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Quem canta seus males, espanta

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felicidade

 

Por Marcos Aurélio Ruy, colaborador do O outro lado da notícia

Há o dito popular de que “quem canta seus males espanta”. Por isso no título deste artigo, o segundo de uma breve análise do tema felicidade na música popular brasileira, resolvi colocar uma vírgula na frase para ver como na nossa língua algumas vezes apenas uma vírgula pode mudar completamente o sentido de uma frase. Ainda no fim do ano passado prometi este novo artigo com o referido tema. Essa promessa foi feita na resenha do livro “A História da (in)Felicidade”, de Ricardo Schoch. A demora em cumprir essa tarefa é por estar de férias e dessa maneira quase totalmente desplugado.

Bem. Chega de lero-lero e vamos ao que realmente interessa. Como no primeiro artigo sobre a questão com o título “Quem tem medo de ser feliz?” – título baseado em jingle político de Chico Buarque para a primeira campanha de Lula à Presidência da República. Que naquele momento já colocava a esperança de um futuro melhor na busca da felicidade para todos contra o medo apregoado por uma direita cada vez mais ressentida pelas mudanças vêm ocorrendo no país nos últimos anos. Óbvio que ainda tem que mudar muito e mais aceleradamente, mas já houve mudanças substanciais.

Oswaldo Montenegro coloca o dedo na ferida quando se contrapõe às promessas religiosas de felicidade futura ou após a morte. Ele contrapõe a tese de que “quem tem medo Deus adora”, com afirma em seus versos e reafirma em seu refrão: “eu quero ser feliz agora”. Já na interpretação de Pitty a canção de Rosana Ferrão e Paul Ralphes deseja “ver o sol brilhar sem parar” e pergunta “será que é pedir demais?” Propostas complementadas pelo gênio de Gonzaguinha na música “Redescobrir” onde assombra-nos ao cantar que “Não tenha medo meu menino povo, memória!/Tudo principia a própria pessoa, beleza!/Vai como a criança que não teme o tempo, mistério/Amor se fazer é tão prazer que é como se fosse dor, Magia!”, numa evocação da luta aflita contra a opressão fascista de que muitos nossos artistas se fizeram vozes. Com a crença no futuro que virá com em “O Que o Que É”, dele próprio em que diz “que a vida devia ser melhor e será” na certeza do futuro que construímos no presente coma juventude que não foge da luta e Gonzaguinha nunca fugiu.

Outros que estiveram na linha de frente da resistência à obscuridade que só trouxe infelicidade ao país Beto Guedes e Ronaldo Bastos com a canção “O Sal da Terra” evocaram a necessidade de união e de conscientização política para chegarmos ao objetivo final da liberdade e com isso começarmos a construir o mundo novo para a felicidade ser plena. A letra da música diz “vamos precisar de doto mundo pra banir do mundo a opressão, para construir a vida nova, vamos precisar de muito amor, a felicidade mora ao lado e quem não é tolo pode ver” e complementa sua visão de felicidade ao afirmar que “para juntar melhor nossas forças é só repartir melhor o pão, recriar o paraíso agora para merecer que vem depois”. Poesia atualíssima quando assistimos famílias pobres desalojadas de suas casas à força pela polícia que lhes deveria proteger e ainda assistem suas casas destruídas para favorecer a especulação imobiliária. Assim como desabam prédios por descaso dos seus responsáveis no centro do Rio de Zé Ramalho ao afirmar que “toda pessoa merece felicidade”, em “Um Pequeno Xote”. Já Chico César canta o “amor que é ausência e razão de sofrer. Transforme-se em bem-querer então esse bem-querer cresça”, na música “Samba da Pessoa que Quer Ser Feliz”, nesse querer amar e ser amado e que todos tenham condições de viver bem. Alguém já desejou algo parecido?

“Juventude se abraça, se une pra esquecer um feliz aniversário pra mim ou pra você”, estes versos de Edgar Scandurra falam de uma cidade símbolo de união de interesses de amigos em busca da cidade ideal cantada na música de Chico Buarque “Minha Canção”, um libelo à generosidade e solidariedade em busca de um mundo feliz e igual, na qual afirma que “Faz-se a certeza minha canção, réstia de luz onde dorme o meu irmão”. Para estes autores a felicidade só pode ser conquistada com a felicidade compartilhada. Assim como Zé Geraldo na bela “Viração” canta “quanta gente abriu espaço preparando viração”, uma viração para uma nova vida, para um mundo feliz. Herbert Vianna e Bi Ribeiro, dos Paralamas do Sucesso, em “Alagados” também afirmam “e a cidade, que tem braços abertos num cartão postal com os punhos fechados da vida real lhes nega oportunidades mostra a face dura do mal”, já denunciando uma realidade desumana em que separa pessoas por classes sociais e que a felicidade plena consiste em termos o contrário disso. E Gilberto Gil complementa em “A Novidade” cantando que “a novidade era a guerra entre o feliz poeta e o esfomeado estraçalhando uma sereia bonita despedaçando o sonho”, certamente a sereia da felicidade acessível a todos.

Ary Barroso e Oduvaldo Vianna na “Canção da Felicidade” afirmam que a “senhora dona felicidade talvez resida na mesma rua no mesmo bairro desta cidade”, vendo a cidade como espaço público e livre onde podemos nos encontrar com os amigos e a felicidade. Já Moraes Moreira e Fausto Nilo cantam que “felicidade é uma cidade pequenina, é uma casinha, é uma colina, qualquer lugar que se ilumina quando a gente quer amar”. Desnecessário comentar. Enquanto Os Mutantes encantam a todos com a “Balada do Louco” ao cantar “se eu sou louco por eu ser feliz. Mas louco é quem me diz e não é feliz. Eu sou feliz”. Marisa Monte canta a canção de Argemiro Patrocínio, “Lágrimas e Tormentos” onde diz que “e hoje a minha vida é um carrossel de alegrias e como se não bastasse, estou amando de verdade, me perdoa se eu me excedo em minha euforia, mas é que agora sei o que é felicidade”. Uma visão num momento de vida democrática como jamais houve no país.

Zeca Baleiro vê em “Como Diria Odair” que “a felicidade é uma coisa tão difícil, tão difícil de conseguir”, mas pela qual temos que lutar ele deixa claro nas entrelinhas, ao mesmo tempo Lenine canta que “não é só felicidade que tem fim na realidade, a tristeza também tem” numa contraposição à bela “A Felicidade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes que dizia “tristeza não tem fim, felicidade sim”, num tempo duro na vida do país em vigor a ditadura que massacrou as cabeças pensantes do país ou ao menos tentou massacrar. A versão de Lenine mostra que não há mal que dure para sempre. E para mostrar que o homem é um ser social Paulo César Pinheiro e Baden Powell relatam um drama ao afirmar que “infelizmente eu nada fiz, não fui feliz nem infeliz. Eu fui somente um aprendiz daquilo que eu não quis”.

Na música “O Habitat da Felicidade” Lula Queiroga e Lucky Luciano cantam que “felicidade não precisa de culpa, felicidade é o alívio da dor, felicidade em higiene mental, exercício da alma”. Já Sueli Costa canta que “feliz esta alma que vive comigo, que vai onde eu sigo o meu coração”, em sua canção “Alma”. Para ambas as canções a felicidade consiste no conjunto harmonioso do corpo e alma estarem sempre bem alimentados, ou seja, com diriam os Titãs “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, na música “Comida”. Marcelo D2 explana em “A Casa” que “pra gente ser feliz eu só preciso de um teto”, parece pouco para um país com milhares de déficits habitacionais, mas não é porque quem não tem é que sabe a dureza que é viver sem um teto. Nesse mesmo contexto Os Racionais cantam que “o valor da minha vida é o valor do meu trabalho”, na canção “Até Me Emocionei” e em “Vida Loka 2” dizem que “o caminho da felicidade ainda existe, é uma trilha estreita em meio a selva triste”.

Para finalizar este artigo Milton Nascimento e Ronaldo Bastos cantam em “Cais”: “para quem quer se soltar invento o cais, invento mais que a solidão me dá, invento lua nova e clarear, invento o amor e sei a dor de me lançar” concluem “eu queria ser feliz”. Em “Jura secreta”, Sueli Costa e Abel Silva dizem que “só uma palavra me devora, aquela que meu coração não diz só o que me cega, o que me faz infeliz é o brilho do olhar que não sofri”, num entendimento da vida real e do sonho caminhando lado a lado sempre em busca da felicidade já. Por isso repito Oswaldo Montenegro: “quero ser feliz agora”. E finalizo com a música “Felicidade Urgente”, de Cláudio Zoli e Ronaldo Lobato Santos, na qual cantam: “pouca gente tem o direito de ser feliz. O tempo passa de repente, felicidade urgente para todos, para todos nós”.

Alguns vídeos:

Felicidade Urgente (Cláudio Zoli e Ronaldo Lobato Santos)

Nunca mais eu vou voltar
Essa estrada é meu destino
Vou seguir a minha vida
Vou achar o meu lugar
Louco pra viver em paz
Eu procuro paraísos
Em lugares esquecidos, em viagens ao luar
Eu vi a cor, sonhos
E sei de cor o que é
Melhor pra mim
A vida me fez desse jeito
O mundo que é tão imperfeito
Pouca gente tem direito a ser feliz
O tempo passa de repente
Felicidade urgente para todos
Para todos nós
Quero te fazer feliz
Quero ser feliz também
Com você tá tudo bem
Não vou mais olhar pra trás
No caminho do infinito
Encontrei minha razão
E me perdi no seu olhar
Eu sempre quis muito mais
Mais do que era preciso
Quis milagres absurdos
E delírios de prazer

Jura Secreta (Sueli Costa e Abel Silva)

http://www.youtube.com/watch?v=tAhY6g5cDBU

Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei

Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que eu quero me suprime
De que por não saber ainda não quis

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri

Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei

Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que eu quero me suprime
De que por não saber ainda não quis

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri

Eu Quero Ser Feliz Agora (Oswaldo Montenegro)

http://www.youtube.com/watch?v=38PTGnf85SI

Se alguém disser pra você não cantar
Deixar seu sonho ali pro um outra hora
Que a segurança exige medo
Que quem tem medo Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora
Que você volte pro rebanho.
Não acredite, grite, sem demora...

Eu quero ser feliz Agora

Se alguém vier com papo perigoso de dizer que é preciso paciência pra viver.
Que andando ali quieto
Comportado, limitado
Só coitado, você não vai se perder
Que manso imitando uma boiada, você vai boca fechada pro curral sem merecer
Que Deus só manda ajuda a quem se ferre, e quando o guarda-chuva emperra certamente vai chover.
Se joga na primeira ousadia, que tá pra nascer o dia do futuro que te adora.
E bota o microfone na lapela, olha pra vida e diz pra ela...

Eu quero ser feliz agora

Se alguém disser pra você não cantar
Deixar seu sonho ali pro um outra hora
Que a segurança exige medo
E que quem tem medo deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora, que volte pro rebanho.

Não acredite, grite, sem demora...

Eu quero ser feliz Agora

 

 

Brasil e México vão renegociar acordo automotivo

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Ministros Fernando Pimentel e Antonio Patriota concedem entrevista coletiva no Palácio do Planalto sobre a renegociação do acordo automotivo entre Brasil e México. Foto: Ichiro Guerra/PR

Do Blog do Planalto

A presidenta Dilma Rousseff e o presidente Felipe Calderón acertaram hoje (3), por telefone, que serão revistos os termos do acordo automotivo entre Brasil e México. O governo brasileiro, segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, defende o aumento do conteúdo regional na produção dos veículos nos dois países e a ampliação do acordo para que sejam incluídos caminhões, ônibus e utilitários, e não apenas carros de passeio. Para o ministro, a mudança poderia “melhorar o saldo que hoje é totalmente negativo para o Brasil”.

“O acordo é desequilibrado, mas há um enorme interesse do México em mantê-lo”, disse Pimentel.

 

 

No telefonema à presidenta Dilma, o presidente do México mostrou-se disposto a rever o acordo automotivo, informou o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. Segundo ele, as negociações começam já na próxima semana.

“Houve a reafirmação de engajamento de uma relação muito próxima, política e econômica, entre os dois países”, disse Patriota.

 

 

Irán: el 'cuento' occidental de las mil y una amenazas

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O STF sobre o CNJ: a discreta revolução

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A decisão do Supremo é mais um episódio deste movimento histórico, que tem enfrentado e, graças a Deus, vencido, a reação enfurecida dos interesses externos e dos opressores nacionais. Não podemos perder essa vitória, aparentemente menor, mas essencial.

 

Mauro Santayana, na Carta CMaior

Embora tenha sido apertada, a decisão de ontem do Supremo Tribunal Federal, confirmando a competência constitucional do Conselho Nacional de Justiça, de atuar ex-officio, como claramente lembrou o ministro Joaquim Barbosa, inicia uma discreta, mas profunda, revolução no sistema judiciário brasileiro. 

Todos os poderes do Estado devem estar submetidos ao rigor da ética, mas a ausência dessa atitude no poder judiciário é mais danosa. As sociedades se submetem à Justiça. A ela cabe dizer o que é certo e o que é errado, embora não se encontre ungida pelo mandato do Absoluto. A justiça se exerce, como se exercem todas as atividades humanas, na busca de uma verdade provável entre as dúvidas.

Mas o fundamento da justiça, para lembrar a definição admirável de Cícero, é a boa fé nos contratos. Em todos os contratos, e mais ainda no pacto entre o magistrado e as sociedades nacionais a que serve. Esse compromisso dos juízes lhes exige ter as mãos e as mentes sempre limpas, e servir com absoluta independência e lisura, conforme o seu saber e a sua consciência. Tal contrato com a sociedade não lhes é imposto, porque a magistratura não se forma de maneira compulsória, mas assumido voluntariamente por todos aqueles que decidem ingressar nos corpos judiciais.

Os juízes podem errar, e erram frequentemente, mas não podem faltar à boa fé em suas decisões. De certa forma, todos nós somos juízes, e atuamos em nossas relações sociais examinando o comportamento de nossos eventuais parceiros nos negócios, na ação política, na amizade e no amor. Toda escolha, até mesmo dos sapatos a cada manhã, é um ato de juízo - e não é por acaso que a expressão juízo signifique uma escolha reta. O sistema judiciário, criado e mantido pelos estados nacionais é a suprema expressão dessa faculdade humana. Os juízes, valha o truísmo, devem orientar-se também pelas leis da lógica, e estabelecer suas sentenças de forma a que possam ser cumpridas – e, assim, impedir einer Grossen Konfusion, a que fez referência, bem humorada – o que nele é raro – o Ministro Gilmar Mendes.

A nossa justiça, de modo geral, tem sido uma justiça de classe. Desde suas origens medievais, em nossa formação ibérica, foi uma justiça de senhores contra os servos, dos santos contra os pecadores, dos reis contra os vassalos e, nos tempos modernos, dos patrões contra os empregados, dos ricos contra os pobres. Os juízes dependiam, e ainda dependem, de um juízo além de si mesmos, o dos grupos que formam e comandam os Estados - e legislam.

O Zeitgeist é também uma construção do poder. A decisão de ontem se conforma ao novo desenho do poder nacional. Aceitem os excelsos pensadores acadêmicos, que refletem o interesse das elites oligárquicas, a verdade de que, mal ou bem, com as infecções morais aqui e ali, o povo brasileiro está construindo nova sociedade nacional. A partir da Revolução de 30, com avanços e retrocessos, a mobilidade social tem sido impetuosa em nosso país. Os ricos, que sempre dispuseram de tudo, a partir do fácil acesso ao ensino, não podem saber o que sentimos, os que viemos do chão do povo, ao ver uma ex-favelada, Graça Foster, assumir o comando da mais importante empresa nacional. É como se, de repente, nos devolvessem tudo o que nos negaram, da bicicleta de criança a um emprego decente – sempre reservados aos outros, quase que por direito divino.

A eleição do retirante Lula, a decisão nacional de eleger Dilma, uma mulher que se rebelou, na juventude, contra a injustiça social, e a ascensão das mulheres a todos os poderes republicanos, ao quebrar os velhos paradigmas, abriram esse caminho, que não podemos mais abandonar, e isso exige estrita vigilância no comportamento do governo. É oportuno, dentro desse raciocínio, registrar a concisão e a força dos votos das ministras Carmem Lúcia e Rosa Weber na decisão do STF, ontem. Se associarmos a democratização do poder à moralização rigorosa da ação administrativa, a conquista será irreversível. 

A decisão do Supremo é mais um episódio deste movimento histórico, que tem enfrentado e, graças a Deus, vencido, a reação enfurecida dos interesses externos e dos opressores nacionais. Não podemos perder essa vitória, aparentemente menor, mas essencial. Os juízes venais e corruptos sabem que estão sujeitos, de agora em diante, ao poder do CNJ. E, o mais importante: esse poder poderá ser provocado pela simples representação de qualquer cidadão brasileiro, que assim se identificar junto ao Conselho.


Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

 

 

Fórum Social: O que João Pedro Stedile disse a Dilma em Porto Alegre

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Durante o encontro de Dilma Rousseff com representantes do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, o dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) questionou a presidenta sobre a agenda ambiental do governo, em especial sobre o Código Florestal, a agricultura familiar, a agroecologia e a Amazônia. "Para nós não há possibilidade de desenvolvimento sustentável sem redução da desigualdade social", reafirmou Dilma.

 

Verena Glass - Repórter Brasil, na Carta Maior

Transcrição da fala de João Pedro Stedile, do MST, na reunião entre Dilma e representantes da sociedade civil, realizada em 26 de janeiro de 2012, durante o Fórum Social Temático em Porto Alegre:

“Quero começar, em nome dos movimentos sociais do campo, a cumprimentar a nossa presidenta por ter escolhido Porto Alegre e não Davos. A senhora parece ser realmente corajosa. Mas a minha obrigação aqui, em nome dos movimentos sociais do campo – sem querer representar a todos –, é trazer algumas idéias nesse espírito do diálogo aberto e franco.

Prometo não falar de reforma agrária, porque ela está paralisada, apesar de termos ainda 180 mil famílias acampadas nas beiras das estradas que precisam pelo menos de uma solução humanitária. Mas como o tema aqui é Rio + 20, nós analisamos no MST, com tudo que aprendemos na tradição de luta socialista e cristã, que a melhor pregação é o exemplo. Que o Brasil só pode liderar um processo internacional de defesa do nosso planeta, da nossa biodiversidade, se nós dermos o exemplo.

Nós temos uma agenda nacional que precisa ser resolvida. A primeira delas é que não podemos admitir as mudanças que foram acordadas no Senado para o Código Florestal. Vamos descobrir seu correio eletrônico para que o povo brasileiro lhe escreva para pedir o veto de alguns artigos que a senhora mesmo se comprometeu [a vetar] durante a campanha, e que nós não podemos aceitas.

Nós não podemos aceitar a anistia dos crimes ambientais dos latifundiários, assim como não aceitamos a redução da reserva legal, mesmo nos quatro módulos. Porque isso abre brecha para o capital internacional seguir desmatando o Cerrado e a Amazônia. A nossa política – esperamos que a senhora concorde – é do desmatamento zero. Não há necessidade de derrubarmos mais nenhuma árvore para seguirmos aumentando a produção de alimentos, inclusive em condições muito melhores.

A segunda agenda: nós precisamos fazer um grande programa nacional de reflorestamento para a agricultura familiar, controlado pelas mulheres – já que as mulheres agora mandam nesse país -, um programa para que cada agricultor familiar possa reflorestar dois hectares. Isso é uma merreca. O BNDES dá tanto dinheiro para multinacional, chegou até a financiar a America Online, massa falida… Por que não pode dar dinheiro para a agricultura familiar reflorestar o nosso país, que é uma contribuição para a humanidade?

Terceira agenda: nós precisamos com urgência um programa nacional que estimule a agroecologia. Um programa de políticas públicas que recupere uma agricultura sadia, que plante alimentos sem veneno. Quanto mais agrotóxico colocarmos nos alimentos, maior a incidência de câncer. É uma obrigação nossa produzir alimentos sadios, e para isso as técnicas da agroecologia são as mais recomendadas. Mas o governo está ausente, e é preciso ter políticas públicas que compensem e estimulem [estas práticas].

Quarta agenda: o Ministério da Integração Nacional anunciou que vai irrigar 200 mil hectares do Nordeste. Ótima noticia. Mas aí vai para lá a Cutrale, empresários do Sul, isso é uma vergonha, presidenta. Nós apelamos, em nome dos nordestinos, nós precisamos distribuir esses 200 mil ha para fazer assentamentos. Dois hectares por família, a senhora vai assentar 100 mil agricultores do Nordeste, que vão ficar juntinhos da água, e resolve três problemas: do alimento, da água e do emprego. Não precisa levar empresários do Sul. Senão vamos ocupar as terras deles.

Quinta agenda: nós não podemos nos conformar que governos do exterior deram 700 milhões para o Fundo Amazônia, e o dinheiro está lá parado no BNDES, e pela burocracia do banco só 10% do dinheiro foi aplicado. E ainda assim, dos 23 projetos, a maioria é de governos da Amazônia, de Rondônia, do Amapá. Ora, a vocação deste dinheiro é para recuperar a Amazônia, são projetos sociais, não é para governo. Governo tem outros mecanismos.

Por último, nós não podemos fazer uma conferência de meio ambiente e os nossos irmãos guarani-kaiowa continuam morrendo. Isso é uma dívida de honra. Nós não podemos aceitar que o agronegócio continue matando os povos indígenas que são os verdadeiros zeladores da nossa biodiversidade e do território. Então se a senhora só resolver os problemas dos guarani-kaiowá no Mato Grosso do Sul já vai para o céu. Agora, se não resolver isso, não adianta falar em biodiversidade, assinar documento. E a mesma coisa com as comunidades quilombolas. Faz dois anos que o Incra não legaliza nenhuma área quilombola. É a maior dívida social que nós temos, o país foi construído com trabalho escravo, e agora não consegue reconhecer uma área? Nós temos que recuperar a legalização das terras quilombolas.”


Abaixo, veja íntegra da fala da presidente Dilma Rousseff em encontro com movimento sociais:

“Eu queria dizer pra vocês que eu represento um projeto que está sendo levado a cabo desde a eleição do presidente Lula. Este é um projeto que tem alguns desafios e uma grande missão, que é ter um país em que a desigualdade social não seja tão avassaladora como foi desde a sua formação. Um país que foi escravista, que teve uma gestão colonial, que num segundo momento tentou a sua industrialização e no qual um presidente foi levado ao suicídio e outro foi deposto. E também, ao contrario do que acontece hoje na Europa, que teve sua experiência neoliberal muito cedo. Nós passamos praticamente 20 anos sob estagnação, 10 anos sob o neoliberalismo, onde a receita era o ajuste fiscal que hoje praticam lá na Europa.

Então nessa situação nós não nos julgamos nem um pouco ameaçados por qualquer volta do neoliberalismo. Esse povo aqui está vacinado. Não só porque sofreu; porque começou a ganhar. Porque se você olhar qualquer país do mundo, dos desenvolvidos e dos emergentes, um dos países que reduziu a sua desigualdade social foi esse. Na última estatística disponível, tirou 40 milhões da pobreza.

Para nós é muito significativo. Essa é uma ambição que explica um pouco o que é a nossa diferença em relação a visões que vocês e a ONU chamam de economia verde. Para nós não há possibilidade de desenvolvimento sustentável sem redução da desigualdade social. E não é redução da pobreza stricto sensu, porque há um conceito que a redução do nível de desconforto social é uma equação de desemprego mais inflação. Aqui no Brasil tem alguns que tentaram formular a seguinte tese: se a população brasileira cresce a 1,2%, 1,4%, se nós crescermos a 3% está bom porque nós estamos no nível de pleno emprego. Esses que pensam assim têm a versão de que pra nós basta crescimento econômico e emprego. Não. Num país desigual como esse, você tem que crescer a mais para poder distribuir renda. Porque senhores, nós tratamos de questões práticas. Eu tenho que distribuir renda. Tem 190 milhões que nós não podemos deixar na situação que estão. Não são só negros, quilombolas, indígenas. 85% da população se declarou oriunda da raça negra. É essa população que nós vamos ter que dar conta. 

Nós não estamos aqui fazendo uma política, vamos dizer, de faixas sociais. Trata-se de fazer, de fato, com que este país tenha capacidade de ter um nível de desenvolvimento que lhe permita distribuir riqueza. Que gere emprego suficiente. E que ao mesmo tempo garanta, através de políticas sociais comprometidas, distribuição de renda. E por distribuição de renda nós entendemos educação de qualidade, porque educação de baixa qualidade é excludente. Porque saúde de baixa qualidade é excludente.

O Brasil tinha uma prática de não distribuição de renda via péssima qualidade dos serviços públicos. Os companheiros do movimento de moradia sabem perfeitamente bem que a solução de mercado para moradia no Brasil é inviável. Como você fecha a seguinte equação: uma casa de no mínimo 42 mil reais em São Paulo e um salário de 1.600 reais (três salários mínimos)? Não fecha a equação. Nós voltamos a fazer abertamente uma coisa que o neoliberalismo proíbe: o subsídio. O Estado faz escancaradamente, e se vangloria disso, subsídio. Para que se possa ter moradia decente neste país. E não faz política sem considerar grandes números. Temos que fazer para 2,4 milhões de famílias. Então nós temos de fato uma política nesse âmbito.

Eu concordo com o Stedile que é necessário a gente retomar a reforma agrária num ritmo eficaz. Agora, Stedile, eu quero te dizer uma coisa: eu não vou aceitar que o nível dos assentamentos seja o que é. Quando nós tratarmos do Brasil sem Miséria, eu quero assentamentos decentes neste país. Eu não quero ninguém vivendo em condições sub-humanas como ocorre nos assentamentos. Eu faço absoluta questão de que a reforma agrária aqui seja de qualidade. Eu quero produtores, eu quero pessoas vivendo da sua renda. Porque nós sabemos que nós temos, da época do neoliberalismo, uma reforma agrária que deixa extremamente a desejar. Queremos mudar isso porque faz parte da política de elevação social da população. Não basta de jeito nenhum fazer transferência de renda. Você tem que ter condições de sobreviver de forma decente com a sua família.

Então eu queria dizer pra vocês o seguinte: esse país foi um dos poucos que foi sério na questão da mudança do clima. Eu estive em Copenhague, eu sei como era a discussão entre os Estados. Se a China não está comprometida com tanto, bastiões da defesa ambiental não fazem reduções de 30% da emissão de gases de efeito estufa. Fazem 20%, senão perdem competitividade. Nós assumimos a redução voluntária de 36% a 39%. Nós somos um dos poucos países que não têm matriz energética fóssil. Todos eles têm problemas. Vendem aos países africanos, por exemplo, que é importante ter energia solar. Energia solar é caríssima. Fazer isso num país africano é crime. Vendem porque suas empresas controlam a energia solar ou eólica, quando alguns deles podem perfeitamente explorar a hidroeletricidade.

Eu discordo que o Brasil teve, em relação aos outros países, uma atitude imperial. Eu acho que a fala do meu companheiro Mujica, que o Brasil não tem culpa de ser tão grande, e o Uruguai, de ser tão pequeno, é uma fala perfeita. A lucidez de um líder como o Mujica justifica que ele tenha dito que nós temos de completar nossas cadeias produtivas. O presidente Chavez diz que ele era instruído de que o programa Calha Norte era pra que a gente tomasse conta da Amazônia. Eu acho que a América Latina passa por uma situação diferenciada. Cada país com seu momento político, enfrentando seus desafios. Mas a América Latina mudou. Nós fizemos no final do ano uma reunião fundamental, uma reunião do México para baixo. Pela primeira vez se fez isso. Eu acho que tem um novo mundo nascendo. Mas também acho que tem características no Brasil que tem que mudar, não somos perfeitos.

Acho que nós temos tido sim uma política ambiental. Nós temos de resolver todas as contradições do Código Florestal. Eu passei por um processo duro de negociação quando estava na câmara. Acredito que nós vamos ter de construir uma solução consensual. Não será, adianto para vocês aqui, o sonho dos ruralistas. Não será também um código ambiental perfeito.

Tem ruralista e tem ruralista; como tem pequeno agricultor que tem horror ao código florestal. Principalmente no nosso Sul Maravilha. No Sul Maravilha, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde tem o maior número de agricultores familiares, há um movimento forte pra impedir que tenhamos reserva legal em uma pequena propriedade. Vocês sabem disso. Nós vamos ter clareza disso.

Eu considero que o FSM tem uma coisa muito importante pra dar, que é o mote Um Outro Mundo é Possível. Isso devia ser a fala da Rio + 20. Temos que construir isso. Eu concordo com o Stedile que é importante o exemplo. Mas é importante explicar como, é importante um projeto que fala das coisas que queremos mudar radicalmente. Nós vivemos uma situação dramática no mundo. A Europa passa hoje por um processo muito mais perverso do que a América Latina passou. Porque a Europa teve conquistas sociais, chegaram a ficar ricos. Ainda são ricos. Mas a distribuição da riqueza se tornou completamente perversa. As pessoas que estão desempregadas, que são objeto da concentração de renda que a própria OCDE [Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos] reconhece, elas estão vivendo algo que os nossos povos não experimentaram: perda de direitos. No Brasil o neoliberalismo foi até um certo ponto, mas ele não conseguiu tirar todos os direitos.

Eu considero essencial na Rio + 20 discutir um outro paradigma nos seguintes termos: eu não acredito que dê pra ser dentro do Fórum governamental um outro paradigma anti-capitalista. Não dura 5 segundos. Agora, eu acredito que a sociedade civil pode sempre estar um pouco além. Então vocês discutam os novos paradigmas, se vocês quiserem, anticapitalistas. Agora, nenhum país fará isso. Nenhum país. Nem-um-único! Porque não pode fazer isso. Não pode porque nós temos uma coisa terrível: todos nós governantes temos o compromisso de entregar a coisa amanhã. Não é daqui a 10 anos. O meu governo tem que entregar amanhã, tem que ter eficiência sim. Se antes os serviços privados eram pra classe média-alta, e os serviços públicos para o povão mais pobre, hoje, quando nós conseguimos constituir uma nova classe média, nós temos obrigação de ser eficientes. E não é tecnocrata, é política. Porque a minha população tem direito de abrir a boca.

E aí eu entro na história do Pinheirinho. Quando nós soubemos do Pinheirinho, o ministro Gilberto [Carvalho, da Casa Civil] foi encarregado de conversar com todas as lideranças políticas dos governos em questão para impedir o que nós acreditávamos estar em andamento. Mas não paramos aí não. O ministro [da Justiça] José Eduardo Cardoso falou com o governador, com o presidente do Tribunal de Justiça, com o juiz encarregado, e ninguém disse para o senhor ministro que ia ter massacre. Agora, este país é uma federação, o governo federal não tem poderes ilimitados para interferir no governo do Estado, no municipal, no judiciário e no legislativo. Interferir, impedir que eles façam, só tem um jeito: a parte interessada tem que entrar na Justiça e pedir apoio do governo federal. E um juiz tem que despachar. Eu concordo que aquilo ali não foi uma ação política ou policial. É uma barbárie.

Eu conto com vocês na Rio + 20. A função da Rio + 20 é colocar entre os governos a questão da crise e como sair dela. Discutir a desigualdade social que atinge países do terceiro mundo e emergentes. O acesso à água. Eu concordo que, quando se tratar da irrigação, é preciso garantir o acesso à terra irrigada ao pequeno agricultor. Porque aumenta a produtividade dele, permite que as condições de assentamento sejam melhores do que aquelas que deram no passado ao agricultor assentado no meio da Amazônia, em locais longínquos, e agora nós temos que consertar.

Considero também que a questão… houve uma questão que foi errada por parte do governo, a gente sabe que é errada, a gente tem que baixar a cabeça e ser humilde e mudar. Houve uma redação incorreta naquela medida provisória, não sei quem elencou, se não me engano é a MP 1557, não, 557, e o governo esta redigindo novamente. Asseguro que os companheiros que fizeram não tinham a intenção, asseguro. Não é uma questão de convicção diferente daqueles que acham que ela tava errada. Estava na Constituição e eles copiaram. Então, para não alterar a lei do SUS, esta retirado o artigo.

Vou fazer um pronunciamento: nós não podemos aceitar que o pós-neoliberalismo seja também a pós-democracia. Tudo que está acontecendo na Europa indica neste sentido. A partir do momento em que as agencias de risco e os mercados têm mais poder do que os povos que elegeram os governantes, eu acho que todo mundo fica muito preocupado. Agora, eu reitero que nós não voltamos a isso. Nós temos uma trajetória que uma parte substantiva se deve ao metalúrgico que veio lá do Nordeste, Luis Inácio Lula da Silva, que me deu um legado. O meu legado é o seguinte: eu tenho que dar qualidade ao povo. Tenho que entregar ao povo serviços públicos de qualidade. Nós todos aqui criamos os que vão reivindicar.

Todos têm o direito de reivindicar. Por isso Pinheirinho está errado. O que leva alguém a retirar com tanta ânsia 1.700 famílias de uma área que é parte de uma massa falida do Naji Nahas, me intrigou muito. O que leva tanto empenho de reintegrar uma massa falida que deve estar sendo objeto de uma intensa disputa, a mim intrigou muito. Fora o fato de eu considerar um absurdo. O acesso à moradia, que dentro do BNDES era restrito, eu acho que nós modificamos com o Minha Casa minha Vida.

Finalizando, agradeço a atenção de vocês e quero dizer o seguinte: é normal que as visões sejam diferentes. Vocês são movimentos sociais e eu sou governo. Tem que ser assim mesmo, está certo assim.


 

'O neoprogressismo pode ter vários anos pela frente'

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O jornalista e escritor Ignacio Ramonet diz, em entrevista ao jornal Página/12 que a maioria dos governos da América do Sul cumpre a função dos social-democratas europeus nos anos 50 e que, se não cometerem erros, podem aspirar a um ciclo longo de governo. "A construção do Estado de bem-estar e o aumento do nível de vida acaba com qualquer tipo de recurso para as oposições tradicionais conservadoras. Agora, a população está percebendo como os seus países estão reconstruindo sociedades arrasadas".

 

Martín Granovsky - Página/12, na Carta Maior

Porto Alegre - Nascido em Pontevedra e emigrado com sua família para a França, Ignacio Ramonet dirige o Le Monde Diplomatique em espanhol. Foi um dos animadores do primeiro Fórum em 2001 e é um dos jornalistas que mais percorrem o mundo, observando suas diferentes realidades. 

– Sobre o final do Fórum temos direito de perguntar se foi útil e o que mudou com respeito ao primeiro encontro, de 2001.

Ramonet –Quando o fórum foi criado não havia outro governo dos que eu chamo neoprogressistas na América Latina que não fosse o de Hugo Chávez, que inclusive veio ao fórum. No ano seguinte, em 2002, pela primeira vez Chávez se declarou socialista. Também veio Lula quando ainda não era presidente, mas candidato. Agora, ao contrário, os governos neoprogressistas estão implementando as políticas de inclusão social e, ao mesmo tempo, o fórum é menos um fórum dos movimentos sociais. É um fórum no qual se discutiu a crise européia, o movimento dos indignados em geral (os chilenos, Wall Street, etc.) e a questão da memória. A jornada da Flacso na sexta-feira, o dia do Holocausto, foi uma das atividades centrais, organizada pelo Fórum Social Temático e o Fórum Mundial da Educação. 

Até agora esses não eram assuntos do fórum. Os indignados são um tema que não tem mais de um ano, e o debate sobre a memória não havia sido proposto dessa maneira. Dominavam o anti-imperialismo e a denúncia das guerras dos Estados Unidos no Iraque ou no Afeganistão. Está se chegando a um nível diferente. Os governos aqui na América do Sul estão agindo bem em seu conjunto. Mas, cuidado, chega uma nova etapa e é preciso melhorar certos aspectos qualitativos.

– O que deveria melhorar na América do Sul?

Ramonet – Não acreditar que esta bonança que se está vivendo vai ser duradoura. Depende do êxito norte-americano e europeu e de se há baixa ou não na economia chinesa que afete a potências agrícolas ou de minérios.

– Um dos pontos é como a América do Sul aproveita sua atual vantagem pelos preços favoráveis dos produtos primários que vende para que outra vez o lucro principal não sejam palácios franceses no meio da pampa úmida.

Ramonet – A economia funciona por ciclos. Na Europa não podemos falar de palácios no meio de nada, mas sim de grandes aeroportos moderníssimos que agora quase não funcionam ou óperas em cidades pequeníssimas. A riqueza passou e nem sempre se sabe aproveitar. Aqui, na América do Sul, a solução é criar mais e mais mercado interno. E mercado interno protegido. E também ampliar os intercâmbios no marco da solidariedade latino-americana. Agora, o mercado latino-americano tem que se articular para que haja massa crítica para todos. Se não, o Brasil se desenvolverá, mas o Uruguai não. Agora que desapareceram 80 milhões de pobres, há uma classe média que consome. O Brasil introduziu o imposto sobre a produção de automóveis frente à China e aumentou essa taxa em 30%. É proteção e é correta.

– Que discussão mundial nova apareceu no Fórum?

Ramonet – Por agora, muitos constataram que, além das diferentes opiniões, a globalização existe. Se existe, há que analisá-la e descobrir como evitar seus inconvenientes. Em escala mundial, em um debate sobre a crise do capitalismo, uma das opiniões foi que havia que pensar talvez em desglobalizar e reduzir a globalização. Não existe só uma crise econômica. Existe uma crise da política, da democracia, uma crise alimentar, ecológica. Muitos países latino-americanos não estão pensando nas outras crises, em particular na ecológica. Boaventura de Souza Santos sublinhou que não é normal que se acuse comunidades indígenas, chamando-as de "terroristas" quando querem proteger o meio ambiente. As realidades vão mudando. O Movimento dos Sem Terra do Brasil, que antes ocupava terras, não o faz porque não as têm. Qualquer pedaço de terra é soja. E como o MST, quando se assenta, realiza produções ecológicas, é recriminado pelo agronegócio.

– A discussão ecológica é chave também porque haverá uma cúpula mundial no Rio de Janeiro em junho.

Ramonet – A precaução ecológica é algo que se lembrou e que, em certa medida, faz com que os governos estejam pensando em fazer as coisas certas. Dilma disse que queria dar casas à população. Parece-me muito bem, realmente muito bem. Mas tenhamos cuidado de não chegar ao pragmatismo chinês, que em nome do desenvolvimento destrói o que se oponha a essa idéia, e terminemos entrando sem necessidade em uma grande contradição.

– Dilma diria: “Está bem, Ignacio, mas eu tenho que governar o Brasil e terminar com a miséria”.

Ramonet – As preocupações ecológica e a social não são excludentes. O Fórum apreciou muito que Dilma tenha decidido vir aqui e não tenha viajado ao Fórum de Davos. Quando Lula veio e disse que depois se dirigiria a Davos, alguém lhe disse: “Não se pode servir a dois senhores de uma vez”. É uma frase bíblica. “Tem que escolher.” 

– Talvez Lula necessitasse ir a Davos porque isso também ajudava na consolidação política de seu governo e hoje o Brasil não necessita de Davos.

Ramonet – Claro, as condições mudam. E o fórum deve mudar também. Antes muitos dirigentes ou presidentes vinham aqui se fortalecer. Chávez e Lula, que já citei. Também Evo Morales, Rafael Correa e Fernando Lugo. Para algumas discussões, uma reunião do fórum pode ter hoje um maior sentido na Europa, para discutir ali mesmo a tremenda crise. No próximo ano está previsto que tenha lugar em um país árabe, porque lá os movimentos sociais não só estão se desenvolvendo, mas também conseguiram ganhar em dois países. E há novas discussões, por exemplo, entre movimentos sociais laicos e movimentos sociais islâmicos.

– O que poderia ser discutido na Europa?

Ramonet – Na Europa já há algumas discussões que se produziam na América Latina. Uma é a idéia de que a política está gasta e se necessita uma renovação política. De que o sangue e a vitalidade nova virão dos movimentos sociais. Dessa vitalidade pode surgir uma mudança. Este fórum não teria o mesmo sentido se fosse organizado em Madri, Atenas ou Barcelona, onde há sociedades que sofrem e ao mesmo tempo registram em alguns setores grande vontade de mudança. Na América do Sul, por sorte de vocês, existem situações em que a preocupação é seguir crescendo e como fazê-lo melhor.

– Não há um risco de endeusar os movimentos sociais como fatores de mudança? Se não há construção política, não se diluem?

Ramonet – Sim, é importante ver como se passa de um momento ao outro. Ainda não estamos nessa etapa na Europa, me parece. Ainda não. Ninguém expressa melhor o sofrimento social que o movimento social. Mas se não se dá o passo para a política, todas as grandes crises sempre servem à extrema direita, que aparece sob a forma de movimentos e de partidos anti-sistema. Prometem as mudanças mais radicais, demagógicas, transformacionais. É importante que o sofrimento social se encarne em movimentos que tenham vocação de se envolver na política.

– Por que ainda não acontece esse passo?

Ramonet – Entre outras coisas, em minha opinião, porque faltam líderes. Até o momento, o movimento social inclusive reprova ter líderes. São muito igualitaristas do ponto de vista do funcionamento democrático. É como a doença infantil do movimento social. Em breve chegará o momento da adolescência ou a maturidade, quando seguramente se gerarão líderes. Não líderes salvadores. Falo de dirigentes democráticos que possam entender o movimento social e ajudá-lo a encontrar respostas. Depois da crise do sistema político venezuelano, no final do que se chamou o “puntofijismo”, teria havido mudanças sem Chávez e o que ele representava? E me faço a mesma pergunta com respeito ao Equador e Correa, à Bolívia e Evo, ao Brasil e Lula, à Argentina e Kirchner.

– E como funciona a relação entre os líderes, os movimentos e os partidos nesses países da América do Sul?

Ramonet – Minha percepção é que hoje os partidos têm menos influência que há dez anos e os movimentos sociais também porque os governos estão fazendo tudo. Os líderes dos governos conduzem a mudança. Houve uma energia social que produziu a mudança, mas a mudança está tão encarrilhada que às vezes há uma descapitalização da política que paradoxalmente não incomoda muito.

– Talvez com as construções políticas aconteça o mesmo que com os ciclos econômicos. Talvez devam ou possam ser realizadas antes que o ciclo atual de governos sul-americanos termine.

Ramonet – A função destes governos é muito semelhante a dos governos europeus dos anos 50 que, essencialmente, sendo conservadores ou progressistas, tinham como funções construir o Estado de bem-estar, reconstruir cada país depois da guerra e aumentar o nível de vida da população. Isso lhes deu 40 anos de estabilidade política. Mas terminou. Se os neoprogressistas sul-americanos não cometerem muitos erros, talvez tenham pela frente várias décadas como a social-democracia nórdica. Hoje melhoram estruturas, o nível de vida, criam trabalho. Não é por acaso que são os governos neoprogressistas os que estão trabalhando bem. Assim aconteceu com os velhos partidos social-democratas. Além disso, a construção do Estado de bem-estar e o aumento do nível de vida acaba com qualquer tipo de recurso para as oposições tradicionais conservadoras. Agora a população percebe como os países reconstroem sociedades arrasadas. 

As favelas eram pensadas como uma fatalidade. Para a direita, era assim porque é assim. Mas a força da direita desapareceu, e também o elemento militar. As leis da memória são as que devem responsabilizar – sem vingança, com documentos e base histórica sólida – e estabelecer responsabilidades. Não vingar-se, mas terminar com a impunidade. Apesar de que o que vou dizer parece escandaloso, estamos no momento mais fácil da América do Sul. Se não cometerem erros e fizerem uma gestão tranquila, os governos de sinal neoprogressista podem ficar no poder muito tempo. Por isso é preciso pensar bem as sucessões políticas. Na Argentina isso funcionou bem. No Brasil, o que fez Lula foi exemplar. É uma lição. E por isso hoje Dilma tem mais aprovação popular do que Lula tinha em seu primeiro ano de governo.

(*) Ignacio Ramonet é autor, entre outras obras, de "Fidel Castro: biografia a duas vozes" (Boitempo, 2006).

Tradução: Libório Junior


 

"Latifúndio Midiota" será lançado dia 7 de fevereiro, em São Paulo

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“Latifúndio Midiota” será lançado com coquetel dia 7 de fevereiro na Livraria Martins Fontes da avenida Paulista, São Paulo. Livro de Leonardo Severo denuncia crimes, crises e trapaças midiáticas. Obra inaugura o selo Barão de Itararé. Autor integra o coletivo de comunicação da Coordenadora das Centrais Sindicais do Cone Sul (CCSCS), assessora a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) e é membro fundador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

 

Da Carta Maior

São Paulo - Os conglomerados de comunicação no Brasil (emissoras de rádio e televisão, jornais, revistas e portais de internet) continuam imprimindo no inconsciente coletivo uma visão deformada do que somos, na tentativa de renegar o que sonhamos, para nos conduzir aonde não devemos. Proporcionar o debate e a reflexão sobre os descaminhos desta manipulação, estimulando a pensar com a própria cabeça e a caminhar com as próprias pernas. Esta é a paixão do mais novo livro de Leonardo Wexell Severo: "Latifúndio Midiota: crime$, crise$ e trapaça$", (Editora Papiro), R$ 20,00, obra que inaugura o selo Barão de Itararé.


O coquetel de lançamento do livro acontecerá no dia 7 de fevereiro, terça-feira, das 18h30 às 21h30 na Livraria Martins Fontes, avenida Paulista, 509, próximo à Estação Brigadeiro do Metrô. 

SOBRE O LIVRO
“Neste livro procurei selecionar assuntos e pautas que foram solenemente ignorados ou mascarados pela ‘grande’ mídia, convicto de que sua divulgação contribuirá, ainda que modestamente, para, através da denúncia, proporcionar o debate e a reflexão sobre as razões do seu silêncio”, assinala o autor, que é assessor da Secretaria Nacional de Comunicação da CUT (Central Única dos Trabalhadores), repórter-especial do jornal Hora do Povo, colaborador do jornal Brasil de Fato e do site Vermelho.

De acordo com o presidente do Centro Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Altamiro Borges, “o novo livro de Leonardo é uma arma afiada nas mãos dos lutadores do povo que não se deixam manipular e deformar pelos monopólios midiáticos. É uma honra e alegria participar da publicação deste livro – inaugurando o nosso selo”.

Para o diretor de redação do jornal Hora do Povo, Carlos Lopes, “o livro ajudará o leitor a perceber a luta política e ideológica em torno da comunicação”. “Não consigo conceber maior utilidade para um livro nos tempos em que vivemos”, sublinhou.

Secretária nacional de Comunicação da CUT e coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Rosane Bertotti acredita que a obra traz consigo uma intensa capacidade de sensibilizar para a necessidade de darmos respostas coletivas aos desmandos dos monopólios de desinformação. “Que a indignação presente em cada uma das linhas deste livro acenda os sinais de alerta para o veneno a que somos submetidos diariamente, e nos desintoxique, fortalecendo o compromisso com a democratização da comunicação, com a luta e a vitória do Brasil e da Humanidade”, enfatizou.

O AUTOR
Leonardo Wexell Severo integra o coletivo de comunicação da Coordenadora das Centrais Sindicais do Cone Sul (CCSCS), assessora a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) e é membro fundador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Formado em Radialismo e Televisão pela Universidade Federal de Santa Maria-RS, cursou Política e Economia na Escola Júlio Antonio Mella, em Havana-Cuba, sendo pós-graduado em Política Internacional pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo. Foi membro da executiva da União Nacional dos Estudantes (UNE) na gestão que comandou as mobilizações pelo impeachment de Fernando Collor. 

Integrou brigadas internacionais para a colheita do café na Nicarágua Sandinista e de solidariedade à Cuba Socialista. Representou o Brasil na delegação em apoio ao povo palestino, durante a segunda intifada, quando entrevistou o presidente Yasser Arafat, em Gaza, tendo contribuído com artigo no livro “O Apartheid de Israel”, de Nathaniel Braia. Nos últimos anos acompanhou a delegação cutista na cobertura dos Fóruns Sociais Mundiais e Regionais (Caracas, Nairóbi, Recife, Belém, Assunção e Dakar) e, em 2008, na fundação da Confederação Sindical dos Trabalhadores das Américas (Panamá). 

É autor do livro “Bolívia nas ruas e urnas contra o imperialismo” (Editora Limiar, 2008) e editor, em parceria com Valdo Albuquerque, do livro “A Regulamentação do Artigo 192: Desenvolvimento e Cidadania” (Editora Papiro, 2010), publicado conjuntamente pelo Sinal (Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central) e pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

 

 

Aval para CNJ investigar juízes resulta de 'participação popular'

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É a opinião da corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, símbolo da luta por transparência no Judiciário, o mais fechado ao controle social. Para ela, Supremo Tribunal Federal teve atitude de 'vanguarda' ao ouvir sociedade. E decidiu a favor do Conselho Nacional de Justiça em resposta a um 'grande movimento de cidadania', colocando o país no 'rumo da democracia plena'.

 

André Barrocal, na Carta Maior

Brasília – A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de liberar o órgão de controle externo da magistratura, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), para investigar juízes é um exemplo de como o poder Judiciário, encarado como neutro e técnico, também é um órgão político e, como tal, influenciável pela opinião pública.

Essa é uma das conclusões de entrevista dada nesta sexta-feira (3) pela corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, na qual a ministra, que se tornou um símbolo da luta por mais transparência no Judiciário, o mais fechado de todos os poderes, comentou a decisão tomada na véspera pelo STF.

Para Eliana, o julgamento foi resultado de um “grande movimento de cidadania” e de “participação popular” e coloca o Brasil “no caminho para uma democracia plena”. 

“Nunca vi, com 32 anos de magistratura, uma discussão tão ampla e tão participativa, do ponto de vista de todos os segmentos da sociedade, sejam as pessoas mais simples do Brasil, até aqueles juristas mais renomados”, disse a ministra, mencionando cartas, emails, artigos e entrevistas como exemplos de manifestações. 

Segundo ela, foi o próprio Supremo quem optou por ouvir a voz das ruas neste caso ao, “numa atitude de vanguarda e também de prudência”, adiar o julgamento treze vezes, “para que fosse possível à sociedade discutir, se assenhorar e amadurecer as ideias”. Um processo “histórico”, na avaliação da ministra.

A decisão do STF ainda não tem aplicação imediata sobre os 56 inquéritos que, de acordo com Eliana, estão parados na corregedoria desde o fim do ano passado, quando o ministro do STF Marco Aurélio Mello tinha dado liminar impedindo esse tipo de investigação.

Ainda é preciso que o Supremo conclua o julgamento da ação dentro da qual tinha sido contestado o direito de o CNJ apurar juízes por conta própria, independentemente do que fazem ou deixam de fazer as corregedorias dos tribunais. Só depois é que a sentença será publicada, o que não tem data para ocorrer, e o CNJ poderá tocar os 56 processos e instaurar novos.

Lupa no patrimônio

Para Eliana Calmon, o aval dado ao CNJ para investigar juízes deverá de influenciar um outro julgamento do STF que é essencial à eficácia do poder fiscalizatório da corregedoria nacional. A ministra é alvo de um mandado de segurança por ter começado a apurar a evolução patrimonial de juízes e funcionários de tribunais.

A mesma entidade corporativa que tentou proibir os inquéritos do CNJ, acionou o STF para proteger o patrimônio de investigações, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). No último dia de trabalho do STF em 2011, o ministro Ricardo Lewandowski aceitou o mandado, concedeu liminar e bloqueou as apurações. 

No julgamento desta quinta-feira (2) sobre os poderes investigatórios do CNJ, Lewandowski, que comanda o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), votou contra o Conselho.

Para Eliana Calmon, se o CNJ pode investigar, é “natural” que também possa analisar o patrimônio de juízes e de funcionários dos tribunais, ato de caráter apuratório. A ação da AMB blindou 216 mil pessoas deste olhar independente do CNJ.

 

 

Uma história do Brasil Sem Miséria

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No dia 11 de junho de 2011, numa noite fria do inverno de Porto Alegre, seu Valdir e sua cadela Princesa dormiram sob um teto e não mais sob a marquise que os abrigava até então. No dia 13 de setembro o Seu Valdir tocou o interfone. Estava trêmulo e com os olhos mareados. Tinha três folhas de papel em mãos e uma carta, da Previdência Social, com um texto que começava assim: “Em atenção ao seu pedido...informamos que foi reconhecido o direito ao Benefício de Prestação Continuada...”. Acionado em um desafio para dar vida nova a um morador de rua, o Estado brasileiro respondeu com políticas de carne e osso.

 

Katarina Peixoto, na Carta Maior

Porto Alegre - Se os números apresentados pelo governo federal são verdadeiros, então qualquer pessoa deve poder pegar um morador de rua, ou uma pessoa em situação de risco, e inscrevê-la ao menos no Bolsa Família. Depois de pesquisar e acompanhar os dados sobre a redução da desigualdade, a entrada de mais de 30 milhões de pessoas na classe C e a saída de 28 milhões da extrema pobreza, eu pensei que poderia “ver” esses números encarnados. Trata-se de uma população maior que a de muitos países, então não deveria ser muito difícil “tirar alguém da rua”, por exemplo. Teria de ser ao menos possível e relativamente fácil; caso contrário, esses números necessariamente seriam falsificações.

É verdade que muitos dentre os que Jack London chamou de o povo do abismo já se quebraram, e a sua ida para as ruas não é outra coisa que a porta de entrada para todo tipo de quebradeira: a psíquica, a física, a emocional, a social. Os moradores de rua e a população excluída das cidades parecem existir para interpelar, intermitentes, o poder do estado, os governos, a assistência social. 

Muitos do que se julgam bem informados leem nas magazines de fofocas semanais que o governo ou os governos seriam entidades comandadas por ladrões manipuladores. Indignados sem saber ao certo o porquê, passam pelos moradores de rua invariavelmente com raiva, quando não tampam os narizes e saem esbravejando contra o governo, que “permite” essa “palhaçada” ou “sujeira” ou “vagabundagem”.

Com tudo isso em mente e de certa forma apesar de tudo isso, eu quis testar o Estado brasileiro para ver se esses milhões tinham “carne”. Eu quis saber se esses números são reais ou ao menos se faz sentido e como pode fazer sentido ter gerado uma ascensão de classe social de 60 milhões de pessoas, em menos de dez anos. E isso sem um Plano Marshall, e sem um New Deal, e com uma política monetária determinada pela finança globalizada, engessada pela trindade do superávit primário, do câmbio flutuante e controle inflacionário via taxação de juros.

Um carrinho de supermercado era a sua casa
Mas essa decisão foi movida por um encontro, mais do que por informação. Eu quis testar o Estado brasileiro depois de ter conhecido o Seu Valdir e a sua filhote, a cadela Princesa, caminhando nas ruas do Bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Ele, empurrando um carrinho de supermercado que era a sua casa, cheio de coisas, bolsas, cobertores, tudo muito organizado, sob a triunfante Princesa, sentada sobre o carrinho. Pensei que não podia ser pelas razões que imaginava, então perguntei-lhe por que ela estava sobre o carrinho, ao que ele me respondeu, confirmando a hipótese mais estapafúrdia que eu imaginara: “é que ela não tomou todas as vacinas, ainda, e a doutora disse que não era para pôr os pés na rua”. (Uma veterinária, Marília Jaconi, cuidou da Princesa gratuitamente, em solidariedade).

Começamos a conversar e eu perguntei se ele tinha o Bolsa Família. Não tinha. Perguntei se tinha documentos; tinha todos, aliás, além dos documentos, retirou do seu lar móvel uma pasta com uma inacreditável quantidade de exames, laudos, prescrições médicas e medicamentos (ordenados por cor, já que é analfabeto). “As radiografia e aqueles outros, né, de imagem, ficam lá no posto, lá, no meu arquivo”. 

O Seu Valdir cuidava da Princesa (que salvou de um espancamento por um drogadito) e cuidava de si mesmo, inclusive tomando antidepressivos, “daquele comprimido branco (prozac), que a doutora, lá do Posto Santa Marta, me deu, pra meus problemas de depressão”. Também não se droga, não bebe. “O que mais o senhor tem?” “Ah”, disse, “tive um joelho esmagado na construção civil, né, quando trabalhava de assistente de pedreiro, também tenho uns problemas de coluna” e seguiu falando. Tinha carteira de isenção de passagem de ônibus, estadual e municipal, como deficiente físico.

Buscando as políticas em carne e osso
Depois de dois encontros e muitas perguntas respondidas, tomei a decisão de buscar a carne ou alguma carne do número de 60 milhões de brasileiros. Fazer esse cara acessar ao menos o Bolsa Família ou quem sabe o BPC, pensei, tinha de ser possível e relativamente fácil. Estávamos em maio de 2011 e hoje, passados mais de 8 meses, digo sem pestanejar que foi fácil, rápido e uma experiência surpreendente.

No dia 13 de maio de 2011, fui com o Seu Valdir à Fundação de Assistência Social – FASC, de Porto Alegre. Tinha na mente a informação de que o programa Bolsa Família havia se ampliado para abranger a população em situação de rua, desde 2010. Tinha também a informação de que o Seu Valdir preenchia requisitos para receber o BPC (embora julgasse esse um desejo irrealizável, um benefício no valor de um salário mínimo, para um cara que tá na rua e caminha?). No dia 23 de maio entramos juntos pela primeira vez no Prédio da Previdência Social, quando se abriu o processo de requerimento do BPC.

Depois de aberto o processo na Previdência, fui impedida de acompanhar o Seu Valdir. Dali em diante eu poderia ter me despedido dele, e esperaria pelas respostas que o Estado iria ou não dar, a contento. Se o Estado denegar, vou à Defensoria Pública Federal, pensei, entro com um mandado de segurança. Em um ano, no máximo, a vida desse cara vai mudar. Porque se não mudar, então esses números todos, todos esses milhões, isso tudo é mentira. Se é verdade que o Seu Valdir foi resgatado, em termos de saúde e alguma qualidade de vida, de integridade física e psíquica, pelo SUS, na pessoa da médica comunitária Isabel Munaretti, também é verdade que não cabe ao SUS tirar ninguém da rua.

Porque existe o SUS e ele funciona
O sujeito pode viver na rua, não ter onde dormir, nem como cozinhar, e ter assistência médica, acesso a medicamentos e exames. Porque existe o SUS e ele funciona. “Quando o senhor vai no Posto Santa Marta (ele tinha uma carteirinha de consulta em mãos), onde deixa o seu carrinho, com a Princesa?”. Respondeu-me que deixava na portaria, porque o vigilante gostava muito de brincar com ela e cuidava do carrinho dele. Na volta dessa consulta, que já estava marcada antes mesmo de nos encontrarmos, ele tocou o interfone de meu apartamento. Queria me mostrar o laudo que a doutora escreveu, recomendando a concessão do benefício. Um laudo escrito com clareza, cheio de detalhes.

Era inacreditável. Cada etapa da história parecia desmontar parte de um certo universo de crenças de classe média que eu cultivava, talvez nem sequer lendo as magazines de fofocas (que não leio nem nunca li), mas simplesmente com aquela percepção meio consolidada, embora pouco vivida, de que o estado não funciona, de que os médicos do SUS não querem saber dos pacientes, de que os funcionários públicos são inoperantes, toda essa tralha simbólica que tornou intuitiva a crença nas decisões, expectativas e apostas unicamente privadas e particulares. Tão extraordinário como cuidar da saúde de sua cadela foi saber que aquele homem, que estava na rua há mais de dez anos, tinha mais exames e diagnósticos e assistência médica do que eu, usuária de plano de saúde.

O acesso ao poder público, por meio da inscrição nos programas sociais não apenas requer um certo tempo, como pode ser insuficiente para a garantia da dignidade. Dizer que o Estado funciona não é dizer, pelo menos não ainda, que no Brasil a miséria deixou de ser uma chaga e a desigualdade, um tumor maligno. Além disso, estamos em Porto Alegre, o estado mais meridional do país, onde o frio é hostil e às vezes mortal, para quem está vulnerável. O inverno se aproximava e o Seu Valdir iria enfrentá-lo, uma vez mais, na rua. Não iria para um abrigo, nem mesmo nos piores dias, dessa vez porque não abandonaria a sua Princesa, ao relento. (O capítulo do descaso do poder público com os animais de estimação dos moradores de rua ainda será escrito com as denúncias cabíveis. A única exceção de que tenho notícia se deu na gestão de Marta Suplicy, na prefeitura de São Paulo, quando abrigos para moradores de rua contemplavam canis).

Uma amiga teve a ideia, diante de minha angústia frente ao frio que se aproximava, de alugarmos uma casa para ele e a cadelinha passarem pelo inverno. Com uns trezentos reais por mês isso seria possível. Mas e a comida, e os cuidados veterinários, e a luz? Estava fora de cogitação. Sozinha, não poderia arcar com isso, ainda mais correndo o risco de os benefícios não saírem. O que estava fazendo, adotando um sem teto? Mas o objetivo não era testar o Estado, além de ajudar esse homem a acessar os seus direitos? Irrefletidamente, a pergunta que fazia era: daqui para a frente eu não tenho mais nada a ver com isso, por que me envolver? Ele só não seria invisível porque, a título do teste em curso, eu aguardava as respostas do estado brasileiro. Até lá, a sua estada na rua não era problema meu.

Generosidade, amizade e solidariedade
A segunda parte desta história é feita da generosidade, da amizade e da solidariedade, como valores cultivados. A sua relação com o governo é inexistente. Testar o Estado teve um efeito rebote: e se as minhas crenças na delegação republicana das tarefas próprias do estado democrático de direito estivessem, eventualmente, a serviço da manutenção de preconceitos e de um universo de crenças mesquinhas de classe média, que mira a pobreza com uma tonalidade de indecência intolerável?

Escrevi um e-mail, contando essa história toda, para 30 pessoas, alguns mais, outros menos, amigos. Pedi ajuda para tirar o Seu Valdir da rua. Disse que ele tinha 53 anos, que era analfabeto, que tecnicamente não tinha como conseguir trabalho, dadas as suas (não) qualificações. E que a marquise onde se abrigava iria levar muita água, nos meses que se aproximavam. Seria um inverno chuvoso, além de frio. Contei que tinha encontrado uma casa, na região metropolitana. A duas quadras da casa da amiga, havia uma casa com pátio para alugar. Pelo menos até que a concessão dos benefícios ocorresse (pensava que esperaríamos 10, 12 meses, sem falar nas eventuais ações judiciais que teríamos de ajuizar), ele teria um teto, se cada um desse uma pequena quantia, seria possível. 20 pessoas responderam, topando a empreitada. Eu alugaria no meu nome, dois seriam fiadores. Cada um daria entre 20 e 50 reais por mês. “Se eu soubesse que com 50 pilas por mês tiraria um cara da rua, já estaria fazendo isso há muito tempo”, disse uma das amigas. Dentre os 20 amigos e parceiros na empreitada, há jornalistas, professores universitários, estudantes, advogados e servidores públicos.

Nem todos podiam contribuir com dinheiro, ou queriam fazê-lo. Mas todos, sem exceção, tinham em casa provas de uma certa abundância de consumo que tem acometido a classe média brasileira, para além dos 60 milhões: um colchão de casal novo, uma cama de casal, botijão de gás, um fogão, banco, mesa, cadeiras, sofá, guarda-roupa, máquina de lavar roupa, talheres, panelas, copos, lençóis, toalhas, roupa, muita roupa. Tudo sobressalente. Em dois meses, o Seu Valdir tinha tudo isso e ainda uma televisão de 20 polegadas, colorida, com antena, para ver o jogo do Internacional. Compramos um balcão de pia em aço inox e uma geladeira (o sogro de nossa amiga resolveu trocar de geladeira, para abrigar as cervejas geladas num novo modelo, e vendeu uma geladeira seminova, por 240 reais).

"Isso deve ser o paraíso, né?"
Uma casa metade de madeira, metade de alvenaria, com dois quartos, um pátio na frente e um atrás, uma sala. Ele e a Princesa lá, sob a marquise, estavam, prontos, aguardando a minha chegada, numa Kombi, para leva-los. Nervoso, em silêncio, o Seu Valdir olhava para mim como se perguntando se era verdade. Ele queria sair da rua, tinha dito isso, enfático. No dia 11 de junho, numa noite fria do inverno que ainda nem tinha chegado oficialmente, Seu Valdir e sua Princesa dormiram sob um teto. A luz só foi ligada 4 dias depois. Mas naquela noite, com as mãos trêmulas, ele se despediu de nós com a chave da casa nas mãos. Duas horas depois telefonou, para dizer que “isso deve ser o paraíso, né?”. Deve ser.

Em julho ele começou a plantar. Fez uma pequena lavoura, com tomates, alfaces, beterrabas (que chama de batata roxa, talvez porque seja guarani), espinafre, pimentão, temperos, abóboras. Pegou mais três cães, enxovalhados por donos cruéis ou simplesmente abandonados na rua. E os amigos começaram a se beneficiar da colheita desses vegetais feios, miúdos e deliciosos, sem nada de agrotóxico. Montamos um blog, ainda incipiente, para contar a história toda. Queríamos dizer às pessoas que é possível tirar um cidadão ou cidadã da rua, que há dinheiro e política em curso, no país, que é verdade e nós estávamos experimentando o quanto esse fato pode ser transformador na vida de uma pessoa.

Demos entrevistas a estudantes de jornalismo. Rejeitamos aparecer em televisões, invariavelmente dispostas a contar uma história bonita de voluntariado. A mais recente das tentativas veio com o estranho convite, feito pessoalmente a mim, a fim de que eu contasse sobre “a minha luta” para tirar um morador da rua. Todos os convites foram recusados. Não houve luta, nem voluntariado. Há um Estado e um governo que existem, nós testamos e testemunhamos isso. E há amizade e gente para quem a erradicação da miséria também implica mais felicidade e dignidade, inclusive frente a si mesmo, para além das mesquinharias de classe média.

No dia 13 de setembro o Seu Valdir tocou o interfone. Estava trêmulo e com os olhos mareados. Tinha três folhas de papel em mãos: uma com um comprovante de saque, no valor de 1291 reais, e uma carta, da Previdência Social, com um texto que começava assim: “Em atenção ao seu pedido...informamos que foi reconhecido o direito ao Benefício de Prestação Continuada etc....”. Nos abraçamos e tudo o mais que se diga sobre a alegria daquele momento é incapaz de descrevê-lo. Os 1291 reais eram retroativos ao dia 23 de maio, quando se abriu o processo de pedido do benefício.

Hoje, cada um dos amigos que participaram da ação entre amigos colabora oficialmente com 20 reais por mês. Oficialmente, porque a imensa maioria deles se recusou a parar de contribuir ou a diminuir a contribuição. Por decisão de todos, seguimos pagando o aluguel e a luz (valor total chega a trezentos e poucos reais), em troca dos produtos da lavoura orgânica. O Seu Valdir se matriculou e depois abandonou o EJA. Teve ataques de angústia e me telefonou muitas vezes, ansioso, receando que o benefício não saísse. Quando o benefício saiu, comprou uma máquina fotográfica digital, um pequeno cortador de canteiros, para aparar sua grama, um aparelho de som para ouvir música gauchesca e estendeu o braço para a mãe, uma descendente de guarani, também analfabeta. 

No momento, ele faz uma dentadura, com o superávit que as contribuições do grupo de amigos geraram. Uma veterinária amiga atende aos animais adotados por ele, inclusive a sua Princesa, a preço de custo. A outra cadela por ele adotada se chama Isabel, “como aquela princesa, né?”. E agora ele ficou sabendo que tem um programa chamado “Minha Casa, Minha Vida”. Eu o informei que as casas são muito pequenas, sem pátio, com quase nenhuma área verde. Ele respondeu: então eu vou ter de construir um lugar, comprar uma pré-moldada, né? Pode ser. Agora, pode ser.

Nenhum de nós precisou fazer isso, ninguém foi forçado e menos ainda foi requerida uma luta ou um grande esforço. A cada colheita, em cada conquista dele, a satisfação e a alegria de quem participa dessa ação entre amigos só se consolida. Há muitos capítulos nesta história e muitos são de angústia e medo. E há também um aspecto que habita um universo simbólico e afetivo de antes das palavras, que também comporta o afeto dele e nosso com os animais domésticos, então não dá para descrever, à altura, o que significa poder dizer que tiramos um cara da rua, que tem carne nos números do governo e, mais ainda, que somos parte dessa carne. Eu decidi testar o Estado e suas políticas e recebi, como resposta, na vida nossa e do Seu Valdir, que o Brasil Sem Miséria é uma realidade e, portanto, que um Brasil sem miséria é possível. Acionado em um desafio para dar vida nova a um morador de rua, o Estado brasileiro respondeu com políticas de carne e osso.

 

 

O plano de Mantega para garantir o crescimento

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O ministro da Fazenda conta à DINHEIRO como pretende proteger a economia brasileira e assegurar um aumento de 4,5% do PIB em 2012, ano em que as incertezas ainda dominam o cenário mundial.

Por Denize BACOCCINA, Carla JIMENEZ e Guilherme BARROS, na Dinheiro

Nem mesmo a pane no jato que o levaria de volta a Brasília, na manhã da terça-feira 31, foi capaz de abalar o bom humor de Guido Mantega. Ao final de uma longa conversa com a DINHEIRO na Base Aérea de Congonhas, em São Paulo, o ministro da Fazenda olhou para a parafernália eletrônica da reportagem sobre a mesa à sua frente e brincou: “Cuidado para não levar o meu iPad por engano. Aqui tem segredos de Estado”. Um dos segredos mais bem guardados no tablet do ministro é a natureza dos cortes que o governo irá fazer no Orçamento de 2012 para garantir o equilíbrio das contas públicas. A decisão, que tomou boa parte do seu tempo na semana passada, é essencial para garantir a relativa tranquilidade com que o Brasil tem atravessado a crise dos países ricos.

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Guido Mantega: "2012 será o ano do investimento. Queremos que o setor privado seja protagonista"

Ele não comenta as estimativas de analistas que apontam para uma redução de até R$ 60 bilhões nas despesas da União. Mas ressalta que não abre mão de manter o superávit primário (economia para pagar juros) em 3,1% do PIB, uma das principais armas em seu plano de voo para proteger o País das turbulências externas. Nesse ponto, nada muda na política econômica. “O Brasil faz superávit primário há 12 anos consecutivos”, afirma. “É uma situação consolidada. Nunca fomos tão respeitados.” Mas Mantega quer ir além e fortalecer ainda mais a economia neste ano. A ordem da presidenta Dilma Rousseff, que Mantega seguirá à risca, é garantir o crescimento do PIB entre 4% e 5% neste segundo ano de mandato. Em 2011, a soma das riquezas produzidas no País aumentou 3%.

Isso depois de atingir 7,5% em 2010. Acertar o passo em torno de 4,5% é uma meta ousada, num momento em que a Europa enfrenta a perspectiva de recessão, os Estados Unidos tendem a andar de lado e a Ásia, especialmente a China, deverá desacelerar, segundo as previsões da maioria dos economistas do mercado financeiro. Mesmo com a crise lá fora, Mantega acredita que o Brasil conseguirá evitar a contaminação e tem os instrumentos para ditar a velocidade do crescimento da atividade econômica. “Não há uma blindagem, porque a economia mundial é toda interconectada”, diz ele. “Mas nós temos um domínio maior do ritmo de crescimento que queremos imprimir. Nós ganhamos essa autonomia.” A fórmula dessa calibragem é continuar a redução dos juros para um dígito, de um lado, e acelerar os investimentos, de outro.
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Canteiro de obras: usina de Santo Antônio, prédios do "Minha casa minha vida"
e refinaria da Petrobras: projetos do PAC são prioridade do governo neste ano.
O Banco Central reduziu a taxa básica Selic em mais meio ponto percentual em janeiro, para 10,5% ao ano, e deve promover novos cortes nos próximos meses. E a Fazenda deve coordenar as medidas para estimular os investimentos públicos e privados. “2012 será o ano do investimento”, afirma Mantega. Nos últimos três anos, o estímulo ao consumo e o fortalecimento do mercado interno foram vitais para o Brasil driblar os efeitos da crise internacional. O País incluiu 50 milhões de pessoas no mercado consumidor e, em dezembro passado, o desemprego já havia caído para 4,7%, a menor taxa da história. Agora, o governo aposta no investimento como o motor do desenvolvimento. São os recursos produtivos, tanto públicos quanto privados, que vão modernizar a infraestrutura e preparar o parque industrial para o crescimento dos próximos anos.
Projetos de logística, energia e habitação encabeçam a lista de prioridades desse pacote de crescimento, que inclui as obras do PAC e medidas de desoneração tributária (veja mais detalhes nos quadros). Na semana passada, a agenda de Mantega começou com uma reunião em São Paulo – onde mora a família e ele tem despachado às segundas e sexta-feiras. Na tarde da segunda-feira, ele reuniu-se com representantes da Caixa, do Banco do Brasil e de construtoras para pedir o empenho de todo o setor para acelerar a construção das unidades do programa habitacional “Minha Casa Minha Vida”. O setor de construção civil é um dos que mais cresceram nos últimos anos, mas o governo acha que as obras do programa que pretende construir e entregar 2,5 milhões de residências até 2014 podem andar mais depressa.
No esforço para distanciar o Brasil da crise que já reduziu as exportações para a Europa, os dias do ministro da Fazenda têm sido divididos entre medidas para estimular a economia brasileira, proteger as empresas nacionais da concorrência dos importados e cortar as despesas. Na primeira tarefa, a parceria é com o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel. No difícil trabalho de cortar gastos, a parceira é a ministra do Planejamento, Miriam Belchior – que na quarta-feira 1º deixou Brasília para fazer exames em São Paulo por causa de uma crise de hipertensão. O governo tem até o dia 17 de fevereiro para apresentar os números. Até lá, as equipes de Mantega, Pimentel e Miriam Belchior negociam incentivos e cortes. Mantega já decidiu que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) terá um novo aporte do Tesouro, mas o volume será menor do que o do ano passado, de R$ 45 bilhões.
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O BNDES é fundamental na estratégia de crescer 4,5% em 2012. O banco foi um dos grandes financiadores de fusões entre empresas, como a BRFoods, na política de criação de “campeões nacionais” do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, vai privilegiar os financiamentos para melhorar a infraestrutura do País, uma das condições básicas para se garantir um crescimento sustentado. No ano passado, esses financiamentos representaram 40% dos desembolsos de R$ 139,7 bilhões. Somente os projetos de energia elétrica e logística (as grandes obras de transportes) somaram R$ 18,7 bilhões, num total de 155 empreendimentos. Para este ano, o diretor da área, Roberto Zurli Machado, prevê que o segmento terá financiamentos de R$ 23,4 bilhões e uma fatia maior do bolo, que não deve crescer.
A novidade é que o BNDES quer entrar também como sócio nas obras de infraestrutura, e não apenas como financiador. “Os projetos precisam de financiamento e de capital também. Por isso vamos entrar mais nisso, olhando as necessidades de cada projeto”, afirmou Machado. Projetos não faltam. O que faltou, nos últimos anos, foi mais velocidade para tirá-los do papel. No ano passado, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) só conseguiu gastar R$ 28 bilhões. Neste ano, o governo garante que vai executar todo o orçamento, superior a R$ 40 bilhões. São obras importantes, como novas usinas hidrelétricas, rodovias, ferrovias, projetos de saneamento básico, portos e aeroportos. Em todos esses setores, a parceria com o setor privado é fundamental.
Nos planos do governo, os investimentos privados devem chegar a 17% do PIB, enquanto os do setor público, incluindo as estatais, aumentariam de 2,8% do PIB em 2011 para algo entre 3% e 3,5% em 2012. É o bom e velho desenvolvimentismo, mas com uma ênfase diferente na participação dos agentes econômicos. “No passado era só o Estado que investia, e o setor privado era um coadjuvante”, diz o ministro. “Agora nós queremos que o setor privado seja o protagonista.” Há muito espaço a ser ocupado pelos empresários. Um levantamento do economista Carlos Campos, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra que a maioria das obras do PAC realizadas no ano passado estava apoiada em três frentes: os projetos patrocinados pela Petrobras, pela Caixa (para financiar os mutuários do “Minha Casa Minha Vida”) e pelo do BNDES.
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O setor privado participou com 18% dos recursos necessários para o PAC, mas também com grande suporte do BNDES. Para alterar esse quadro, o governo vem estimulando, desde o fim de 2010, a criação de instrumentos financeiros que garantam o crédito ao setor de infraestrutura. “Os bancos privados já levantaram R$ 150 bilhões em letras financeiras e estão se preparando para financiar projetos de infraestrutura”, diz Mantega. Apetite para entrar no jogo não falta ao setor, garante Silvania Del Barrio, superintendente de Project Finance do Itaú BBA. Que venham as grandes obras. “Ainda não estamos vendo o número de projetos que gostaríamos de ver”, diz Silvania. Alguns fatores explicam esse desencontro entre oferta e demanda de recursos.
E um deles é a falta de cultura do País de investir em empreendimentos de longo prazo, como os de infraestrutura. “O governo pode dar o norte, mas quem dá o ritmo dos negócios são as agências reguladoras”, diz Robertson Emerenciano, advogado especializado em infraestrutura. Licenças ambientais e autorizações de uso de solo ou de espaço dependem de uma coordenação nos órgãos públicos, que ainda está se acomodando na economia brasileira. “É preciso destravar a burocracia para emitir licenças ambientais”, diz Wagner Cardoso, secretário-executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI). “Para liberar autorizações, pedem até a foto do Pelé”, dramatiza. Muitos projetos dependem, ainda, de concessões, ou marcos regulatórios que estão em fase de ajuste, como no caso de saneamento básico ou do setor ferroviário.
“Entrar no setor de ferrovias ainda é difícil, pois os projetos têm maturação de 30 anos. Mas o mercado quer retorno de dez anos”, diz Renato Mazzola, diretor da divisão de Investimentos em Infraestrutura do BTG Pactual. Se por um lado a carência brasileira desanima, ela é também sinônimo de oportunidades de negócios para quem busca alternativas de lucro, principalmente quando a economia global está patinando. Mazzola conta que já conversou com 160 investidores estrangeiros, interessados em projetos na área. “Se compararmos o Brasil com os demais Brics, ainda somos a Suíça em termos de regulação”, afirma o executivo. Um bom termômetro da atração pelo País será o leilão dos primeiros aeroportos, que acontece na segunda-feira 6. Onze consórcios disputam o controle dos terminais de Guarulhos e Viracopos, em São Paulo, e o aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília.
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“Teremos um ágio interessante para o governo, que tornará as próximas rodadas de concessão ainda mais atraentes”, diz Renato Mazzola. O BNDES também vai financiar parte dos investimentos – até 80% do que for gasto no Brasil. Mas o plano do ministro Mantega não é apenas de investimentos em obras de infraestrutura. Ele lembra que as montadoras de veículos instaladas no País vão investir U$S 20 bilhões na ampliação de suas atividades até 2014. “Graças aos cuidados que nós tomamos, senão eles iriam investir em outro lugar”, afirmou o ministro. No dia 15 de dezembro do ano passado, o governo aumentou em 30 pontos percentuais o IPI sobre carros importados. Embora polêmica, a medida foi celebrada por outros segmentos da economia, que compõem a cadeia de fornecedores do setor automobilístico.
“Se querem vender aos brasileiros, então que venham produzir aqui”, diz Carlos Fadigas, presidente da petroquímica Braskem. Fadigas acredita que a boa fase da economia brasileira deve ser aproveitada internamente, principalmente depois do crescimento de apenas 0,3% no setor industrial em 2011. “É legítimo investir numa cadeia nacional de veículos, assim como numa rede de fornecedores locais da Petrobras”, diz ele. As decisões de investimento da Braskem também levaram em conta essas prioridades do governo. Com US$ 5 bilhões em caixa para os projetos dos próximos cinco anos, a petroquímica deve inaugurar, em 2012, duas fábricas, uma de PVC, em Alagoas, e outras de intermediário de borracha (butadieno), no Rio Grande do Sul – esta última visa a atender ao crescimento do mercado automotivo brasileiro. A empresa de logística Ceva também se beneficia da expansão da indústria automotiva e já prevê crescimento de dois dígitos em 2012, ancorado, em parte, na expansão das plantas da Ford e da Volkswagen, no Nordeste.
“Vamos fazer o maior investimento dos últimos três anos em gestão de pessoas”, diz Caio Najm, diretor-geral da Ceva, que pretende ampliar em 10% o quadro de funcionários para atender à demanda. O economista-chefe do Banco Bradesco, Octávio de Barros, observa que, na prática, o ciclo de investimentos privados no País nunca foi de fato interrompido desde 2005. “O cenário global adverso apenas gerou uma recalibragem dos projetos de investimento, mas eles não foram abandonados”, diz Barros, que acredita na recuperação do setor industrial este ano, apesar da sobreoferta dos produtos manufaturados no mundo. Para ele, a meta de crescer 4,5% não é impossível, pois o “fundo do poço” da desaceleração da economia ficou em outubro. A pesquisa do Banco Central com economistas de bancos e consultorias mostra que o mercado prevê um crescimento de 3,27% para este ano.
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A meta de crescimento do governo também parece factível para o presidente da DHL Express Brasil, Joakim Thrane. “Mas não devemos olhar o mercado doméstico como único foco”, diz Thrane. “É preciso trabalhar uma estratégia de comércio exterior mais aberta e agressiva.” O ministro Guido Mantega lembra que o País conseguiu diversificar os destinos de suas exportações, o que reduziu a dependência da Europa, por exemplo. Com o dólar desvalorizado, no entanto, o problema ganhou força. Em janeiro, a balança comercial teve um déficit de US$ 1,29 bilhão, o maior para um mês de janeiro. Por isso, o governo quer tomar providências para proteger o mercado brasileiro. Uma das medidas em análise é uma salvaguarda temporária que vai instituir a cobrança do imposto de importação de produtos têxteis por peça e não por valor, e pode impedir a entrada de mercadorias subfaturadas.
O governo também quer romper o acordo automotivo com o México, por causa do déficit comercial neste setor e de suspeitas de que peças e partes que entram como mexicanas sejam na verdade produzidas em outros países. Apesar das reclamações da indústria, o nível de utilização da capacidade instalada aumentou para 83,7% em janeiro, próximo ao patamar histórico de 84,1% de julho do ano passado. Neste cenário de plena utilização da indústria, são muito bem-vindos novos investimentos no aumento da capacidade produtiva da indústria brasileira, para que o governo não seja obrigado a esfriar de novo a economia quando ela voltar a aquecer. Se o plano de Mantega der certo, quem sabe seu próximo iPad será fabricado no Brasil.
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“O brasil Será um caso à parte em 2012”
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, fala sobre as medidas que o governo já adotou para garantir o crescimento de 4,5% na economia neste ano e destaca a importância do setor privado para aumentar o volume de investimentos no País. Confira os principais trechos da entrevista:
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Como o sr. pretende blindar a economia brasileira da crise global?
Não há uma blindagem, mas estamos protegendo a economia brasileira. No passado, ela foi muito dependente dos Estados Unidos e da Europa, mas diversificamos muito os parceiros comerciais. Hoje, dependemos muito mais do mercado interno. Enquanto a Europa vai ficar próxima da recessão, os Estados Unidos vão crescer no máximo 2% e a Ásia vai desacelerar, nós vamos crescer mais do que no ano passado. Estou prevendo 4,5%. Seremos um caso à parte. No ano passado, queríamos desacelerar, porque havia um fenômeno mundial de inflação que poderia contagiar o Brasil. Fizemos política monetária e fiscal restritivas. Neste ano, revertemos essas medidas, soltamos o crédito, baixamos o IOF e reduzimos o IPI para alguns produtos.
O nível de tributação no Brasil ainda é muito elevado. Não está na hora de uma mudança? O turista brasileiro que vai para Miami paga um décimo do valor cobrado aqui nos produtos que compra.
Não acho que a carga tributária seja elevada. Ela tem caído. O que aconteceu é que as empresas estão pagando mais Imposto de Renda porque tanto a formalização quanto a fiscalização da Receita aumentaram. Quem já pagava, agora paga menos. O investidor e o empresário estão pagando menos. Há menos IPI, menos PIS/Cofins, para alguns setores. Reduzimos o prazo de depreciação dos equipamentos. Também reduzimos a apropriação do prazo do PIS/Cofins. Temos desonerado bastante.
Qual é o efeito cambial?
A desvalorização do dólar é de mais de 50%. Então, lá fora tudo fica mais barato. Há um desespero dos produtores. O pavor de Ben Bernanke, presidente do Fed, é a deflação. Além do mais, os Estados Unidos não produzem mais nada, trazem tudo de fora. Por isso fica barato. Foi assim que desestruturaram a indústria. Não queremos isso aqui. O câmbio é a maior arma comercial que nós temos hoje.
E o que o governo pode fazer para atacar esse problema?
O governo tem de atuar no câmbio, e estamos fazendo isso. Não dá para fazer milagre. Tanto os Estados Unidos quanto a Europa estão com a moeda desvalorizada. Vários países têm juro real negativo. Estamos com o câmbio melhor do que antes, porque tomamos medidas eficazes, como o IOF. Tomamos medidas de defesa comercial, como o IPI dos carros. A importação já está caindo.
As montadoras podem subir o preço? Há acordo para evitar isso?
Quando aumentamos o IPI, fizemos um acordo para não subir os preços. Se subir, a gente reverte. Não permitiremos que o consumidor brasileiro seja prejudicado.
Os preços não cairiam mais para o consumidor se o mercado fosse livre?
Se o mercado fosse livre, iria acabar com a indústria nacional. Só haveria produção na China, na Coreia, e o Brasil se tornaria só um grande importador. Voltaríamos ao Brasil da Primeira República.
O sr. acha natural a remessa dos lucros das montadoras? Não deveria haver uma maior contrapartida, com investimento delas no Brasil?
O Brasil é um país que tem regras do jogo bem claras em relação ao investimento externo. Não podemos impedir a remessa de lucros e dividendos. As remessas no ano passado foram de US$ 38 bilhões, mas entraram US$ 66,6 bilhões de investimentos externos A indústria automobilística tem um plano de investimento de US$ 20 bilhões até 2014, graças a essas medidas que nós tomamos.
Qual é a sua visão sobre o futuro do capitalismo?
O capitalismo precisa ser sempre reinventado. Onde está dando mais certo? Nos países que adotaram o capitalismo de Estado. Não vamos comparar o Brasil com a China, onde 80% da economia está sob controle do Estado. Mas o Brasil tem bancos públicos também, o Brasil tem financiamento público. O que está em crise é o capitalismo liberal clássico, o capitalismo da desregulamentação financeira, que nos levou a esta crise toda. Modestamente, acho que uma das formas mais eficientes de capitalismo é a do Brasil. É um capitalismo que traz diretamente benefícios à população. Estamos longe do modelo europeu de desenvolvimento, mas estamos a caminho de alcançá-lo.
O sr. está feliz no cargo? É bom ser ministro da Fazenda neste momento?
É bom. E sabe por quê? Porque gosto de desafios. Eu não tenho me entediado no cargo. Os resultados são muito satisfatórios. A classe E diminuiu sensivelmente e estamos conseguindo dar emprego para todo mundo que quer emprego. Me dá uma grande satisfação ser ministro de uma economia que não está arrochando salário, não está desempregando gente, que paga dívida.
O que falta?
Muita coisa. Falta termos todo mundo na classe B, na classe A. Falta a renda per capita ser de US$ 40 mil, e não de US$ 12 mil. Não temos o padrão da população japonesa, da população americana. Mas a vida está melhorando.
Diante disso, a reeleição da presidenta Dilma está garantida?
Ninguém está pensando em eleição. Temos um ano de governo e temos de pensar em consolidar essa situação. Estamos na rota do desenvolvimento sustentável.
 

Amores líquidos e certos

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Angela Klinke, no Valor

Arte, comida e bebida

Manoel Beato, sommelier do Fasano, escolhe comida japonesa e bebe saquê “À Mesa com o Valor”. Ele cultiva a música e a literatura. “Tudo se mistura: arte, comer, beber.”

Manoel Beato, o “sommelier” mais incensado do país, não traz o próprio vinho. Carrega livros e uma caixinha misteriosa. Ele está prestes a completar 20 anos de grupo Fasano e, por isso, preferiu que o encontro fosse num restaurante que pudesse lhe reservar surpresas. “Eu sigo o princípio da degustação às cegas para quase tudo. É como diz um haicai do Bashô: é preciso ater-se ao ato em si, não ao entorno. Ou seja, olhar menos os rótulos, viver sem tanto fetichismo.” O Kinoshita, na Vila Nova Conceição, em São Paulo, trabalha com a alta gastronomia japonesa, a “kappo cuisine”, e Beato conhece o chef Tsuyoshi Murakami, da época em que ele ainda atendia em uma portinha na Liberdade.

A primeira descoberta do dia é que o chef não está. A segunda é que Beato sugere começar com saquê. Jura? A perspectiva de harmonizar vinhos com tantos sabores exóticos parecia mais estimulante. Mas ele está afiado na matéria, depois de um curso em Nova York no qual degustou mais de 90 destilados de arroz. “Há uns tão bons que remetem até a um sauvignon blanc.” Então, tá.

Alguns pratos japoneses vão bem com saquê, mas ’sushi’, não. O vinho é melhor. É preciso uma certa doçura e nenhuma madeira

A fotógrafa Silvia Costanti havia posicionado seu tripé na área envidraçada. O ambiente era ensolarado e acolhedor. Um raio de sol cinematográfico refletiu no objeto que Beato tirou da tal caixinha. Ele levou os próprios “hashis” feitos de madeira e com cabo de prata, da marca francesa Ercuis. “É por uma questão estética, claro. Mas também porque o peso do acabamento de metal torna o movimento de pinça mais fácil.”

Sua juventude estava expressa nos dois livros que trouxera. Desde a adolescência Beato se interessa por literatura e chegou a cursar um ano e meio de letras, na Unesp, em Assis (SP). Mas ele revela que gosta mesmo é de teoria. Um volume é “Pindorama Revisitada”, de Nicolau Sevcenko. O outro é… “As Aventuras de Pinóquio”? “É que no ‘Seis Passeios pelos Bosques da Ficção’ Umberto Eco diz que o autor perverte a literatura infantil. A história começa com ‘era uma vez um pedaço de pau’ e não ‘era uma vez um príncipe’.”

Fugir da obviedade não é gênero de Beato. Tem a ver com sua história. Ele cresceu numa cidade no interior de São Paulo, Vera Cruz, hoje com 14 mil habitantes. Mas como foi fundada em função da linha do trem e, conta ele, naquela época o nome de cada estação seguia o alfabeto, Vera Cruz chegou a ser chamada de Kentucky. O K entre o G de Garça e o M de Marília. “O é de Oriente, terra do Marcão”, conta, fazendo referência ao goleiro recém-aposentado de uma de suas poucas convicções, o Palmeiras.


Em 2002, com a cadela Julieta, no Fasano

A “hipocrisia” e o “comodismo” da cidadezinha revoltavam o garoto da classe média, filho de um ferroviário e de uma professora primária. E sua falta de entrosamento com o meio foi catalisada pelo poeta e “comunista” Silvio Spada, que morava na cidade. “Ele me abriu o mundo da literatura.” Com alguns amigos de “espírito crítico”, chegou a montar o Bloco da Geni, inspirado na canção de Chico Buarque. As ideias de esquerda o seduziram e o fato de a igreja local bajular os “poderosos” e de seus pais serem católicos de “dar a hóstia” levou ao seu paradoxo batismal: Beato é ateu. “Por que acreditar num Deus que não existe?”

Em 1982, foi preso por colar um cartaz gigante de Lula na campanha ao governo de São Paulo, bem no dia da eleição. Sentiu-se desafiado pelo status quo de Vera Cruz. Daí, sua primeira opção na faculdade foi ciências sociais. Bastou um ano para perceber que era a literatura que o motivava. Lá se foi, então, para o curso de letras. Mas o tédio também o alcançou. Foi então que pegou um bico de garçom. “Isso foi determinante na minha vida, porque descobri que gostava de servir. E até hoje eu repito que ser ’sommelier’ é antes de tudo servir.”


Em 2006, comprando vinhos: “Ser ‘sommelier’ é antes de tudo servir”

O “acaso”, como ele gosta de frisar, fez que fosse trabalhar no Quintal, um restaurante fora dos padrões para uma cidade do interior, ainda mais Assis na década de 1980. “Não havia nada tão chique, nem em Campinas nem em Ribeirão Preto.” Palavras que ele não conhecia, como galinhola, e gostos de que nem desconfiava, como o do caviar, o estimularam a estudar. Decidiu ir para São Paulo em 1986, fez um curso no Senac de Águas de São Pedro e foi trabalhar no bar do hotel Maksoud Plaza. No bairro, havia a única livraria especializada em gastronomia da cidade, a de Nina Horta, que ele passou a frequentar. “Mas praticamente não havia livros em português.”

Uma giradinha em um dos dois espécimes de saquê (quem consegue transpor aqueles rótulos?) e o aroma de casca de banana fica evidente. “Ambos são da categoria ‘daiguinjo’, o mais refinado, feito com o coração do grão de arroz. Muito diferente da maioria que chega ao Brasil, com cheiro de Leiba [um remédio].” Esses são aromáticos e delicados, sem dúvida. Mas já se passou meia hora e não “harmonizamos” essas belezuras com nada.

Não pense que, por provar 40 vinhos por dia, Beato está imune a um pré-pilequinho. “Dou plantão toda noite no Fasano até 2 horas. Acordo tarde. Então de manhã meu metabolismo ainda está lento. Vamos escolher?” Ao entregar a carta, o garçom pergunta se alguém tem alguma restrição a ovas ou mariscos. Topamos qualquer parada. Beato sugere, então, o menu “surpresa” para os três, com nove pratos – “assim seguimos a lógica do às cegas”.


Com Araquém Alcântara, autor das fotos para seu livro “Cachaça”

Servir exige que Beato tenha repertório para propor e disponibilidade para ouvir. Por isso, ele se define como uma pessoa flexível. “Mas o Rogério Fasano diz que é falta de opinião”, conta e ri. “Na verdade, eu não consigo ser categórico. Tenho de considerar as novas formas de ver. Mas, é claro, só acato de quem considero.” Para ilustrar seu ponto de vista, lembra que uma vez ganhou uma calça de cintura baixa de uma namorada, não gostou e foi para a loja trocar. “A vendedora era tão eficiente que me ensinou como eu deveria usá-la e desde então eu mudei a forma de me vestir.”

A música é outro exercício de flexibilidade. Estudou sax por dois anos, está comprando um piano e sempre tem visitas ilustres em casa para discutir os meandros da MPB e do jazz. “O Paulinho da Viola passou dois domingos comigo e minha namorada, Gabi [Gabriela Monteleone, "sommelier" do DOM]. Como já tenho um pouco mais de intimidade, em determinado momento disse que ele não conhecia meu violão. Aí ele pegou, avaliou o instrumento e passou a tarde tocando.”

Uma vez os amigos Luca Raeli (seu professor de música) e Carlos Fernando (vocalista do Nouvelle Cuisine) promoveram um debate doméstico sobre Chico Buarque. “Eu sempre achei que o Chico não era tão fera em harmonia, como o Guinga e o Tom [Jobim]. Mas aí o Luca mostrou quanto o Chico, até sem saber, é incrível nesse quesito. ‘Desalento’, por exemplo, é Wagner.” E começa a cantarolar a música, ali na mesa do Kinoshita, para provar. “Agora passo essa história adiante.”


No Mocotó, em São Paulo, em degustação dessa bebida envelhecida em madeiras exóticas

Beato recorre a “Elogio ao Ócio”, no qual Bertrand Russel discute a ética do trabalho e o uso sábio do lazer, para explicar por que, além da música, há anos estuda história da arte com Rodrigo Naves. “Para mim, tudo se mistura: a arte, comer, beber. Isso é minha vida. E tudo o que você é imprime no que você faz.” A frase de efeito é seguida por um silêncio. E então a trilha do restaurante aparece: “Take Five”, do Dave Brubeck Quartet. Parecia até um “sobe som” do “Adega Musical”, programa na Rádio Eldorado que Beato comandou por quatro anos e no qual harmonizava vinhos e músicas.

Apesar do nome e de ter sido coroinha, Beato não descobriu o vinho na missa. Foi a carreira de garçom que lhe abriu a porta para o novo mundo. Ele deixou o Maksoud para servir um “sheik”, em Campinas, uma proposta economicamente tentadora. “Até limusine tinha. Mas ele queria mesmo era um escravo. Então, depois de uma semana fui embora.” Aportou no Saint Germain, restaurante do publicitário Geraldo Alonso, que na época também era dono da importadora Mistral e da revista “Gula”. “Eu continuei fazendo cursos e vi que tinha de ir para a França se quisesse seguir em frente na profissão.” E foi. Trabalhou em Lisboa e Paris, colheu uvas na Borgonha. Voltou falando francês e aí sim, diz ele, veio a grande virada. Sua entrada no Le Bistingo, que ficava na alameda Franca, em São Paulo.


Seus “hashis” ao lado de prato no Kinoshita: “Grandes profissionais acabam indo para importadoras porque ganham mais e não trabalham no fim de semana. É preciso ter paciência e idealismo para persistir na área”

“O restaurante tinha uma concepção moderna, com gente jovem trabalhando. O dono, Michel Thenard, me falava da classificação de estrelas, dos grandes chefs. Era amigo do [Alain] Ducasse. E tinha livros em francês do [Michel] Guérard, [Joël] Robuchon, La Chapelle, que eu já podia ler.” Um belo dia o proprietário o autorizou a provar os vinhos. “Isso foi uma surpresa. O ’sommelier’ não podia provar o vinho naquela época.”

Chega o primeiro prato, um tofu de ovo orgânico com camarão, ovas de salmão e um caldo leve de peixe. Flash no prato, que se chama “tamago dôfu”. “Tem coisa mais gostosa do que pedir o menu degustação e descobrir coisas novas?”

Beato foi da primeira turma da Associação Brasileira de Sommeliers, 1989, tendo como professores Jorge Lucki (colunista do “Valor”), Mário Telles (crítico de vinhos) e Ciro Lilla (atual dono da Mistral). E o fato de saber francês fez toda a diferença para se aprimorar. “Até hoje o idioma ainda é uma barreira para muitos, mas há outras complicações. É uma profissão em ascensão e extinção. Grandes profissionais acabam indo para importadoras porque ganham mais e não trabalham no fim de semana. É preciso ter paciência e idealismo para persistir na área.”

Falta empenho dos restaurantes na formação do “sommelier”, acredita Beato. O que acaba sendo um tiro no pé. “Vinho é faturamento e quando bem trabalhado representa de 30 a 40% do resultado, como acontece no Fasano. E é o ’sommelier’ quem ajuda a vender.” Ainda estamos no saquê, quando entram as ovas de tainha acompanhadas de “wasabi” fresco. E, na sequência, salada de enguia com pepino japonês e molho “ponzu”. “Vocês comem tudo mesmo?”, duvida Beato.


“Tem coisa mais gostosa do que pedir o menu degustação e descobrir coisas novas?”

Sua entrada no Fasano, em fevereiro de 1992, como “sommelier” coincidiu com a abertura das importações, um “turning point” na gastronomia local, que sofria com a falta de diversidade. “Eu estava no lugar certo, na hora certa.” Começaram a surgir importadoras, como a Expand e a Maison du Vin, e os convites para conhecer produtores. O Fasano era o restaurante mais luxuoso do país. “Era uma época só de clichês, como Brunellos e Lafite. Quase ninguém falava de safra.” O ambiente envidraçado ficou escuro, mas só a fotógrafa reparou na falta de luz. A chuva veio cheia de personalidade, como o prato seguinte, um “sashimi” de atum com “foie gras” e molho “teriyaki”.

Nesses 20 anos, avalia ele, os clientes evoluíram. “Eram poucos os que sabiam degustar e identificar que um vinho estava estragado. Hoje, tem muitos sabichões.” Beato buscou estar “à frente” dos esnobes e exigentes. “Gasto meu dinheiro viajando e já fui a praticamente a todas as regiões produtoras de vinho do mundo. Vou atrás também dos restaurantes estrelados. Assim, não há como rolar intimidação.” Conta com padrinhos que realmente querem melhorar o repertório. Alguns deles com tal afinco que convidam Beato a embarcar em jatinhos particulares para desvendar as melhores garrafas do mundo.

Nem sempre essas suas ausências são bem-aceitas pelo patrão. “Eu me defendo dizendo que traz mais benefícios que prejuízo.” Aos 47 anos, Beato se imagina na mesma empresa nos próximos 20. “Isso se eles me quiserem.” Em duas décadas, seu maior mérito, diz ele, foi aprender a lidar com o “excesso de personalidade” de Rogério Fasano, que se mantém na direção dos restaurantes. “Ele tem convicções e concordo quando diz que o vinho francês é superior ao italiano. Mas Rogério, mesmo não gostando de algum rótulo da carta, nunca me disse para tirá-lo. Ele respeita meu trabalho e eu admiro o dele.”


“Se estivesse diante de um pelotão de fuzilamento, meu último pedido seria um café ‘blue mountain’”

Antes de entrar no grupo, cogitava uma carreira internacional. Hoje, não mais. “Poucos lugares no mundo são como o Fasano. E eu posso acompanhar o processo de internacionalização do grupo. Sou feliz no Brasil. Nossa informalidade permite uma troca com o cliente impensável em outros países.” Seu atual projeto é montar degustações temáticas no hotel Las Piedras Fasano, em Punta del Leste, no Uruguai.

Finalmente escolhe dois vinhos em taça para “brincar” com as iguarias espantosas que viriam (veja ao lado): um riesling alemão (Künstler, 2009) e um branco neozelandês (Cloudy Bay, 2010). “Alguns pratos japoneses vão bem com saquê, mas sushi, não. Chá verde é perfeito, mas não é bebida alcoólica. O vinho é melhor. É preciso uma certa doçura e nenhuma madeira. Brancos do Vale do Loire, alguns rieslings e, claro, champanhe, vão bem.” Deixa seus “hashis” especiais de lado e ataca com a mão um “sushi” de ovas de bacalhau.

São tantos os caminhos do vinho explorados por Beato que esse palmeirense “com argumentos”, como gosta de se definir, arrisca até uma comparação do vinho com o futebol. Faz isso não só com conhecimento de torcedor, mas como praticante de society duas madrugadas por semana. “São milhares as jogadas possíveis num campo, assim como as combinações dos elementos do vinho. Ambos são complexos e sempre surpreendem.” Esteve próximo de soltar um “caixinha de surpresas”, mas, como não gosta de nada óbvio, resistiu.

O menu “kappo”, que Beato chamou de “narrativa”, termina com um sorvete de “yuzu” (fruta cítrica), gancho para falar do livro que acabou de lançar sobre “a beleza da cachaça” – Beato já escreveu o “Guia de Vinhos Larousse”. “O destilado é para finalizar uma refeição e combina com doce geladinho.” Com fotos de Araquém Alcântara, a obra, intitulada simplesmente “Cachaça”, tem um prefácio inusitado, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “Ele já tinha ido duas vezes comigo no Mocotó tomar cachaça. Mas, por razões óbvias, muita gente achava que eu deveria ter chamado o Lula. E é engraçado que o Fernando Henrique brinca com isso na apresentação.”

Por fim, o café. E mais uma associação. “Se eu estivesse diante de um pelotão de fuzilamento, meu último pedido seria um café ‘blue mountain’, moído na hora, tirado por uma bela barista numa supermáquina.” Mas, enquanto a vida o põe só na mira de saca-rolhas, terminamos as três horas de conversa com um imutável Nespresso.

 

 

Povos da África enfrentam situações asfixiantes

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Bernardus Van Der Putten, no Monitor Mercantil

Governos cancelam subvenções a alimentos e serviços públicos

Finalmente, não foi a Nigéria o único país da África onde o governo cancelou a subvenção estatal aos combustíveis provocando - em consequência - gigantescos aumentos nos preços de alimentos básicos, produtos e serviços de utilidade pública. Governos de outros países africanos também passaram a adotar esta impopular política - nova redução do já paupérimo rendimento de milhões de famílias, a começar na África subsaariana.

A medida é tomada com o argumento de "combater a corrupção" e a promessa de "futuras" obras de infra-estrutura em alguns países africanos, cujo subsolo é rico em minérios estratégicos. Esta é, também, a orientação que formula o Fundo Monetário Internacional (FMI) para uma série de países como Nigéria, Gana, Guiné, Chade, Camarões, Uganda e Tanzânia.

Em alguns países, o cancelamento da subvenção estatal foi decretada desde o mês de dezembro passado, como é o caso de Gana, que, apesar de desde o ano passado ter entrado no clube dos países africanos produtores de petróleo, viu os preços de combustíveis, alimentos básicos e serviços de utilidade pública explodiram.

Apesar do comunicado do Ministério de Economia garantindo que "apesar da explosão da carestia finalmente vencerá a economia nacional", a liderança da central dos trabalhadores do país - Congresso de Uniões Sindicais (TUC) - instou o governo a revalidar a subvenção, advertindo que, caso contrário, haverá greve geral por tempo indeterminado, a exemplo do que acontece na Nigéria.

Mas o governo do presidente Jon Atta Mils, resiste, por enquanto, às pressões, argumentando que "os quase US$ 276 milhões gastos ano passado para subvenção de petróleo serão destinados a novas obras de infra-estrutura quando chegarem novos investidores". Contudo, acredita-se que o governo sucumbirá às pressões não só da TUC, mas também dos eleitores, considerando que até o final deste ano serão realizadas eleições presidenciais.

Efeitos do aumento

Se para o povo de Gana o fim de 2011 foi sofrido, o povo da Tanzânia sentiu a eclosão da carestia a partir do primeiro dia deste ano. Foi quando, em um dia apenas, os preços de energia elétrica e combustíveis aumentaram acima de 40%, provocando asfixia e revolta na população.

Anotem que, em relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) intitulado "As desiguais vantagens das subvenções nos combustíveis: Revisão de dados para os países em desenvolvimento", seus executivos Arce Del Granado, David Kosdi e Robert Giliham reconhecem que "apenas um aumento, em média, de US$ 0,25 por litro de petróleo reduz o rendimento real das famílias em 5,9%".

Também em Uganda, o fim da subvenção nos combustíveis e energia elétrica foi decretado no dia 12 do mês passado, provocando aumento de 42% nas contas de eletricidade, enquanto a inflação no país galopa acima de 27%. A mesma situação vivem os povos de Guiné e Chade, enquanto nos Camarões já foi anunciado, oficialmente, que dentro deste ano serão cancelados todos os subsídios estatais para que o país, supostamente, economize US$ 600 milhões.

No mesmo período, na Nigéria o cancelamento das subvenções estatais provocou aumentos de 200% nos combustíveis, transportes urbanos e interurbanos, alimentos básicos e serviços de utilidade pública, provocando greve geral por tempo indeterminado, que terminou parcialmente, após o compromisso do presidente Goodluck Jonathan de que 30% das subvenções voltarão, assim como ameaçou ordenar banho de sangue dos trabalhadores grevistas pelo exército e serviços de segurança se não voltassem ao trabalho imediatamente".

Inspiração do FMI com apoio de ex do Goldman Sachs

Nada, obviamente, tanto na política, quanto na economia é casual. E sequer sintomaticamente todos estes governos dos países da África tinham "inspiração" para eliminar as famílias pobres com suas novas ondas de carestia com o pretexto de "combate à corrupção" e a "construção de obras de infra-estrutura".

No final do ano passado, a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, realizou uma vilegiatura por quase todos os países da África subsaariana e duas estadas prolongadas na Nigéria e na África do Sul, por ocasião das quais "aconselhou os governos a promoverem desregulação da energia e reformas econômicas" e parabenizou o Governo da Nigéria pelas políticas que, supostamente, são planejadas e adotadas pelos governos africanos para os povos africanos.

Particularmente, no caso de sua visita à Nigéria, Christine manteve conversações particularmente amigáveis com a ministra de Economia da Nigéria, ex-vice presidente do Banco Mundial (Bird) para a África e ex-executiva do banco de investimentos Goldman Sachs, Ngózi Okodzo Igala, e com o presidente do Banco Central da Nigéria, Sanousi Lamido Sanous, os quais decretaram imediatamente o cancelamento da subvenção estatal a combustíveis, proclamando a medida como "salvação" e para o "bem" da economia nigeriana.

Tudo isso está acontecendo na Nigéria, maior país produtor de petróleo da África subsaariana (produção diária de 2,4 milhões de barris de petróleo), mas que, estranhamente, importa 65% de seus combustíveis da Grã-Bretanha, porque durante décadas seus governos, aparentemente civis, em colaboração com petrolíferas multinacionais estrangeiras, trataram de evitar que existissem no país refinarias de petróleo em número suficiente.

Obviamente, os povos da África (e não só...) não conseguirão jamais melhorar seus níveis de vida se não tomarem, efetivamente, o poder em suas próprias mãos, livrando-se dos planos imperialistas e implantando regimes verdadeiramente democráticos e autônomos.

 

 

Novas revelações sobre a catástrofe de Fukushima

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Lee Wong, no Monitor Mercantil

Criminosa ocultação de informações revolta opinião pública

Dias difíceis atravessa a empresa Tepco, geradora de energia elétrica, cuja usina situada na cidade de Fukushima provocou o maior desastre nuclear dos últimos tempos. A Tepco, que realizou péssimo gerenciamento das consequências do tsunami que atingiu suas instalações nucleares, tem a petulância de querer impor aumento em seus preços de energia em 10% para os particulares e 17% para as empresas. E esta audácia torna-se desafio na medida em que são reveladas as novas negligências da Tepco, assim como todas do setor nuclear do Japão.

Em 19 de janeiro, a empresa reconheceu o mau funcionamento de um sistema de transferência de dados para o governo. Em novembro de 2010, quatro meses após a catástrofe, a empresa deveria ligar em regime de alimentação provisória um mecanismo que fornece - em tempo real - todos os dados relativos a temperatura dos reatores e níveis de radiostividade em torno das instalações em dois sistemas de informação que são partes integrantes da rede governamental para previsão das catástrofes. Mas, naquela época, a ligação não foi possível ser feita porque o cabo para a ligação era muito curto!

Após ter sido informada do mau funcionamento após o acidente, o Serviço de Segurança Nuclear e Industrial não julgou importante incluir o fato no relatório da Comissão de Investigações relativo aos motivos do acidente nas instalações que foi publicado em dezembro.

Há meios alternativos

Outro problema de responsabilidade da Tepco é a falta de gravações das conversações do grupo de crise, que foi criado pelo Governo do Japão, pelo Serviço de Segurança Nuclear e Industrial e pela Tepco após o acidente. Em 24 de janeiro o ministro de Economia, Comércio e Indústria do Japão, Yukio Edano, pediu perdão, após ter confirmado a informação. Edano, que em março de 2011 ocupava o cargo de representante do governo, julgou "triste" a falta destas gravações.

Até o jornal japonês Nihon Keizai, que apóia a geração de energia elétrica por reatores nucleares, observou que "estas revelações criam suspeitas de que o governo, de propósito, não exibiu as gravações para ocultar da opinião pública do Japão determinadas informações".

Todas estas revelações funcionam contra o reinício das operações dos 51 reatores nucleares que geram energia elétrica no Japão. A opinião pública do país é praticamente a maior inimiga do reinicio das operações dos reatores em todo o território japonês.

Quanto mais que, de acordo com o jornal Mainichi, o governo ocultou deliberadamente o relatório, de acordo com o qual "o Japão dispõe de suficientes meios alternativos de geração de energia elétrica para contrabalançar o fim de funcionamento de todos os reatores nucleares, e que poderia passar o verão sem problemas de fornecimento. O motivo é que o governo japonês queria disseminar o medo pela falta de energia elétrica e convencer a opinião pública a aceitar o reinício de funcionamento dos 51 reatores nucleares do país".

 

 

Reestruturação financeira do Pentágono

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Alex Corsini, no Monitor Mercantil

Nova Doutrina de Defesa altera perfil do exército e dos fuzileiros

O orçamento do Pentágono para a próximo década sofrerá cortes totalizando US$ 487 bilhões, segundo Leon Panetta, ex-arquiaraponga da Agência Central de Inteligência (CIA) e atual secretário de Defesa dos EUA, no âmbito da Nova Doutrina de Defesa apresentado pelo presidente Barack Obama.

Trata-se de uma doutrina que aponta o epicentro de sua ação na Ásia e Oceano Pacífico. E sob este prisma, assim como o fato de que a poderosa máquina de guerra dos EUA constitui sempre o principal instrumento de imposição de sua política imperialista, os "cortes" apresentados por Panetta são condição muito relativa.

Anotem que, além dos gastos extras que - de acordo com prática habitual pede cada presidente dos EUA em base anual - o orçamento anual do Pentágono para este ano totaliza US$ 553 bilhões, mas que será reduzido a US$ 525 bilhões ano que vem, para recuperar-se, gradualmente, atingindo US$ 567 bilhões em 2017. Orçamentos muito maiores do que na gestão presidencial de Bush Jr., que atingiram, em 2008, quando Barack Obama assumiu a presidência, US$ 480 bilhões.

"O principal aspecto da Nova Doutrina de Defesa e dos "cortes" orçamentários é a redução do número dos efetivos do exército em cerca de 100 mil homens ao longo dos próximos cinco anos sem, contudo, ser atingida a capacidade de combate e a possibilidade de as Forças Armadas norte-americanas vencerem qualquer um adversário", segundo afirmou Panetta. A redução dos efetivos será realizada no exército, que terá uma tropa totalizando 490 mil homens em 2017, de 570 mil de hoje. Também o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA (uma Arma separada) será reduzido em seu número de efetivos, de 202 mil homens para 182 mil no mesmo período.

Operações em 120 países

Trata-se, na essência, de reestruturação financeira, considerando que pretende criar um novo exército "menor" relativamente, mas de rápido deslocamento, enquanto ênfase especial será atribuída às forças especiais, como são os grupos de assalto Seals, que realizaram a operação de assassinato de Osama bin Laden e estão operando atualmente na Somália, assim como a mais recente Força Tarefa Especial para o Golfo Pérsico, a Joint Special Operations Task-Force-Gulf Coordinating Council (JSOTF-GCC).

"Um pequeno exército de rápido deslocamento que estará pronto, a qualquer momento, para intervir em qualquer lugar", no momento em que é segredo de Polichinelo o fato de que o Pentágono está realizando operações especiais secretas em 120 países, isto é, em 60% do planeta.

Também será fortalecida a Marinha de Guerra, considerando que no epicentro do interesse está posto o Oceano Pacífico e, mais especificamente, o sul do Mar da China. Enquanto planejava-se a retirada do serviço ativo de vários porta-aviões para economizar verbas, a perspectiva foi rejeitada e todos os porta-aviões candidatos à aposentadoria voltaram ao serviço.

Também, será aumentado o número de aviões caças-bombardeiros não tripulados (drones) em vários locais do planeta, e o número de caças-bombardeiros tripulados F-35 totalizarão 2.443.

 

 

Sem competição real, equilíbrio de preços é apenas uma ficção

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No recém-lançado livro O universo neoliberal em desencanto (Civilização Brasileira), o economista José Carlos de Assis, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e diretor-presidente do Instituto de Estudos Estratégicos para Integração da América do Sul (Intersul), e o engenheiro químico, doutor em física Francisco Antonio Doria, do programa de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ, anunciam o colapso iminente do neoliberalismo. E desmistificam seus principais teoremas, sobretudo o suposto equilíbrio de preços (e da economia) que seria resultante da liberdade oferecida aos mercados, em detrimento do Estado.
Equilíbrio inatingível
Para Doria, não há como separar a economia da política: "Num mercado competitivo, os preços de equilíbrio existem, mas, em geral, não são computáveis. Se não são computáveis, é impossível dizer quando, de fato, o mercado está em equilíbrio", observa.
Nesse contexto, o professor da Coppe afirma que os países ricos exportaram inflação para a periferia até meados dos anos 90: "Em detrimento do poder aquisitivo das populações locais, restringiam o consumo de bens disponíveis nos países em desenvolvimento, garantindo excedente exportável para o mundo desenvolvido."
Doria conta que, durante reunião do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (o Conselhão, criado no governo Lula), do qual fazia parte, teve acesso a atas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom/BC) e ao Boletim Focus, elaborado pelos bancos, e que norteiam as decisões sobre a taxa básica de juros (Selic).
"Depois de uma dificuldade inicial para entender um texto que escondia sua idéia principal em intrincadas formulações matemáticas, concluí que, por trás daquelas formulações, havia uma simples regra de três, através da qual o Copom determina as taxas de juros. Tudo é baseado no Boletim Focus, elaborado pelos próprios interessados", criticou
Idade da cooperação
Já Assis, apesar do recrudescimento das idéias conservadoras, sobretudo a que preconiza os cortes de gastos não financeiros, disse ao MM, em entrevista exclusiva, que o mundo caminha para a transição da Idade Moderna, baseada na liberdade individual ilimitada - o que, no caso da economia, sustenta o ideário neoliberal - para uma "Idade da Cooperação", na qual o planejamento e a regulação, sobretudo do setor financeiro, a partir dos Estados nacionais, como é feito na China e na Índia, têm papel fundamental.
MM - O livro fala do surgimento de uma "Nova Idade", que viria em substituição à Idade Moderna, pelo colapso do neoliberalismo. Mas não estamos vendo justamente o recrudescimento das idéias conservadoras, a começar pelas metas de austeridade fiscal?
José Carlos de Assis - Suponho que estejamos vivendo um processo de transição de idades. Estamos saindo da Idade Moderna e entrando no que estou chamando de Idade da Cooperação. A Idade Moderna está baseada na idéia da liberdade individual ilimitada e, na economia, dos anos 70 para cá, ela tomou a forma do neoliberalismo, que é a idéia de que o mercado pode se auto-regular, que o Estado precisa ser reduzido ao mínimo e, na questão monetária, é necessário ter um banco central completamente independente, como se isso fosse possível. Com todo esse receituário, eram esperados crescimento econômico e progresso social, o que na verdade não aconteceu. O que houve mesmo foi um processo brutal de concentração de renda nos últimos 30 anos e culminou com uma crise sem paralelo na história do capitalismo.
A crise atual é maior que a dos anos 30?
Sim, porque atingiu o coração do sistema bancário norte-americano e mundial. Nos anos 30, houve muita quebra de bancos - nove mil quebraram - entre 1929 e 1933, com quatro corridas bancárias, mas nenhum grande banco ou grande seguradora. Na crise atual, quebraram ou estiveram para quebrar as maiores seguradoras e bancos do mundo, tanto nos EUA, quanto na Alemanha, Inglaterra e França. Essas instituições foram estatizadas. Algumas continuam controladas pelos governos, outras foram devolvidas.
Mas os governo não assumiram propriamente a direção dos bancos que passaram a controlar...
Essa é mais uma contradição do sistema. Os bancos continuam fazendo o que querem, gerando bônus milionários e retendo o crédito para o setor produtivo. E o governo é um dono que não assume a gestão do sistema. Tudo isso mostra porque estamos numa recessão e depressão maior que nos anos 30.
Este cenário tem dimensão capaz de determinar a transição para a "Idade da Cooperação"?
Na primeira reunião do G20, havia uma retórica em torno da cooperação, por causa do reconhecimento de que a crise só poderia ser superada através dela. Começou a funcionar, tanto que, no último trimestre de 2010, já houve recuperação. Mas, já no segundo encontro do G20, em Toronto, no Canadá, passou a prevalecer a posição conservadora, puxada pela Alemanha e depois pela Inglaterra que, havia trocado de governo, substituindo Gordon Brown, que chegou a anunciar o fim do neoliberalismo mas não conseguiu segurar o próprio mandato, pelo conservador David Cameron.
A crise na Zona do Euro está levando grandes bancos dos EUA a adquirem instituições financeiras européias. Esse fato não revela aumento da concentração, em detrimento da cooperação?
Esses movimentos são normais em momentos de crise. Mas não têm cabimento as teorias conspiratórias que dão conta de uma articulação para dominar o mundo. Aqueles capitalistas já comandam a economia mundial. Além disso, a especulação e a financeirização vazaram para o mundo inteiro, sobretudo Europa e Japão. A contradição é querer saída para a crise a partir de austeridade fiscal.
Ocorre também que os bancos estão apostando no curto prazo para obter lucro rápido e honrar os títulos podres que estão por vencer. Um exemplo disso é a atuação no mercado de câmbio, que gira diariamente US$ 4 trilhões. Ou seja, qualquer comissão sobre um valor desses é muito dinheiro. Note-se que apenas cinco bancos (quatro norte-americanos e um alemão) controlam 60% do mercado de câmbio no mundo.
Apesar de notória (e histórica) a influência da banca, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) foi importante na estratégia de recuperação da economia norte-americana e mundial, sobretudo após a II Guerra. Por que o Fed é vilão agora?
O Fed não é vilão agora. Ele fez sua parte, provendo o sistema de liquidez. O problema está no âmbito fiscal. Tanto na Europa, quanto nos EUA, por causa do Partido Republicano.
Como seria o mundo econômico na Idade da Cooperação? Haverá uma moeda de referência ou uma cesta de moedas, em substituição ao dólar? Há interesse dos EUA na quebra do euro?
Na "Idade da Cooperação", o mundo terá mais regulação no sistema financeiro, não a partir de um governo mundial, mas feita a partir dos Estados Nação, algo semelhante ao que ocorre com o setor bancário na China e na Índia.

Quanto ao dólar, a predominância da moeda norte-americana vai continuar. Afinal, além do domínio da tecnologia, os EUA respondem por 25% do comércio mundial. E não interessa aos EUA a quebra do euro ou da Europa. O velho continente é muito importante para a recuperação

 

norte-americana.

Rogério Lessa

Rogério Lessa, no Monitor Mercantil

No recém-lançado livro O universo neoliberal em desencanto (Civilização Brasileira), o economista José Carlos de Assis, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e diretor-presidente do Instituto de Estudos Estratégicos para Integração da América do Sul (Intersul), e o engenheiro químico, doutor em física Francisco Antonio Doria, do programa de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ, anunciam o colapso iminente do neoliberalismo. E desmistificam seus principais teoremas, sobretudo o suposto equilíbrio de preços (e da economia) que seria resultante da liberdade oferecida aos mercados, em detrimento do Estado.

Equilíbrio inatingível

Para Doria, não há como separar a economia da política: "Num mercado competitivo, os preços de equilíbrio existem, mas, em geral, não são computáveis. Se não são computáveis, é impossível dizer quando, de fato, o mercado está em equilíbrio", observa.

Nesse contexto, o professor da Coppe afirma que os países ricos exportaram inflação para a periferia até meados dos anos 90: "Em detrimento do poder aquisitivo das populações locais, restringiam o consumo de bens disponíveis nos países em desenvolvimento, garantindo excedente exportável para o mundo desenvolvido."

Doria conta que, durante reunião do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (o Conselhão, criado no governo Lula), do qual fazia parte, teve acesso a atas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom/BC) e ao Boletim Focus, elaborado pelos bancos, e que norteiam as decisões sobre a taxa básica de juros (Selic).

"Depois de uma dificuldade inicial para entender um texto que escondia sua idéia principal em intrincadas formulações matemáticas, concluí que, por trás daquelas formulações, havia uma simples regra de três, através da qual o Copom determina as taxas de juros. Tudo é baseado no Boletim Focus, elaborado pelos próprios interessados", criticou.

Idade da cooperação

Já Assis, apesar do recrudescimento das idéias conservadoras, sobretudo a que preconiza os cortes de gastos não financeiros, disse ao MM, em entrevista exclusiva, que o mundo caminha para a transição da Idade Moderna, baseada na liberdade individual ilimitada - o que, no caso da economia, sustenta o ideário neoliberal - para uma "Idade da Cooperação", na qual o planejamento e a regulação, sobretudo do setor financeiro, a partir dos Estados nacionais, como é feito na China e na Índia, têm papel fundamental.

MM - O livro fala do surgimento de uma "Nova Idade", que viria em substituição à Idade Moderna, pelo colapso do neoliberalismo. Mas não estamos vendo justamente o recrudescimento das idéias conservadoras, a começar pelas metas de austeridade fiscal?

José Carlos de Assis - Suponho que estejamos vivendo um processo de transição de idades. Estamos saindo da Idade Moderna e entrando no que estou chamando de Idade da Cooperação. A Idade Moderna está baseada na idéia da liberdade individual ilimitada e, na economia, dos anos 70 para cá, ela tomou a forma do neoliberalismo, que é a idéia de que o mercado pode se auto-regular, que o Estado precisa ser reduzido ao mínimo e, na questão monetária, é necessário ter um banco central completamente independente, como se isso fosse possível. Com todo esse receituário, eram esperados crescimento econômico e progresso social, o que na verdade não aconteceu. O que houve mesmo foi um processo brutal de concentração de renda nos últimos 30 anos e culminou com uma crise sem paralelo na história do capitalismo.

A crise atual é maior que a dos anos 30?

Sim, porque atingiu o coração do sistema bancário norte-americano e mundial. Nos anos 30, houve muita quebra de bancos - nove mil quebraram - entre 1929 e 1933, com quatro corridas bancárias, mas nenhum grande banco ou grande seguradora. Na crise atual, quebraram ou estiveram para quebrar as maiores seguradoras e bancos do mundo, tanto nos EUA, quanto na Alemanha, Inglaterra e França. Essas instituições foram estatizadas. Algumas continuam controladas pelos governos, outras foram devolvidas.

Mas os governo não assumiram propriamente a direção dos bancos que passaram a controlar...

Essa é mais uma contradição do sistema. Os bancos continuam fazendo o que querem, gerando bônus milionários e retendo o crédito para o setor produtivo. E o governo é um dono que não assume a gestão do sistema. Tudo isso mostra porque estamos numa recessão e depressão maior que nos anos 30.

Este cenário tem dimensão capaz de determinar a transição para a "Idade da Cooperação"?

Na primeira reunião do G20, havia uma retórica em torno da cooperação, por causa do reconhecimento de que a crise só poderia ser superada através dela. Começou a funcionar, tanto que, no último trimestre de 2010, já houve recuperação. Mas, já no segundo encontro do G20, em Toronto, no Canadá, passou a prevalecer a posição conservadora, puxada pela Alemanha e depois pela Inglaterra que, havia trocado de governo, substituindo Gordon Brown, que chegou a anunciar o fim do neoliberalismo mas não conseguiu segurar o próprio mandato, pelo conservador David Cameron.

A crise na Zona do Euro está levando grandes bancos dos EUA a adquirem instituições financeiras européias. Esse fato não revela aumento da concentração, em detrimento da cooperação?

Esses movimentos são normais em momentos de crise. Mas não têm cabimento as teorias conspiratórias que dão conta de uma articulação para dominar o mundo. Aqueles capitalistas já comandam a economia mundial. Além disso, a especulação e a financeirização vazaram para o mundo inteiro, sobretudo Europa e Japão. A contradição é querer saída para a crise a partir de austeridade fiscal.

Ocorre também que os bancos estão apostando no curto prazo para obter lucro rápido e honrar os títulos podres que estão por vencer. Um exemplo disso é a atuação no mercado de câmbio, que gira diariamente US$ 4 trilhões. Ou seja, qualquer comissão sobre um valor desses é muito dinheiro. Note-se que apenas cinco bancos (quatro norte-americanos e um alemão) controlam 60% do mercado de câmbio no mundo.

Apesar de notória (e histórica) a influência da banca, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) foi importante na estratégia de recuperação da economia norte-americana e mundial, sobretudo após a II Guerra. Por que o Fed é vilão agora?

O Fed não é vilão agora. Ele fez sua parte, provendo o sistema de liquidez. O problema está no âmbito fiscal. Tanto na Europa, quanto nos EUA, por causa do Partido Republicano.

Como seria o mundo econômico na Idade da Cooperação? Haverá uma moeda de referência ou uma cesta de moedas, em substituição ao dólar? Há interesse dos EUA na quebra do euro?

Na "Idade da Cooperação", o mundo terá mais regulação no sistema financeiro, não a partir de um governo mundial, mas feita a partir dos Estados Nação, algo semelhante ao que ocorre com o setor bancário na China e na Índia.

Quanto ao dólar, a predominância da moeda norte-americana vai continuar. Afinal, além do domínio da tecnologia, os EUA respondem por 25% do comércio mundial. E não interessa aos EUA a quebra do euro ou da Europa. O velho continente é muito importante para a recuperação norte-americana.

 

 

Depender de commodity ameaça o crescimento

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Ipea alerta que queda do comércio externo na crise torna diversificação mais urgente

A alta participação dos setores ligados aos recursos naturais na economia, principalmente a indústria extrativa, os serviços financeiros e a agropecuária, colocam em risco o crescimento sustentável do país. A advertência é do estudo Produtividade no Brasil nos anos 2000-2009, do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea).

Segundo o estudo, os setores ligados aos recursos naturais - mais conhecidos como commodities, por terem seus preços determinados no exterior - são de "reduzido efeito multiplicador sobre o restante da economia e, sendo de baixo valor agregado, impõem obstáculos a uma estratégia de crescimento sustentado no longo prazo para o Brasil".

O estudo lembra que a forte instabilidade internacional neste momento de crise global provoca maior retração do comércio em todo o mundo. Isso reforça a necessidade de maior diversificação da estrutura produtiva, o que não ocorreu entre 2000 e 2009 e não há indícios de que isso vá mudar nos próximos anos.

"Para um país que necessita ampliar suas condições de competitividade externa, essas características devem ser vistas como, no mínimo, preocupantes em uma estratégia consistente de desenvolvimento industrial e econômico"", afirma o Ipea, segundo a Agência Brasil.

De acordo com o estudo, a indústria ligada aos recursos naturais foi a que mais aumentou a produtividade na década passada, com destaque para a extrativa, a agropecuária e os serviços, principalmente os de finanças.

Excluindo 2009 - ano em que o Brasil mais sofreu os impactos da crise - a indústria extrativa elevou sua participação no período analisado no estudo em 5,9%, enquanto a indústria de transformação recuou 2,5% e setores como os de gás e construção civil desabaram 3,4%.

Excluindo 2009 - ano em que o Brasil mais sofreu os impactos da crise - a indústria extrativa elevou sua participação no período analisado no estudo em 5,9%, enquanto a indústria de transformação recuou 2,5% e setores como os de gás e construção civil desabaram 3,4%.

 

60% do câmbio global é dominado por só 5 bancos

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Com giro US$ 4 trilhões/dia, o mercado cambial é fator de instabilidade permanente
Apenas cinco bancos controlam 60% do mercado mundial de câmbio, que gira US$ 4 trilhões por dia. A informação é do economista José Carlos de Assis, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), para quem a tentação do lucro fácil, sobretudo por causa da proximidade do vencimento dos títulos podres que recheiam as carteiras das grandes instituições financeiras, e da falta de demanda (conseqüência das medidas de ajuste fiscal), ajudam a explicar a opção dos bancos pelas operações de curto prazo, em detrimento do financiamento ao setor produtivo, sobretudo pequenas e médias empresas.
Assis é co-autor de O universo neoliberal em desencanto (Civilização Brasileira), récem-lançado, junto com o professor do programa de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ Francisco Antonio Doria. Na obra, eles anunciam o colapso iminente do neoliberalismo e desmistificam seus principais dogmas, como o suposto equilíbrio de preços, que seria resultante da liberdade oferecida aos mercados. E defendem a regulação do sistema bancário pelos Estados, seguindo os exemplos de China e Índia.
Para. Assis, o recrudescimento das idéias conservadoras não impedirá que uma nova era, batizada por ele de "Idade da Cooperação", se imponha ao neoliberalismo. "A Idade Moderna está baseada na idéia da liberdade individual ilimitada e, na economia, dos anos 70 para cá, ela tomou a forma do neoliberalismo, que é a idéia de que o mercado pode se auto-regular, que o Estado precisa ser reduzido ao mínimo. E, na questão monetária, é necessário ter um banco central completamente independente. Com todo esse receituário, eram esperados crescimento econômico e progresso social, o que não aconteceu. Houve foi um processo brutal de concentração de renda nos últimos 30 anos que culminou com uma crise sem paralelo na história do capitalismo."
Com giro US$ 4 trilhões/dia, o mercado cambial é fator de instabilidade permanente
Apenas cinco bancos controlam 60% do mercado mundial de câmbio, que gira US$ 4 trilhões por dia. A informação é do economista José Carlos de Assis, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), para quem a tentação do lucro fácil, sobretudo por causa da proximidade do vencimento dos títulos podres que recheiam as carteiras das grandes instituições financeiras, e da falta de demanda (conseqüência das medidas de ajuste fiscal), ajudam a explicar a opção dos bancos pelas operações de curto prazo, em detrimento do financiamento ao setor produtivo, sobretudo pequenas e médias empresas.
Assis é co-autor de O universo neoliberal em desencanto (Civilização Brasileira), récem-lançado, junto com o professor do programa de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ Francisco Antonio Doria. Na obra, eles anunciam o colapso iminente do neoliberalismo e desmistificam seus principais dogmas, como o suposto equilíbrio de preços, que seria resultante da liberdade oferecida aos mercados. E defendem a regulação do sistema bancário pelos Estados, seguindo os exemplos de China e Índia.
Para. Assis, o recrudescimento das idéias conservadoras não impedirá que uma nova era, batizada por ele de "Idade da Cooperação", se imponha ao neoliberalismo. "A Idade Moderna está baseada na idéia da liberdade individual ilimitada e, na economia, dos anos 70 para cá, ela tomou a forma do neoliberalismo, que é a idéia de que o mercado pode se auto-regular, que o Estado precisa ser reduzido ao mínimo. E, na questão monetária, é necessário ter um banco central completamente independente. Com todo esse receituário, eram esperados crescimento econômico e progresso social, o que não aconteceu. Houve foi um processo brutal de concentração de renda nos últimos 30 anos que culminou com uma crise sem paralelo na história do capitalismo."

 

 

As muitas caras da dívida

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Diego Viana, no Valor
  O personagem Tom Rakewell escapa por pouco à prisão por falta de pagamento

 

A escritora canadense Margaret Atwood foi considerada visionária em 2008. A crise de Wall Street, disparada pelo escândalo dos "subprimes" e a quebra do banco Lehman Brothers, acabara de estourar quando ela lançou o livro "Payback: A Dívida e o Lado Sombrio da Riqueza" (publicado no Brasil pela Rocco em 2009). Com base em palestras para a rádio canadense, proferidas em 2007, a escritora expunha seu estranhamento diante de uma sociedade fundada sobre o endividamento irresponsável dos cartões de crédito e das hipotecas, que resultaria em desastre, primeiro nos EUA, depois na Europa.

Não contente em colocar o dedo nas feridas do século XXI, Margaret enveredou pelos múltiplos sentidos do conceito de dívida e crédito, de suas origens religiosas até o débito da humanidade com o planeta. "As pessoas me perguntavam como eu tinha previsto a chegada da crise. Mas eu faço a pergunta ao contrário: como era possível não ver? Os sinais estavam todos muito evidentes."

No mês passado, "Payback" estreou no Festival de Sundance. A diretora Jennifer Baichwal diz que o filme não segue o livro literalmente. "O que ele faz é tomar as ideias que estão ali e encontrar vozes humanas viscerais que as ilustrem. Como devemos? Para quem devemos? Como pagamos?" Ela colheu depoimentos ao redor do mundo. De Raj Patel, economista e ativista anglo-americano, até os envolvidos em sangrentas lutas de família na Albânia, passando por ecologistas e barões da mídia no Canadá, todos têm algo a dizer sobre débito e crédito.

O conceito de dívida é inquietante, mas também é visto como fundamental para a compreensão do desenvolvimento de vínculos sociais

Margaret Atwood está entre vários autores que se debruçaram sobre a questão da dívida desde que a crise financeira irrompeu nos EUA. Entre os tradicionais guias de finanças pessoais, estudos com jovens que contraíram empréstimos nos EUA e propostas para contornar o sufocamento financeiro na Europa, encontram-se textos que procuram invadir mais profundamente os conceitos de dívida e crédito.

São sociólogos, antropólogos, linguistas e filósofos, que investigam as origens de uma relação na qual uma pessoa se obriga a pagar algo a outra, no futuro, por um benefício de que vai fruir imediatamente. Um ponto sensível do problema da dívida, que envolve também seu correlato, o crédito, é a avaliação do papel do credor. Por um lado, as manifestações que tomaram ruas em Nova York, Londres e Madri no ano passado apontam os grandes agentes do mercado financeiro como responsáveis pelas dificuldades econômicas de grandes contingentes da população. Por outro, instituições financeiras juntam recursos e permitem sua alocação para fins produtivos. Esse nó talvez não possa ser deslindado.

A partir de uma leitura de "Fausto", tragédia em verso do alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), o economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e sócio da corretora Rio Bravo, afirma que o desenvolvimento econômico, fundado sobre as finanças, possui uma ambiguidade moral inextirpável. Franco escreveu o prefácio e o posfácio do livro "Dinheiro e Magia", do economista suíço Hans Christoph Binswanger. Binswanger parte do texto de Goethe para ler a economia moderna como sucessora da alquimia. (Leia entrevista na página 22).

  Tom Rakewell já está preso, e mesmo no cárcere seus companheiros tentam tomar seu dinheiro. As imagens pertencem a uma sequência pintada pelo inglês William Hogarth entre 1732 e 1733, apresentando o caminho de um irresponsável rumo à desgraça; em duas etapas, o pintor representa o perigo da dívida

 

"Há uma carga de ironia em 'Fausto', em que Goethe demoniza as finanças", diz Franco. "Quem orienta a emissão de títulos é Mefisto, mas é uma força criadora. Viabilizou progressos, que são colocados sempre de forma ambígua, para manter a ironia de que é o Demônio que produz aquele efeito. Ele rouba terras do mar, constrói canais, são coisas nunca inconfundivelmente boas, para reforçar a ambiguidade e ser mais instigante."

Margaret afirma ter se dado conta de que o grande tema da literatura inglesa no século XIX não era tanto o amor, como ela acreditava, mas a dívida. "A Feira das Vaidades" [W. M. Thackeray], "O Morro dos Ventos Uivantes" [Emily Brontë] e "Um Conto de Natal" [Charles Dickens] retratam personagens às voltas com hipotecas, títulos vencidos e credores à porta. A exceção é o texto de Dickens: a dívida, nesse caso, não é monetária, mas social. O ricaço Ebenezer Scrooge é confrontado com a miséria alheia, quando ele mesmo enriqueceu graças à generosidade de alguém. Mas há pesquisas que sugerem que essas duas formas da dívida têm um vínculo estreito.

O antropólogo americano David Graeber, da universidade britânica Goldsmiths, lançou escreveu o livro "Debt: the First 5000 Years" (Dívida: Os Primeiros Cinco Mil Anos), para traçar em 534 páginas a história do endividamento humano. Suas pesquisas, iniciadas em 2009, revelaram que uma proporção considerável das guerras, ao longo da história, teve como pano de fundo a cobrança de dívidas. No sentido inverso, "as revoltas da Antiguidade tinham todas mais ou menos o mesmo programa: cancelamento de dívidas e redistribuição de terras".

O termo "dívida", do Egito faraônico até o boom do crédito nos EUA, "sempre esteve envolto em uma atmosfera confusa", segundo o antropólogo. Em sânscrito, hebraico e aramaico, "dívida", "culpa" e "pecado" são denominados com uma só palavra. E assim como a palavra alemã para dívida é "schuld" (culpa), a origem da expressão "thank you" (obrigado) em inglês vem do verbo "think" (pensar), a partir da expressão "vou pensar no bem que você me fez". Em português, a expressão é ainda mais evidente: "'Obrigado' remete a uma dívida de obrigação". Em sociedades caçadoras, nas quais a cessão de objetos e favores não é o oposto de uma troca comercial, o agradecimento, diz Graeber, chega a ser uma ofensa.

  

 

O antropólogo cita o debate sobre o cancelamento de dívidas de países pobres e se surpreende com a noção de que débitos contraídos têm necessariamente de ser pagos. "Não é uma afirmação econômica, mas uma afirmação moral." Uma das principais funções dos empréstimos é que os emprestadores (bancos, por exemplo) apliquem recursos de seus clientes em atividades econômicas que, espera-se, darão lucro. "Mas se o emprestador tiver a garantia de que vai receber de volta, ele vai fazer empréstimos irresponsáveis", argumenta o antropólogo. Economicamente, o pagamento de um empréstimo depende do risco, que é calculado pelo próprio emprestador. Moralmente, trata-se de uma obrigação.

A linguista russa Natalya Davidko, do Instituto Touro de Moscou, busca nos textos bíblicos a demonstração de como o conceito de dívida tem implicações morais diversas. "Embora a dívida monetária não seja um pecado na Bíblia, é algo a ser evitado", ela escreve, "porque, quando tomamos dinheiro emprestado, alguém controla nossa vida". No Livro de Provérbios, lê-se que "o rico domina sobre os pobres e o que toma emprestado é servo do que empresta"; em Romanos, "a ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros".

Embora esteja cercado de aspectos inquietantes, o conceito de dívida também aparece, para vários autores, como fundamental para a compreensão do desenvolvimento de vínculos sociais. Graeber, por exemplo, explica como a ascensão do Estado centralizado, na Antiguidade, dependeu do endividamento da população. No Egito, os impostos cobrados pelo imperador constituíam dívidas fundadoras, que obrigavam as pessoas a um trabalho antecipado, para fazer frente às exigências imperiais. Na Mesopotâmia, ao contrário, o poder era descentralizado e a unificação tomou corpo com os empréstimos a juros entre grandes grupos sociais.

No século XIX, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche levou ao extremo a hipótese da dívida como origem de vínculos sociais no livro "Genealogia da Moral". Para ele, toda moralidade tem origem na cobrança de dívidas com ameaça de violência e a relação de obrigação do devedor é o vínculo social fundamental. A partir das teses de Nietzsche, o sociólogo italiano Maurizio Lazzarato publicou, em novembro, o ensaio "A Fábrica do Homem Endividado" (La Fabrique de l'Homme Endetté).

George Whiteside/Doubleday Publicity / George Whiteside/Doubleday PublicityO livro da escritora canadense Margaret Atwood sobre dívida foi transformado em filme, que estreou no Festival de Sundance

 

Para Lazzarato, a relação por trás do endividamento é uma relação política fundamental, não simplesmente um dispositivo econômico, mas uma "técnica de governo e de controle das subjetividades", que torna o tempo mais previsível e organiza comportamentos. "O paradigma do social não é dado pela troca, seja econômica ou simbólica, mas pelo crédito. Na base da relação social não está a igualdade da troca, mas a assimetria entre crédito e dívida, que precede a produção e o trabalho assalariado, tanto histórica quanto teoricamente".

O papel histórico das relações de dívida e crédito é explorado pelo economista Michael Hudson, da Universidade de Missouri. "A tendência de que as dívidas cresçam mais rápido do que a capacidade de pagamento da população parece ser uma constante na história", afirma. "A dívida polariza a riqueza e cria uma classe credora."

A partir do Renascimento, segundo Hudson, a classe credora (ou seja, os banqueiros) retirou seu apoio aos monarcas autocratas, cujas finanças estavam sujeitas às veleidades do tesouro real. O apoio passou às câmaras de representantes e às democracias. "Para que a dívida soberana recaia sobre a população como um todo, os eleitos é que deveriam instituir os impostos para pagá-la." Na análise de Hudson, a história da economia moderna começa nesse ponto.

O momento dessa passagem coincide com uma outra transformação histórica, visível em duas telas de mesmo nome. "O Banqueiro e Sua Mulher" é obra de dois autores flamengos. Em 1514, Quentin Massys pintou o casal como representante da avareza, com aspecto desagradável. Um quarto de século mais tarde, em 1539, Marinus van Reymerswaele pintou rigorosamente a mesma cena, mas como uma elegia dos comerciantes que faziam a glória de Flandres.

As pinturas refletem a mudança da mentalidade europeia em relação às finanças. Na Idade Média, o empréstimo a juros era banido pela religião, com base em versículos bíblicos, como Êxodo 22:25, que diz: "Se emprestares dinheiro ao meu povo, não te haverás com ele como credor; não lhe imporás juros". No final das Cruzadas, diz Hudson, a Europa foi inundada com ouro e prata trazidos do Oriente Médio e, mais tarde, da América, impulsionando o comércio e, por extensão, as finanças. A partir desse momento, os teólogos espanhóis da escola de Salamanca encontraram meios de valorizar os empréstimos e a cobrança de juros.

Reprodução / ReproduçãoNa versão de Marinus van Reymerswaele para "O Banqueiro e sua Mulher" (1539), a representação do financista é positiva

 

Livros como o de Margaret Atwood lançam luz sobre um mundo em que a soma das dívidas públicas bate em US$ 38,8 trilhões. Em vários países desenvolvidos, segundo dados da consultoria McKinsey, o conjunto daquilo que o governo, as empresas, os bancos e as famílias devem uns para os outros chega a cinco vezes o valor do produto interno bruto - os casos extremos são Japão e Reino Unido. Na periferia da Europa, depois de um período de convergência e estabilidade induzido pela criação da moeda única, os investidores exigem retornos expressivos em títulos públicos. No caso da Grécia, da Irlanda e de Portugal, retornos muito mais vantajosos do que antes da instauração do euro: até 35% para títulos de dez anos do Estado grego.

De 2008 para cá, o termo "dívida" entrou para o rol das preocupações mundiais, e não apenas no campo financeiro. Em julho, o aspecto político da crise de endividamento se tornou evidente quando o governo dos EUA teve dificuldade em aprovar no Congresso a elevação do teto da dívida do país. As dificuldades impostas à Casa Branca pelos adversários republicanos foram interpretadas como uma forma de chantagem.

No plano internacional, o sentido político da dívida se tornou visível com a constatação de que os EUA, outrora maiores credores do planeta, tinham se tornado os maiores devedores, com um balanço de pagamentos negativo em US$ 467,6 bilhões no final de 2011. Seu maior credor é a China, cujo balanço está positivo em US$ 360,5 bilhões. O dado é um pano de fundo para a declaração do presidente americano, Barack Obama, de que as relações bilaterais entre os dois países serão determinantes para definir o século XXI.

Em resposta às medidas de austeridade que visavam reconquistar a confiança dos investidores e reativar a capacidade grega de se financiar, protestos multiplicaram-se na Grécia, com frequência e intensidade crescentes. E o ponto comum às manifestações "Occupy" de 2011 foi a rejeição ao peso considerado excessivo do mercado financeiro na economia: em cartazes, os manifestantes exibiam o desconforto por estarem endividados demais.

Estudos como os de Graeber e Lazzarato parecem implicar que, sem dívidas, a atividade econômica não é possível. Essa leitura é reforçada pela estrutura dos mercados financeiros contemporâneos. Segundo o economista Anderson Caputo Silva, especialista principal em mercado de capitais do Banco Mundial e organizador do livro "Dívida Pública: a Experiência Brasileira", um país não consegue desenvolver seu sistema financeiro sem que primeiro o governo se disponha a contrair dívidas que forneçam liquidez aos bancos. "Sem o ponto de referência na dívida pública, fica impossível avaliar os portfólios dos investidores. Mesmo países que não precisam se financiar contraem dívidas, que ajudam a organizar o mercado de capitais.

O tema da dívida pública ilustra a articulação entre o campo financeiro e o político, estudados por Lazzarato, Graeber e outros. O Brasil obteve sua independência sob o signo de duas dívidas. Por um lado, ao partir de volta para Portugal, d. João VI levou consigo os ativos do Banco do Brasil, que ele mesmo fundara em 1808. Depois do 7 de setembro, o reconhecimento do novo país por sua antiga metrópole foi obtido através de uma pesada promessa de pagamento.

"Todos os processos de independência contam com algum acordo financeiro, a não ser quando há guerra, e mesmo a guerra termina com um acordo", diz Gustavo Franco. O caso do Haiti é exemplar: mesmo depois de suas tropas derrotarem os franceses, o país foi obrigado a assumir uma dívida impagável - como um preço pela liberdade.

Para Margaret Atwood, o sentimento de dever alguma coisa e ter obrigações é mais antigo do que parece. "As primeiras religiões estão repletas de referências a uma dívida com o cosmo, com a terra, com a natureza", ela argumenta. "Não nos damos à luz nós mesmos. Não nos alimentamos sozinhos quando somos crianças pequenas. Como seres sociais, estamos sempre trocando coisas: um 'por favor' aqui, um 'obrigado' ali, ou, ao contrário, um assassinato aqui, uma vingança ali."

O desequilíbrio que leva à dívida, para a escritora, é o mesmo desequilíbrio que permite ao universo funcionar. "Física e quimicamente, o desequilíbrio está no âmago do universo. Ele cria a complexidade. Um universo perfeitamente equilibrado seria inerte. Graças ao desequilíbrio, podemos respirar, por exemplo." A dívida, nessa perspectiva, é uma maneira de transformar o desequilíbrio originário da sociedade em produtividade e crescimento. "É como a dívida dos artistas para com seus inspiradores: eles a pagam com novas criações artísticas." Mas a criatura pode se voltar contra o criador, numa inversão de expectativas muito comum na literatura - como o aprendiz de feiticeiro, o Golem, a estátua que ganha vida e pode esmagar seu criador.

No tempo de seus pais, ela conta, dívida era um assunto quase tabu. Contrair empréstimos era visto como "uma oportunidade muito perigosa, a ser abordada com parcimônia". Com a invenção dos cartões de crédito, o endividamento se expande. "Pesquisando para o livro, aprendi muito sobre a neurologia da dívida. Gastar acima das posses com o cartão de crédito não é registrado como uma perda de dinheiro, só como a aquisição de um bem maravilhoso. É só quando as pessoas não conseguem pagar seus impostos e hipotecas que os números virtuais têm um impacto realmente físico."

Artigo publicado na revista "Social Science Research" explora a psicologia da dívida entre jovens americanos. De autoria dos sociólogos Rachel Dwyer, Randy Hodson e Laura McCloud, a pesquisa "Youth Debt, Mastery, and Self-Esteem" ("Dívida de Jovens, Controle e Auto-Estima") demonstra como a dívida passou de perigo a necessidade. "Neste início de século, os jovens adultos crescem numa era de acesso sem precedentes ao crédito, mas crescimento vagaroso de ganhos. O resultado é uma alta dramática do endividamento", diz Rachel.

Como resultado, o momento em que um americano entre 18 e 24 anos contrai sua primeira dívida, seja para consumir com o cartão de crédito, seja com um empréstimo estudantil, se tornou uma espécie de rito de passagem. "Ambos os tipos de dívida aumentam a autoestima e a sensação de controle dos jovens", diz a socióloga. "Para os jovens, a experiência da dívida é um investimento no futuro." Essa sensação é mais forte entre os jovens de origem humilde, que se veem, enfim, capazes de aceder plenamente à sociedade de consumo. Tanto para os ricos quanto para os pobres, porém, a satisfação proporcionada pelas dívidas começa a desvanecer a partir dos 24 anos: é o momento em que passam a ter de pagá-las.

Margaret Atwood fecha o ciclo da dívida moral e financeira recuperando a ideia, presente nas mais antigas religiões, de uma dívida do ser humano para com a natureza. "Extraímos os recursos para toda a loucura financeira. Derramamos petróleo no oceano e destruímos os sistemas naturais. Toda essa dívida terá de ser paga."

 

 

A bola é mágica

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Diego Viana, no Valor

 

Leonardo Rodrigues/Valor / Leonardo Rodrigues/ValorJaeho Kang: grandes eventos, como a Copa do Mundo e a Olimpíada, incluem-se na lógica de uma globalização que é, ao mesmo tempo, econômica e cultural

 

A Copa do Mundo de 2014 aparece nas manchetes através das obras em estádios e da queda de braço entre a Fifa e o governo brasileiro em torno da Lei da Copa. Mas o que está em jogo com o megaevento, anunciado com festa no país em 2007, toca em pontos bem mais profundos, segundo Jaeho Kang, professor de estudos da mídia no departamento de sociologia da New School, nos EUA: as expectativas de todo um povo, a imagem que os habitantes têm de sua terra, a reorganização do espaço urbano, o modo de reprodução econômica dos clubes de futebol.

Os impactos da Copa (assim como da Olimpíada e outros grandes eventos internacionais), que podem desaparecer sob o entusiasmo de preparar o evento, mas nem por isso deixam de transformar a vida cotidiana no país, formam o objeto de estudo de Kang. O sociólogo esteve no Brasil para falar sobre "A Copa do Mundo como Espetáculo Midiático" no Centro Mariantônia, da Universidade de São Paulo. Ele prepara um documentário sobre as esperanças e os esforços de um menino que, aos 11 anos, tenta a sorte no mundo do futebol.

O filme - "um experimento em etnografia visual", nas palavras de Kang - repete a iniciativa do pesquisador na África do Sul, que recebeu a Copa do Mundo em 2010. "Lá, as expectativas do menino reproduziam as expectativas do país como um todo." O evento em si, lembra Kang, dura só um mês, mas a preparação leva anos e a infraestrutura, em que se gastaram bilhões de dólares, permanece: dezenas de hotéis, aeroportos ampliados, estádios.

"A Copa se tornou uma forma notável da esfera pública mediada (...) com status seminal como ritual de massas e festival urbano"

A preparação é um período de investimento, mobilização e entusiasmo, mas a herança da disputa é incerta. A Copa, argumenta Kang, é encarada no Brasil como uma oportunidade para reconfigurar a posição do país no mundo. "A mídia, local e global, desempenha papel crucial na articulação dessa experiência coletiva."

"Quando acaba, fica a pergunta: o que realmente restou disso tudo? O que o país realmente alcançou? A trajetória é a mesma: esperança, tentativa e, enfim, sucesso ou fracasso. "Para onde vai esse menino? Para onde vai esse país?", resume Kang. As famílias dos meninos que batalham nas categorias de base dos clubes de futebol se unem, se sacrificam, fazem de tudo para que o filho talentoso tenha sucesso no mundo do esporte. Se ele se tornar o ídolo de algum grande clube, a recompensa é enorme. Se falhar, "o rapaz é deixado de lado em tudo, porque não se preparou para nenhuma outra profissão".

Na África do Sul, o diagnóstico é alentador, ao menos no espírito dos habitantes. "Eles sentem que o impacto político e econômico foi enorme no país. Agora, estão mais conscientes de si, na condição de cidadãos globais", acredita Kang. Em outras palavras, "depois de organizarem uma Copa do Mundo, estão confiantes na própria capacidade e na do país, para crescer como uma nação cosmopolita". Assim como os brasileiros, diz Kang, os sul-africanos se preocupavam muito com a capacidade de preparar tudo a tempo. "Era uma pressão enorme, mas deu tudo certo, apesar de algumas imperfeições aqui e ali." O erro estava em tentar imitar o nível de exigência europeu. "Do ponto de vista da África, foram muito além de qualquer expectativa."

Mas nem tudo é motivo de comemoração. "Os sul-africanos enfrentam consequências devastadoras daquele entusiasmo exagerado. Construíram uma quantidade extraordinária de quartos de hotel, mas, depois que a festa acabou, quem vai ocupá-los?" Kang assinala que, mesmo durante a Copa do Mundo, muito poucos eram os turistas que tinham tempo ou disposição para, de fato, visitar o país. "Mas o efeito de longo prazo sobre a cultura, a identidade dos clubes e dos torcedores é enorme. As pessoas deveriam olhar para isso com mais atenção, porque vai muito além de uma mudança na imagem do país."

O sociólogo insere os grandes eventos, incluindo não só as Copas, mas também as Olimpíadas e as exposições universais, na lógica de uma globalização que é ao mesmo tempo econômica e cultural. "Assistida e experimentada por mais de um terço da população global, a Copa do Mundo se tornou uma forma particularmente notável da esfera pública mediada, em nível local, nacional e global. Agora ela possui um status seminal como ritual de massas e festival urbano."

Kang argumenta que, por um lado, a Copa do Mundo reproduz um sistema de obras bilionárias, leis influenciadas por corporações multinacionais, como a própria Fifa, e profissionalização extrema do espetáculo esportivo. Por outro, os torcedores também sofrem um processo de mutação, em particular um fenômeno que, em inglês, recebeu o nome de "gentrification".

Originalmente, o termo designava a expulsão da população de baixa renda de bairros que passavam a ser ocupados por famílias abastadas. No plano do futebol, a "gentrification" ocorre quando a identidade de um clube, ligada a sua cidade ou seu bairro, aos torcedores que comparecem ao estádio e incorporam a relação com o time a suas próprias identidades, é deixada de lado em nome da competição no "mercado da bola". "No mundo todo, os clubes estão virando máquinas de fazer lucro. O mundo do futebol foi dramaticamente 'gentrificado' pelo mercado global, o capital transnacional e os imperativos de mídia."

Em sua visita ao Brasil, Kang relata que vivenciou um ponto de transformação em que esse processo pode estar começando. Convidado por um amigo torcedor do Corinthians, ele compareceu a uma partida no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Ficou impressionado ao ver todos os torcedores de pé, pulando e cantando. As baterias das torcidas organizadas, que puxavam a cantoria, também chamaram sua atenção.

"No estádio que estão construindo para o Corinthians, as pessoas vão poder fazer isso? Os lugares não vão ser todos assentos confortáveis e numerados? Os ingressos não vão ser muito mais caros?" Kang é torcedor do Liverpool, equipe britânica da cidade dos Beatles. Assim como ocorre com o paulistano Corinthians, a torcida do inglês Liverpool surgiu das classes populares: estivadores e operários. O sociólogo mostra um trecho de jornal televisivo de 1964, quando seu time disputava uma partida decisiva contra o londrino Arsenal em seu estádio.

Durante a partida, o locutor da BBC fica pasmo ao ver como a torcida se põe espontaneamente a cantar "She Loves You", sucesso daquele ano dos Beatles. Essa manifestação popular é perdida, segundo Kang, quando os clubes se incorporam aos mercados globalizados.

"Hoje, o Liverpool pertence ao grupo Fenway, mesmo dono do Boston Red Sox. O Manchester United assinou há alguns anos um acordo de marketing com os Yankees, time de beisebol de Nova York. "É como se um grande clássico do beisebol americano estivesse sendo jogado no futebol britânico"., comenta o pesquisador coreano, rindo.

 

 

Khamenei: Teerão responderá com "as suas próprias ameaças" ao Ocidente

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Egito: um regime militar fora de jogo

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Alemanha vence "guerra" das indemnizações nazis

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Grécia: Negociações prolongam-se e Bruxelas refaz as contas

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Investigação no Egito

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A Magna Carta dos Estados Unidos

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Chávez: viejo sistema político jamás regresará a Venezuela

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China estudia una mayor contribución al rescate del euro

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Paraguayos exigen verdad y justicia por dictadura

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Carlos Medina: las FARC volvieron a la confrontación militar

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Cancilleres del ALBA iniciaron trabajos previos a cumbre

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Es necesario fortalecer al ALBA: Ecuador

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ALBA debe unificar visión sobre vivir bien

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Cuba: ALBA es la fuerza ante agresiones de EE.UU. y la OTAN

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Obama recrudeció el bloqueo contra Cuba

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Presidente da ANAC fala sobre concessão dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília

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FMI advierte a Japón sobre déficit y crisis

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Hugo Chávez 13 Años al frente de la revolución política que propuso impulsar

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Chávez: “Los precios van a ir pa’bajo toditos... y si no lo aceptan, nacionalizamos la empresa"

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Presidente da Câmara confirma criação de três CPIs

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O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS), assinou na noite de quinta-feira requerimento para criação de três comissões parlamentares de inquérito (CPI) para investigar questões relacionadas ao tráfico de pessoas, à exploração sexual de menores e ao trabalho escravo.

O mais polêmico dos pedidos para a criação de uma CPI, o que propõe a instalação do grupo de trabalho para apurar supostas irregularidades nas privatizações ocorridas no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ainda não foi analisado.

Com a assinatura do requerimento das três novas CPIs, o próximo passo é a leitura do ato de criação das comissões de inquérito no Plenário da Câmara dos Deputados e a indicação dos integrantes de cada uma das comissões pelos líderes partidários.

Atualmente, o Congresso Nacional tem apenas uma CPI em funcionamento, a que apura irregularidades na distribuição de direitos autorais pelo Escritório Central de Arrecadação de Direitos (Ecad). Este grupo de investigação é comandado pelos senadores Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), presidente da CPI, e Lindbergh Farias (PT-RJ), relator.

 

Raúl Castro, Evo Morales e Rafael Correa irão à Cúpula da Alba

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Os presidentes de Cuba, Raúl Castro, Bolívia, Evo Morales, e Equador, Rafael Correa, estarão presentes na Cúpula de chefes de Estado da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), confirmou nesta sexta-feira o ministro de Comunicações venezuelano, Andrés Izarra.

Izarra afirmou a jornalistas que Raúl Castro e Evo Morales chegarão nesta sexta-feira, e no sábado será a vez do presidente equatoriano, para participar do ato de abertura da reunião que começará no sábado e continuará durante o domingo.

Também está previsto que o presidente do Haiti, Michel Martelly, represente seu país como "observador", mas o líder venezuelano, Hugo Chávez, afirmou esta semana que a nação caribenha solicitará sua incorporação ao organismo como "membro pleno".

Os chanceleres da Alba, mecanismo de integração incentivado pela Venezuela com a participação da Nicarágua, Cuba, Bolívia, Equador, São Vicente e Granadinas, Dominica, e Antígua e Barbuda, se reúnem nesta sexta-feira em Caracas para preparar a reunião dos chefes de Estado e de Governo do fim de semana.

Os ministros de Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, e da Bolívia, David Choquehuanca, chegaram no início do dia na sede da Chancelaria venezuelana, segundo a imprensa local, que não deu mais detalhes sobre os integrantes das outras delegações.

Entre os temas em discussão na Cúpula da Alba estarão os aspectos econômicos, com a supervisão do andamento do Sistema Único de Compensação Regional (Sucre), moeda contábil de compensação utilizada pela Alba para a substituição de divisas nas transações internacionais.

Também está previsto que os líderes designem o coordenador da zona econômica da Alba, iniciativa que foi estipulada pelos países-membros em 2010.

O presidente venezuelano disse no dia 27 que será "uma cúpula de grandes expectativas", porque na sua opinião esse mecanismo lançado inicialmente pela Venezuela e Cuba é "a plataforma unitária mais avançada que há neste mundo".

"Agora vamos em direção à área econômica, criar uma zona econômica do Alba, essa é uma das nossas propostas", acrescentou.

Com agências

 

 

Es un pájaro, es un avión, es un OVNI... ¿O es un meteoro?

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Israel está dispuesto a atacar a Irán si la ONU no frena el programa nuclear

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Por que o Oriente Médio (e o Brasil bem informado!) NÃO PODEM levar a sério a ‘promoção da democracia’ à moda EUA

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Mark Weisbrot, Guardian, UK
http://www.guardian.co.uk/commentisfree/cifamerica/2012/jan/31/american-democracy-promotion-rings-hollow

Traduzido pela Vila Vudu

Não consegui não rir, ao ver o International Republican Institute (IRI) apresentado na imprensa internacional como “organização que promove a democracia”[1]. O IRI voltou agora às manchetes, porque o governo militar do Egito incluiu alguns de seus agentes numa lista de pessoas proibidas de deixar o país, o que significa que permanecem no Egito, e poderão ter sua vida e suas atividades investigadas e talvez sejam processados[2]. É quase inacreditável que haja jornalistas e editores ou tão crédulos ou tão mal informados. Se eu descrevesse o Center for Economic and Policy Research[3] como “organização de magia que converte sucata em ouro”, será que, dia seguinte, minhas palavras estariam nas manchetes, como descrição padrão do Centro onde trabalho?

 

IRI é o braço internacional do Partido Republicano dos EUA. 

Quem tenha estômago para assistir aos debates entre candidatos Republicanos, dificilmente acreditará que o IRI, do mesmo partido, algum dia promoveu ou promoverá alguma democracia. 

Basta examinar o histórico dos movimentos do IRI, para saber do que se trata: em 2004, o IRI teve atuação destacada no golpe que derrubou o governo democraticamente eleito do Haiti[4]. Em 2002, o presidente do IRI celebrou publicamente o golpe militar (de curtíssima duração) que derrubou o governo democraticamente eleito da Venezuela[5]. E o IRI também atuava com grupos e indivíduos envolvidos no golpe. 

Em 2005, o IRI esteve envolvido num esforço para modificar a legislação eleitoral no Brasil, para enfraquecer o Partido dos Trabalhadores, PT, partido do então presidente Lula da Silva[6].

 

Mais recentemente, em 2009, houve um golpe militar contra o governo democraticamente eleito de Honduras. O governo Obama fez o que pôde para favorecer o golpe e os golpistas[7], e apoiou “eleições” em novembro de 2009, para legitimar o governo dos golpistas. O resto do mundo – até a Organização dos Estados Americanos (OEA), pressionada pelas democracias sul-americanas – recusou-se a enviar observadores para emprestar legitimidade àquelas eleições. Houve repressão antes das eleições[8]: violência policial, ataques contra a mídia independente e o exílio forçado de opositores políticos, entre os quais o presidente democraticamente eleito.

 

Mas o IRI e o National Democratic Institute (NDI) – organização semelhante ao IRI, mas do Partido Democrata dos EUA – lá estavam, em Honduras, para legitimar a eleição-farsa. Ninguém precisa acreditar em mim. Aqui vai o que disse a USAID, agência do Departamento de Estado dos EUA e principal mantenedora e financiadora das atividades do IRI e do NDI, sobre o que foram fazer em Honduras (pdf[9]):

 

“A ausência da OEA e de outros grupos reconhecidos de observadores internacionais tornou ainda mais significativo, aos olhos da comunidade internacional, o trabalho de avaliação e observação realizado pelas nossas organizações NDIIRI. A validação de um processo eleitoral livre, justo e transparente é forte argumento de apoio ao novo governo. […] A “convalidação” internacional pelo NDI e a “observação” pelo IRI, embora não preencham todos os padrões aceitos, alcançaram, pelo menos em parte, o impacto desejado.”

 

Sabe-se lá o que o IRI está fazendo agora no Egito. Mas sabe-se o que os EUA fizeram no Egito, ao longo de décadas: apoiaram uma ditadura brutal, até que as multidões nas ruas sugeriram fortemente que Washington não conseguiria impedir que Mubarak fosse derrubado, ano passado, por um movimento democrático real e popular.

 

Essas organizações, o IRI do Partido Republicano e o NDI do Partido Democrata dos EUA integram aNational Endowment for Democracy, organização dedicada a atividades que “muitas delas” são “clandestinamente financiadas pela CIA” – como escreveu o Washington Post, quando a NED estava sendo criada no início dos anos 1980s. Algumas vezes, essas organizações apoiam a democracia, mas na maioria dos casos, não; e não raramente trabalham contra a democracia. Não porque sejam organizações inerentemente ‘do mal’, mas por causa da posição dos EUA no mundo. O governo dos EUA, mais que qualquer outro governo contemporâneo, governa um império. Por sua própria natureza, impérios têm a ver com manter o poder e controlar povos em terras distantes. Esses objetivos dos impérios muito frequentemente estarão em conflito com as aspirações democráticas e os anseios por autodeterminação dos diferentes povos.

 

Em nenhum outro ponto do mundo isso é hoje mais visível que no Oriente Médio, onde a política de sucessivos governos dos EUA, de colaborar com Israel e negar os direitos nacionais dos palestinos, continua a pôr os EUA em aberta oposição às populações locais. Resultado disso, Washington teme a democracia no Oriente Médio, porque ela fatalmente gerará governos eleitos que cerrarão fileiras com os palestinos e contra as ambições dos EUA na região (contra, por exemplo, a construção de bases militares e a permanência, lá, de exércitos norte-americanos). Mesmo no Iraque, onde Washington não se cansa de repetir que derrubou um ditador sanguinário, o povo teve de continuar resistindo aos exércitos de ocupação, até haver eleições e, afinal, conseguir expulsar de lá os soldados dos EUA.

 

Cria-se assim um círculo vicioso, no qual ditadores odiados apoiam as políticas dos EUA e, por sua vez, são apoiados pelos EUA, o que só faz aumentar a animosidade regional contra os EUA. Em alguns casos, essa animosidade levou a ataques terroristas contra instituições e cidadãos norte-americanos, o que foi então rapidamente usado pelos governantes para justificar longas guerras ou guerras intermináveis (por exemplo, no Iraque e no Afeganistão). Pesquisa de opinião pública árabe, realizada pela universidade de Maryland e pela Zogby International, e que incluiu o Egito, pedia que os respondentes citassem “dois países que mais o ameaçam diretamente”: 88% citaram os EUA; 77%, Israel; só 9% citaram o Irã.

 

Outro efeito danoso do patrocínio que os EUA garantem à “promoção da democracia” é que ajuda governos que nada desejam além de reprimir e fazer calar movimentos locais autênticos, eles, sim, pró-democracia. A maioria dos governos repressivos no Oriente Médio e no Norte da África, sempre que precisaram deslegitimar a oposição, acusaram-na de cumplicidade com Washington, acusação muitas vezes sem qualquer fundamento, mas nem por isso menos desmoralizante.

 

Aqui em Washington, poucos parecem dar-se conta de que os grupos que “promovem a democracia” custeados pelo governo dos EUA já não têm qualquer credibilidade, em praticamente todo o planeta. Mas é fato, e acontece mesmo quando um ou outro grupo não esteja trabalhando ativamente contra algum governo democrático. 

Sempre que se cogitar de cortar gastos públicos nos EUA, boa ideia será começar por cortar o financiamento, com dinheiro público, a grupos e ONGs [e a blogueiras fascistas] dedicados a “promover a democracia” onde não fazem falta nem são bem-vindos.

++++++++++++++++++++++++++++++++++



[1] Por exemplo, em http://www.npr.org/blogs/thetwo-way/2012/01/26/145921407/americans-barred-from-leaving-egypt-include-secretary-lahoods-son

[2] Em http://www.guardian.co.uk/world/2012/jan/30/americans-barred-egypt-cairo-embassy

[3] Em http://www.cepr.net/

[4] Em http://www.nytimes.com/2006/01/29/international/americas/29haiti.html?pagewanted=all

[5] Em http://www.nytimes.com/2002/04/25/international/americas/25VENE.html

[6] Em http://www.cepr.net/index.php/op-eds-&-columns/op-eds-&-columns/why-washington-cares-about-haiti-honduras

[7] Em http://www.cepr.net/index.php/op-eds-&-columns/op-eds-&-columns/obamas-continuance-of-bush-policies-in-latin-america-is-a-serious-mistake

[8] Em http://www.cepr.net/index.php/press-releases/press-releases/honduran-elections-marred-by-violence

[9] Em http://pdf.usaid.gov/pdf_docs/PDACQ723.pdf

 

 

Pinheirinho: defensor público revela o que só ele viu

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Plano Brasil Maior: o desafio da produtividade

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Mauro Borges Lemos, no Valor

O objetivo estratégico do Plano Brasil Maior é promover um salto na produtividade do trabalho da indústria e da rede de serviços para produção. Parte do diagnóstico de que o padrão de crescimento extensivo da produtividade, baseado em tecnologias dominadas, mão de obra de baixa qualificação e presença ativa do Estado na produção, se esgotou. Os novos parâmetros mundiais exigem investimento em pesquisa e desenvolvimento, força de trabalho qualificada e estruturas corporativas flexíveis. A economia do conhecimento requer uma política industrial que conduza o país a um crescimento da produtividade intensivo em tecnologia. Para tanto, o Brasil Maior tem como foco o adensamento de cadeias produtivas, que exige inovação e qualificação profissional.

Passados seis meses do seu lançamento, 17 das 36 medidas anunciadas se encontram operacionais, enquanto 16 estão em fase avançada de implementação. Desoneração da folha de pagamento, devolução de créditos a exportadores, criação e ampliação de linhas de financiamento e melhorias no marco legal da inovação são alguns dos avanços obtidos. Porém, muito ainda está por vir. Com o pleno funcionamento dos 19 Comitês Executivos e Conselhos de Competitividade Setoriais, serão construídas agendas estratégicas que sustentarão novos programas de apoio à competitividade. Além disso, as 9 coordenações sistêmicas detalharão propostas que nortearão ações em favor do desenvolvimento industrial.

Das 36 medidas anunciadas, 17 estão em operação, enquanto 16 estão em fase avançada de implementação

Desde o princípio, o plano foi alvo de críticas que condenam seu conteúdo protecionista. Exemplos citados são a desvalorização do câmbio via "subsídio tributário", margens de preferência para nacionais em compras públicas, exigência de conteúdo local para financiamento e equalizações de juros. Segundo os críticos, essa alocação de recursos favoreceria produtores ineficientes, gerando impactos negativos sobre a produtividade. Um corolário da crítica é que o plano nada mais seria que a reedição da política de substituição de importações do passado. Mas afinal, ainda faz sentido uma política industrial? Se os mercados, ainda que imperfeitos, operam eficientemente via sistema de preços, por que desorganizá-los com intervenções setoriais inadequadas?

A experiência chinesa dá uma boa pista para afirmar a atualidade da política industrial. Cinco são as razões fundamentais: 1) a integração produtiva e financeira evidenciou os limites dos mercados globais, fragilizados pelas políticas econômicas dos países hegemônicos; 2) os acordos na OMC são frágeis para garantir o livre comércio e controlar a propriedade intelectual; 3) a falta de regulação do sistema financeiro mundial incita o protecionismo cambial; 4) políticas de pleno emprego e segurança nacional induzem a defesa da produção nacional; 5) oportunidades tecnológicas são janelas que se abrem por curto espaço de tempo, de modo que se busca explorá-las por meio de múltiplos instrumentos.

  

 

Políticas em educação e áreas tecnológicas estratégicas não são novidade na história de construção da competitividade das nações, remontando a experiências de industrialização do século XIX e chegando aos recentes modelos de substituição de importações de países asiáticos. A diferença das políticas atuais é o contexto do capitalismo contemporâneo, com forte integração financeira e produtiva global. Evidências históricas mostram que os benefícios de longo prazo de uma política baseada em ganhos de produtividade são mais elevados que seus custos de curto prazo. Os argumentos de viés liberal contrários à política industrial não resistem, portanto, às evidências históricas.

No caso dos críticos favoráveis a uma política industrial nos moldes do Brasil Maior, os argumentos mais contundentes são: ajustes macroeconômicos, para "acertar" juros e câmbio e aumentar a competitividade da indústria; ausência de medidas para enfrentar problemas de competitividade sistêmica; e falta de visão estratégica (medidas de curto prazo com efeitos contraditórios).

A apreciação do real frente às moedas de circulação mundial - resultante de juros reais elevados do esforço de estabilização monetária, dos termos de troca favoráveis das commodities e da atração de capitais motivada pelo vigor do mercado interno - é fator de forte restrição competitiva. Porém, ainda que o ajuste cambial seja desejável, parte importante da apreciação é fruto do próprio sucesso da política macroeconômica.

Infelizmente, fatores sistêmicos de apoio à competitividade não sofreram alterações radicais na última década. A retomada do investimento público, especialmente com o PAC, foi fundamental para sustentar taxas mais elevadas de crescimento, porém insuficiente para alterar a participação relativa do investimento em infraestrutura no PIB, considerando o ciclo de expansão iniciado em 2004. Isso porque o equacionamento do déficit histórico requereria crescimento da infraestrutura em ritmo superior ao do produto. Os esforços de coordenação macroeconômica, do PAC e da política industrial gerarão resultados ao longo do tempo.

A crítica de que o plano carece de visão estratégica tampouco se sustenta. Tomar como base para essa conclusão as medidas de lançamento demonstra um entendimento limitado da proposta. Essas medidas foram uma "bandeirada" e não o ponto de chegada. Uma análise dos documentos, metas, sistema de gestão e agendas sistêmicas e setoriais em construção revela aonde se quer chegar. São mais de 500 pessoas mobilizadas para construir e executar a agenda estratégica sob a supervisão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial, composto por ministros, empresários e trabalhadores.

Trata-se de uma gestão sofisticada e de apostas consistentes para a indústria nacional alcançar um novo padrão de crescimento da produtividade, baseado na inovação e no desenvolvimento tecnológico. Esses são os desafios da era do conhecimento.

Mauro Borges Lemos é presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais.


 

Trabalhadores em obras de estádios ameaçam entrar em greve em março

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Filipe%20Araujo%2F%20AE  Obras do Itaquerão, na zona leste de São Paulo, que deve sediar os jogos da Copa de 2014 na capital: acordo nacional

Do Valor

Os 25 mil trabalhadores que hoje estão à frente das obras dos estádios da Copa do Mundo de 2014 podem cruzar os braços em março, uma greve nacional capaz de comprometer o cronograma de conclusão das 12 arenas do torneio. A ameaça de paralisação é assinada pelas principais centrais sindicais do país, como Força Sindical, Central Única dos Trabalhadores (CUT), Confederação Sindical Internacional (CSI) e Federação Nacional dos Trabalhadores na Indústria da Construção Pesada, além de sindicatos estaduais que representam os profissionais da construção civil.

Até o dia 15 uma comitiva formada por lideranças sindicais das 12 cidades-sede estará em Brasília para apresentar uma proposta única de piso salarial e de benefícios para todo o país, independentemente de onde o trabalhador esteja. "Se não houver diálogo e não se chegar a um acordo, são grandes os riscos de realizarmos uma paralisação nacional", diz Adalberto Galvão, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Pesada e Montagem Industrial da Bahia (Sintepav-BA), vinculado à Força. "O setor amadureceu muito e hoje os trabalhadores da construção civil têm consciência de seu papel no crescimento do país. Essa é uma oportunidade única para diminuirmos parte das discrepâncias na distribuição de renda do país."

Valor teve acesso à pauta de reivindicações que será entregue na reunião que deve ter a participação da Secretaria Geral da Presidência, do Ministério do Trabalho e Emprego e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), além de sindicatos patronais. Os sindicalistas querem piso nacional unificado de R$ 1,1 mil para ajudantes de obras, profissional que hoje ganha cerca de R$ 600 na região Nordeste. Para carpinteiros e pedreiros, o pleito é de R$ 1.580, quando a média atual é de R$ 1,2 mil. A cesta básica requerida é de R$ 350. Os planos de saúde, muitas vezes limitados ao trabalhador, deverão ser estendidos às suas famílias. Quanto à hora extra, o pedido é que o percentual pago seja de 100% durante os dias de semana, diante da média de 50%, como acontece na maioria dos Estados. Finalmente, os trabalhadores querem folga de cinco dias úteis consecutivos a cada 60 dias trabalhados, para visitar familiares, com custo de transporte bancado pelas empresas.

A reivindicação para que haja um piso nacional para os trabalhadores, conforme defendem os sindicatos, se apoia no fato de que a formação de preço das licitações das obras é muito semelhante em todo o país, além das obras estarem concentradas nas mãos de poucas construtoras. "Queremos uma solução nacional. Não adianta mais beneficiar apenas um Estado, se os outros continuam em situação complicada", diz João Carlos Gonçalves, secretário-geral da Força Sindical.

A proposta de padronização do piso salarial dos trabalhadores em todo o país é a etapa mais sensível de um processo iniciado em março do ano passado, quando explodiu a revolta dos trabalhadores da hidrelétrica de Jirau, em Porto Velho (RO). De lá para cá, um comitê tripartite reuniu em volta da mesma mesa o governo federal, sindicatos e empresas para encontraram propostas de melhoria de condições de trabalho e segurança. Algumas promessas saíram do papel, com a extinção dos contratos terceirizados até então realizados pelas empreiteiras - evitando a famosa participação dos "gatos" nas obras - e a obrigação de contratação de pessoas cadastradas no Sistema Nacional de Emprego (Sine). A questão salarial, no entanto, não foi tocada.

"Temos a oportunidade única de resolver essas diferenças de renda de uma vez por todas. Não é mais possível que pessoas que estejam produzindo um mesmo tipo de obra fiquem sujeitas a condições totalmente desiguais", diz Nair Goulart, presidente-adjunta da Confederação Sindical Internacional (CSI).

Na prática, os sindicatos querem que o piso da classe seja ajustado a valores próximos aos mercados de São Paulo e Rio de Janeiro. "Um bancário ganha o mesmo salário-base no país inteiro. Por que não podemos ter o mesmo direito, se estamos tratando de obras similares e do mesmo grupo de construtoras e fornecedores?", pergunta Claudio da Silva Gomes, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e da Madeira (Conticom), vinculado à CUT. "Esse é um momento crucial para o setor e é dessa forma que iremos tratá-lo. Se não houver acordo, uma paralisação nacional pode ocorrer sim, envolvendo inclusive outras obras de grande porte, não apenas os estádios da Copa."

Há alguns dias, os trabalhadores das arenas de Salvador e Recife estão paralisados. No ano passado, movimentos grevistas afetaram as obras no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Cuiabá e Porto Alegre.

Para Nilson Duarte Costa, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT) no Rio, a reivindicação nacional "é justa", mas ele coloca em dúvida uma paralisação de 100% das obras do país. "Sabemos que os salários pagos do Rio são o dobro dos salários de Fortaleza, mas isso foi conseguido com muita luta no Estado", comenta. "Continuamos lutando por melhorias por aqui, mas essa mobilização exigiria um grau de conscientização que, honestamente, ainda não vejo."

Estima-se que as obras de construção e reforma dos estádios vão consumir cerca de R$ 7 bilhões em investimentos. O cronograma mais recente prevê que nove arenas sejam entregues até dezembro deste ano. No caso de Manaus, o prazo é junho de 2013, enquanto São Paulo e Natal têm data para dezembro de 2013.

 

 

Dívidas e devedores: mais detalhes

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José Paulo Kupfer, no O Estado de S. Paulo

Leitores, como era de esperar, ficaram surpresos com os níveis atualizados de endividamento dos países de economia madura, segundo o levantamento do McKinsey Global Institute (MGI), mencionados no texto anterior publicado no blog. Alguns chegaram até a duvidar da correção dos dados.

Bem, não há erro. O Japão carrega, de fato, o maior volume de dívidas – públicas e privadas somadas –, em relação ao PIB, nas dez economias pesquisadas (Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Espanha, França, Itália, Canadá, Coreia do Sul, Austrália e Japão). O volume da dívida total japonesa é mais de seis vezes superior ao total anual líquido da produção japonesa, em moeda corrente.

O Canadá, que registra o menor volume de dívidas em relação ao PIB do grupo analisado, ainda assim mostra um endividamento total três vezes e meia maior do que seu PIB. Na média dos dez países, as dívidas totais a mais de quatro vezes a produção de um ano.

Não deixa de ser curioso que as dívidas acumuladas nos países mais encalacrados da Europa sejam proporcionalmente menores do que nas grandes economias maduras. Exceto a Irlanda, a campeã dos campeões, com uma dívida total sete vezes e meia superior ao PIB, os demais (Espanha, Itália, Grécia e Portugal), somam dívidas totais, em média, quatro vezes o PIB.

De todo modo, comparado com os maiores emergentes, é um dilúvio de dívidas. O endividamento chinês não chega a três vezes seu PIB e na Índia mal passa de duas vezes. No Brasil, entre endividamento público e privado, o total supera a produção líquida de um ano em “apenas” duas vezes e meia.

O tamanho das dívidas indica o tamanho do desafio que o processo de desalavancagem enfrenta e o alto grau de dificuldade para superar estreitos limites ao crescimento. Indica também o possível longo intervalo de tempo daqui até a superação desses constrangimentos.

E o endividamento total ainda não parou de crescer.

 

 

Problemas da zona do euro

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Paul Krugman, no O Estado de S. Paulo

Abaixo estão alguns gráficos de uma palestra que dei em Paris na terça-feira. Eles não serão chocantes para os que leem esta coluna regularmente, mas pode ser útil  examiná-los todos de uma só vez.

Em primeiro lugar, defendo que a crise econômica, no geral, é impelida pela dívida privada e não pela dívida pública.

Em seguida, aponto para a enorme movimento do setor privado no sentido do superávit financeiro, o que exigiu  enormes déficits públicos para impedir um colapso ainda mais profundo.

E depois eu me volto para a Europa que tem um problema adicional, que é uma bolha de fluxo de capital do norte para o sul,  induzida pelo euro, que precisa ser revertida.

A contraparte desses desequilíbrios de conta corrente foi uma enorme divergência em níveis de preço relativos.

Implicitamente, a Europa está dependendo de uma “desvalorização interna”, para reverter essa divergência. Mas a realidade é que isto é muito difícil devido à rigidez nominal, mesmo na Irlanda, que erroneamente é considerada um exemplo de ajuste bem sucedido.

 

Além disso, a Europa acreditou na ideia de que a irresponsabilidade fiscal  está no coração da crise, o que é verdade somente no caso da Grécia,  mas não dos países em dificuldade como um grupo.

 

E mesmo o FMI avalia que nenhum dos países mais austeros está na direção de uma situação fiscal tolerável.

 

Despedida de Sara González

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Ciberguerra vs Cuba: Los gobiernos incómodos del “Cuarto Mundo”

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Do Cubadebate

Por Mauricio Manuel Reyes, especial paraCubadebate

Un proceso de desarrollo tecnológico vertiginoso y cada vez más global ha generado una revolución en las infocomunicaciones, que transforma progresivamente el modo de pensar, producir, consumir, comerciar, gestionar y relacionarse entre las personas, estableciéndose como cultura el concepto de “virtualidad real”, es decir, lo real no es solo el mundo físico como hace 20 años, sino la unidad entre lo tangible y el universo virtual.

Según un artículo divulgado por la agencia BBC Mundo el 25 de enero pasado, la red digital global avanza como un voraz huracán y pocas veces hay oportunidad para detenerse en el camino y reflexionar sobre su crecimiento. Donde antes reinaban las ventas de estéreo hoy imperan las de auriculares. Si nos subiéramos a una máquina del tiempo y viajáramos 10 años atrás descubriríamos que para tomar una foto, escuchar música o filmar un video se empleaban tres dispositivos diferentes. Pero ahora estas actividades -y otras más- se han mudado a un solo equipo: el teléfono inteligente.

Como es lógico, un proceso de evolución tecnológica como este, dominado por monopolios que responden a las minorías más poderosas, favorece el amplio acceso para determinados segmentos o capas sociales y genera una asimetría con relación a otros grupos poblacionales - carentes de importancia para los intereses del capitalismo global - que los desconecta cada vez más de los servicios que generan poder cultural y económico. A esta masa de personas sin posibilidades reales de incidir de forma plena en el mundo profundamente interconectado, algunos investigadores lo denominan el “Cuarto Mundo”.

En ese escenario internacional desigual avanza la sociedad cubana, que utiliza su limitado acceso al ciberespacio como herramienta educativa al servicio de sus ciudadanos y para la difusión de la verdad; mientras el mayor imperio de la historia, mediante un bloqueo económico y comercial, le impide a esta pequeña isla obtener los recursos necesarios para extender los servicios en la web a su pueblo. Ese gobierno que nos ataca y sus aliados europeos, generan campañas mediáticas, mediante las cuales divulgan falacias como el supuesto temor del gobierno cubano a liberar el acceso pleno a Internet y sus redes sociales, a la vez que censura toda información sobre la permanente agresión tecnológica que enfrenta nuestro país.

Este cerco no tiene precedentes en la historia desde la segunda mitad del siglo pasado, cuando muchos de los avances científico-técnicos se convirtieron en instrumentos indispensables para la cruzada contra el Socialismo, como parte de la Guerra Fría.

La administración Obama ha aprobado millonarios fondos dirigidos a fomentar el cibermercenarismo en la isla; difamar sobre Cuba a través de las tecnologías de la comunicación, así como conformar plataformas digitales diseñadas expresamente para evadir el control del Estado cubano. El propio diario The New York Times publicó en el mes de junio del 2010 que la Casa Blanca lidera un esfuerzo global para crear una Internet a la “sombra” o “Internet en una maleta” y sistemas de telefonía móvil para “disidentes”, con el objetivo de “minar gobiernos incómodos”, lo que incluye proyectos secretos dirigidos a establecer redes independientes y garantizar a varios usuarios el acceso inalámbrico al ciberespacio mediante plataformas portátiles (Wi-Fi), fáciles de transportar por fronteras.

Un caso lleno de equipos suficientes para configurar una red autónoma, metropolitana Wi-Fi. La New America Foundation, un grupo de investigación no partidista, está desarrollando una red portátil, WiFi basada en que podrían ser llevados a regiones impugnada y que los grupos disidentes de crear redes independientes de una red controlada por el gobierno. Crédito: Philip Scott Andrews / The New York Times

Red en una maleta. Un equipaje lleno de equipos suficientes para configurar una red autónoma, metropolitana Wi-Fi. La New America Foundation, un grupo de investigación no partidista, está desarrollando una red portátil, WiFi, basada en que podrían ser llevados a regiones enemigas de EEUU para crear redes independientes de una red controlada por el gobierno. Crédito: Philip Scott Andrews / The New York Times

Bajo esta estrategia injerencista, es “legal” para el Ejecutivo estadounidense fabricar “ciberdisidentes” o mercenarios virtuales orientados a difundir mensajes manipulados o realizar llamamientos a la desobediencia civil en Cuba, empleando plataformas como Twitter, Facebook, Blogs y otras.  Ante esta hostilidad permanente, no se descarta que en el futuro inmediato se incremente las acciones subversivas hacia la isla con el empleo de las tecnologías, e incluso se generen acciones de ciberguerra, que supone la intervención directa del Ejército en una guerra con todas las de la ley, apelando al uso de las redes informáticas que controlan las infraestructura crítica de cualquier país.

De hecho, el jefe de la Casa Blanca recientemente facultó al Departamento de Defensa para desarrollar operaciones ofensivas en el ciberespacio si Estados Unidos se ve “amenazado” por sus “adversarios” incluso, si estas acciones no fueran suficiente por el  “daño” causado a la nación norteña, se prevé aplicar la opción de intervención militar. Para su materialización Obama creó el Cibercomando como infraestructura y el marco legal lo estableció con la “Estrategia Internacional Estadounidense para el Ciberespacio”.

La Ciberguerra es potenciada por el imperialismo para subvertir a otras naciones, convirtiendo a Internet en un campo de batalla, donde se emplean como armas las herramientas informáticas, computadoras y redes digitales. En ese esquema, la estrategia subversiva no es secundaria, sino la antesala de la guerra frontal en la que intervienen las armas y que siempre comienza con la fabricación de los pretextos para la invasión. Contra Cuba se materializa a través de la propagación permanente en la web de contenidos contrarrevolucionarios por mercenarios en la isla o individuos y organizaciones anticubanas radicadas en el propio territorio estadounidense y en países aliados de Europa.

El financiamiento para estas actividades proviene de los 20 millones anuales de dólares que el Congreso de los Estados Unidos destina para la subversión contra el país caribeño, el cual se canaliza a través de la USAID, organización especializada en planes desestabilizadores contra Cuba. Según un artículo publicado en el sitio digital “Las Razones de Cuba”, esta entidad ha contado con 150 millones de dólares desde 1990 para destruir la Revolución, sin éxito alguno.

Este derroche del dinero de los contribuyentes norteamericanos, generó preocupación en el senador John Kerry, quien en el 2010 cuestionó la utilidad real de estos fondos ante la inefectividad de las acciones subversivas planeadas contra la isla durante décadas.

Otra organización de esta misma cofradía que también se incorporó a la estrategia subversiva contra Cuba empleando el componente tecnológico como instrumento esencial, es el Instituto Republicano Internacional (IRI), nacida en 1983 bajo el auspicio del entonces presidente Ronald Reagan.

El pasado año la prensa plana, la televisión y radio cubanas, puso al descubierto los planes del IRI dirigidos a entregar equipos de comunicación a personas en la isla y crear plataformas digitales “independientes” con el objetivo de “romper” el supuesto bloqueo informativo; incrementar el acceso y el flujo de información sobre “democracia, derechos humanos y la libre empresa hacia, desde y dentro de Cuba, a través de acceso sin censura a Internet”, particularmente a partir de proveer tecnología de punta capaz de evitar las “restricciones del gobierno cubano”, nada más parecido a un intento de desestabilización interna al estilo de lo ocurrido en naciones de África del Norte y Medio Oriente o la fórmula empleada con Libia.

En los últimos años el IRI ha financiado contratos para el mantenimiento y apoyo de proyectos tecnológicos en Cuba, de carácter injerencistas. Estos cubren el viaje, costos de consultoría, algún hardware y hospedaje de administradores de redes, servicio de telefonía móvil y el apoyo a la conformación de páginas web por blogueros al servicio de Washington.

Esa estrategia, cuya finalidad a simple vista parece inofensiva y así lo intenta promover el gobierno estadounidense y sus mercenarios, es un plan concebido para la subversión y el espionaje contra nuestro país. Para su aseguramiento envían emisarios que recorren toda la isla, contactan, entrenan y abastecen a los cibermercenarios, lo cual constituyen actos ilegales del gobierno de los Estados Unidos. Si fuera Cuba la que pretendiera cambiar el régimen imperante en esa nación e introdujera ilegalmente tecnología para crear redes de “disidentes”, no cabe dudas que su Ejecutivo lo consideraría un acto de guerra y el Cibercomando del Pentágono junto con la IV Flota atacarían inmediatamente a nuestra isla.

En estas aventuras subversivas con el empleo de tecnologías de punta, el IRI es acompañado por otra ONG: la Fundación Panamericana para el Desarrollo (FUPAD), creada en 1962 por mandato de la OEA y auspicio de la CIA, es una de las beneficiadas de los fondos de la USAID, para promover la desestabilización interna en la isla. Según el sitio web Cuba Money Proyect, en el año 2007, de un total de 13.3 millones de dólares distribuidos por la USAID, firmó un contrato por 2.3 millones para apoyar a la contrarrevolución en nuestro país; y en el 2009, de un presupuesto asignado de 15 620 000 millones de dólares, recibió 3 millones para iguales fines contra la mayor de las Antillas. Con este financiamiento garantiza el suministro para los mercenarios de blackberries, móviles de última generación, Bgan y otros artefactos, que necesitan activarse desde terceros países a altísimos costos.

Después de este análisis, es indudable que Cuba figura como un blanco seguro dentro del esquema de subversión, delito electrónico y ciberguerra patrocinados por Estados Unidos. En su legítima defensa, nuestro país debe continuar potenciando su incorporación al proceso global de desarrollo de las infocomunicaciones dirigido a lograr el avance socioeconómico que deseamos, pero también a fortalecer el combate ideológico en Internet y sus redes sociales.

Para una nación que según la Unión Internacional de Telecomunicaciones ocupa el cuarto lugar mundial en habilidades potenciales de sus ciudadanos en el empleo de las infocomunicaciones, de un rango de 152 naciones, constituye un reto emplear sus capacidades en la defensa ante un enemigo que no descansará de agredirnos a través de disímiles vías, incluido el ciberespacio, por la sencilla razón de haber escogido un destino diferente para su pueblo. Como afirmara nuestro Comandante en Jefe en su Reflexión del 24 de enero pasado, perdurar como “La fruta que no cayó” nunca en el seno del imperio.

 

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