mudança social” – disse ele a Doherty – “é preciso ter uma estratégia” que seja “verticalmente e horizontalmente integrada”, da “primeira ideia da criação até as políticas de implantação e desenvolvimento; da formação de movimentos de base até os lobbyies de mais alto nível, ações judiciais inclusive.” O projeto, ele admitiu, sempre foi extremamente ambicioso. “Nossa filosofia é radical”, disse ele.

Em 1977, os Kochs financiaram a criação do primeiro think tank dos ‘libertaristas’ – o Cato Institute. Segundo o Center for Public Integrity, entre 1986 e 1993 a família Koch doou 11 milhões de dólares àquele instituto. Hoje, o Cato tem mais de uma centena de empregados fixos em período integral, e os documentos produzidos por seus especialistas são considerados de alta respeitabilidade, reproduzidos e citados pela chamada ‘grande imprensa’. O Instituto apresenta-se como não partidário; muitas vezes os seus professores e especialistas criticaram os dois grandes partidos políticos que dominam o cenário político-eleitoral nos EUA. Mas em todos os casos, todos os especialistas sempre argumentam a favor de menos impostos sobre “a produção”, redução na oferta de serviços sociais aos mais pobres, e políticas ambientais de “não intromissão do Estado nas empresas”.

Quando, em discurso em 2008, o presidente Obama referiu-se aos saberes sobre aquecimento global como “saberes indiscutivelmente corretos”, o Cato Institute comprou anúncio de página inteira no Times para desmenti-lo. Os intelectuais e especialistas que trabalham como empregados do Cato Institute criticam ininterruptamente as tentativas políticas para conter o aquecimento global; para eles, todas seriam “caras demais, sem qualquer resultado e desnecessárias”. Ed Crane, fundador e presidente do Cato, disse a mim, em entrevista, que “as teorias sobre aquecimento global só servem para dar ao governo mais controle sobre a economia.”

Os professores-doutores empregados do Cato Institute têm dedicado quantidade particularmente enorme de energia para amplificar o chamado “escândalo Climagate”. Ano passado, msg privadas de e-mails de cientistas especialistas em clima da University of East Anglia, na Inglaterra, foram misteriosamente vazados para a grande imprensa; dizia-se que as msg deixariam transparecer, nas entrelinhas, a intenção de falsificar dados para sugerir que o aquecimento global seria real. Nas duas semanas depois da divulgação dos e-mails, um único professor-doutor empregado do Cato Institute deu mais de 20 entrevistas a jornais e televisões, sempre sobre o suposto ‘escândalo’. Os professores cujos e-mails haviam vazado foram objeto de cinco processos independentes de inquérito, e absolvidos em todos eles: jamais apareceu qualquer prova, em e-mails ou nas pesquisas daqueles pesquisadores, que se pudesse apresentar como indício para desmentir o consenso científico sobre o aquecimento global.

Apesar disso, a discussão alcançou seu objetivo de implantar na opinião pública a descrença e o ceticismo sobre a gravidade do problema das mudanças no clima. A própria National Oceanic and Atmospheric Administration teve de elaborar e divulgar relatório, para confirmar que, sim, há provas inequívocas do aquecimento global. Mesmo assim, há hoje mais americanos que duvidam de que o aquecimento global seja problema grave do que jamais antes, desde 1997; para esses, os cientistas teriam exagerado a gravidade do problema. Os Kochs promovem esses números na página internet da companhia, mas não fazem qualquer referência à influência do dinheiro (dos Koch) na difusão dessas ‘dúvidas’.

Em memorando de 2002, Franck Luntz, consultor político do Partido Republicano, escreveu que, enquanto “os eleitores acreditarem que não há consenso sobre o aquecimento global na comunidade científica” prevalecerá o status quo. A chave de que se serviram os opositores da reforma da legislação sobre meio ambiente, disse ele, foi por em dúvida o saber científico – estratégia de relações públicas que a indústria do tabaco usou, com os resultados que a indústria esperava obter e que bloquearam, durante anos, a reforma da lei antifumo. Os Kochs têm financiado inúmeras fontes de dúvidas sobre questões da preservação ambiental, como a Heritage Foundation, que argumentou que “os fatos científicos reunidos nos últimos dez anos não são suficientes para justificar a ideia de que haveria alguma ameaça de aquecimento global que possa ter efeitos catastróficos para a vida humana.” Os irmãos também financiam grupos muito mais obscuros, como o Independent Women’s Forum, que se opõe à ideia de que se incorporem lições sobre preservação ambiental ao currículo das escolas públicas nos EUA. Até 2008, o grupo era presidido por Nancy Pfotenhauer, ex-lobbyist que trabalhava para as Koch Industries. Mary Beth Jarvis, vice-presidente de uma subsidiária da Koch, está hoje no comitê diretor do grupo.

Naomi Oreskes, professora de História e Estudos da Ciência na University of California, San Diego, é co-autora de Merchants of Doubt [Mercadores da Dúvida], novo livro em que se listam várias tentativas, pela indústria dos EUA, para manipular a opinião pública sobre temas científicos e a própria ciência. Nesse livro, Oreskes observa que os Kochs, cabeças de “um conglomerado de empresas com refinarias e oleodutos”, “têm muito a ganhar” com a difusão de ideias que façam duvidar da ciência. E acrescenta:

“Se a resposta [a muitos problemas ambientais que o mundo enfrenta hoje] for substituir combustíveis fósseis, outro grupo passará a lucrar com outros combustíveis. Ninguém pode surpreender-se ao saber que o antigo grupo resistirá ao novo, com unhas e dentes.”

David Koch disse ao New York que não estava convencido de que o aquecimento global seria provocado por atividade humana. Mas mesmo que fosse, disse ele, o aquecimento do planeta será benéfico, criando mais longas estações de plantio e colheita no Hemisfério Norte. “A Terra poderá alimentar muito mais gente, porque haverá mais solo aproveitável para produzir comida”, disse.

Em meados dos anos 1980s, os Kochs deram milhões de dólares à George Mason University, em Arlington, Virginia, para instalar lá outro think tank. Hoje conhecido como Mercatus Center, o centro se autopromove como “a principal fonte mundial de ideias orientadas para o mercado – superando o fosso que separa as ideias de academia e os problemas do mundo real.” Registros financeiros mostram que as fundações da família Koch contribuíram com mais de 30 milhões de dólares para a George Mason University, boa parte dos quais foi para o Mercatus Center, ONG sem finalidades de lucro. “É o centro nevrálgico da produção de políticas pró-desregulação em Washington,” disse Rob Stein, estrategista do Partido Democrata. É uma combinação, no mínimo, esquisita. “A George Mason é universidade pública, recebe fundos públicos”, lembrou Stein. “O Estado de Virgínia hospeda uma instituição pública que, na prática, é controlada pelos irmãos Koch.”

O fundador do Mercatus Center é Richard Fink, ex-economista. Fink comanda toda a operação dos lobbyistas das Koch Industries em Washington. Além disso, é presidente da Charles G. Koch Charitable Foundation, da Claude R. Lambe Charitable Foundation, diretor da Fred C. and Mary R. Koch Foundation e diretor e cofundador, com with David Koch, da Americans for Prosperity Foundation.

Fink, com seus muitos cargos, opera o sistema nervoso central do Kochtopus. Parece já ter suplantado Ed Crane, presidente do Cato Institute, na função de principal general político dos irmãos. David ainda permanece na diretoria do Cato, mas tudo leva a crer que Crane já não goza das boas graças de Charles Koch. Associados sugeriram a essa jornalista, que Crane não teria tratado com a esperada reverência a filosofia do management de Charles, exposta num livro intitulado “A Ciência do Sucesso” [The Science of Success] , propagandeado sob o nome de Market-Based Management (MBM) [Management Baseado no Mercado]. Nesse livro, Charles recomenda que a cultura das corporações seja sempre motivada a adotar a competitividade típica dos mercados. Koch describes o MBM como “um sistema holístico” de “cinco dimensões: visão, virtude e talentos, processos de conhecimento, direitos e incentivos para decidir.” Alto funcionário do Cato Institute disse-me que Charles “sente-se um gênio. É o rei e está convencido de que veste roupas.” Fink, por sua vez, não abraçou com o mesmo entusiasmo as ideias de Charles. (Nem Fink nem os irmãos Kochs aceitaram ser entrevistados para essa matéria.)

Em conferência, em 1995, para grandes mantenedores e financiadores de organizações de caridade, Fink falou como economista, ao apresentar o objetivo do Mercatus Center. Disse que os grandes doadores devem usar os think tanks, ONGs e grupos de ação política para converter matéria prima em estado bruto, em “produtos políticos”.

Para o Wall Street Journal, o Mercatus Center seria “o mais importante think tank de que jamais se ouviu falar nos EUA”; observou também que 14 das 23 leis de desregulação que George W. Bush incluiu em sua “lista de sucessos” foram sugeridas, em primeiro lugar, por professores-doutores empregados do Mercatus. Fink disse àquele jornal que os Kochs têm “outros meios para lutar suas guerras”, e que o Mercatus Center promove ativamente os interesses privados do conglomerado.  Mas Thomas McGarity, professor de Direito da University of Texas, especialista em questões ambientais, disse-me que “Koch vive às turras com a EPA [Environmental Protection Agency, Agência de Proteção Ambiental dos EUA] e o Mercatus Center sempre ataca a Agência.”

Advogado especialista em questões ambientais, que já confrontou o Mercatus Center, classificou-o como “centro de lavagem de objetivos econômicos”. E explicou a estratégia: “Os grandes conglomerados põem muito dinheiro no que parece ser um think tank neutro confiável. O think tank contrata especialistas com pedigrees e muitos títulos universitários para que publiquem ensaios e pesquisas carregados de aparente credibilidade. Mas todos os ensaios e pesquisas têm de coincidir perfeitamente, e sempre coincidem, com os interesses econômico-financeiros dos que sustentam o think tank.”

Em 1997, por exemplo, a EPA começou a trabalhar para reduzir o ozônio de superfície, uma modalidade de poluição causada, em parte, pelas emissões das refinarias de petróleo. Susan Dudley, economista que se tornou principal analista do Mercatus Center, criticou o novo projeto de lei proposto pela Agência. A EPA, disse ela, não levara em consideração que, sem a proteção da camada de poluição, aumentaria o número de casos de câncer de pele. Calculou que qualquer controle da poluição atmosférica provocaria aumento de 12% dos casos de câncer de pele por ano.

Em 1999, a Corte de Justiça do Distrito de Columbia ‘reaqueceu’ o argumento de Dudley. Ao julgar a legalidade da lei proposta pela EPA, a Corte decidiu que a Agência “desconsiderou explicitamente” o “possível efeito benéfico do ozônio”. Em outro ponto da sentença, a Corte decidiu, por dois votos contra um, que a EPA excedera sua competência, ao tentar definir padrões para as emissões de ozônio. Como o Constitutional Accountability Center [Centro de Exame e Avaliação da Constitucionalidade de Sentenças das Cortes nos EUA], think tank privado, revelou, os juízes que votaram naquele julgamento haviam participado de ‘sessões de estudos jurídicos’, num rancho em Montana, à expensa da Foundation for Research on Economics and the Environment  [Fundação para Pesquisa sobre Economia e Meio Ambiente] – grupo mantido financeiramente pelas fundações da família Koch. Acusados, os juízes da Corte de Columbia alegaram que o voto não fora afetado pelos ‘estudos jurídicos’ realizados no rancho, em Montana.

“As ideias não acontecem do nada”, disse-me Matt Kibbe, presidente do FreedomWorks,  grupo que divulga ações do Movimento Tea Party. “Ao longo da história, as ideias sempre careceram de quem as financiasse e divulgasse.”

Os irmãos Koch, depois de ajudarem a criar o Cato e o Mercatus, concluíram que os think tanks, operando sozinhos, não provocariam a mudança desejada. Fazia-se indispensável um mecanismo que levasse aquelas ideias para as ruas, de modo a atrair apoios de massa. Em 1984, David Koch e Richard Fink criram mais uma ONG, e Kibbe juntou-se a eles. O grupo – Citizens for a Sound Economy [Cidadãos por uma Economia Sólida] – tinha todas as características de um movimento de base, nascido ‘espontaneamente’ de um grupo de cidadãos, mas, segundo o Center for Public Integrity, foi, desde o surgimento, patrocinado pelos irmãos Kochs, que lá depositaram $7,9 milhões de dólares entre 1986 e 1993. A missão do grupo, disse Kibbe, “era tomar essas ideias mais densas e traduzi-las para as massas (…). Líamos os mesmos livros que Obama sobre revoluções não violentas – Saul Alinsky, Gandhi, Martin Luther King. Estudamos a ideia do Movimento Tea Party de Boston, como exemplo de mudança social não violenta. Aprendemos que tínhamos de ter gente na rua, vendendo ideias, não candidatos ou Partidos.” Em poucos anos, o grupo mobilizara 50 formadores de opinião que trabalhavam nas ruas, em 26 estados, reunindo eleitores para trabalhar a favor da agenda dos Kochs. David e Charles, segundo um dos participantes, eram “muito controladores, sempre de cima para baixo. É impossível construir uma organização com eles. Mandam em tudo.”

Nessa época, os irmãos enfrentaram uma crise política. Em 1989, a Comissão do Senado para Assuntos dos Nativos norte-americanos investigou os negócios dos Kochs e divulgou relatório arrasador, em que a Koch Oil foi acusada de arquitetar “um esquema amplo e sofisticado para roubar óleo cru de tribos de nativos norte-americanos e outros, mediante submedições fraudulentas”. Os Kochs admitiram que haviam tomado por vias ilícitas cerca de 31 milhões de dólares em óleo cru, mas que acontecera acidentalmente.  Charles Koch disse, aos investigadores da Comissão, que a medição de óleo cru é “arte muito imprecisa”.

Para defender a própria reputação, as Koch Industries contrataram Robert Strauss, naquele momento ‘o rei’ dos lobbyistas em Washington; imediatamente, a companhia inaugurou escritório na cidade. Convocou-se o Grande Juri para investigar as acusações, o que deu em nada, porque a causa não prosperou e não houve sequer acusação formal. Imediatamente depois das audiências no Senado, os operadores dos Koch passaram a investigar a vida pessoal de assessores próximos dos membros da Comissão, tendo interrogado até uma ex-esposa. Os investigadores do Senado foram intimidados pelas táticas dos Kochs. Nas palavras de Kenneth Ballen, assessor da Comissão do Senado. “Aquele pessoal reuniu poder devastador!”

Em 1993, quando Bill Clinton assumiu a presidência, o grupo Citizens for a Sound Economy [Cidadãos por uma Economia Sólida] já se havia tornado protótipo das ONGs e campanhas de oposição que hoje proliferam no governo Obama – sempre financiados por grandes corporações.  O grupo moveu bem-sucedido ataque contra a proposta de Clinton, de taxar os combustíveis pela quantidade de calor gerado [B.T.U. tax on energy], com táticas como anúncios em televisão e rádio, organização de eventos que atraíam a mídia e ataque cerrado contra os adversários. Organizaram manifestações contra-impostos à frente do Capitólio – manifestações que, para a Rádio Pública Nacional (NPR), “foram projetadas para implantar o medo no coração dos Democratas mais vacilantes”. Dan Glickman, ex-congressista do Partido Democrata por Wichita, que apoiara a lei proposta por Clinton, ainda lembra: “Durante 18 anos fui eleito e reeleito. Os Kochs dedicaram-se a impedir que eu fosse mais uma vez eleito e financiaram a campanha do meu adversário direto. Usaram vários recursos – eles e os empregados deles.” Glickman não foi eleito. “Não há como provar, mas estou convencido de que fui a primeira vítima deles”, diz ele.

Os Kochs continuaram a gastar prodigamente seu dinheiro, criando inúmeras ONGs com nomes imponentes. Tornou-se praticamente impossível avaliar a extensão de sua influência em Washington. Em 1990, o grupo Citizens for a Sound Economy [Cidadãos por uma Economia Sólida] criou um grupo satélite, Citizens for the Environment [Cidadãos pelo Meio Ambiente], que dizia e repetia  incansavelmente que problemas ambientais como, por exemplo, a chuva ácida, não passavam de “mitos”. Quando o jornal Pittsburgh Post-Gazette investigou o assunto, descobriu-se que o grupo satélite “não tinha membros nem associados”.

Em 1997, outra investigação do Senado passou a examinar o que um relatório da minoria descrevia como “plano audacioso para despejar milhões de dólares em contribuições para as campanhas de candidatos do Partido Republicano, em todo o país, sem que se conheçam nem a fonte nem o total das contribuições”, com o objetivo evidente de burlar a legislação sobre doações de campanha eleitoral. Uma corporação, Triad Management, havia pago mais de três milhões de dólares em campanhas em 26 votações na Câmara de Deputados e em três votações no Senado. Mais da metade do dinheiro pago em campanha de anúncios publicitários saíra de uma obscura ONG sem fins lucrativos, o Economic Education Trust [Fundo para a Educação Econômica]. O relatório da minoria no Senado sugeria que “esse fundo foi financiado, totalmente ou em parte, por Charles e David Koch de Wichita, Kansas.”

Os irmãos tornaram-se suspeitos de ter pago secretamente pelos anúncios publicitários, a maioria dos quais fora ao ar em estados nos quais as Koch Industries tinham negócios. No Kansas, onde a Triad Management era especialmente ativa, o dinheiro aplicado em publicidade influenciara decisivamente quatro de seis votações. Os Kochs, ao serem perguntados por repórteres se haviam de fato pago pelos anúncios, recusaram-se a comentar. Mas em 1998, o Wall Street Journal confirmou que um consultor, cujo nome estava na lista de pagamentos dos Kochs, estivera envolvido naquele esquema. Charles Lewis, do Center for Public Integrity [Centro pela Integridade Pública], descreveu aquele escândalo como “histórico. O caso da Triad foi a primeira vez que um grande conglomerado foi apanhado em grande operação de ataque à legislação vigente, de modo realmente ameaçador.”

Durante o governo Clinton, a indústria de energia foi cada vez mais visada pela fiscalização em geral. Em meados dos anos 1990s, o Justice Department iniciou dois processos contra as Koch Industries, acusadas de serem responsáveis por mais de 300 vazamentos de óleo, que derramaram cerca de 3 milhões de galões de óleo em rios e lagos. A multa estava sendo estimada em algo como 214 milhões de dólares. Em acordo, as Koch Industries pagaram multa-recorde, na justiça civil, de 30 milhões de dólares e concordaram com aplicar mais cinco milhões de dólares em projetos ambientais.

Em 1999, as Koch Industries foram condenadas por negligência na morte de dois adolescentes texanos que morreram numa explosão, consequência de um vazamento em canos subterrâneos de gás butano. (Em 2001, a companhia pagou valor não conhecido, em acordo cujas cláusulas não foram divulgadas.) E nos últimos mesos do governo Clinton, o mesmo Departamento de Justiça processou a companhia por 97 infrações e crimes, todos relacionadas à descarga de 91 toneladas de benzeno, produto carcinogênico, da refinaria em Corpus Christi, Texas. As multas aplicáveis alcançavam 150 milhões de dólares, e quatro empregados das Koch Industries esperavam sentenças de até 35 anos de prisão. O Koch Petroleum Group declarou-se culpado das acusações criminais de violação de regras ambientais e falsificação de documentos, e pagou multa de 25 milhões de dólares. David Uhlmann, procurador do Estado que, à época, chefiava a sessão de crimes ambientais do Departamento de Justiça, descreveu o processo como “um dos casos mais significativos jamais julgados depois da Lei Clean Air Act.” E acrescentou: “Crimes ambientais são quase sempre motivados por interesses econômicos e arrogância. O caso Koch reuniu enormes doses de ambos.”

Na campanha eleitoral de 2000, as Koch Industries gastaram cerca de 900 mil dólares na campanha de George W. Bush e outros Republicanos. Nos anos Bush, as Koch Industries e outras empresas de combustíveis fósseis conheceram enorme prosperidade. A lei da energia de 2005, que Hillary Clinton chamou de “Lei Dick Cheney & Lobbyistas” garantiu-lhe condições excepcionais de operação. Segundo estudo divulgado pelo Blog Media Matters, a partir de 2000 as empresas do Grupo Koch receberam cerca de 100 milhões de dólares em contratos com o governo.

Em 2004, a Citizens for a Sound Economy foi acusada de ter feito campanha ilegal a favor da reeleição de Bush. O braço do grupo no Oregon tentou impor o nome de Ralph Nader na lista eleitoral presidencial, na tentativa para dividir os votos dos Democratas para John Kerry. Para os críticos, ONGs que se beneficiem de isenção de impostos são proibidas, por lei, de trabalhar em campanhas eleitorais (mas a denúncia, apresentada à Comissão Eleitoral Federal, não foi acolhida, e o processo não prosperou.)
Naquele ano, rivalidades internas levaram à divisão da ONG Citizens for a Sound Economy. David Koch e Fink criaram outro grupo, Americans for Prosperity, e contrataram Tim Phillips para presidi-la. Phillips é político veterano, que já trabalhou com Ralph Reed, pregador evangélico e ativista do Partido Republicano, co-fundador da Century Strategies, empresa de ‘marketing-político’ [ing. campaign-consulting company], conhecido por seus laços com o lobbyist Jack Abramoff[5].  Biografia online de Phillips apresenta-o como “especialista” em organizar grupos políticos “de base” e “de elite”. O fato de os Kochs terem contratado Phillips foi sinal claro de que se preparavam para batalhas mais ‘sangrentas’. Outro lobbyista que também trabalha para os conservadores, Grover Norquist, conhecido por elogiar os lobbystas “especialistas em degolas políticas”, disse, de Phillips: “é cachorro grande, dos que fazem as coisas acontecerem.”

Ano passado, Phillips disse ao Financial Times que a ONG Americans for Prosperity tinha apenas 8 mil membros registrados. Hoje, a página da ONG na internet festeja “1,2 milhões de ativistas.” Seja qual for a versão correta, o envolvimento político dos Kochs sempre foi intenso. Ex-funcionário do Cato Institute disse que a ONG Americans for Prosperity “sempre foi microcomandada pelos Kochs.”

O investimento dos irmãos pode ter rendido bons lucros: a ONG Americans for Prosperity, agindo em acordo com outras ONGs comandadas pela família Koch foi importante instrumento no processo de desorientar o governo Obama.

Em janeiro de 2008, Charles Koch escreveu na newsletter de sua empresa, que os EUA poderiam estar à beira “do maior assalto às nossas liberdades e da maior perda de prosperidade, desde os anos 1930s.” Em outubro daquele ano, a ONG Americans for Prosperity promoveu conferência de todos os seus agentes, num hotel da cadeia Marriott, nos arredores de Washington. Erick Erickson, editor-chefe do Blog conservador RedState.com, subiu à tribuna, agradeceu a David Koch e jurou “união e luta contra (…) os exércitos da esquerda!”

Imediatamente depois da posse de Obama, a ONG Americans for Prosperity lançou um movimento de manifestações chamadas “Porkulus”[6], contra as medidas de estímulo à economia propostas pelo governo Obama. Em seguida, o Mercatus Center distribuiu matéria, em que dizia que os fundos de estímulo à economia haviam sido distribuídos desproporcionalmente a favor de distritos governados por Democratas; adiante, o autor foi obrigado a corrigir as declarações, mas não antes de Rush Limbaugh, citando aquela matéria, falar do programa do governo Obama como “programa lixo”; e o programa Fox News e outros veículos conservadores terem repetido incansavelmente as mesmas expressões. (Phil Kerpen, vice-presidente para assuntos políticos da ONG Americans for Prosperity, é colaborador frequente da página do Fox News na internet. E outro funcionário da ONG Americans for Prosperity, Walter Williams, é convidado frequente do programa de Limbaugh.)

A ONG Americans for Prosperity também criou outra ONG-satélite, Patients United Now [Doentes Afinal Reunidos], que organizou, segundo estimativas do próprio Phillips, mais de 300 manifestações públicas contra a reforma da saúde proposta pelo governo Obama. Numa dessas manifestações, enforcou-se um boneco que tinha colado ao rosto uma foto de um político Democrata; em outro, os manifestantes carregavam um estandarte com fotos de cadáveres no campo de concentração de Dachau. O grupo também ajudou a organizar manifestações chamadas “Kill the Bill” [Matem a Lei] à frente do Capitólio, em março, nas quais apoiadores da reforma da saúde disseram que foram ofendidos e espancados. Phillips discursou em várias dessas manifestações.

A mesma ONG Americans for Prosperity já organizou pelo menos 80 eventos de protesto contra a legislação cap-and-trade, que visa a cobrar das empresas pela poluição do ar que gerem. Oradores, nessas manifestações, disseram, com flagrante exagero, que até os churrasqueiros de fim de semana que assassem carne nos quintais de casa e os fornos de cozinha teriam de pagar novos impostos. O grupo esteve também envolvido nos ataques contra o czer dos “empregos verdes” de Obama, Van Jones, e organizou cruzada nacional contra as reuniões oficiais de discussão sobre o clima. Dizendo-se representante dos trabalhadores comuns, que perderiam empregos por culpa dos ambientalistas, Phillips foi a Copenhagen ano passado e organizou uma manifestação de protesto à frente do prédio da ONU onde se realizava a conferência sobre mudança climática. Lá, disse que “Somos uma organização de massa e de base (…). É uma desgraça que filhos ricos de famílias ricas trabalhem tanto para fazer subir os índices de desemprego nos EUA. Hoje, já chegamos aos 20%!”

Grover Norquist, que organiza reuniões semanais para líderes conservadores em Washington, às quais sempre comparecem representantes da ONG Americans for Prosperity, disse-me que no verão passado, as inúmeras manifestações de rua organizadas pelo mesmo grupo foram importantes para minar a divulgação, para os eleitores, da agenda de Obama. Os líderes Republicanos no Congresso, disse ele, “não teriam conseguido o que conseguiram sem o mês de agosto, quando as pessoas saíram às ruas. O movimento assustou os que se dispunham a negociar algum acordo em troca do voto” – Republicanos que poderiam ter votado construtivamente a favor das reformas propostas por Obama. Além disso, a visão do movimento nas ruas, que parecia sinalizar crescente oposição a Obama, também afetou as corporações doadoras de fundos para campanhas eleitorais na K Street[7]. “K Street é um poço de três bilhões de dólares” – disse Norquist. “Quando Obama estava forte, a Câmara de Comércio disse ‘Podemos trabalhar com o governo Obama’. Mas mudaram de opinião quando milhares de pessoas saíram às ruas e ‘aterrorizaram’ os congressistas e candidatos. Agora, que Obama está fraco, aquele pessoal endureceu.”

Quando se aproximava o primeiro aniversário da posse de Obama, David Koch veio a Washington para participar de uma triunfal reunião promovida pela ONG Americans for Prosperity. Os números de popularidade de Obama estavam despencando. Nenhum senador Republicano trabalhava a favor do governo para a aprovação do plano de reforma da saúde, dentre outros temas. Os jornais escreviam sobre a incapacidade política de Obama e vários grupos do Movimento Tea Party acusavam o governo de estar iniciando “um golpe para assumir controle absoluto de todo o governo”. Num discurso, Koch disse que “Dias como o que vivemos hoje trazem de volta à pauta real a amplidão da visão de nosso comitê diretor, há cinco anos.” E prosseguiu: “Tivemos a visão antecipada de um movimento de massa, com base num estado, mas de amplidão nacional, de centenas de milhares de cidadãos norte-americanos de todos os níveis e padrões de vida, em pé e dispostos a lutar pelas liberdades econômicas que fizeram de nossa nação a mais próspera sociedade da história (…). Felizmente, os ramos que brotaram, da California a Virginia, e do Texas a Michigan, mostram que mais e mais os nossos concidadãos começam a ver as mesmas verdades que vemos há tanto tempo.”

Apesar de, naquele dia, Koch não se ter alistado formalmente ao Movimento Tea Party, chegou bem perto disso. Em seu discurso, elogiou o Movimento por demonstrar “a poderosa, visceral hostilidade que há no nosso corpo político contra o ameaçador aumento do poder do governo, e seu esforço ilimitado para socializar os EUA.” Charles Koch, em carta que enviou aos seus 70 mil empregados, comparou o governo de Obama ao regime venezuelano de Hugo Chávez. O sentido de perigo dos Kochs chega a ser curioso. A desigualdade de renda nos EUA é hoje maior do que jamais, desde os anos 1920s; e desde os anos 1970s os ganhos dos mais ricos caíram mais que os ganhos da classe média. Absurda que seja, a mensagem dos irmãos Koch encontrou evidente eco entre os eleitores: pesquisa recente mostrou que 55% dos norte-americanos acreditam que Obama seja socialista.
A ONG Americans for Prosperity, enquanto isso, já anunciou que gastará mais 45 milhões de dólares antes das eleições de meio de mandato, em novembro. Apesar de a legislação que rege as ONGs proibir que apóiem diretamente qualquer candidato, ainda assim o grupo planeja trabalhar em cerca de 50 eleições locais para a Câmara de Deputados e meia dúzia para o Senado, com manifestações, campanhas porta-a-porta e publicação de anúncios em jornais, revistas e televisões, com o objetivo de “educar os eleitores sobre quem são e o que pretendem os candidatos.”

Apesar de os Kochs terem conseguido neutralizar a força de Obama nos meses iniciais do mandato, estão longe de dar-se por satisfeitos. Richard Fink, em entrevista ao Blog FrumForum.com nessa primavera, disse que “Se se considerar onde estávamos em 2000 e onde estamos hoje, com a contínua expansão dos gastos do governo e uma dívida que já ameaça quebrar o país, vê-se que conseguimos pouco.” E continuou: “Pode-se dizer que a infraestrutura que construímos ainda não chegou à superfície, à plena luz do dia”. Sugeriu que os Kochs ainda precisem “envolver-se mais nas questões práticas, do dia a dia do governo.”

Em 1991, David Koch sofreu graves ferimentos, na queda de um avião em Los Angeles. Foi o único passageiro da primeira classe que sobreviveu. Na recuperação, um exame de rotina revelou um câncer na próstata. Koch tratou-se, recuperou-se, iniciou família e reconsiderou toda a sua vida. Como disse a Portfolio, “Quando acontece de você ser o único sobrevivente da parte da frente do avião, e todos os demais morrem… É, você pensa: ‘Deus, o bom Deus poupou-me para algum grande destino.’ Costumo dizer que, desde então, trabalho o mais que possa, fazendo a melhor coisa que jamais me ocorreu fazer. Deus pode confiar em mim.”

Koch passou a fazer doações espetacularmente generosas para instituições de arte e ciência. Tornou-se benemérito da pesquisa sobre câncer, com foco em câncer de próstata. Além do que doou ao Sloan-Kettering, deu 15 milhões de dólares ao New York-Presbyterian Hospital, 125 milhões ao MIT para pesquisa sobre câncer, 20 milhões à Johns Hopkins University e 25 milhões ao M. D. Anderson Cancer Center, em Houston. Como agradecimento, o Sloan-Kettering outorgou a Koch o Prêmio de Excelência em Liderança Corporativa. Em 2004, o presidente Bush nomeou-o Conselheiro do Nacional Cancer Advisory Board, que dirige o National Cancer Institute.

Os papéis que Koch desempenha no mundo corporativo e político, contudo, mostram alguns conflitos de interesses. Por exemplo, ao mesmo tempo em que David Koch apresentava-se como campeão da luta contra o câncer, as Koch Industries empenhavam-se no lobby para impedir que a Agência de Proteção Ambiental (EPA) classificasse o formaldeído – que o conglomerado produz em grandes quantidades – como produto “reconhecido como carcinogênico em seres humanos”.

Os cientistas sabem há muito tempo que o folmaldeído produz câncer em ratos, e vários estudos científicos de grandes populações já concluíram que o forlamdeído também produz câncer em seres humanos – dentre outros, pesquisa publicada ano passado pelo National Cancer Institute, órgão de cujo Conselho Consultivo Koch participa. O estudo acompanhou 25 mil pessoas ao longo de, em média, 40 anos; os que foram expostos a mais altas concentrações de formaldeído apresentaram índices consideravelmente mais altos de leucemia. Esses resultaros foram decisivos para que o grupo de especialistas do National Institutes of Health concluíssem que o formaldeído deve ser classificado como carcinogênico e, portanto, como produto a ser incluído na lista das substâncias estritamente controladas pelo governo. 

Muitas grandes corporações lutaram contra qualquer tipo de controle do formaldeído durante décadas; as Koch Industries sempre foram importantes doadoras de campanha de deputados e senadores que mantinham paralisadas várias iniciativas da EPA, sempre exigindo que se fizessem mais estudos, antes de que se aprovassem novos controles e leis.

As Koch Industries tornaram-se grandes produtoras de químicos em 2005, depois de incorporarem a Georgia-Pacific, madeireira e produtora de papel, por 21 bilhões de dólares. A divisão química da Georgia-Pacific produz formaldeído, e o usa em vários produtos de madeira, como compensados e laminados.  Tem capacidade para produzir 2,2 bilhões de pounds. Dezembro passado, Traylor Champion, vice-presidente da Georgia-Pacific para assuntos de meio ambiente, enviou carta formal de protesto às autoridades federais de Saúde. Escreveu que a companhia “discorda veementemente” das conclusões do painel de especialistas da Agência Nacional de Saúde (NIH) de que o formaldeído devesse ser definido como carcinogênico em seres humanos. . panel’s conclusion that formaldehyde should be treated as a David Koch não se afastou nem do posto de Conselheiro do National Cancer Advisory Board, nem do comando de suas empresas, enquanto as mesmas empresas faziam lobby contra o mesmo governo, para manter no mercado o formaldeído. (Porta-voz do National Cancer Advisory Board disse que o assunto não foi jamais discutido no Instituto.)

James Huff, diretor associado do National Institute for Environmental Health Sciences, divisão do Instituto Nacional de Saúde, disse que parecia-lhe “repugnante” que Koch tivesse assento, como conselheiro, ao National Cancer Advisory Board: “Não é bom para a saúde pública. Interesses comerciais e empresariais não deveriam ser representados lá”. E prosseguiu: “Os Conselhos são muito importantes, porque influenciam o rumo da agência, a favor ou contra o formaldeído continuar a ser vendido sem qualquer restrição. Há bilhões em jogo nas questões que envolvem o formaldeído.”

Harold Varmus, diretor do National Cancer Institute, conhece David Koch do Memorial Sloan-Kettering, do qual foi diretor. Disse que, no Sloan-Kettering, “há muita gente que doa dinheiro e que tem também grandes interesses comerciais. Só não admitimos o pessoal da indústria de cigarros.” Ao saber do protesto das Koch Industries contra o controle do formaldeído, Varmus disse que, para ele, era “uma surpresa”.

A sala “David H. Koch das Origens do Homem”, no Museu Nacional Smithsonian de História Natural oferece uma viagem multimídia pela teoria de que a humanidade evoluiu como resposta à mudança climática. Na entrada principal, os visitantes encontram um gráfico gigante que mostra a variação da temperatura da Terra ao longo dos últimos 10 milhões de anos, e que mostra que a temperatura hoje é muito mais baixa do que há dez mil anos. Acima do gráfico, lê-se: “A HUMANIDADE EVOLUIU COMO RESPOSTA A UM MUNDO EM MUTAÇÃO.” A mensagem, que se lê também na página do museu na internet (em http://humanorigins.si.edu/research/climate-research/effects) , é que “as adaptações-chave pelas quais passou o ser humano foram respostas à instabilidade do meio ambiente.” Só ao final da mostra, sob a manchete “O DESAFIO DA SOBREVIVÊNCIA”, lê-se que os níveis de dióxido de carbono são mais altos hoje do que nunca, antes, em toda a história do homem no planeta, e que se prevêem aumentos dramáticos para o próximo século. Nada se diz sobre a causa desse fenômeno; nem uma palavra sobre a suspeita de que os combustíveis fósseis tenham papel determinante nessa catástrofe prevista. A mostra faz com que tudo pareça evolução natural. O texto que acompanha a exposição diz que “Durante o período de evolução do ser humano, a temperatura da Terra e a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera flutuaram simultaneamente.”

Na exposição, um jogo interativo sugere que os seres humanos continuarão a adaptar-se a todas as mudanças climáticas, também no futuro. A humanidade poderá construir “cidades subterrâneas” e desenvolver “corpos menores, mais compactos”, ou “espinhas dorsais encurvadas”, de modo que “não haverá problema para que as pessoas circulem em ambientes estreitos.”
Todas essas ideias são eco, sem dúvida alguma, da mensagem de Koch. A carta que a companhia distribuiu em janeiro aos empregados, por exemplo, argumenta que “a temperatura da Terra oscila desde muito antes do aparecimento do homem” e conclui: “Dado que ninguém pode controlar a Mãe Natureza, temos de começar a pensar em como sobreviver com as mudanças”. Joseph Romm, médico que edita a página ClimateProgress.org na internet, está indignado com a exposição montada no Museu Smithsonian. “A exposição foi montada para devolver ao ponto zero toda a discussão contemporânea sobre mudanças climáticas”, diz ele. “Acho que os Kochs querem que suas empresas sejam vistas como ‘de mente aberta’, associadas ao maior museu de história natural dos EUA. Mas a verdade é que aquela exposição foi construída para divulgar o ideário dos maiores  poluidores do planeta, os mesmos que, na clandestinidade, financiam todos os tipos de ação interessadas em derrotar o esforço contemporâneo, de toda a humanidade, para sobrevivermos, primeiro de tudo, ao desastre provocado por aquelas empresas. Acho que o Smithsonian errou, ao admitir aquela exposição.”

Cristián Samper, diretor do museu, disse que a exposição não trata de mudança climática. Disse que Koch “é um dos mais generosos doadores que tivemos, durante minha gestão, porque é muito interessado no conteúdo do nosso trabalho, mas não interfere em nada”. Disse também que “não sabia de tantos detalhes de seu envolvimento em outros assuntos.”

Os Kochs sempre dependeram desse tipo de ignorância sobre os detalhes do que fazem. Sempre lhes bastou operar o que David Koch chamou de “a maior empresa de que vocês jamais ouviram falar”. Hoje, com a crescente exposição pública do Movimento Tea Party, e com a opinião pública cada vez mais informada sobre os laços que unem os Koch e aquele movimento, é possível que os irmãos tenham alguma dificuldade para continuar a escapar de todas as investigações.

Recentemente, o presidente Obama deu sinal de que está atento à rede política dos Koch. Falando ao Comitê Nacional dos Democratas, em reunião de doadores de campanha, em Austin, alertou os apoiadores do Partido Democrata sobre recente decisão da Suprema Corte no caso da ONG Citizens United – que aprovou leis que proíbem as corporações da indústria e do comércio de doar fundos para campanhas eleitorais. O presidente lembrou que as novas leis, de fato, tornaram ainda mais fácil, para as grandes corporações, “ocultarem-se por trás de ONGs que se apresentam com títulos grandiloqüentes e aparentemente progressistas, como Americans for Prosperity.” E continuou: “ninguém é obrigado a  esclarecer quem são os Americans for Prosperity. E fica-se sem saber se não são, por exemplo, corporações estrangeiras. Ou, talvez, alguma gigante do petróleo.”
+++++++++++++++++++++++
NOTAS
[1] A expressão “Organizações Não Governamentais (ONG)” não tem definição clara nem consistente. Se tem, nenhuma definição aproveitável aparece na página da Abong (Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais, em
http://www.abong.org.br/final/faq_pag.php?faq=12189). Em geral, no Brasil, a expressão ocorre como equivalente a “organizações do Terceiro Setor” – o que não melhora nada em matéria de clareza, nem quanto à natureza nem, e sobretudo quanto aos objetivos das ONGs. A expressão em inglês “Non-Governmental Organizations (NGOs)” tem conotações completamente diferentes; é expressão surgida na ONU, depois da 2ª Guerra Mundial, e designava organizações supranacionais e internacionais que não foram estabelecidas por acordos governamentais. No geral, entende-se que ONGs sejam organizações que não se incluem na administração nem no poder públicos; de onde se pode concluir que sejam sempre organizações privadas; e que sejam organizações de cidadãos, no sentido de que não são organizações formadas por empresas. No Brasil, a ideia de ONG inclui também um estranho traço de ‘organização que aspira a manter-se fora da vida e da discussão política’ – o que é absoluto absurdo, posto que nenhuma organização de cidadãos é, pode ser ou algum dia será ou existirá à margem da vida e da discussão políticas.
         Adotamos nessa tradução a expressão “ONG” no exclusivo sentido de que as organizações que aqui se discutem são organizações privadas e privatistas, que aspiram a influir na vida política da sociedade nas quais nascem, mas sem se deixar reger pela legislação que regula a vida política; e que militam sempre — no caso das ONGs que aqui se discutem — contra governos democraticamente eleitos e contra Estados de Direito democraticamente constituídos [NTs].

Tudo em José Serra é falso

PT reage com veemência à manobra golpista demotucana

Dilma na TV

Acusação é tentativa de virar a mesa da democracia

Do Dilma13

A candidata à presidência Dilma Rousseff classificou hoje como uma tentativa de “virar a mesa da democracia” as acusações feitas por seu adversário José Serra, que tenta vincular o PT à quebra de sigilo na Receita Federal de pessoas ligadas ao PSDB.

Segundo Dilma, o PSDB e seus aliados estão desesperados com a perda de apoio popular e tentam ganhar as eleições “no tapetão”, atentando, assim, contra a estabilidade democrática do país.

“Mas não vão ganhar [no tapetão], porque as acusações são falsas, levianas e sem sustentação jurídica. Eles querem virar a mesa da democracia”, disse Dilma, em entrevista coletiva em Porto Alegre.

A candidata acrescentou que o processo democrático não permite acusações sem provas contra as instituições. “É muito importante perceber que, no processo democrático, pode-se até perder a eleição, mas não a dignidade e começar a sacar contra pessoas ou instituições, subestimando a compreensão do povo brasileiro.”

Antes do embarque para Foz do Iguaçu, onde fará comício esta noite com o presidente Lula, Dilma pediu uma apuração rápida e rigorosa dos fatos pela Polícia Federal e a Receita Federal.

Para ela, o presidente Lula, com seu espírito de justiça e compromisso com a democracia, não deixará que a quebra de sigilo fique sem resposta. Dilma defendeu que as instituições sejam preservadas, mas os envolvidos em irregularidades devem ser responsabilizados.

“Eu me sinto hoje a pessoa mais interessada nas apurações. Quem quer que elas fiquem nebulosas é a candidatura adversária, não a minha. A minha candidatura quer clareza, transparência e apuração até as últimas conseqüências”, disse.

PT: mais três ações judiciais contra Serra e PSDB

Diante da série de acusações nos últimos dias, o Partido dos Trabalhadores decidiu entrar com mais três ações judiciais: duas contra o candidato tucano José Serra e uma contra o presidente do PSDB, Sérgio Guerra. “É mais uma tentativa desesperada dos que não têm argumento e não conseguem enfrentar sua condição eleitoral para tentar reverter o quadro desfavorável”, disse o secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo, numa entrevista coletiva na tarde de hoje em Brasília.

A primeira medida é uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com base no artigo 323 do código que regula as eleições. O crime previsto é imputar fato sabidamente não praticado pelo adversário para atingir objetivos nas eleições. No caso, segundo Cardozo, o Serra e o PSDB sabem que o PT e a campanha de Dilma Rousseff não tiveram qualquer participação na quebra de sigilo de pessoas ligadas aos tucanos, mas assim mesmo fazem acusações.

Cardozo também anunciou a quinta ação judicial nesta eleição contra José Serra por calúnia, difamação e injúria. “É inaceitável que sem nenhuma prova e indícios o PT seja responsável pela quebra de sigilo da filha de nosso oponente ou de qualquer outra pessoa.”

A última medida é a representação na Procuradoria Geral da República (PGR) contra o presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Segundo Cardozo, a ação é por crime contra a honra devido às repetidas declarações de Guerra, acusando o PT e Dilma de serem os responsáveis por quebras de sigilo fiscal.

Oposição sem propostas

Para Cardozo, essa é mais uma tentativa desesperada da oposição. Segundo ele, a política do tapetão não cola mais no Brasil, “a população sabe muito bem quem é quem e que o correto nessa hora é discutir propostas e, aquele que é derrotado tenta ganhar na base do tapetão”.

Cardozo lembrou, ainda, que foi o PT quem pediu para abrir o inquérito policial desses fatos. “Enquanto eles falavam e nos acusavam, quem pediu a apuração na Polícia Federal foi o próprio PT. Nós somos os mais interessados em colocar isso em pratos limpos”, disse. 

Ele afirmou que aqueles que quebraram o sigilo indevidamente devem ser punidos exemplarmente. “E queremos deixar claro que esses fatos não têm nada a ver com a candidatura de Dilma Rousseff e com o Partido dos Trabalhadores.”

Lula: aula inaugural da Unila

Lula: Preocupação não é com futuro pessoal, mas com presente e futuro do País

Do Blog do Planalto

Após deixar a Presidência, em 2011, o presidente Lula pretende ajudar a aprovar as tão sonhadas reformas política e tributária no País, além de trabalhar com países africanos e sul-americanos, levando a eles a experiência brasileira de combate à fome e à pobreza. Em entrevista ao jornal O Estado do Paraná, publicada nesta quinta-feira (2/9), Lula garantiu no entanto que, até lá, se dedicará ao trabalho e à cobrança de realizações dos seus auxiliares.

A minha preocupação principal no momento não é com o meu futuro pessoal, e sim com o presente e o futuro do nosso país. Quero continuar trabalhando e cobrando realizações dos meus auxiliares até o último segundo do meu mandato, pois para isso é que eu fui eleito presidente. (…) Sobre o meu futuro pessoal, penso em trabalhar, através do PT e outros partidos, para finalmente aprovarmos a Reforma Política e a Reforma Tributária. Essas são questões mais afetas ao parlamento que à Presidência. Vou tentar também trabalhar com países africanos e sul-americanos que ainda lutam contra a extrema pobreza e a fome, levando a experiência bem-sucedida que tivemos nesses oito anos no Brasil. É preciso que esses países se tornem fortes do ponto de vista econômico e social e que sejam grandes parceiros do Brasil. Temos plena consciência de que não é preciso que outros países percam para que nós possamos ganhar. Nosso intercâmbio será mais intenso e lucrativo quando todos tiverem um bom nível de desenvolvimento econômico e social. Mas eu pretendo cuidar do meu futuro efetivamente quando tiver todo o tempo do mundo para planejar, ou seja, a partir do dia 1º de janeiro.

Lula disse ainda que o governo pretende sim investir na construção de metrôs mas sempre pensando na melhoria do transporte urbano para a mobilidade e conforto da população, e não apenas tendo em vista a Copa do Mundo de 2014. O presidente lembrou que o PAC da Copa não contemplou projetos de metrô porque outros modais de transportes foram priorizados, por serem mais rápidos de executarem, como a construção de corredores para ônibus e Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs), monotrilhos e obras viárias. Ainda assim, Curitiba poderá contar com recursos para a construção do seu metrô, por meio de recursos previstos no PAC 2.

O PAC 2, por exemplo, prevê investimentos de R$ 18 bilhões para projetos de mobilidade urbana a serem executados a partir de 2011. A chamada pública para a apresentação formal de projetos está prevista para breve e algumas cidades, entre elas Curitiba, já manifestaram interesse à Secretaria Nacional de Mobilidade Urbana, do Ministério das Cidades.

Leia a íntegra da entrevista aqui.

A tradição secular dos Dragões da Independência e da Guarda Presidencial

Do Blog do Planalto

O tenente Mangiavacchi comandará a apresentação da Guarda Presidencial no desfile de 7 de Setembro. Foto: Thiago Melo

Centenas de curiosos param todos os dias diante dos palácios do governo para observar a guarda militar. O que muitos não sabem é que a guarda, sob responsabilidade dos Dragões da Independência e da Guarda Presidencial, representa tradições seculares, vindas da época da Família Real e do Brasil imperial.

Os trajes dos Dragões da Independência e da Guarda Presidencial foram desenhados por Jean-Baptiste Debret e D. Pedro I, respectivamente, e foram inspirados em uniformes de guardas de outros países como a França. Cabe às tropas, desde então, a guarda do presidente da República e o cerimonial militar.

Seja mantendo as tradições ou despertando curiosidade aos que desconhecem a história, a Guarda Presidencial e a os Dragões da Independência são pontos altos do desfile cívico de 7 de setembro. Na ocasião, a Guarda Presidencial é responsável pela escolta do presidente, guarda dos palácios Itamaraty, do Planalto, Alvorada e Buriti, além da apresentação ao público. Já os Dragões da Independência participam da cerimônia com sua cavalaria e encerram o desfile.

O compromisso com a nação e com a tradição é levado a sério. Para se apresentarem no desfile da Independência, o treinamento leva meses e é intensificado próximo à data, como explica o tenente Mangiavacchi. “O expediente do soldado do cerimonial é basicamente treinamento físico de manhã e, à tarde, a ordem unida, ou seja, treinamento dos movimentos. Treinamos diariamente desde o início do ano até o desfile”.

O comandante da Guarda Presidencial, coronel Elias Rodrigues Martins Filho, acredita contribuir para o resgate de valores cívicos e para o fortalecimento do nacionalismo. “Os países mais desenvolvidos têm um sentimento muito forte de nação, o que contribui para o crescimento e fortalecimento desses países. O desfile de 7 de setembro é uma oportunidade importante para despertar nos brasileiros esse sentimento”, afirmou.

Novos “vazamentos” atingem a candidatura Serra

Da Carta Maior

Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do banco Bradesco, ‘vazou’ nesta 5º feira informações que atingem de forma letal a candidatura Serra.

Aspas para as inconfidencias de Trabuco: I] “O que sentimos, tendo por base nosso relacionamento com 1,4 milhão de empresas, é que o Brasil está crescendo em todos os setores. Não há uma dependência setorial”; II] “…11 milhões de brasileiros vão viajar pela primeira vez de avião nos próximos 12 meses” ; III] “…o Brasil passará nos próximos anos pelo melhor ciclo econômico de sua história; vamos vivenciar, na segunda década do século XXI, aquilo que foi chamado de “sonho americano”.

Ao longo do dia, de diferentes áreas do governo e da economia, outros vazamentos sacudiriam a combalida higidez da candidatura José Serra, a saber: a] BC interrompe alta dos juros; b] carga tributária declina; c] vendas recordes de automóveis em agosto; d] massa salarial tem aumento real de 32,7% entre 2004 e 2010; e] classes C e D já superam a classe B em poder de consumo; f] setor industrial investe R$ 549 bilhões até 2013; g] definida a capitalização da Petrobras: fatia estatal da empresa deve saltar de 29% para 42% e garantir – à revelia do condomínio midiáticotucano – a soberania brasileira no pré-sal; h] infraestrutura teve R$ 199 bilhões em investimentos entre 2005 e 2008; terá mais R$ 310 bilhões entre 2010-2013; i] Brasil realiza os três maiores investimentos em geração de energia elétrica do planeta – Jirau e Santo Antônio e Belo Monte; j] otimismo dos brasileiros atinge o maior nível em 9 anos… Visivelmente abalado, no final do dia, o candidato tucano retomaria seu discurso contra as Farcs, contra Moráles, o narcotráfico, o PT…

Depois do porre, a ressaca

Do Luis Nassif Online

Esses movimentos de catarse – tal como esse caso de Mauá, coberto à exaustão pela mídia – costumam ter uma vida midiática curta, similar aos ataques de trolls ou às valentias de caras truculentos, quando respaldados por movimentos de torcida.

Passado o impacto inicial, dissolve-se o movimento de massa e restam os personagens soltos no ar, respondendo por seus atos. A notícia vai se esgotar em alguns dias. Quando tiver gastado seu potencial escandalizador, restará um Serra mais desidratado.

Queria ser uma mosca na escrivaninha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Só para ouvir suas imprecações sobre as pirações de Serra.

Dutra: Acusação de Serra contra Dilma é “armação eleitoral”

Claudio Leal

Em entrevista ao Terra, o presidente do PT e coordenador da campanha de Dilma, José Eduardo Dutra, afirma que o candidato José Serra e o PSDB empreendem uma “armação eleitoral” para vincular os petistas à violação dos dados fiscais de Verônica Serra. “Simplesmente dizer que, porque é do PSDB, é vinculado a Serra e tem objetivo eleitoral e quem fez foi nossa campanha? A partir daí foi um absurdo do ponto de vista eleitoral”, critica Dutra.

Segundo o petista, a data da violação do sigilo da filha de Serra, numa agência da Receita Federal em Santo André (SP), desmonta a hipótese de crime com finalidade eleitoral. “Em setembro, eu estava correndo o Brasil todo com mais cinco candidatos do PT, no processo de renovação da direção do partido. A eleição ocorreu em 22 de novembro, quando fui eleito. Em setembro, não tinha candidata, pré-candidata, nem coordenação de campanha”, sustenta.

Leia a entrevista.

Terra – Como o senhor analisa a crise aberta pela violação dos dados fiscais da filha do candidato José Serra, Verônica? O PT fez duas novas representações na Justiça Eleitoral, mas enfrenta as acusações do PSDB, que vê motivação eleitoral.
José Eduardo Dutra – Primeiro, o seguinte: acho absolutamente natural que alguém que tenha qualquer tipo de sigilo violado, manifeste indignação. É legítimo, natural e correto. O absurdo é transformar isso numa peça eleitoral e numa acusação a nós. Simplesmente dizer que, porque é do PSDB, é vinculado a Serra e tem objetivo eleitoral e quem fez foi nossa campanha? A partir daí foi um absurdo do ponto de vista eleitoral. Se quisessem violar o sigilo de alguém, com objetivo eleitoral, o mais provável é que fosse do próprio Serra e dos vinculados a ele. A acusação é genérica. O problema no Brasil é que qualquer um pode acusar alguém sem ter nenhuma prova. Qual o elemento que eles têm de que qualquer membro da coordenação teve acesso a documentos e informações? São acusações caluniosas. Nós vamos continuar buscando reparação na Justiça.

Terra – Uma das leituras da violação do sigilo é que pessoas do PSDB estariam também interessadas nesses dados, em setembro de 2009. Qual análise o senhor faz?
Dutra – Não, eu não… Já ouvi essas conversas, mas não vou ser irresponsável. Eu sou presidente do PT hoje. Em setembro, eu estava correndo o Brasil todo com mais cinco candidatos do PT, no processo de renovação da direção do partido. A eleição ocorreu em 22 de novembro, quando fui eleito. Em setembro, não tinha candidata, pré-candidata, nem coordenação de campanha. O partido estava mobilizado para a renovação da sua direção. O próprio calendário desmonta os que querem transformar em dossiês, “Aloprados 2″. E, no caso dos aloprados, em 2006, ainda tinha dinheiro, dossiê, a pessoa que foi presa. Agora não tem isso.

Terra – Como o PT avalia o pedido de cassação do registro da candidatura de Dilma Rousseff, feita pelo PSDB?
Dutra – É uma peça ridícula. Estamos entrando com uma ação em relação a isso, porque o Código Penal prevê pena para quem possa utilizar com má fé um processo de natureza eleitoral.

Terra – Qual a estratégia da campanha de Dilma nessa crise?
Dutra – A campanha vai continuar no mesmo rumo. Vamos viajar, fazer comícios… Serra devia fazer um comiciozinho sequer, uma manifestação de rua. Mas, não. Serra só faz nos atacar…

Terra – Por que Serra não faz comício?
Dutra – Isso é melhor você perguntar a ele.

Terra – O PT vai insistir no pedido de investigação da Receita e da Polícia Federal?
Dutra – Só quem pediu a investigação da Polícia Federal foi o PT, quando isso saiu em junho. Queremos que esse assunto seja o mais rapidamente possível esclarecido, para que sejam identificados os responsáveis, quem fez e quem não fez, pra evitar essa exploração e acabar, de uma vez por todas, a tentativa de armação eleitoral.

Terra – O senhor e a candidata Dilma se referiram à violação de dados sigilosos de diretores da Petrobras. Isso se vincula a…
Dutra – Que, aliás, não mereceu nenhuma indignação da oposição. Ao contrário. Depois que saiu a matéria, Alvaro Dias foi à tribuna não para protestar, mas para pedir as declarações, dizer que era Sheik, era marajá…

Terra – Refere-se ao diretor de exploração e produção da Petrobras, Guilherme Estrela?
Dutra – Do Estrela, do Renato Duque… Estrela é filiado ao PT. Outro argumento que usam: ninguém do PT teve o sigilo violado. Três meses antes disso Guilherme Estrela teve o sigilo violado! E Estrela é filiado ao PT.

Serra e os dossiês

Por Sanzio, no Do Luis Nassif Online

 As impressões digitais de José Serra estão claramente estampadas em três dos quatro mais famosos “escândalos do dossiê”, desde que a imprensa passou a rotular assim ações e armações do grupo político ao qual o ex-governador pertence.

Pela ordem: Caso Lunus (março de 2002), Aloprados (setembro de 2006) e este agora envolvendo sua filha. O único no qual a digital de Serra não aparece de forma clara é o tal dossiê contra FHC e D. Ruth, vazado para a imprensa pelo senador Álvaro Dias e que, posteriormente, descobriu-se ter sido fabricado com por um assessor do senador, André Eduardo Fernandes.

Não é uma casualidade a recorrência deste tipo de “escândalo” às vésperas de eleições presidenciais. Conforme disse José Sarney, em seu famoso discurso de 20 de março de 2002, Serra havia criado dentro do Ministério da Saúde um verdadeiro aparato de espionagem e fabricação de dossiês contra potenciais adversários políticos. Sob o comando de seu assessor especial, delegado da PF Marcelo Itagiba, foram produzidos dossiês contra Paulo Renato, Tasso Jereissati e Pedro Malan.

O delegado Itagiba, o delegado Paulo de Tarso Gomes, ambos subordinados ao Superintendente da PF Agílio Monteiro Filho, este filiado ao PSDB, mais o Sub-Procurador da República Roberto Santoro, foram os principais agentes da operação que implodiu a candidatura de Roseana Sarney, no conhecido episódio da Lunus.

Em seu discurso, Sarney fez pesadas acusações a respeito da truculência do então Ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, o qual ameaçou o jornalista Paulo Francis de espancamento e o então governador do Ceará, Tasso Jereissati, de espancamento e morte, cena esta presenciada por Sarney e protagonizada em frente de FHC.

Se o episódio Lunus e os dossiês contra correligionários visavam apenas demolir a candidatura ou as pretensões de potenciais adversários, os dois episódios seguintes têm, claramente, outro componente, talvez mais importante que o eleitoral. Em comum, ambos estão associados ao envolvimento de Serra em graves atos de corrupção.

Não que isso seja novidade. Tanto no episódio dos aloprados quanto no atual, as denúncias já eram de conhecimento público, tendo sido até matérias de jornais e revistas. A novidade era, e é, a ameaça de tornar públicas as provas dessas denúncias.

No caso dos aloprados, o tal dossiê era um conjunto de documentos amealhados por um dos lados envolvidos no “Escândalo dos Sanguessugas”, os Vedoin, pai e filho, que atuavam como intermediários junto ao Ministério da Saúde para a liberação de verbas para a aquisição de ambulâncias superfaturadas ou mesmo fantasmas. No caso atual é o ataque preventivo ao livro do Amauri Ribeiro sobre a corrupção na época das privatizações.

Em ambos os casos, o objetivo é tirar o foco do essencial, transformando o conteúdo das acusações em “falsos dossiês” com objetivos eleitorais. Se, no caso dos Sanguessugas, a operação foi bem sucedida, por causa da atuação desastrada de petistas que caíram feito patos, no caso presente não há nada que justifique as acusações de Serra à Dilma ou ao PT.

Não sei se todos notaram, mas Serra cometeu um lapso quando afirmou ao JN que sua filha teria lhe dito: “olha, eu acho que devem ter andado espionando os meus dados, porque aí são só coisas que estão no Imposto de Renda”. A pergunta que não lhe foi feita é: onde ela viu esses dados? Foi a Folha, que diz ter recebido cópias das declarações, quem as repassou à Verônica? Por que ela não tomou providências legais?

A Folha é cúmplice dessa armação, já que afirma ter recebido as cópias do suposto dossiê e tampouco tomou a providência de encaminhar esses documentos para as autoridades policiais. Usou-os apenas para criar o escândalo, o factóide eleitoral. Cabe ao PT e à campanha da ministra Dilma partir para cima desse grupo de criminosos que, há anos, trabalha para desestabilizar o país.

O ovo da serpente está chocando, não me surpreenderei se houver uma tentativa de golpe à lá Honduras. A resistência se dará pela ação da mídia independente, como este blog, de sindicatos e de movimentos sociais organizados. Por isso, sugiro aos blogueiros independentes que mantenham diariamente um post fixo no topo do blog para alertar sobre o golpismo em andamento.

Mas que misteriosos dossiês são estes?

Do Balaio do Kotscho

Violar o sigilo fiscal de qualquer cidadão é crime. Os responsáveis devem ser identificados, julgados e severamente punidos. Não importa qual seja a motivação ou a finalidade do ato praticado pelos meliantes. Ponto.

Feita a premissa, que nem seria necessária se não estivéssemos no calor de uma disputa eleitoral, o fato é que a novela dos dossiês sobre as declarações de imposto de renda de amigos e parentes ligados ao candidato José Serra virou o tema central da campanha presidencial no noticiário da imprensa nestes últimos dias.

Desde junho, quando surgiram as primeiras denúncias da quebra do sigilo fiscal de Eduardo Jorge, vice-presidente do PSDB, até o capítulo mais recente, que envolve Verônica Serra, filha do candidato, atribui-se a responsabilidade ao PT e à campanha de Dilma Rousseff.

Mas que misteriosos dossiês são estes? O que eles contêm de tão grave que possam influenciar o eleitorado? O que estes dossiês escondem que a gente não possa saber?

Até o momento em que escrevo, no meio da tarde desta quarta-feira, tudo é muito nebuloso, mal contado, esquisito. Sabemos agora que o sigilo de Verônica Serra foi quebrado por um contador que usou procuração falsificada, em setembro do ano passado, quando o quadro das candidaturas presidenciais nem estava definido.

Mesmo que estivesse, e que esta sandice tenha sido praticada por alguém ligado ao PT, que vantagem a campanha de Dilma levaria ao fazer um dossiê com dados fiscais de pessoas que a grande maioria da população nem conhece, nunca ouviu falar? Se alguém faz um dossiê, imagina-se que seja para divulgá-lo com o objetivo de prejudicar o adversário. Em algum momento isto foi feito?

Por que esta história só surge agora, na antevéspera das eleições, no momento em que todas as pesquisas eleitorais mostram ampla vantagem de Dilma Rousseff sobre José Serra, com possibilidades de vencer no primeiro turno? Quem ganha com isso?

O que leva a maior rede de TV do país a dedicar um terço do “Jornal Nacional” unicamente a este assunto, como se fosse mais um anúncio do fim do mundo?

Tudo faz lembrar o chamado “escândalo dos aloprados”, mais ou menos neste mesmo período da campanha eleitoral de 2006, quando pessoas ligadas ao PT foram acusadas de comprar um dossiê com denúncias contra tucanos. Até hoje ninguém sabe o que continha o tal dossiê, que só serviu para levar a reeleição de Lula para o segundo turno.

O único efeito prático do atual caso, até agora, foi ter dado um discurso a José Serra. Num encontro com prefeitos na noite de terça-feira, em São Paulo, o candidato da oposição mandou bala: disse que Dilma era uma “fraude”, acusou o PT de “sordidez” e chamou seus militantes de “fascistas”.

Para ele, o governo é uma “máquina partidária que ameaça e persegue as pessoas evidentemente a serviço de uma operação político-partidária e eleitoral”.

A aliança de Serra pediu no mesmo dia ao TSE a cassação do registro de Dilma. A direção do PT também decidiu entrar na Justiça para processar José Serra por acusações caluniosas. A candidata, por sua vez, chamou o tucano de “leviano” por cometer “calúnia para levar vantagem eleitoral”.

Do lado de fora, sem entender muito o que está acontecendo, o eleitorado acompanha os acontecimentos e só espera que a eleição presidencial não seja decidida no tapetão.

As quebras de sigilo fiscal: qual é o escândalo?

Celso Marcondes, na revista CartaCapital

Diante do caso que envolve a filha de José Serra e de outras quatro pessoas ligadas à campanha tucana, o PSDB entra com representação que responsabiliza a candidata Dilma Rousseff e vai ao ataque na TV. Por Celso Marcondes. Foto: Agência Brasil

Diante do caso que envolve a filha de José Serra e de outras quatro pessoas ligadas à campanha tucana, o PSDB entra com representação que responsabiliza a candidata Dilma Rousseff e vai ao ataque na TV

A Coligação Brasil Pode Mais, que sustenta o candidato à presidência José Serra, entrou com representação junto ao Tribunal Superior Eleitoral – TSE – na qual acusa a campanha de Dilma Rousseff de uso de máquina pública e abuso de poder político.

A ação foi motivada pelo caso da quebra do sigilo fiscal de pessoas ligadas à campanha tucana, entre elas, Verônica Serra, filha do candidato.

Caso o TSE confirme as acusações, a candidata do PT pode perder o registro de sua candidatura. Ou, se for eleita, ter o mandato cassado.

Ao entrar com o pedido, o PSDB parte do princípio que a quebra dos sigilos ficais dos citados é uma ação orquestrada da campanha petista. Os grandes jornais endossaram essa versão. Todos dão manchetes, páginas e mais páginas ao caso nesta quinta 2. O Estado de S.Paulo é o menos apressado: apesar de dar enorme destaque ao assunto, seu foco é a tentativa da Receita em abafar o caso. Já O GLOBO, não tem meias-palavras e não vacila ao incriminar o PT. Para o jornal carioca, estamos diante do escândalo “Aloprados II”. E a “democracia está em perigo”, como escreve Merval Pereira.

A apenas um mês das eleições teria surgido o chamado “fato novo” com o poder de reverter a queda de Serra nas pesquisas? O PT estaria a mostrar sua capacidade inenarrável de repetir estratagemas inescrupulosos e desastrosos?

Para Serra e a coordenação de sua campanha não há mais margens à dúvidas. O candidato engatou a quarta marcha e disse que o PT tem práticas “fascistas”. Até chorou ao falar no assunto. Disse que seus adversários “não têm caráter”. Fez um paralelo com o caso da quebra do sigilo do caseiro Francenildo dos Santos Costa, em 2006. Na Folha de S.Paulo, até Mônica Serra, sua esposa, que é geralmente recatada e avessa aos microfones, deu entrevista exclusiva. Disse que “isso é coisa de quem não tem família, um atentado à democracia” e lembrou das dificuldades que enfrentaram durante os períodos das ditaduras chilena e brasileira.

Diante de tamanha veemência é hora de parar e perguntar: mas, afinal, qual é a natureza e o tamanho do escândalo em curso?

De fato, o que já está provado é que a Receita Federal é devassável por qualquer mortal. Um serviço básico que ela oferece – e deve mesmo oferecer – ao contribuinte que por algum motivo perde a cópia de sua declaração de IR está sendo usado por meliantes. Munido de uma procuração – falsa ou verdadeira, não importa – um cidadão pode sair de uma das agências do órgão alegre e sorridente com as declarações de renda de outros nas mãos. A partir daí, pode sair ao mercado a oferecer os dados para clientes ou concorrentes que teriam interesse em conhecer tão preciosas informações. Estaria montado o já chamado “balcão de compra e venda de sigilos”. É valioso saber a real situação financeira de alguém com quem se está negociando. Tão valioso, que já foi preso um camelô na Rua Santa Efigênia, na capital paulista, comercializando um CD com os dados de algumas centenas (ou milhares?) de pessoas.

Sabe-se também que as informações sobre os quatro próceres tucanos estavam numa relação com outros 300 nomes, dos quais até aqui foram revelados apenas o da apresentadora Ana Maria Braga e do dono das Casas Bahia, Michel Klein.

Outra informação que veio à tona, e é igualmente preocupante, é a de que a senha de acesso de um funcionário da Receita, pelo menos na delegacia de Mauá, pode ser “socializável”, ou seja, usada por um grupo de colegas. Outro procedimento que contraria as mais evidentes práticas deste nosso mundo tecnológico.

Vai daí que é possível afirmar com o que já é público e comprovado, que a Receita Federal teve sua credibilidade seriamente abalada e que o tema exige medidas imediatas e radicais do governo. Ele está com a palavra, esse é o escândalo do momento.

O escandâlo e a campanha – O que não dá para afirmar é que está determinado o envolvimento da coordenação da campanha de Dilma Rousseff nesta história, por mais que hajam tucanos na relação das – até aqui – 300 pessoas que tiveram seus sigilos fiscais violados. Por maiores que sejam os esforços para que o caso se torne central na disputa eleitoral – o PSDB já foi para o ataque no seu horário do TRE da tarde desta quinta -, algumas perguntas básicas permanecem no ar. Se a pretensão é fazer um jornalismo digno, investigativo, é preciso encontrar respostas a elas antes da análise final dos fatos e das decorrentes conclusões. A saber:

1ª. Quem pediu ao contador Antonio Carlos Atella Ferreira que fosse à delegacia de Santo André, em nome de Verônica Serra, solicitar suas declarações de renda? Ele diz que não se lembra do nome, que “deve ser de algum advogado” e que recebe “entre 15 e 20 pedidos deste por dia”. Disse também que nem sabia que se tratava da filha de Serra.

2ª. Se foi alguém ligado à campanha do PT, porque faria isso a um ano atrás (dia 30 de setembro de 2009), quando Serra ainda disputava com Aécio Neves a indicação para a candidatura tucana e a campanha de Dilma sequer havia sido estruturada? ( a mesma pergunta vale para os casos de Eduardo Jorge e dos outros 3 enunciados, cujos sigilos foram violados em outubro passado).

3ª. Se foi gente ligada à campanha do PT, porque se utilizaria de alguém com o perfil do contador Atella (revelado nas várias e tragi-cômicas entrevistas que concedeu aos jornais) para que fosse o procurador de Verônica junto à Receita?

4ª. Com as declarações do IR de Verônica, Eduardo Jorge, Mendonça, Preciado e Ricardo Sérgio em mãos, que munição bombástica teria o suposto emissário da campanha de Dilma para desestabilizar o adversário (que em 30 de setembro de 2009 ainda não estava definido)? Ou seja, o crime de violação teria consequência tão séria para valer seu risco?

Até às 16h10 desta quinta 2, as respostas a essas perguntas estão no ar. Que o decorrer dos acontecimentos ajudem a respondê-las. Ou não.

Enquanto isso, é possível que o jornalismo tenha que conviver com as seguintes hipóteses, que já povoam a internet, a respeito da autoria do crime:

1ª. Foi a coordenação da campanha de Dilma que orquestrou tudo.

2ª. Foi alguém ligado ao PT que idealizou o golpe, sem orientação da direção da campanha.

3ª. É um esquema comercial, venda de dados para interessados em negócios.

4ª. É outro esquema comercial, venda de dados para jornalistas ou escritores interessados em política.

5ª. Foi a campanha tucana que armou, para incriminar Dilma.

6ª. Foi a pré-campanha de Aécio que armou, para se armar contra a pré-campanha de Serra.

Ou não?

Bernardo: Serra quer ganhar com os 7 votos do TSE

Da Agência Estado

O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, disse hoje, em Foz do Iguaçu (PR), onde acompanhou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o candidato do PSDB à Presidência, José Serra, está querendo ganhar a eleição com apenas sete votos dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Evidentemente que isso não é possível”, afirmou. O PSDB tenta suspender a candidatura de Dilma Rousseff (PT) em razão de denúncias de quebra de sigilo de pessoas ligadas ao PSDB por meio da Receita Federal.

Para Bernardo, a atitude somente vai manchar o currículo de Serra. “Ele começou a campanha querendo comparar currículos e vai acabar destruindo totalmente o currículo dele, que é até uma história de vida, 50 anos de vida pública”, disse. “Agora sentiu que está mal, não tem proposta, não tem discurso, está feio pra caramba na campanha, com uma cara horrível, os aliados não estão apoiando.” Segundo Bernardo, “aparentemente, ele desistiu dessa comparação de currículo”.

O ministro reconheceu que o caso do vazamento de dados é “muito sério”. “Estamos seguros de que a Receita vai fazer todas as apurações, vai levar esse caso para a Justiça, vai fazer punição de quem tiver que fazer”, afirmou. “Agora, é uma leviandade colossal o Serra ficar apontando aquele dedinho dele para a Dilma ou quem quer que seja.” Como Lula, Bernardo também usou metáfora futebolística para analisar a situação. “Ao invés de ir na bola, ele (Serra) resolveu ir na canela, no meio da perna do adversário”, disse. “Acho que ele vai se enterrar.”

Dados da Receita passeiam em DVDs no centro de São Paulo

Felipe Corazza, na revista CartaCapital

Entre filmes e jogos piratas, em várias ruas do centro da cidade, qualquer um pode comprar por 100 reais dados sigilosos de todos os contribuintes do país, em DVD e com garantia. Foto: Divulgação/Polícia Civil

Boa parte do sigilo dos contribuintes da Receita Federal passeia em DVDs pelo centro de São Paulo. Na Rua São Bento, entre os prédios do Banco do Brasil e da BM&F, o interessado não demora mais do que cinco minutos para colocar as mãos em milhões de registros sigilosos. Diversos vendedores de DVDs piratas – filmes, jogos de videogame e programas de computador – ficam pelos cantos, com os olhos sempre atentos ao menor movimento da Guarda Civil Metropolitana com seu temido “rapa”.

Qualquer um deles pode informar na hora: temos e custa 100 reais. Referem-se ao DVD que chamam “RF” – de Receita Federal. Nenhum dos CDs e DVDs fica, realmente, em exposição. Para reduzir os prejuízos com apreensões, os ambulantes exibem apenas pedaços de plástico ou papelão com algumas das capas. Feita a encomenda, um dos “funcionários de apoio” vai a um prédio nas imediações para buscar o produto. Talvez conforte saber que seus dados pessoais cadastrados na Receita não ficam expostos ao lado de um DVD de Fifa Soccer, mas o conforto para por aí.

Ao preço de 100 reais, pergunta-se ao vendedor quais são os dados contidos no DVD. Nome, telefone, CPF e endereço completo de cerca de 50 milhões de pessoas. Tudo dividido por estado, em arquivos de Access, programa que faz parte do pacote Office, da Microsoft. Até nisso, monopólio para as ferramentas criadas por Bill Gates. O rapaz demora dois minutos para buscar o dito produto. Eternidade para o vendedor, que muda de lugar três vezes neste curto tempo, driblando a polícia.

“A viatura tá subindo ou descendo?”, pergunta um outro pirata mais abaixo na rua. “Descendo”, responde o vendedor, nervoso. O carro da Guarda Civil vira antes de chegar ao local, imediatamente antes da chegada do “RF”. DVD na mão, dinheiro entregue, e se não funcionar? O vendedor pede uma caneta, anota o próprio nome e dois números de telefone celular em um pedaço de papel. “Se precisar de mais coisa, Junta Comercial, essas coisas, é só ligar”.

Os CDs e DVDs com informações sigilosas são vendidos, também, em outros locais tradicionais de pirataria em São Paulo, como a Rua Santa Ifigênia. Em tempo: não houve necessidade de procuração, ao menos para estes dados mais simples. O DVD comprado pela reportagem não foi copiado, nenhum dos dados foi gravado ou utilizado para qualquer fim e a mídia será entregue às autoridades competentes.

As dúvidas sobre o suposto documento da Receita

Por Marcus Netto, no Luis Nassif Online

Nassif , o documento apresentado pela Folha de São Paulo como sendo da Receita Federal é uma Fraude , assim como foi a Ficha da Dilma. Aquele formulário jamais sai da Repartição da Receita , o contribuinte ou seu procurador leva consigo apenas o canhoto localizado na barra do formulário e em nenhum momento existe reconhecimento de firma requerido por parte da Receita pois o Auditor Fiscal tem Fé Pública.

NO topo do documento apresentado pela Folha ainda consta um carimbo mencionando “FL 507″com um rubrica que não existe em nenhum procedimento da Receita Federal. O Formulário da Folha também apresenta discrepâncias grosseiras com o Original da Receita Federal , sendo inclusive o Logotipo da Receita mau colocado no topo da página .

Como um Formulário que é preenchido na hora pelo Auditor Fiscal , documento este que não sai da Repartição pode ter viajado até um Cartório para receber um carimbo fajuto de Tabelião ? Seria impossível .

Caso ela fosse representada por um Procurador , no ato do preenchimento do requerimento o nome que deveria constar lá seria o do Procurador e nunca da Sra. Veronica Serra. A procuração deveria estar anexada ao formulário e apresentada os documentos originais do requerente (procurador) que no ato do protocolo seria dado o aceite após a conferência dos dados .

Trata-se de uma Fraude Grosseira e ainda por cima o Sr. Serra deve ter perdido alguns poucos votos que poderia ter na Receita Federal pois todos os funcionários da Receita estão indignados com as calúnias levantadas contra a instituição que tem orgulho da sua probidade e do profissionalismo .

O Candidato ontem conseguiu a proeza de macular a Imagem da Receita Federal do Brasil e dos Correios em apenas 20 minutos de conversa de compadres com o mau caráter do William Waack . Dois órgãos Federais que sempre estiveram em alta conta junto a população . Lamentável a baixeza destes Tucanos Depenados.

Por veras

Entrei no site da Receita Federal e localizei o formulário para solicitação de cópia de declaração de IRPF, que pode ser comparado com o formulário que está sendo apresentado pela imprensa:

http://www.receita.fazenda.gov.br/Publico/formularios/SOLICITCOPIA.doc

As instruções são (parte):

O contribuinte pode requerer cópia de documentos apresentados e arquivados na RFB, inclusive a comprovação de pagamento (2ª via de Darf).

Documentação Necessária

Obs: Caso não seja o próprio contribuinte ou seu procurador que compareça à unidade da RFB para entregar a solicitação de cópia, o reconhecimento da firma do contribuinte/procurador é obrigatório.Com o reconhecimento da firma do contribuinte/procurador, não há necessidade da apresentação do documento de identidade do contribuinte/procurador.

Contribuinte Pessoa Física:

1

. Formulário Solicitação de Cópia de Documentos, devidamente preenchido em duas vias e assinado pelo contribuinte ou procurador habilitado;

2. Original ou cópia autenticada do documento de identidade do requerente, para conferência de assinatura.

O link para a página que dá as instruções é o seguinte:

http://www.receita.fazenda.gov.br/guiacontribuinte/copias.htm

Por Servidor da RFB

Nassif,

Sugiro retirar o post do ar, pois o autor desconhece totalmente os procedimentos da Receita Federal.

Em primeiro lugar, o formulário foi apresentado à imprensa pela Receita e não pelo solicitante das cópias.

Auditores Fiscais não trabalham como atendentes nos centros de atendimento. Seria um tremendo desperdício de dinheiro público alocar um servidor que recebe em média 16 mil reais naquela função.

O formulário pode ser preenchido na hora, caso o solicitante seja o próprio contribuinte dono das declarações. Ou pode ser apresentado preenchido, o que geralmente ocorre quando o contribuinte delega a um terceiro a retirada das cópias. Portanto, a afirmação de que o documento não sai da repartição está equivocada.

O formulário está disponível no site da Receita e, como afirmado anteriormente, pode ser impresso pelo contribuinte, o que justificaria o posicionamento incorreto do logotipo.

No caso da Verônica, a solicitação não teria sido feita por procurador, mas pelo próprio contribuinte. Nesses casos basta que a assinatura do solicitante seja reconhecida em cartório e não é necessária apresentação de procuração.

Maiores esclarecimentos podem ser obtidos aqui: http://www.receita.fazenda.gov.br/GuiaContribuinte/Copias.htm.

Por Leandro Arndt

Gente, eu já trabalhei no atendimento ao contribuinte da Receita Federal. O carimbo com o número 507 indica que ele está na folha 507 do processo administrativo disciplinar (PAD) contra as servidoras supostamente envolvidas (o carimbo é do escritório de corregedoria, ESCOR). O logo no lugar errado deve ter sido problema de impressão – de resto, o formulário é aquele mesmo. O formulário não é preenchido por nenhum auditor fiscal (aliás, quem normalmente trabalha no atendimento são os analistas tributários), e sim pelo contribuinte. O canhoto embaixo só é destacado e entregue ao contribuinte quando a declaração não é entregue na hora (as declarações de imposto de renda normalmente são entregues no ato). Não é necessária qualquer procuração para retirar a declaração, apenas a autorização que está naquele formulário, com firma reconhecida. Agora, um servidor público não pode negar fé a um documento público aparentemente autêntico (como esse formulário com reconhecimento da firma).

Mas, há um crime claro nesse caso: violação do sigilo do processo disciplinar contra as servidoras, com o claro intuito de prejudicar Dilma e favorecer Serra. Isso é crime e infração disciplinar sujeita à pena de demissão.

Se alguém quiser conhecer mais minha opinião (de ex-servidor da receita, agora justamente no órgão que normatiza e fiscaliza os processos disciplinares no governo federal, a CGU), pode acessar http://noticias.marxismo-online.com.br/politica-brasileira/campanha-de-serra-deu-bode-expiatorio

Por Flavio Patricio Doro

Querem ver um documento em branco? Eis o link para a impressão:

http://www.receita.fazenda.gov.br/Publico/formularios/SOLICITCOPIA.doc

O link se encontra na seguinte página:

http://www.receita.fazenda.gov.br/GuiaContribuinte/Copias.htm

Basta procurar o subtítulo “Contribuinte Pessoa Física”; a legenda do link é “Formulário Solicitação de Cópias de Documentos”.

O documento que aparece no jornal é bastante semelhante ao que se obtém pelo link. A maior diferença é a posição do símbolo da Receita. Há outra leve diferença na parte onde é feita a identificação do autorizado. O detalhe é que o documento, claramente, pode ser baixado do sítio da Receita (como qualquer um de nós pode fazer) e editado. O nome do autorizado parece ter sidofoi preenchido em um processador de texto. Então, se o documento foi editado, e especialmente se a edição foi feita em um software não nativo, como o BrOffice Writer, alguma alteração na formatação pode muito bem ter ocorrido.

Um detalhe: o autor do post afirma que o carimbo “FL 507″ não consta em nenhum procedimento regular da Receita.

Esclareço: no carimbo consta “MF/SRF/Escor 8a. RF”, significa “Ministério da Fazenda / Secretaria da Receita Federal / Escritório de Corregedoria da 8a. Região Fiscal”, e “fl 507″ significa que o documento faz parte de um processo – evidentemente, de investigação e correição. O papel foi carimbado no canto alto direito já na investigação, e não no balcão da DRF Santo André onde o atendimento teria sido realizado.

PT processa tucanos e TSE arquiva pedido de impugnação da candidatura de Dilma

Em torno dos vazamentos de dados da Receita Federal, avança a enxurrada de declarações, providências e cobranças

Avança a enxurrada de declarações, providências e cobranças sobre o vazamento de dados sigilosos da Receita Federal. Em Brasília, o PT decidiu processar o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, e o candidato do partido à Presidência, José Serra, por calúnia. Os tucanos, alegando enxergar dedo petista na cópia ilegal das informações, já haviam entrado com ação no TSE pedindo a impugnação da candidatura de Dilma Rousseff. O pedido foi arquivado.

Outra candidata à Presidência, Marina Silva (PV), entrou na briga pelos holofotes proporcionados pela notícia de que Verônica Serra, filha do tucano, teve seu sigilo violado na Receita. Marina gravou um depoimento que foi publicado no YouTube, cobrando explicações, investigações e uma posição do ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Antes mesmo de Marina divulgar seu vídeo, Mantega já havia declarado a jornalistas que não cogita, hoje, a hipótese de exonerar o secretário da Receita, Otacílio Cartaxo. Uma auditoria sobre os vazamentos vem sendo conduzida pelo próprio órgão, e os documentos da investigação interna já foram disponibilizados para o vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge – um dos tucanos cujos dados foram acessados irregularmente.

Além da auditoria, a Polícia Federal anunciou ter recebido nesta quinta-feira 2 os computadores da receita que foram supostamtente os utilizados para o acesso aos dados. A perícia foi autorizada pela Justiça Federal, mas a Receita nega veementemente que os equipamentos tenham sido retirados das agências. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos…

O Brasil oculto que a mídia não mostra

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou na quarta-feira (1/9) os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável 2010, um complexo de estudos que faz um amplo retrato do estágio de desenvolvimento do País, com as perspectivas de resolução de problemas históricos e os setores que devem merecer a atenção das políticas públicas.

Com tal arsenal de informações em mãos, qualquer jornalista consciente de sua profissão sairia correndo para questionar os candidatos à Presidência da República, aos governos dos Estados e ao Senado sobre seus planos de atuação.

Mas não no Brasil.

A imprensa brasileira apenas se referiu, sumariamente, a alguns aspectos do estudo, em suas edições online, e algumas emissoras de rádio e televisão fizeram citações durante os noticiosos noturnos, mas se resumiram quase exclusivamente ao aspecto ambiental.

Ameaça ao patrimônio

Os números apresentados pelo IBGE certamente estão desde quarta-feira sendo digeridos por analistas de investimento, seguradoras, bancos, sociólogos e cientistas políticos. Mas não parecem interessar aos jornalistas.

Nenhum dos chamados grandes jornais deu importância ao trabalho, com exceção do Estado de S.Paulo que, no entanto, pinçou apenas o trecho do estudo que se refere ao desmatamento do Cerrado, compondo uma página inteira com esse tema na seção “Vida”.

O levantamento revela que 48% da área total do Cerrado foi devastada até 2008, de acordo com os últimos dados disponíveis – o que coloca esse bioma entre os mais ameaçados de extinção. A causa principal do desmatamento é a exploração irracional da pecuária.

A preocupação com o Cerrado é válida, porque aquela região concentra importantes reservas de água doce, guardando as nascentes das principais bacias hidrográficas do país. Além disso, como a atenção da opinião pública se volta majoritariamente para a Amazônia, esse bioma vem sendo devastado sem que isso mobilize os ativistas ambientais e a imprensa.

Segundo fonte citada pelo Estadão, o Brasil ainda não tem uma política nacional para o problema. Pode-se acrescentar que o projeto de flexibilização da legislação florestal, que tramita no Congresso, é uma ameaça adicional a esse patrimônio. Mas há muito mais do que isso no estudo do IBGE.

Mais esforço

Destaque-se o esforço do jornalão paulista em esmiuçar pelo menos um capítulo do imenso trabalho do IBGE. Mas o estudo não se resume à questão ambiental, e, em tempos de campanha eleitoral, seria até mais interessante que a imprensa destrinchasse os dados sobre o desenvolvimento social do país, para instigar os candidatos e fazê-los assumir algum compromisso com programas realmente estratégicos.

O estudo do IBGE conclui, por exemplo, que o Brasil mantém o ritmo de crescimento econômico e evolui nos principais indicadores sociais, mas persistem desigualdades regionais e sociais.

A série de diagnósticos, iniciada em 2002, mostra uma evolução também na questão ambiental, mas revela que o Brasil ainda está longe de conter a degradação de ecossistemas e a perda de biodiversidade em seu território e de criar condições socioambientais adequadas nos centros urbanos.

Composto por 55 indicadores, o IDS 2010 permite analisar de forma transversal informações ambientais, sociais, econômicas e institucionais, formando um mosaico que retrata as condições reais de vida no Brasil e para onde o país caminha, em termos de desenvolvimento sustentável.

O tema é complexo demais para ser esgotado em apenas um dia, e exigiria algum esforço das redações para ser apresentado aos leitores em toda sua extensão. Mas uma coisa é mergulhar em determinado assunto, e outra é ignorar completamente sua existência.

O que ficou escondido

Os jornais poderiam, por exemplo, fazer um resumo, mostrando que avançamos na questão ambiental, mas ainda há muito por fazer; que há grandes mudanças nas questões social e econômica, que talvez expliquem a altíssima popularidade do atual presidente da República.

Poderiam fazer referência à queda do número de internações por problemas ligados a saneamento, à persistência de grande proporção de domicílios inadequados, ao aumento da violência nas grandes cidades, à redução da mortalidade infantil e ao novo perfil de consumo.

Passando ao largo dessas questões, qualquer debate sobre política, economia e outros temas fica preso ao terreno das cogitações e do declaracionismo. Mas a imprensa não parece interessada em mostrar o verdadeiro Brasil aos brasileiros.

O sucateamento da saúde pública de São Paulo

Avaliação de 350 mil usuários do SUS de São Paulo, efetuada pela própria Secretaria de Estado da Saúde (SES) relata ausência de vacinas do calendário básico em diversas unidades de saúde da Secretaria, analgesia durante o parto realizada com “panos quentes” e a demora absurda na realização de diversos exames complementares. No município de São Paulo, o atual prefeito Gilberto Kassab pauperizou a tal ponto alguns dos hospitais sob tutela da Autarquia Municipal, que há vários meses, por exemplo, não existem colchões em hospitais da Zona Leste da cidade. O artigo é do médico João Paulo Cechinel Souza.

João Paulo Cechinel Souza (*), na Carta Maior

Os mutirões da saúde, proclamados e anunciados por José Serra como sua principal plataforma de trabalho na Saúde, têm na falácia do discurso e na grande mídia seus sustentáculos operacionais. Para os seguidores de teorias inocentes e despudoradas, como se faz parecer o dito presidenciável, os mutirões são a salvação da lavoura em meio a uma grande seca. Traz a resolução dos mais diversos problemas, que cotidianamente enfrentamos no país nessa área, através da contratação de alguns profissionais, que sairiam Brasil afora com essa nobre tarefa.

Numa análise simplista pode parecer plausível. E é – para problemas pontuais, que, diga-se de passagem, são raros na assistência à saúde. Em sua maioria, cirurgias para correção de catarata e problemas de próstata (apenas para citar aqueles referidos por Serra com mais frequencia), necessitam de avaliação pré e pós-operatória imediatas, além, obviamente, do seguimento ambulatorial dos pacientes submetidos a tais intervenções.

Infelizmente, como já escrevemos e evidenciamos em artigo anterior (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16821), o acompanhamento prolongado e qualificado dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) não parece ser a preocupação do ex-governador de São Paulo.

Para se ter uma idéia melhor do que estamos falando, basta trazer aos leitores a avaliação de 350 mil usuários do SUS de São Paulo, efetuada pela própria Secretaria de Estado da Saúde (SES) – e cuja publicação só foi divulgada (tardiamente) após esforços oriundos de várias instituições e entidades vinculadas à Saúde no Estado, além de alguns órgãos de imprensa (http://www.saude.sp.gov.br/content/vuuecrupru.mmp). Resumidamente, a maior parte desses cidadãos relata ausência de vacinas do calendário básico em diversas unidades de saúde da SES, analgesia durante o parto realizada com “panos quentes” e a demora absurda na realização de diversos exames complementares.

No município de São Paulo, o atual prefeito Gilberto Kassab, seguidor e fiel escudeiro de Serra, pauperizou a tal ponto alguns dos hospitais sob tutela da Autarquia Municipal, que há vários meses, por exemplo, não existem colchões em hospitais da Zona Leste da cidade – uma das regiões de concentração das famílias mais carentes economicamente, enquanto a população atendida se aglomera dentro dos pronto-socorros como animais num abatedouro. A estratégia é clara – e antiga: o próprio Serra, junto com FHC, já a utilizou diversas vezes antes, durante sua gestão no Governo Federal, com os hospitais e universidades federais. Primeiramente, precariza-se ao máximo uma das “portas de entrada” da população aos serviços oferecidos pelo Estado (no caso, um pronto-socorro, hospital ou unidade básica de saúde).

Num segundo momento, aproveita-se a divulgação midiática da situação (demora no atendimento ou na realização de exames) e sua reverberação junto à população atingida pelo caso. Apresenta-se, então, a estratégia “milagrosa” – e sofismável, que há quase duas décadas permeia o dia-a-dia do atendimento à saúde no Estado de São Paulo: a entrega dessas instituições às Organizações Sociais (OSs).

Para se ter uma ideia da dimensão do problema, essas mesmas OSs, regulamentadas pela Lei 9637/98 (mas instituídas por Medida Provisória anterior), têm autorização para contratar (com dinheiro público) funcionários e serviços sem a necessidade de se realizar qualquer concurso ou licitação. Parece estranho, não? Mas assim têm funcionado em boa parte das instituições vinculadas à SES de São Paulo e que prestam atendimento por essas latitudes. A forma sui generis de administração de recursos oriundos do erário público encontra na alegação de que são entidades “sem fins lucrativos” a explicação nada plausível e totalmente incompreensível que Serra pretende utilizar de um lado a outro do país – e Geraldo Alckmin terminará de implantar em São Paulo. Os privilégios de alguns poucos diretores e gestores privados e o oferecimento à população, em contrapartida e como regra absoluta, de serviços de baixa complexidade tecnológica (que não realizam transplantes ou sessões de hemodiálise, por exemplo), já foi alvo de questionamento de diversas entidades e do próprio Ministério Público do Estado – que encontraram nessas aberrações administrativas uma forma quase perfeita de ludibriar uma série princípios legais ora vigentes no país, como a lei de licitações e o controle público dos gastos do setor.

Detalhe administrativo. Foi a isto que se resumiu a Saúde Pública paulista e paulistana sob a gerência demotucana. No mais, o ignominioso tratamento dispensado ao setor e a forma displicente de tratar aquele que deveria ser seu público alvo faz com que Serra continue utilizando álcool gel para higienizar suas mãos toda vez que chega perto desses cidadãos – e óleo de peroba no rosto toda vez que vai à televisão dizer que a Saúde foi, é ou será sua prioridade. De concreto, não deve conseguir mais do que o cantores genéricos para suas propagandas…

(*) João Paulo Cechinel Souza é médico especialista em Clínica Médica, residente em Infectologia do Instituto de Infectologia Emílio Ribas (São Paulo) e colaborador da Carta Maior.

Novo escândalo atinge governo tucano no Rio Grande do Sul

Ação conjunta do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, do Ministério Público de Contas e da Polícia Federal aponta existência de uma quadrilha no interior do Banco do Estado do RS (Banrisul). A força tarefa constituída pelos três órgãos investiga a ação de uma suposta organização criminosa, integrada por um alto funcionário do banco, agências de publicidade e prestadores de serviços, que pode ter causado um prejuízo de mais de 10 milhões de reais nos últimos 18 meses. Três pessoas foram presas em flagrante por peculato e lavagem de dinheiro. A PF encontrou em suas residências e empresas cerca de R$ 2 milhões sem origem identificada (foto).

Marco Aurélio Weissheimer, na Carta Maior

A Polícia Federal, o Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul e o Ministério Público de Contas deflagaram nesta quinta-feira (2) a Operação Mercari que apura possíveis desvios de recursos da área de marketing com prejuízo para o Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul). O nome da operação, Mercari, vem do latim: “comprar para vender”, “comércio”. A força tarefa constituída pelos três órgãos investiga a ação de uma suposta organização criminosa, integrada por um alto funcionário do banco, agências de publicidade e prestadores de serviços, que pode ter causado um prejuízo de mais de 10 milhões de reais nos últimos 18 meses.

Segundo nota divulgada pela Superintendência da Polícia Federal no RS, “o esquema se daria através de superfaturamento na produção de ações de marketing contratadas junto a agências, as quais eram terceirizadas a empresas que, por sua vez, subcontratariam os reais executores dos serviços a preços muito menores do que aqueles cobrados do banco”.

A Justiça Estadual, acionada pelo MP Estadual, autorizou o compartilhamento de informações com o MP de Contas que, por sua vez, requereu ao Tribunal de Contas do Estado uma inspeção especial no Banrisul. A Polícia Federal atua na operação por causa da existência de indícios de crimes de evasão de divisas, ocultação de bens e valores e sonegação fiscal. A PF cumpriu hoje, atendendo determinação judicial estadual, 11 mandados de busca e apreensão, sendo 10 em porto Alegre e um em Gravataí, com a participação de 76 policiais.

Três suspeitos foram presos. Segundo a jornalista Adriana Irion, de Zero Hora, os nomes são: o superintendente de marketing do Banrisul, Walney Fehlberg, um funcionário da agência SL&M, Gilson Storke, e um diretor da DCS, Armando D’Elia Neto. Eles foram presos em flagrante por peculato e lavagem de dinheiro. A PF encontrou em suas residências empresas cerca de R$ 2 milhões sem origem identificada.

TCE apontou irregularidades nos gastos do Banrisul
O período abrangido pelas investigações da Operação Mercari (18 meses) pega em cheio a gestão de Fernando Lemos na direção do banco. Considerado da “quota do PMDB” e, mais particularmente, do senador Pedro Simon, Lemos esteve a frente de uma megaoperação publicitária do governo tucano que despejou milhões de reais em anúncios e campanhas.

Cabe lembrar que a despesa total do governo Yeda Crusius com publicidade aumentou consideravelmente a partir de 2008: cresceu 23% acima da inflação. Foi uma das receitas para enfrentar os escândalos e denúncias de corrupção. O governo tucano abriu os cofres e despejou publicidade na mídia gaúcha. Em dois anos, foram gastos em propaganda (a preços médios de 2008) cerca de 306 milhões. Deste total, mais de 200 milhões foram gastos pelas estatais. Mais de 80% deste valor (cerca de 164 milhões de reais) vieram do Banrisul.

Segundo análise do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul, relativa aos anos de 2007 e 2008, dos 164 milhões gastos pelo Banrisul em publicidade, menos da metade foi legalmente autorizada. Cerca de 90 milhões gastos pelo banco em publicidade contrariaram a Constituição Federal e as LDOs (Leis de Diretrizes Orçamentárias) de 2007 e 2008. Neste período, apenas 8% da despesa com publicidade se enquadra no item “publicidade legal obrigatória”. Cerca de 92% foram gastos com publicidade institucional, ou seja, propaganda do governo.

Em 2009, o governo Yeda gastou 201 milhões em publicidade – quase três quartos do montante gasto em obras (271 milhões). Do total gasto em propaganda, quase a metade (99,5 milhões), veio do Banrisul. Cabe observar que só havia autorização orçamentária para o banco estatal despender 50 milhões, 49,5 milhões foram gastos ilegalmente, contrariando o disposto no artigo 149, § 7º da Constituição estadual.

Além da análise desses gastos, o Tribunal de Contas também realizou uma inspeção especial no banco a pedido do Procurador Geral do Ministério Público de Contas, Geraldo Da Camino. Coincidência ou não, em meio a esse processo de investigação, Fernando Lemos deixou a direção do banco no início deste ano, sendo premiado pela governadora Yeda Crusius com um cargo de juiz no Tribunal de Justiça Militar.

“Hoje é o Detran, no passado foi o Daer. Depois foi o Banrisul, depois a CEEE”

As denúncias envolvendo o Banrisul atualizam um dos temas mais polêmicos e explosivos do governo Yeda Crusius: as denúncias feitas pelo vice-governador Paulo Feijó (DEM) sobre irregularidades na gestão do banco e a famosa conversa que manteve, no dia 26 de maio de 2008, com o então chefe da Casa Civil do governo estadual, Cezar Busatto, quando este afirmou, entre outras coisas, que o Banrisul seria usado para financiar campanhas eleitorais do PMDB. As palavras de Busatto:

“Hoje é o Detran, no passado foi o Daer. Quantos anos o Daer sustentou? Na época das obras polpudas. Depois foi o Banrisul, depois a CEEE. Se tu vai ver é onde os partidos querem controlar. Não querem saber se é área social. Onde têm as possibilidades de financiamento, pode ter certeza que tem interesses poderosos aí controlando. Então, é uma coisa mais profunda que está em jogo, né?”

“Eu não tenho dúvida de que o Detran é uma grande fonte de financiamento (do PP). Não é verdade? E o Banrisul com certeza, nesses quatro anos (…) O custo que teria ela (a governadora) ter que romper com Zé Otávio, Pedro Simon…”

Mas as denúncias de Feijó não se limitaram a este episódio. Em maio de 2008, um dia depois de defender a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, na Assembléia Legislativa, para investigar irregularidades envolvendo contratos do Banrisul, o vice-governador Paulo Feijó denunciou o desvio de cerca de R$ 18 milhões dos cofres públicos. Segundo Feijó, esse dinheiro teria saído do banco para a Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sem ser contabilizado.

Segundo Feijó, em 2006, o banco teria repassado R$ 24 milhões para a Faurgs. No mesmo período, denunciou, foi contabilizada a entrada de apenas R$ 6 milhões na fundação. Uma empresa terceirizada que prestaria serviços exclusivamente para a fundação teria recebido o restante. Feijó disse que sua denúncia estava baseada em um documento resultante das investigações feitas pelo Ministério Público. Ele entregou esse documento à governadora Yeda Crusius, mas não teria obtido retorno. Feijó disse na época que que tomou conhecimento das irregularidades ainda durante o governo de Germano Rigotto (PMDB), mas que, na época, era apenas líder de uma entidade sindical (a Federasul). Indagado sobre as semelhanças entre as denúncias de irregularidades no Banrisul e as verificadas no Detran, Feijó afirmou na época: “se não são iguais, são muito parecidas”.

O patriotismo: entre a realidade e a patriotada

Talvez a palavra patriotismo tenha vez quando seu significado não implique discriminações: a ninguém é dado ser mais patriota por atender ao chamamento do clarim, ou ao apito de uma “fábrica de tecidos”(como reclamava da amada operária os versos de Noel Rosa).

Enio Squeff, na Carta Maior

Em tempos não muito recentes, o Sete de Setembro, Dia da Independência do Brasil, era um feriado de diversão pública, principalmente para as crianças: havia o desfile das tropas com suas bandas reluzentes, os armamentos – tanques de guerra, carros blindados ou mesmo a cavalaria – com cavalo e tudo, como nos filmes de bang-bang – e se imaginava, então, que o Brasil só existia por sua pujança também militar. Era uma ilusão, mas, na época, os militares do exército, da marinha e da aeronáutica andavam fardados pelas ruas. Não havia por que estranhá-los em seus galões: faziam parte da sociedade civil. As coisas só viriam a mudar, com o Golpe Militar que impôs a Ditadura. De um dia para o outro, instaurava-se a desconfiança mútua. De um lado, os paisanos; de outro, os milicos. Numa música censurada, de Chico Buarque de Holanda, o sentido de uma das frases definia a novidade: o regime militar tinha, literalmente, inventado o pecado. E o “patriotismo”, principalmente por parte de alguns civis que aderiram ao golpe, passou realmente a cumprir o que dissera séculos antes o inglês Samuel Johnson: seria o último reduto dos canalhas.

Talvez, nem tanto ao céu e nem tanto à terra. Millôr Fernandes parece ter definido bem as coisas, já ao fim da Ditadura: não havia por que pensar que um militar fosse mais patriota do que um civil, qualquer civil – o trabalhador, pai de família, cidadão simplesmente honesto. O hábito, em suma, não faz o monge. Quase todos os intelectuais, artistas, cientistas, professores ou simples operários nunca pensaram diferente. Quando o Barão do Rio Branco – que era monarquista – perguntou a Dom Pedro II, recém destituído do poder, o que fazer com a emergência da República, o Imperador, numa frase, legou o que se pode considerar uma espécie de lição cívica para o futuro: o Barão que continuasse, com o seu talento, a servir ao seu país ( já era diplomata). Sub-repticiamente, o que o antigo monarca queria dizer era que, acima dos regimes ( e os militares que o depuseram não chegaram a instaurar uma ditadura militar, como fariam depois de 64), o que importava era a “pátria”, a pátria brasileira. Mais importante do que o imperador, era o Brasil.

Há um certo pudor em se reivindicar o patriotismo hoje em dia, seja para o que for. Depois de seu quase achincalhe pela Ditadura – que poucas vezes contrariou os Estados Unidos, quando então o que era bom para os americanos, tinha, compulsoriamente de ser ótimo para os brasileiros – o conceito como que passou a sofrer certa sanção pública. Ninguém estranhava, a propósito, no século XVII, a definir o que fazer com o Brasil – que os holandeses julgavam ter como se apoderar – que o Príncipe Maurício de Nassau se reportasse à Holanda, não pelo nome, mas pela expressão “pátria”. Era natural que fosse assim: a Holanda lutava por sua independência contra a Espanha e ninguém relevou muito que, séculos mais tarde, a palavra pátria assomasse, não apenas nas considerações de um compositor, como o húngaro Franz Liszt; ou que, tempos depois, tanto Adolf Hitler, quanto Winston Churchil, a invocasse, cada um a seu modo, para se justificar perante seus respectivos países. Villa-Lobos, Cláudio Santoro, Camargo Guarnieri – para só citar alguns – fizeram música autoproclamada “nacionalista”.

Os mexicanos Diego Rivera e Frida Kalo ou os brasileiros Cândido Portinari e Alfredo Volpi, nunca se incomodaram que os definissem a partir da identidade com seus respectivos países. Talvez considerassem um exagero que os adjetivassem como “patriotas”, por buscarem o nacional. Mas certamente não julgavam descabido que alguém assacasse eventualmente o termo para elogiá-los. Pelo que ficou de suas obras, eles não se refugiaram em nenhuma consideração “patriótica” para fazerem o que fizeram. Assim também com outros artistas e intelectuais que buscaram uma identidade nacional. No entanto, os militares de 64, no uso constante da palavra “patriotismo” – justificaram muitos atos que eram exatamente o oposto do que talvez se entenda como tal. Ao desmontarem núcleos de inteligência, de tecnologia e de reflexão nas universidades, pela expulsão sistemática de professores e de intelectuais de suas cátedras – muitos artistas, mas principalmente os mais conceituados cientistas – a ditadura militar demonstrou o oposto: o impatriótico que está incutido no “entreguismo” – uma palavra pouco usada hoje em dia, mas que diz bem quando um país se entrega ao comando ( interesses) do outro. E que, até prova em contrário, quase nunca beneficia a nação, o povo, e a comunidade devidamente “apropriada”.

O Sete de Setembro já não anima muita gente. Olavo Bilac que se notabilizou por sua obra poética, mas também por ter advogado o serviço militar obrigatório, talvez nunca cogitasse de não ser chamado de patriota – mas quando imaginou que todo o brasileiro, ao atingir a maioridade, devesse se alistar compulsoriamente nas Forças Armadas, tinha como esperança – não de todo fraudada afinal – de que o capiau do interior pudesse sair de sua ignorância ou mesmo de seu analfabetismo, ao se alistar fosse em que Arma fosse.

É estranho como as datas e as palavras evoluem ou se transformam. Na musiquinha infantil que talvez já não se cante nas escolas primárias – aquela que proclama “marcha soldado, cabeça de papel/ se não marchar direito, vai preso no quartel” – há uma estrofe que diz “O quartel pegou fogo, vigia deu sinal/ acode, acode, acode a bandeira nacional”

A bandeira no lugar das vidas ou do próprio prédio do quartel? Exatamente. E assim na canção infantil, como no famoso quadro de Pedro Américo sobre a batalha do Avaí, na Guerra do Paraguai. Na tela imensa, que ocupa uma parede inteira do Museu Nacional de Belas do Rio, os militares de ambos os países, em alguns trechos, lutam menos entre si, do que em torno das respectivas bandeiras.

Nada de ilusões de que não fosse ou não seja assim, evidentemente. Há muito mais de simbolismo nas guerras do que desconfiam nossos corações pacifistas: o soldado russo que invadiu o Reichstag alemão, em Berlim, destruído pelas bombas e que fincou a bandeira soviética no topo cai-não-cai do edifício, sabia que entrava para a história como herói, como protagonista do último capítulo de uma tragédia imensa. O mesmo que aconteceu com a famosa foto dos soldados americanos a erguerem a bandeira americana em Ivo Jima, na guerra vitoriosa contra o Japão: a magnifica fotografia de Joe Rosenthal fez tanto sucesso, que se transformou num dos monumentos mais cultuados dos Estados Unidos – um dos primeiros países, a divulgar que a globalização implicava o fim das identidades nacionais. E que o tal patriotismo não tinha sentido algum(?).

Em ambos os casos, as bandeiras são mais que simbólicas: elas tremulam como parte de uma situação em que o patriotismo, na verdade, é o que mais conta e faz. E isso desde os tempos imemoriais: as legiões romanas tinham seus estandartes – eram eles que os soldados conduziam, como vanguarda simbólica de suas vitórias ( “acode, acode, acode a bandeira nacional”). Caso emblemático, a propósito, se dará nos primórdios da revolução francesa de 1789: acossado pelos monarquistas da Vendéia ( província da França que resistiu à implantação da Primeira República), um menino, de nome Barra, com não mais de 13 anos, entre render-se e entregar a bandeira da República, preferiu defendê-la: morreu trespassado, literalmente fincado ao pano